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Investe CE

por Oswaldo Scaliotti

Embrapa

Nordeste quer aumentar uso de sistemas integrados de produção agropecuária

Por Oswaldo Scaliotti em Eventos

13 de junho de 2019

 

Produtores, pesquisadores e lideranças do agronegócio do Nordeste se reúnem a partir da manhã desta quinta-feira (13/06) até sábado (15/06), para alavancar a adoção de sistemas integrados de produção na região. Eles participam do “Seminário Nordeste – Inovações na Integração Lavoura-Pecuária-Floresta”, que acontece no Centro de Eventos do Ceará. São cerca de 200 participantes de todo o Brasil. O seminário é promovido pela Embrapa e a Associação Rede ILPF (Rede ILPF), em parceria com a Federação da Agropecuária do Estado do Ceará (FAEC) e o XXIII PecNordeste, que também se realiza no mesmo período, em Fortaleza (CE). O principal objetivo do evento é discutir inovações desenvolvidas pela Embrapa e parceiros para os sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF).

A implantação de uma agenda forte para disseminação de sistemas integrados no Nordeste é projeto antigo do Conselho Gestor da Associação Rede ILPF e agora apoiado pelo presidente da Embrapa, Sebastião Barbosa. O presidente da Rede ILPF, pesquisador da Embrapa Renato Rodrigues, diz que “o Nordeste é a região brasileira que vai sofrer os maiores impactos com a mudança do clima. Já é nítido que temos um processo de desertificação em andamento. A ILPF é a principal tecnologia de adaptação que existe. Ela é a forma que temos para aumentar desde agora a produção agropecuária no Nordeste.”

O chefe de gabinete da Embrapa, pesquisador Raimundo Braga, diz que a ILPF é uma estratégia de produção que integra diferentes sistemas produtivos, agrícolas, pecuários e florestais dentro de uma mesma área. Pode ser feita em cultivo consorciado, em sucessão ou em rotação, de forma que haja benefício mútuo para todas as atividades. “O objetivo é aperfeiçoar o uso da terra, elevando os patamares de produtividade, diversificando a produção e gerando produtos de qualidade.” Em algumas regiões é possível obter até três safras com a estratégia. “Além disso, evita a degradação do solo, ainda tão comum, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa. Ou seja, não apenas melhora a renda do produtor como garante a conservação ambiental. Torna sustentável o sistema de exploração múltipla e a preservação do meio ambiente e a melhoria da renda do produtor”, explica.

Raimundo Braga diz que os sistemas integrados são particularmente relevantes para o Nordeste. “Trata-se de uma estratégia de fortalecimento do sistema de exploração agrícola em uma região onde os solos estão muito desgastados. A ILPF permite a recuperação dos solos, inclusive reduzindo o uso de maquinário”.

Satisfação chega a 78%

Pesquisa da Rede ILPF realizada pelo Kleffmann Group mostra que o Brasil contava na safra 2015/16 com 11,5 milhões de hectares com sistemas integrados de produção agropecuária. O diretor-executivo da Rede ILPF, William Marchió, diz que o desafio é envolver empresas privadas e governo para um programa de ação forte na região Nordeste.

A intenção dos organizadores é aumentar a participação do Nordeste, que conta com 1,3 milhões de hectares implantados, principalmente na Bahia, com 545.778 hectares, seguidos pelos estados do Rio Grande do Norte e Pernambuco, com pouco mais de 200 mil hectares cada. “Pelo perfil empreendedor nordestino, pelas oportunidades que a tecnologia oferece e com apoio dos governos federal e estaduais e do setor privado, acredito que teremos um grande aumento de área nos próximos anos”, diz Renato Rodrigues.

A pesquisa mostrou que dos 493 produtores rurais entrevistados (com bovinocultura como atividade predominante), 60% dos 493 produtores rurais entrevistados conhecem o conceito de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta. Dos produtores que adotam o sistema, 78% dizem estar satisfeitos ou muito satisfeitos. Os maiores índices de aprovação estão no Rio Grande do Norte (89%), Bahia (87%) e Ceará (85%). Entre os que já adotam este tipo de sistema ou pretendem adotar no futuro, as motivações apontadas com maior frequência pela pesquisa são: promover a recuperação de pastagens, reduzir o impacto ambiental e fazer rotação de culturas agrícolas.

Há alternativas de tecnologias

O pesquisador da Embrapa Agroindústria Tropical, João Pratagil de Araújo, é coordenador do seminário e nesta sexta-feira conduz o workshop sobre desafios da inovação para a implementação e desenvolvimento do ILPF no Nordeste. Ele explica que o evento tem enorme importância para a região e destaca o potencial de transferência das tecnologias. Também chama a atenção para o engajamento das instituições participantes como a Confederação Nacional da Agricultura, Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural, Instituto Nacional do Semiárido, Banco do Nordeste e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Todas estão incentivando a expansão da área de integração na região. Para ele, um dos desafios é transformar a ILPF em política pública prioritária para a região.

Rafael Dantas é pesquisador da Embrapa Semiárido, em Petrolina e falou na mesa redonda de abertura sobre os desafios, conquistas e oportunidades para o desenvolvimento sustentável com a ILPF. Ele acredita que se trata de “uma oportunidade para mostrar o que a tecnologia tem a oferecer para essa região, com arranjos e concepções direcionadas para a realidade regional.” Diz ainda que a região Nordeste está “aberta para a utilização de recursos que possibilitem o aumento da eficiência produtiva.” Para ele, entre os resultados mais esperados está a conscientização da necessidade de mudança da estratégia de produção para a região.

O analista José Geraldo Di Stefano, da Embrapa Algodão, destaca ainda que a ILPF “ao evitar a degradação do solo, favorece também as cidades, o ambiente urbano. O ILPF articula cadeias produtivas, as cidades e o campo ao mesmo tempo em que promove o desenvolvimento regional e local.”

O presidente da Embrapa, Sebastião Barbosa, ao propor a realização do seminário no Nordeste destacou que o objetivo é “abrir possibilidades para mudar a realidade do produtor do Semiárido nordestino, por meio da adoção dos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária- Floresta (ILPF), e transformar a região em prioridade estratégica de desenvolvimento agropecuário. O primeiro passo é a realização de um grande seminário com a participação de agricultores, extensionistas, autoridades e representantes dos governos estaduais e federal”. Para Pratagil, o objetivo começa a se concretizar.

Oportunidade para o Nordeste

Entre as oportunidades para a ILPF no Nordeste, Pratagil destaca a possibilidade de integração da lavoura (pastagens, culturas medicinais, oleaginosas – óleos essenciais, alimentares – milho, feijão) e pecuária (bovinos, suínos, caprinos e ovinos) e florestas (espécies frutíferas – caju, coco, umbu-cajazeira); espécies madeireiras – eucalipto, mogno, nim; e espécies forrageiras – nativas– algarobeira, sabiá, e exóticas – leucena, entre outras.

“Além disso, o desenvolvimento poderá ser feito nas áreas de solos e pastagens degradadas, bem como onde a pecuária tem potencial de desenvolvimento”, explica. Também cita a priorização da região pela ministra Tereza Cristina, da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, “para o desenvolvimento da agropecuária e de uma classe média rural, com base na priorização de oito polos de desenvolvimento, um em cada estado do Nordeste, proposto pela Embrapa Territorial”. Pratagil propõe ainda que a tecnologia ILPF sustentável deve ser uma prioridade política para o Nordeste, com a constituição de Plano Safra Inovação ILPF Nordeste contemplando crédito, seguro agrícola, financiamento de máquinas e equipamentos, defesa zoofitosanitária, assistência técnica e extensão rural.

Renato Rodrigues chama a atenção para o fato de que há muita área disponível na região para adoção da ILPF. “Acredito que possamos chegar a, pelo menos, 10% da terra sob uso agropecuário com essa tecnologia até 2025. Estamos falando de algo perto de cinco milhões de hectares. É possível e trará muitos benefícios para os produtores e consumidores.”

Rafael Dantas concorda e destaca o grande número de alternativas para uso de ILPF na região. “Como o Nordeste é muito diverso e plural em relação aos sistemas de produção agropecuária, a ILPF tem a capacidade de se adequar a essa diversidade, podendo ser quase que individualizado em cada cenário local.”

Ampliar o conhecimento

Os organizadores entendem que a ampliação do ILPF no Nordeste depende do conhecimento, pelos agroempreendedores, das vantagens econômicas e ambientais. Também exige ações de assistência técnica e extensão rural, para capacitá-los na escolha das melhores alternativas econômicas dos componentes do sistema de integração, integrado às demandas do mercado consumidor dos produtos resultantes de seus sistemas integrados de produção.

Entre as vantagens está o fato de que existem tecnologias de ILPF adaptadas, há assistência técnica e extensão rural e produtos ILPF demandados pelos mercados consumidores.

Renato Rodrigues, que, além de presidente do Conselho Gestor da Rede ILPF, é pesquisador da Embrapa Solos, diz que a região “ainda é um pouco tímida, mas de potencial enorme”. E cita fatores decisivos: assistência técnica de qualidade, políticas públicas para adoção da tecnologia, incluindo facilidade de acesso a crédito, investimentos privados e de projetos internacionais.

Captação de projetos internacionais

A expectativa de Renato Rodrigues com os resultados do seminário é alta. “O evento não acaba no sábado. A ideia é que sejam promovidas políticas públicas e investimento privado para tornar essa agenda real”. Ele destaca que o Conselho Gestor da Rede ILPF está tentando ajudar ao influenciar no estabelecimento de políticas públicas e crédito na captação de projetos internacionais para desenvolver a assistência técnica e estimular a adoção da ILPF e na certificação de propriedades rurais, com abertura de mercado.

Um dos destaques, a mesa redonda “Estratégias e políticas para implementação e desenvolvimento de sistemas ILPF no Nordeste”, vai servir de base para identificar possibilidades concretas para o estabelecimento de uma agenda forte no Nordeste.

Para Renato Rodrigues, a ILPF é uma ferramenta de enorme capacidade de desenvolvimento regional: “Queremos fazer um trabalho de políticas públicas e de estímulo ao governo federal para que tenhamos uma ampliação do uso dessa tecnologia no Nordeste. Não vamos chegar com nenhuma receita pronta. Cada região vai precisar se adaptar para que o produtor possa extrair os benefícios que a tecnologia pode oferecer como a adaptação à mudança do clima, o aumento de renda e da qualidade de vida, bem como a possibilidade de fixação do homem no campo a partir da formação de uma mão de obra mais especializada e capacitada”, argumenta.

Opções

Rafael Dantas vai abordar os desafios, conquistas e oportunidades para o desenvolvimento sustentável do ILPF no Semiárido. O pesquisador da Embrapa Semiárido (Petrolina, PE) diz que atualmente menos de 4% das áreas agricultáveis do Nordeste são ocupadas por sistemas integrados de produção e isso faz com que as possibilidades de ampliação sejam gigantescas. No entanto, para que isso aconteça a “ideia ILPF” deve ser plantada e semeada, por meio de socialização da informação a agentes multiplicadores, por meio de educação continuada sobre ILPF. “Além disso, o formato de acesso ao crédito deve ser focado no sistema e não apenas na cultura. Se o governo e a iniciativa privada derem suporte financeiro ao produtor para programar a estratégia ILPF, a implementação de novas áreas crescerá substancialmente, sendo decisivo para a adoção da tecnologia ILPF.”

José Henrique Rangel é pesquisador da Embrapa Tabuleiros Costeiros (SE) e participou da mesa sobre “Sistemas de Integração ILPF indicados para a região Nordeste”. Ele diz que a região possui características peculiares relacionadas a clima, solos e infraestrutura fundiária que, em alguns casos, são restritivas ao desenvolvimento das atividades agropecuárias. “Nesse cenário, as estratégias de ILPF para a região não podem seguir os modelos empregados em outras regiões do país que têm como principal elemento florestal o eucalipto, o milho e a soja com grãos e as braquiárias como pastagem.”

Ele explica que no Nordeste o principal componente florestal são as leguminosas arbóreas, que têm as funções de alimento proteico, sombra para o gado e fornecimento de nitrogênio ao solo. O componente lavoureiro é representado em grande parte pelo sorgo e o milheto, embora o milho esteja presente em áreas de melhor precipitação. Capim buffel, capim urochloa, palma forrageira e guandú representam o estrato herbáceo forrageiro.

Em áreas onde a caatinga se encontra preservada sistemas de aproveitamento sustentável desse bioma, como o sistema CBL – produção de grandes ou pequenos ruminantes, utilizando a vegetação natural da caatinga (C), no período chuvoso, associada à área de capim-Buffel (B), com piquetes de um leque de opções forrageiras (L), especialmente leguminosas – são os recomendados por José Henrique Daniel.

Rafael Dantas diz que o principal desafio “é a quebra do paradigma que existe na região semiárida, o qual se baseia que o insucesso produtivo dos sistemas agropecuários está única e exclusivamente ligado ao clima”. Para ele, um novo modelo de produção se faz necessário. “Daí surgem inúmeras oportunidades, como o aproveitamento de potencialidades locais, como forrageiras alternativas, arranjos produtivos espaciais e temporais adequados a realidade do semiárido e valorização dos produtos regionais produzidos nesses sistemas.”

Visita técnica

No encerramento do seminário, sábado, 15, acontece visita técnica à fazenda Grangeiro, em Paracuru (CE), a 86 km de Fortaleza. Ali, os participantes conhecerão experiência de integração lavoura-pecuária (ILP) que une a produção de coco à criação de bovinos leiteiros. Renato Rodrigues diz que o seminário é “o início de um esforço de sensibilização. É o começo de um importante processo para o desenvolvimento da região”. A Associação Rede ILPF, que promove o seminário, é uma parceria público-privada formada por Embrapa, Cocamar, Bradesco, John Deere, Ceptis, Premix, Soesp e Syngenta. O objetivo da associação é acelerar adoção das tecnologias de ILPF no país.

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Lucro Social da Embrapa é de R$ 43,52 bilhões em 2018

Por Oswaldo Scaliotti em Análise

20 de Abril de 2019

Para cada real aplicado na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em 2018, foram devolvidos R$ 12,16 para a sociedade. Os dados são da última edição do seu Balanço Social, publicado em abril deste ano, que apontou um lucro social de R$ 43,52 bilhões no ano passado. Esse valor foi obtido a partir da análise do impacto econômico de 165 soluções tecnológicas e de cerca de 220 cultivares desenvolvidas pela Empresa.

“O lucro social é um valor decorrente dos benefícios econômicos recebidos pelo setor produtivo com a adoção das soluções tecnológicas geradas pela Empresa. Esse valor é calculado por meio da soma dos lucros obtidos pelos adotantes dessas soluções. Quando relacionamos em 2018 o lucro social de R$ 43,52 bilhões com a receita operacional líquida de R$ 3,57 bilhões, temos então o índice de retorno social de R$ 12,16 para cada real aplicado na Embrapa”, explica Flavio Avila, pesquisador responsável pela área de Avaliação de Desempenho Institucional, da Secretaria de Desenvolvimento Institucional (SDI).

Esses números sintetizam, sob o aspecto econômico, uma série de contribuições da Empresa à sociedade e estão entre os principais resultados apresentados no Balanço Social. Outros dados importantes, também obtidos a partir dessa amostra de soluções tecnológicas analisadas, são a Taxa Interna de Retorno (TIR) de 37,6%, que confirma a alta rentabilidade dos investimentos realizados pelo Estado na Embrapa e a geração de 69.936 novos empregos em 2018.

As avaliações do Balanço Social
Tais resultados são ainda reflexo do aprimoramento do Balanço Social, que em sua nova edição incorporou diversas mudanças para demonstrar a real efetividade da Embrapa. Entre as principais mudanças se encontra a ampliação da amostra de 115 para 165 soluções tecnológicas avaliadas sob o ponto de vista de impactos econômicos, sociais e ambientais e a agregação de mais dimensões de impacto, como o impacto institucional, que mostra alguns dos resultados intangíveis gerados pela solução tecnológica avaliada, como novos conhecimentos e melhorias nas capacidades relacional, científica e tecnológica e organizacional.

Nessa mesma linha, outra dimensão de impacto foi desenvolvida e será incorporada nas próximas edições da publicação: os impactos da Embrapa em políticas públicas. Para isso, foi realizado um projeto piloto no âmbito da Embrapa Pantanal, aplicado ao Sistema de Controle de Pesca de Mato Grosso do Sul (SCPESCA/MS) na Bacia do Alto Paraguai, que contribuiu para a implantação do Seguro Defeso naquele Estado. A metodologia de análise da participação da Empresa nessa política permitiu valorar diversas questões, como a contribuição da instituição para a conservação dos recursos pesqueiros regionais, para a melhoria da renda das famílias de pescadores profissionais e para o desenvolvimento do setor da pesca turística. A metodologia será agora incorporada ao Balanço Social e estendida à outras das 120 políticas públicas nas quais a Empresa teve contribuições efetivas nos últimos anos.

Soluções tecnológicas de adoção consolidada
A avaliação de impactos identifica e mensura os efeitos da pesquisa agropecuária na renda do produtor, na geração de empregos e no meio ambiente durante um longo período de tempo. No entanto, é possível saber com antecedência se determinada solução tecnológica possui potencial de geração de impactos quando se analisa em que medida ela já está sendo adotada e incorporada ao processo produtivo. Foi pensando nisso que a equipe de economistas do Balanço Social propôs um novo indicador para avaliar o desempenho das soluções tecnológicas de adoção consolidada, também conhecidas como outcomes. Para isso foi selecionada uma amostra específica de 175 tecnologias, serviços e produtos e apresentada suas respectivas taxas de uso ou adoção.

Outra forma de avaliação presente no Balanço Social se refere à produção técnico-científica da Embrapa. Um estudo sobre essa produção no contexto nacional, realizado a partir de uma busca na base de dados Web of Science (WoS) entre 2003 e 2017, demonstrou que a Empresa ocupa o 8º lugar entre todas as instituições e o primeiro lugar entre as organizações não universitárias. Além disso, foi verificado que as áreas do conhecimento mais representativas dessa amostra com todas as organizações científicas brasileiras são as Ciências da Saúde (30%), Ciências Exatas e da Terra (22%), Ciências Biológicas (18,6%), Ciências Agrárias (11,5%) e Engenharias (10,4%).

Também evidenciam a efetividade da Embrapa a quantidade de downloads de publicações técnicas disponibilizadas pela Empresa na Internet por meio de três repositórios (Ainfo, Alice e Infoteca). Em 2018 foram feitos 25,8 milhões de downloads de publicações, o que indica que as publicações produzidas nos centros de pesquisa estão sendo usadas, especialmente, por produtores e pelos técnicos da assistência técnica e extensão rural, tanto do setor público, como do privado.

Outros resultados importantes
A apresentação de resultados no Balanço Social não se esgota com os tipos de avaliação realizados anteriormente. Outros pontos significativos são as 1.039 ações de relevante interesse social realizadas pela instituição e os 118 prêmios e homenagens por ela recebidos. Para chegar a esses números, os diversos centros da Embrapa, no primeiro caso, registram e classificam em um formulário eletrônico todas as suas atividades sociais relacionadas a diversos temas, como desenvolvimento social e organização comunitária; bem-estar, saúde e segurança no trabalho; meio ambiente e educação ambiental; segurança alimentar, nutricional e inclusão produtiva. Esses registros também compõem uma base eletrônica, acessada pela internet, em que qualquer pessoa pode obter informações detalhadas sobre cada uma das ações sociais promovidas pela instituição.

No segundo caso, as descrições dos prêmios e homenagens recebidos anualmente pela Embrapa ou por seus empregados são enviadas por e-mail pelas equipes dos centros à equipe central do Balanço Social, que as contabiliza e as classifica. Assim, em 2018, o total de 118 premiações foi subdividido em 18 prêmios internacionais, 27 prêmios científicos, 33 prêmios nacionais e 40 prêmios regionais.

Casos de sucesso

A publicação do Balanço Social também é uma boa oportunidade para selecionar e descrever as principais contribuições da Embrapa no âmbito da agricultura, em temas tais como manejo e correção de solos; fibras, oleaginosas e cereais; produção animal; frutos e castanhas; hortaliças e leguminosas; sistemas e serviços; cultivares Embrapa e parceiros; e geração de novos empregos. Essas contribuições, denominadas casos de sucesso, foram adotadas no Balanço Social como exemplos ilustrativos das diversas tabelas de impactos e de adoção de soluções tecnológicas apresentadas na publicação.

Em 2018, destacam-se casos de sucesso como o projeto de transferência de tecnologias de café para as etnias indígenas Tupari e Aruá, que as tornaram referência na produção de cafés especiais, o manejo de solos e culturas para reduzir quebra de safras causadas por veranicos e a Caravana Embrapa para controlar a praga exótica Helicoverpa armigera, que vinha atacando diversas culturas no País. Podem ser citados também a forrageira tropical Paiguás resistente à sêca, o grão-de-bico brasileiro BRS Aleppo, o aplicativo Roda da Reprodução para administrar plantéis leiteiros e a cultivar de arroz fino de alta produtividade, a BRS Pampeira.

Informações auditadas
Todas as informações que constam no Balanço Social da Embrapa são auditadas e auditáveis. Os relatórios de avaliação de impacto com sua respectiva metodologia, resultados detalhados e análises são disponibilizados na Internet desde 2011. No entanto, a descentralização do processo de avaliação de impacto para os centros de pesquisa ocorre desde 2001, momento em que a Empresa adotou o enfoque multidimensional (econômico, social e ambiental) para as análises de impacto e cada relatório começou a ser avaliado por especialistas. Além disso, as unidades passaram a receber “feedbacks” anuais da Sede.

A elaboração do Balanço Social envolve cerca de 270 pessoas, situadas em todas as unidades da Embrapa no Brasil e organizadas em duas equipes interdependentes: uma delas, com 230 pessoas, é responsável pela coleta de dados de campo e análise de impactos das soluções tecnológicas. A segunda equipe, formada por 40 pessoas, é encarregada de coletar as demais informações, tais como ações sociais, casos de sucesso e premiações. Ambas as equipes são coordenadas por um grupo central localizado na sede da Embrapa, responsável pela organização dos dados e publicação do Balanço Social.

Segundo Flavio Avila, que também atua como supervisor geral desse processo, “todo o esforço realizado na elaboração do Balanço Social é direcionado para a demonstração à sociedade de um conjunto de indicadores que vai além da eficácia e da eficiência da gestão, geralmente demonstrada em outros documentos corporativos, tais como os relatórios de gestão e de administração. No caso do Balanço Social, focamos primordialmente na efetividade da Embrapa, ou seja, nos impactos gerados e nas transformações induzidas pela instituição no mercado e na sociedade, a partir da adoção das soluções tecnológicas da Empresa. Atualmente a sociedade e os órgãos de controle do Estado não querem apenas saber como os recursos públicos estão sendo utilizados, mas quais benefícios sociais estão sendo por eles gerados”.

História e metodologia do Balanço Social
Balanço Social é um documento publicado anualmente por organizações públicas e privadas, destinado a seus públicos interno e externo, que reúne um conjunto de informações sobre seus projetos, benefícios e ações sociais. A ampla disseminação dessa prática corporativa recebeu grande impulso no Brasil com o surgimento, em 1993, da Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida, também conhecida como Campanha contra a Fome.

Criada pelo sociólogo Herbert José de Sousa, o Betinho, essa campanha foi desenvolvida pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), que promoveu a aproximação de parte do setor empresarial de relevantes problemas sociais brasileiros. Em 1997, o Ibase e o Comitê de Entidades no Combate à Fome e pela Vida (COEP) idealizaram um modelo e realizaram uma campanha para promover a divulgação voluntária de balanços sociais por parte das empresas. Nesse mesmo ano a Embrapa publicou a primeira edição de seu Balanço Social.

O Balanço Social da Embrapa é uma adaptação do modelo sugerido pelo Ibase. A principal diferença em relação à proposta original se deve à adequação de alguns de seus indicadores, então criados especificamente para organizações com fins lucrativos, aliada à inclusão de dados socioeconômicos das tecnologias geradas pela Empresa e já incorporadas ao processo produtivo. No primeiro caso, a Embrapa não foi criada para gerar lucros financeiros, mas sim o chamado “lucro social”, dada a sua contribuição ao desenvolvimento da agropecuária brasileira.

O maior desafio desse documento, no âmbito institucional, consiste, portanto, em demonstrar o papel da pesquisa agropecuária como um esforço estratégico para o país. Para isso, a Empresa precisou incorporar à publicação, além dos indicadores sociais, aqueles decorrentes de estudos de impactos de tecnologias que já vinham sendo tradicionalmente realizados pela Empresa desde os anos 1980.

A partir da publicação do primeiro número do Balanço Social, em 1997, sua metodologia vem sendo constantemente aprimorada. As primeiras edições contemplavam um limitado número de dimensões de avaliações, tais como as ações sociais desenvolvidas pela Empresa, os impactos econômicos de suas tecnologias e seu lucro social.

Ao longo do período foram agregadas à publicação informações tais como os impactos ambientais e sociais, a geração de empregos, premiações e reconhecimentos da sociedade. Mais recentemente foram incorporados os casos de sucesso, a taxa interna de retorno (TIR) de cada tecnologia, os impactos institucionais e a análise das contribuições da Empresa no ambiente da comunidade científica.

Referência nacional e internacional
Apesar desse perfil mais restrito, o Balanço Social da Embrapa vem servindo de referência a muitas outras instituições de pesquisa similares, tais como a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) e a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig).

Em 2017, a Corporación Colombiana de Investigación Agropecuaria (Agrosavia) adotou a metodologia do Balanço Social da Embrapa por intermédio de acordo de cooperação internacional e lançou no ano seguinte sua primeira edição desse documento. Da mesma forma, as instituições de pesquisa agropecuária dos países participantes do Programa Cooperativo para o Desenvolvimento Tecnológico, Agroalimentar e Agroindustrial do Cone Sul (Procisur) – Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai – também receberam treinamento da Embrapa e passaram a adaptar a metodologia para suas respectivas realidades.

Em recente estudo realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a iniciativa da Embrapa na avaliação dos impactos da pesquisa agropecuária em múltiplas dimensões, vinculada à publicação anual de um Balanço Social, foi reconhecida como experiência única e bem sucedida. Por isso a Empresa é colocada no mesmo patamar que o de prestigiadas instituições similares de outros países, tais como o Serviço de Pesquisa Agrícola (ARS/USDA) dos Estados Unidos, o Instituto Nacional de Pesquisa Agrícola (INRA) da França e a Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Comunidade Britânica (CSIRO) da Austrália, ou supranacionais, como os 15 centros de pesquisa do Consórcio de Pesquisa Agrícola Internacional (CGIAR).

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Embrapa muda gestão corporativa

Por Oswaldo Scaliotti em Eventos

31 de Janeiro de 2018

Nesta quinta-feira, 1º de fevereiro, a Embrapa reduz de 15 para seis as áreas administrativas da sede da Empresa, em Brasília, com corte de funções gratificadas e alteração de toda a estrutura e processos.

O ajuste, mantendo o mesmo grupo de empregados, faz parte da maior mudança administrativa da história da Empresa, que, no final de 2017, já havia reduzido a quantidade — de 46 para 42 — de Unidades de pesquisa e inovação, com a extinção de cinco Unidades de serviço. Também em 2017, a Embrapa adotou um novo Estatuto, alinhado à Lei das Estatais e produzido com a orientação da Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (SEST) e do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão.

A ampla revisão da governança da Embrapa ocorre em resposta à “necessidade de ajustar a Empresa às mudanças tecnológicas e sociais e aumentar a eficiência”, diz o presidente Maurício Antonio Lopes. Ele cita redução dos recursos públicos e transformações em grande velocidade na agricultura e no ambiente tecnológico como pano de fundo para o esforço da Embrapa em ajustar sua estrutura e gestão e se antecipar às mudanças que tendem a ser constantes.

Melhor acesso à Embrapa

Cleber Soares, diretor-executivo de Inovação e Tecnologia da Embrapa, diz que os agricultores e lideranças do agronegócio vão notar a diferença em curto prazo por meio da maior facilidade no acesso à tecnologia ou aos ativos tecnológicos, tanto diretamente com a Embrapa como também por meio de parceiros. Ele explica que há um enorme esforço para garantir a otimização dos processos e o foco da Empresa em inovação e proximidade com o mercado, inclusive pela ampliação das parcerias públicas e privadas. “Queremos alcançar mais facilmente as cadeias produtivas, e, consequentemente, o produtor rural, entregando ativos tecnológicos de forma mais dinâmica e eficiente”, explica.

Maurício Lopes explica que “estamos fazendo um grande esforço dar agilidade, mais atenção à atividade-fim e obter maior proximidade com o mercado de inovações tecnológicas e os produtores. Em resumo: garantir que a instituição continue atendendo a sua missão”. Outra novidade na administração é a implantação de um modelo inovador, baseado em gestão por processos, que garante integração e interação mais dinâmica entre as profissionais e áreas, particularmente entre Unidades administrativas e de pesquisa.

As transformações contam com o incentivo e acompanhamento do ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Blairo Maggi, e também do presidente do Conselho de Administração da Empresa, Eumar Novacki. Elas significaram, principalmente, junção de órgãos com alinhamento de atividades. As mudanças seguem com análise e revisão da atuação dos centros de pesquisa em todo o Brasil. A experiência da reestruturação das unidades administrativas da sede da Empresa vai também impactar a renovação nos processos das demais Unidades.

Agilidade e maior conexão com o agronegócio

O diretor-executivo de Pesquisa e Desenvolvimento, Celso Moretti, diz que um dos objetivos é diminuir redundâncias e sobreposições. Ele esclarece que “vamos dar agilidade à programação de pesquisa e conectá-la ainda mais ao mercado de tecnologias e às demandas do agronegócio. Isso facilitará o alinhamento das pesquisas às prioridades e linhas estratégicas estabelecidas pela Empresa e às necessidades da sociedade”, explica.

Maurício Lopes complementa afirmando que “foco, compromisso e impacto serão as bases de sustentação da Embrapa e sintetizam o processo de alinhamento de rumos”. Em sua avaliação, “as mudanças ajudarão a desburocratizar e simplificar processos na Embrapa, tornando-a mais próxima do mercado, do agricultor e do atendimento das necessidades do País”. Ele acrescenta que a Embrapa “ao longo das décadas foi se ajustando, mas agora precisamos de mudanças mais profundas, levando em conta a realidade que vivemos”. Cita, por exemplo, “a emergência de um mercado muito competitivo e exigente que opera em grande rapidez”.

Uma das novidades é que os projetos de pesquisa a partir de agora estarão organizados de acordo com metodologia desenvolvida e utilizada pela agência espacial norte-americana, a Nasa, conhecida como Technology Readiness Level (TRL). A TRL foi testada e aprovada em setores da indústria e instituições de pesquisa científica, inclusive na Embrapa Agroenergia, e agora será disseminada na Empresa. Por ela, é possível avaliar o nível de maturidade de uma tecnologia ao longo de seu desenvolvimento e obter uma comunicação mais eficiente com o mercado de inovação. Bruno Brasil, responsável pela Secretaria de Pesquisa e Desenvolvimento (SPD), explica que, com ela, “mediremos todos os ativos de inovação de uso direto, de cultivares a processos agroindustriais, passando por insumos agropecuários, equipamentos e softwares”.

Expectativa com a EmbrapaTec

Um dos objetivos mais importantes da gestão da Embrapa é facilitar o fluxo dos resultados de pesquisa para o mercado, inclusive aqueles que permitem obter recursos para financiamento de novas pesquisas. Reduzir a dependência de recursos do tesouro por meio de novos financiamentos da pesquisa, e, principalmente, a monetização de ativos tecnológicos gerados pela Empresa é uma das prioridades.

A direção da Embrapa quer a transformação de conhecimento e de ativos tecnológicos em inovação e negócios com mais rapidez e eficiência. O Código Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, por exemplo, cria excelentes oportunidades para a ampliação das parcerias público-privadas no ambiente de inovação tecnológica. Neste momento, a Embrapa acompanha a tramitação no Congresso Nacional do Projeto de Lei que propõe o estabelecimento da EmbrapaTec, subsidiária que vai permitir mais agilidade também na área comercial. Outra alternativa também em consideração é a criação de fundos patrimoniais, mecanismo utilizado com sucesso em muitos países, que poderá no futuro financiar melhorias da infraestrutura e ações estratégicas, sem colocar em risco o patrimônio da Empresa, que pertence à sociedade brasileira.

Perfil

A Embrapa mantém mais de 80 programas de melhoramento genético diferentes, incluindo grãos, pastagens, frutas, hortaliças, mandioca, espécies florestais, pecuária e aquicultura. Eles alcançam todas as regiões e biomas brasileiros e envolvem centenas de projetos na fronteira do conhecimento em áreas como biotecnologia, nanotecnologia, automação, agricultura de precisão, transformação digital.

São 9.579 empregados, sendo 2.438 pesquisadores que incluem agrônomos, físicos, veterinários, economistas, biólogos, químicos e cientistas da computação. Eles atuam em equipes e redes desenvolvendo, atualmente, 1.117 projetos de pesquisa.

A Embrapa participa de 122 acordos de cooperação voltados para o mercado de inovação e arrecada anualmente em torno de R$ 128 milhões por meio de parcerias, inclusive de fontes internacionais.

O insumo mais importante em uma empresa de pesquisa e inovação é conhecimento, e cerca de 80% do orçamento da Embrapa está direcionado para pagamento de salários para um quadro altamente qualificado. “O ideal seria a relação 70/30, um padrão mundial”, explica Maurício Lopes. A restrição orçamentária na área operacional não está permitindo melhorar a relação, mas a Empresa está continuamente buscando alternativas de financiamento do para buscar o equilíbrio. E dentre todos os esforços, “o mais importante é incorporar e reter talentos, pagando salários condizentes para um grupo de profissionais altamente qualificados, que permitem à Empresa seguir gerando impactos positivos para a sociedade brasileira”, explica.

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Brasil entra na corrida para desenvolver mandioca com amido ceroso

Por Oswaldo Scaliotti em Novos Produtos

28 de Janeiro de 2018

 

 

Foto: Alessandra Vale

Uma nova variedade de mandioca pode transformar o Brasil em produtor de um valioso insumo industrial e agregar muito valor à produção dessa raiz nativa. O amido ceroso, ou waxy, é procurado pela indústria alimentícia, pois é matéria-prima para composição de pratos congelados e outros produtos. O desenvolvimento de uma mandioca cerosa, que se encontra em andamento na Embrapa, coloca o País na vanguarda da corrida mundial para desenvolver uma mandioca waxy que possa ser produzida em larga escala. Até agora, nenhum país conseguiu desenvolver essa raiz.

O desafio é fazer a própria planta gerar amido diferenciado. Um avanço importante foi obtido pelo Centro Internacional para Agricultura Tropical (Ciat), sediado na Colômbia, que identificou o gene da mandioca responsável pelo amido ceroso. A Embrapa foi a única instituição brasileira que recebeu esse material e agora procura incorporar a produção do amido waxy a uma variedade nacional. Assim, pretende-se aliar a performance do material brasileiro, já adaptado às condições nacionais, à produção natural do amido waxy. Os custos de produção serão os mesmos da mandioca convencional e, com isso, a produção do amido waxy deve aumentar a renda dos produtores.

Ao trazer naturalmente em sua composição características importantes especialmente para a indústria de alimentos, a novidade deve reduzir custos, uma vez que diminui as etapas de processamento usando o mesmo sistema de produção das variedades já conhecidas. O amido waxy é diferente do amido nativo ou comum (também conhecido por goma ou fécula) e é considerado o produto da mandioca com maior valor agregado por ser utilizado em diversos tipos de indústria.

“Amido diferenciado não significa que é melhor que outros. São produtos diferentes que têm aplicações distintas. Um é mais viscoso, o outro congela melhor, por exemplo, ou seja, aquele que se usa na indústria de papel não é usado na indústria de iogurte”, exemplifica Francisco Laranjeira, chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Mandioca e Fruticultura (BA).

Menos amilose é interessante para alimentos congelados

“O amido é composto basicamente por amilose e amilopectina [moléculas de glicose]. Na maioria das variedades, o teor de amilose varia de 17% a 25%, mas a indústria possui grande interesse por materiais diferenciados, sobretudo nos extremos dessa relação,” explica o engenheiro-agrônomo Eder Jorge Oliveira, pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura, ressaltando que a waxy apresenta pouca amilose. “Teores mínimos de amilose interessam à indústria alimentícia em função da menor retrogradação do amido, que é a perda de água após o resfriamento do produto pronto.”, esclarece Oliveira que compartilha o trabalho com os pesquisadores Rudiney Ringenberg, Marcelo Romano e Saulo Oliveira.

“Nos nossos trabalhos, não estamos restringindo as populações de melhoramento aos materiais que vieram do Ciat. Testamos outras frentes porque precisamos gerar novos recombinantes, além de encontrar novas variantes deste tipo. A procura pelo gene waxy sempre foi feita na Unidade e a ideia é que o programa seja sempre continuado, considerando os avanços positivos na descoberta de mutações pontuais associadas ao waxy”, afirma Eder.

A corrida mundial pela mandioca waxy

“Estamos nos antecipando, uma vez que ninguém da cadeia produtiva nos pediu esse produto. Considerando que a Tailândia [segundo maior produtor de mandioca do mundo, perdendo apenas para a Nigéria] já está desenvolvendo sua própria variedade waxy, o Brasil não pode ficar para trás, sob o risco de, em algum momento, virar importador de amido waxy de mandioca”, pondera Laranjeira. “Estamos procurando enxergar um futuro em parceria com a cadeia produtiva. A intenção não é chegar com o material pronto, mas encontrar maneiras de trabalhar em conjunto desde o início porque sabemos que as tecnologias são adotadas mais rapidamente quando a cadeia produtiva participa do desenvolvimento tecnológico”.

A missão é significativa pois, além de boa produtividade, a variedade deverá ter resistência a doenças semelhante ou superior às variedades tradicionais, com adaptação a algumas regiões do Centro-Sul e do Nordeste. “Além das avaliações para atributos produtivos, estamos interessados em incorporar no processo seletivo características ligadas à qualidade do amido em termos de cor, propriedade de pasta e padrões de ramificações da amilopectina que podem resultar no desenvolvimento de novos produtos, sobretudo para a indústria alimentícia”, afirma Eder.

A aproximação com o setor no Centro-Sul (Paraná, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Santa Catarina), onde está localizada a maior concentração de indústrias de fécula do país, começou em 2008, quando a Embrapa Mandioca e Fruticultura montou um campo avançado de pesquisa com apoio da Embrapa Soja (PR), em que mantém três pesquisadores da Equipe Técnica de Mandioca. Como resultado, duas variedades de mesa e uma para indústria já foram lançadas desde 2015.

Oito indústrias da região manifestaram interesse inicial no projeto da mandioca waxy, que está em fase de negociação. “É um projeto estratégico para a Unidade, pois representa o desenvolvimento de um produto de alto valor agregado e de elevado grau de inovação, a ser viabilizado por uma parceria com o setor privado”, afirma Aldo Vilar Trindade, chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia, que tem acompanhado de perto as tratativas.

Mercado promissor para o amido

Segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP), o mercado nacional de amido de mandioca processado em fecularias é expressivo. “A produção brasileira foi, em 2016, de 616.230 toneladas”, informa Lucilio Alves, membro do Cepea e professor da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da USP (Esalq/USP). De 2013 a 2016, quatro estados do Centro-Sul são os principais na produção nacional. “O Paraná foi responsável por 68,1% da produção brasileira, Mato Grosso do Sul por 23,6%, São Paulo por 8% e Santa Catarina por 0,3%”, destaca Alves.

As perspectivas de uso do amido waxy de mandioca são promissoras, uma vez que ele tem propriedades diferentes do milho waxy, podendo atingir novos nichos de mercado e permitir a criação de produtos com especificidades únicas. O milho waxy, por exemplo, é utilizado pela indústria de alimentos para produzir congelados e resfriados e para fabricar suplementos energéticos direcionados a atletas. “Essa é uma aposta das indústrias, já que o custo de produção da mandioca waxy deverá ser o mesmo das variedades comerciais”, salienta Oliveira.

Melhor que o milho

Suas propriedades físico-químicas têm se destacado em comparação aos amidos waxy de milho e arroz, os principais concorrentes. Sua pasta apresentou-se 50% mais clara e duas vezes mais resistente ao congelamento que a do milho waxy. Também mostrou ser mais solúvel, ter maior absorção de água e perda de água insignificante após refrigeração e congelamento, o que indica capacidade de substituir outros amidos em algumas aplicações industriais.

O uso da fécula tende a crescer, uma vez que os derivados da mandioca têm sido consumidos cada vez mais por pessoas preocupadas com a saúde e a estética. A raiz e seus subprodutos também se tornaram opções de carboidrato para os celíacos – portadores de intolerância aguda ao glúten, proteína alergênica presente no trigo, aveia, centeio, cevada e malte.

O termo waxy é bem conhecido dos praticantes de atividade física, uma vez que o waxy maize (ou amido de milho ceroso) é bastante indicado por nutricionistas para repor a energia depois dos exercícios. A mandioca é uma importante fonte de carboidratos complexos e conta ainda com a vantagem de ter uma quantidade maior de carboidratos em relação a outros alimentos, como batata-doce, inhame, aveia, pão integral e macarrão integral. Ao contrário dos carboidratos simples, o carboidrato complexo é transformado em energia aos poucos, tornando a digestão mais lenta e regulando o nível de glicose estável no sangue.

Parcerias

Segundo Eder Oliveira, estabelecer parceria público-privada é também um grande desafio para a gestão e condução das atividades. “O acompanhamento das metas é feito frequentemente, o que nos exige agilidade na execução e nas tomadas de decisão, além de certa flexibilidade institucional para lidar com a grande expectativa de uso deste amido em escala comercial de forma rápida”, pondera o pesquisador.

Para Osvaldo Zanqueta, presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Mandioca e Derivados, composta por representantes de 31 órgãos e entidades ligados ao setor, a disponibilidade de uma variedade de mandioca waxy será importante. “Estamos otimistas. De acordo com os químicos consultores da Abam [Associação Brasileira de Produtores de Amido de Mandioca], existe um mercado potencial na região. Os produtores têm interesse e estão curiosos com essa possibilidade”, afirma Zanqueta, que é produtor de mandioca e diretor vice-presidente da Cooperativa Agroindustrial do Noroeste Paranaense (Copagra), que é sediada em Nova Londrina (PR) e agrega 15 municípios da região noroeste do estado. “Temos áreas para testar a nova variedade e a indústria para processar as raízes e fazer os testes de amido. Também assumimos o compromisso de multiplicar as plantas depois”, explica.

Muito da expectativa quanto à nova variedade waxy vem da performance da BRS CS01, variedade industrial tradicional lançada em 2016. “É uma variedade ótima, o futuro da mandioca aqui na região”, atesta Zanqueta, salientando que, além do amido waxy, a variedade precisa ter resistência às principais pragas e doenças presentes nas plantas de mandioca da região. “Podridão-radicular, lagarta-mandarová, cochonilha e besouro-gongo, que é o nome popular do migdolus [Migdolus fryanus], são as mais importantes”.

Sigmar Harpic, diretor da Associação Técnica das Indústrias da Mandioca do Paraná (Atimop), confirma a demanda pela mandioca waxy. “Existe uma boa demanda por amido waxy que atualmente é atendida pelo milho. Nos testes preliminares de uma pequena amostra do amido waxy de mandioca, este se mostrou perfeitamente aplicável na fabricação dos amidos modificados. No entanto, para melhor avaliação se faz necessário um volume maior de amido. Acreditamos também que há um nicho de mercado, de amidos de plantas não transgênicas, que o da mandioca poderá atender bem. É importante salientar ainda que o amido de milho waxy é altamente competitivo em termos de custo de produção, assim é imprescindível que as variedades de mandioca waxy sejam também produtivas. Trata-se de uma evolução tecnológica que estará capacitando o setor a atender em iguais condições de qualidade uma importante fatia do mercado de amidos atualmente suprida pelo setor de milho. Isso trará uma melhora na imagem da mandioca para o mercado, pois estaremos dispondo de uma mercadoria capaz de suprir toda a demanda do setor quanto à tecnologia de aplicação”, pondera.

Etapas da pesquisa

As pesquisas têm utilizado modernas ferramentas de biologia molecular, em especial marcadores de DNA, o que leva a avanços consideráveis nos trabalhos. O lançamento de uma nova variedade abrange etapas minuciosas, como a coleta no banco de germoplasma [coleção com amostras de plantas que visa conservar e preservar a ampla variabilidade genética desses materiais para estudos atuais e futuros], seleção, cruzamentos e diversos tipos de ensaios. Das 16 mil sementes utilizadas, por exemplo, 467 clones [conjunto de descendentes ou fragmentos regenerados de um único indivíduo por reprodução vegetativa] waxy foram obtidos.

A expectativa é que o lançamento ocorra nos próximos cinco anos. “Nossa meta é gerar três variedades, mas não sabemos ainda quantas poderão ser lançadas. Hoje estamos realizando os ensaios preliminares de produção”, pontua Oliveira. “Definir um prazo vai depender muito do esforço de seleção e multiplicação durante o desenvolvimento da variedade. Na proposta do projeto haverá etapas especificas de seleção, mas, em função do aumento da quantidade de material propagativo, também serão adotadas diversas estratégias de multiplicação rápida recém-desenvolvidas pela Unidade para que as novas variedades estejam disponíveis o mais breve possível”, declara. Quando houver o lançamento, estará finalizado também o sistema de produção, com todas as informações técnicas necessárias para que o produtor alcance os melhores índices de produtividade.

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Plantas daninhas resistentes aumentam custo de produção de soja

Por Oswaldo Scaliotti em Eventos

27 de outubro de 2017

Foto: Fernando Adegas

Estudo realizado pela Embrapa nas principais regiões produtoras do País avaliou que os custos de produção em lavouras de soja com plantas daninhas resistentes ao glifosato podem subir, em média, de 42% a 222%, principalmente pelo aumento de gastos com herbicidas e pela perda de produtividade da soja. Segundo o pesquisador Fernando Adegas, da Embrapa Soja (PR), os valores sobem, em média, entre 42% e 48% para as infestações isoladas de buva e de azevém, respectivamente, e até 165% se houver capim-amargoso resistente. Em casos de infestações mistas de buva e capim-amargoso, por exemplo, o aumento médio é de 222%.

“São números alarmantes e percebemos que os produtores estão ansiosos por informação, discussão e solução para a questão de resistência”, relata Adegas,  um dos autores da circular técnica da Embrapa Impacto econômico da resistência de plantas daninhas a herbicidas no Brasil. “Geralmente encontramos análises técnicas sobre a questão de resistência, mas nosso objetivo com esse estudo era entender o impacto econômico do problema no dia a dia dos produtores brasileiros.”

Segundo o pesquisador, o custo médio no Brasil para o controle de plantas daninhas é de R$ 120 por hectare. Em um cenário de infestação de azevém resistente ao glifosato, por exemplo, existe a necessidade do uso de um herbicida alternativo associado ao glifosato para controle da infestante. “Nesse caso, o custo por hectare fica entre R$ 118,60 e R$ 236,70, o que representa um aumento médio de gasto com herbicidas de R$ 57,65”, calcula.

Adegas explica que em áreas infestadas com capim-amargoso resistente ao glifosato, a alternativa de controle passa a ser o uso de graminicidas. “De maneira geral, são conduzidas entre duas e quatro aplicações de graminicidas para o controle de plantas daninhas resistentes”. Com isso, o custo médio para o controle sobe de R$ 120 para aproximadamente R$ 318. “Isso causa um impacto de 165% a mais no custo de produção.”

Nas situações de infestações mistas de espécies daninhas resistentes ao glifosato, o aumento nos custos de controle é ainda pior. Em áreas com infestação de buva e de capim-amargoso, o custo de controle pode chegar a R$ 386 por hectare, ou seja, um aumento médio de 222% no custo de produção. Por isso, o pesquisador defende uma ampla discussão sobre a questão da resistência no Brasil. “Além do impacto econômico que já é sentido, o produtor precisa tomar medidas para minimizar ou conviver com essa resistência em sua propriedade.”

 

Métodos recomendados para prevenção

Entre os métodos preventivos recomendados, Adegas destaca a aquisição de sementes livres de infestantes; a limpeza de máquinas e equipamentos, especialmente as colheitadeiras; e a manutenção de beiras de estrada, carreadores e terraços livres de infestantes.

No que diz respeito ao controle mecânico, a indicação é pelas capinas e roçadas. No caso de controle químico, Adegas lembra que a principal ação é a utilização de herbicidas de diferentes mecanismos de ação, em diferentes sistemas de controle.

Entre os métodos culturais incluem-se a diminuição dos períodos de pousio, o investimento em produção de palhada para cobertura do solo e a utilização de cultivares adaptadas em espaçamento entre linhas, além da rotação de culturas.

O coordenador do projeto Grãos da Emater-PR, Nelson Harger, concorda que o manejo de plantas daninhas, quando apoiada apenas no controle químico, traz problemas à assistência técnica e aos produtores. “Percebemos que o manejo de plantas daninhas no Paraná, muitas vezes, não é eficiente e favorece o processo de resistência”, pondera. Harger considera os escapes de plantas daninhas por rebrotas e a infestação pela produção de sementes nas áreas próprias e nos vizinhos como as maiores dificuldades relatadas pelos agricultores.

Para o extensionista, algumas falhas de controle cometidas pelos produtores são agravadas pela dificuldade de manejo das plantas daninhas resistentes. “Por isso, estamos sempre defendendo a utilização conjunta de métodos diferenciados de manejo. As culturas de cobertura, por exemplo, comprovadamente promovem a supressão das plantas daninhas”, diz.

Apoiadas na utilização de métodos culturais, Harger conta que no Paraná unidades de referência instaladas em propriedades agrícolas e acompanhadas pela Emater têm conseguido minimizar o problema. “Temos relatos de produtores que usaram a braquiária em sucessão ao milho e que conseguiram economizar, na safra de soja, por exemplo, R$ 138 por hectare ao reduzir o uso de herbicidas. “Por isso, defendemos a utilização de métodos integrados de manejo de plantas daninhas para enfrentarmos o problema atual de resistência.”

Histórico de resistência

No Brasil, observam-se dois momentos relacionados à resistência de plantas daninhas. Os primeiros casos de resistência a herbicidas no País foram relatados em 1993, relativos às espécies Bidens pilosa (picão-preto) e Euphorbia heterophylla (leiteiro), resistentes a herbicidas inibidores da enzima acetolactato-sintase – ALS.

Atualmente, os produtores vivem uma segunda etapa das plantas daninhas resistentes, que está relacionada ao uso do herbicida glifosato. “Esse processo de resistência está relacionado ao uso constante do mesmo princípio ativo, na mesma área, e por longo período de tempo”, explica Adegas. O uso intensivo do glifosato acarretou grande pressão de seleção sobre as plantas daninhas, resultando na seleção de sete espécies daninhas resistentes: o azevém (Lolium multiflorum), a buva (Conyza bonariensis, C. canadensis, C. sumatrensis), o capim-amargoso (Digitaria insularis), o caruru-palmeri (Amaranthus palmeri) e o capim pé-de-galinha (Eleusine indica).

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Melão desperdiçado é alternativa à maçã na indústria de bebidas

Por Oswaldo Scaliotti em Eventos

11 de outubro de 2017

Foto: Henrique Martins Gianvecchio Carvalho

Um suco-base de melão, para uso na indústria de bebidas, é uma das alternativas propostas pela Embrapa para reduzir o desperdício da fruta. O produto concentrado não apresenta gosto e aroma de melão e pode ser empregado pela indústria como base para a produção de sucos mistos, néctares e outras bebidas. Hoje esse papel é da maçã, principal matéria-prima de sucos-base das mais diversas bebidas com frutas. A proposta também é substituir água e açúcar por uma base mais saudável. A empresa busca parceiros para a validação da tecnologia em escala industrial.

O produto pode ser muito útil para reduzir o desperdício de melão. Em 2015, as perdas chegaram a 37% do total produzido, com base no último levantamento da produção feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Uma boa parte do total não foi aproveitada por problemas puramente estéticos: manchas na casca, tamanho menor que o habitual ou formato irregular. Apesar de rejeitados pelos consumidores, esses melões mantêm intactas as propriedades nutricionais.

O engenheiro de alimentos Raimundo Marcelino da Silva Neto, da Embrapa Agroindústria Tropical (CE), explica que a indústria utiliza largamente o suco-base de maçã, uma fruta de clima temperado, para a produção de blends, néctares e outros produtos com diferentes sabores. O desenvolvimento do suco-base de melão oferece uma alternativa para o aproveitamento de uma matéria-prima proveniente da agricultura tropical. A tecnologia foi desenvolvida em parceria com a Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e com o Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento (Cirad), da França.

“Boa parte do melão fica no campo devido a defeitos no aspecto visual. Não passa nos padrões de consumo e, muito menos, nos de exportação. Essa seria a matéria-prima para a produção dessa base clarificada, desaromatizada e concentrada entre 68º a 70º Brix (percentagem em massa dos sólidos solúveis presente no suco)”, explica Marcelino Neto.

Ele lembra que alguns países na Comunidade Europeia concedem incentivos fiscais para produtos sem adição de sacarose. Dependendo do processamento empregado na indústria, o suco-base de melão mantém nutrientes como vitaminas e açúcares (glicose, frutose e alguma sacarose) e ácidos naturais presentes na fruta.

A tecnologia usa microfiltração tangencial por membranas para a clarificação. “Otimizamos a tecnologia com adição de enzimas para aumentar o rendimento do processo”, explica. Para extrair o aroma são aplicadas resinas que capturam os compostos voláteis presentes no suco. Em seguida, o produto é concentrado a vácuo.

O suco concentrado é denso, com uma coloração semelhante ao caramelo e deve ser diluído na indústria. “Como é concentrado, não haverá o transporte de água, o que reduz custos de logística. Isso favorece também a conservação, porque é possível manter em temperatura ambiente ou no máximo em refrigeração”, afirma Marcelino Neto.

A tecnologia empregada para a produção do suco-base de melão também será testada em outras frutas tropicais como caju e banana. Segundo Marcelino Neto, é possível desenvolver diferentes produtos, combinando as tecnologias para retirar ou preservar o sabor, produzindo misturas com características desejadas.

Sete mil hectares para o lixo

Em 2015, o Brasil perdeu 195 mil toneladas de melão, o correspondente a 37% do total produzido. A produção correspondente a uma área de sete mil hectares cultivados foi perdida. Não se pode determinar, no entanto, o que ficou no campo, o que se perdeu no transporte, o que estragou no supermercado ou o que foi para o lixo doméstico. “37% foram perdidos. Nós estamos usando “perdido” no sentido literal da palavra. Não sabemos onde estão. Não existem dados oficiais que nos permitam saber o que foi feito. Sabemos que a indústria nacional do melão é muito pequena”, diz o pesquisador na área de tecnologia pós-colheita Ebenezer de Oliveira Silva, da Embrapa Agroindústria Tropical.

No caso do melão, a grande perda ocorre na cadeia de comercialização – é a chamada perda cosmética. “Frutos com pequenas deformações e que são jogados fora porque o consumidor não vai comprar aquilo. Por causa do alto padrão de qualidade exigido pela população, muito do que é produzido é jogado fora”, explica o cientista.

Países em desenvolvimento, como o Brasil e o México, apresentam tanto perdas por falta de infraestrutura, quanto as consideradas perdas cosméticas. “Nossa estrutura de pós-colheita não é suficiente o bastante para suportar as grandes produções de frutas que temos. Associado a isso, há uma classe média desenvolvida muito grande, o que repercute em um alto índice de perda cosmética”, esclarece Ebenezer Silva.

Uma das estratégias da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) para redução da fome e garantia da sustentabilidade é minimizar as perdas pós-colheita de frutas e hortaliças. A outra é aproveitar o que seria perdido na indústria, o que vai ao encontro da proposta do suco-base desenvolvido pela Embrapa.

“Uma das maneiras de reduzir as perdas pós-colheita é criar tecnologias para o processamento, dando uma outra utilização ao fruto. A indústria do melão no Brasil é muito pequena, por isso acreditamos que essa tecnologia poderia dar um ganho tanto para a indústria quanto para os produtores”, diz.

Para o pesquisador, a proposta de aproveitar melão como suco-base é interessante para reduzir as chamadas perdas cosméticas. “São melões de alta qualidade, que, por não atingirem alta exigência para os padrões de mercado, podem ser utilizados na industrialização. Para produzir, por exemplo, um suco concentrado e desaromatizado que poderia ser um ingrediente para a indústria de alimentos, principalmente indústria de sucos e outros”, acredita.

De acordo com ele, é necessário observar também outras possibilidades de industrialização. Já existe em alguns países o aproveitamento do melão para a produção de cremes hidratantes e protetores solares. “Uma alternativa seria descobrir quais são as substâncias ativas no melão e desenvolver insumos para a indústria brasileira de cosméticos”, propõe. O especialista alerta que existem várias possibilidades de usar melão como produto. “Mas o de maior volume, seria o suco concentrado,” afirma.

Informações melão – Ano  de Referência 2015

Fontes: Dados de produção, consumo per capita e população são do IBGE -2015

Dados de exportação MDIC-Aliceweb  http://aliceweb.mdic.gov.br/

Consumo hídrico:  https://link.springer.com/article/10.1007/s11367-013-0630-0 Fonte: Pegada de carbono   http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0959652612004805

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Biocarvão feito com resíduos é testado como condicionador de solo

Por Oswaldo Scaliotti em Eventos

05 de outubro de 2017

Foto: Fabiana Rezende

Fabiana Rezende -

Transformar um passivo ambiental em insumo benéfico para a produção de madeira e de alimentos é o objetivo de uma pesquisa que está testando o uso de biocarvão, ou biochar, feito  de pó de serra, restos vegetais, cama de frango e lixo urbano, como condicionador de solo. O estudo, iniciado em 2012 pela Embrapa Agrossilvipastoril (MT), busca comprovar a eficácia do biochar em cultivos tanto em viveiros de mudas quanto no campo.

Condicionadores são substâncias que, agregadas ao solo, ajudam a melhorar suas características químicas, físicas e biológicas, aumentando a capacidade de suporte de plantas. É o caso do biocarvão obtido  da queima controlada, ou pirólise, de diferentes compostos, de origem animal ou vegetal, que contribui para o aumento da matéria orgânica no solo. Esse material permanece no local por um longo período, por isso o efeito benéfico é duradouro, favorecendo seu uso em plantios florestais. “Carvão é um carbono que não é perdido facilmente. Uma palhada, se você não continuar repondo-a, vai embora em dez anos. Já o biochar permanece por muito mais tempo”, ressalta a pesquisadora da Embrapa Fabiana Rezende.

O biocarvão pode ser obtido a partir de diferentes matérias-primas, entre elas resíduos de agroindústrias, de restaurantes e até mesmo lama proveniente do tratamento de esgoto, de modo a se dar um novo uso a um passivo ambiental. No caso da pesquisa conduzida pela Embrapa em Sinop (MT), o foco está no uso de pó de serra. O produto é abundante na região norte de Mato Grosso como resíduo da indústria madeireira e representa um passivo ambiental importante para a região. Com a transformação em biocarvão, esse material retorna ao sistema produtivo como um insumo.

 

Teste em produção de mudas

Na primeira etapa dos testes, o biocarvão feito  de pó de serra foi usado em diferentes quantidades na produção em viveiro de mudas de pau-de-balsa, eucalipto, teca e também maracujá. O uso desse material no solo visa à melhoria da qualidade do substrato, aumentando a porosidade, a aeração e a capacidade de retenção de água e nutrientes, características importantes para potencializar o crescimento das mudas.

Dependendo da forma de queima, com processamentos químicos ou físicos, o carvão pode ser artificialmente ativado, o que significa que ele exercerá seu papel de condicionador do solo mais rapidamente. Porém, o biocarvão não ativado acaba se ativando naturalmente ao longo do tempo.

As avaliações de desenvolvimento da planta, qualidade da muda e quantidade de matéria seca mostraram que as mudas cultivadas com biocarvão ativado junto com substrato comercial tiveram melhor desempenho do que aquelas cultivadas somente em substrato comercial. Isso significa mudas maiores, com maior capacidade de sobreviver ao plantio em campo e com melhores condições de crescimento inicial.

Ao mesmo tempo, foi feita uma avaliação econômica de cada formulação, que mostrou que a melhor alternativa para obter ganhos produtivos economicamente viáveis na produção de mudas é o uso de biocarvão ativado na proporção de um quarto (¼), ou seja, uma parte de biocarvão para três partes de substrato comercial.

 

Testes em campo

Após finalizada a avaliação em viveiro, as mudas de duas espécies, eucalipto e teca, foram levadas a campo, onde se iniciou a segunda e mais longa fase da pesquisa. Nessa etapa, o estudo compara plantas que não receberam biocarvão com outras que receberam diferentes dosagens de carvão ativado e não ativado aplicadas no sulco de plantio.

De acordo com Fabiana Rezende, como trata-se de espécies florestais, ainda é cedo para se chegar a conclusões sobre a melhor estratégia de uso do biocarvão. Avaliações parciais mostram que, no momento, a resposta das plantas ao biocarvão ativado foi melhor, porém o teor de carbono no solo é maior onde foi usado o carvão não ativado.

“Usamos uma dose grande de carvão não ativado, por volta de 30 toneladas por hectare. Já o ativado nós colocamos por volta de oito toneladas, pois sabemos que ele já é reativo. Mas o biochar sem ativação vai naturalmente se ativar com o tempo. Queremos saber se vale a pena usar o ativado, pois ele sai mais caro. Hoje o ativado é melhor para o crescimento das plantas, mas com o tempo talvez isso mude”, pondera a pesquisadora, lembrando que, no caso da teca, por exemplo, a planta nem sequer atingiu um terço dos cerca de 20 anos que levará até o corte.

 

Novas frentes

Paralelamente à primeira pesquisa, outro trabalho iniciado recentemente, em parceria com a cooperativa Coopernova, avalia o uso da mistura de biocarvão com compostagem para a produção de maracujá.

Nesse ensaio, foi produzida uma compostagem com uso de silagem de milho velha, esterco bovino, casca de arroz e cascas de frutas e vegetais descartadas por restaurantes. A compostagem foi aplicada sozinha durante o plantio de parte das mudas, e em outras foi misturada a tipos distintos de biocarvão. Dentre eles, biocarvão de origem animal, feito com a queima de cama de frango, e de origem vegetal, originado da pirólise de casca de arroz em diferentes temperaturas (400o C e 600o C).

“Matéria orgânica animal é mais rica em nutrientes e a vegetal tem uma relação de carbono maior do que os demais elementos. Quando agregamos materiais, conseguimos enriquecer mais o produto final. Teremos benefícios de um material que acumula mais carbono no solo, ao mesmo tempo em que teremos um que leva nutrientes para o solo”, explica Fabiana Rezende.

De acordo com a pesquisadora, a variação da temperatura da queima e da matéria-prima resulta em diferentes produtos, o que influenciará na cultura em que o biocarvão será aplicado.

Ainda em fase inicial, esse trabalho avaliará aspectos produtivos, sanitários e econômicos da produção de maracujá de acordo com o tipo de condicionador de solo utilizado.

 

De olho no futuro

Para Fabiana Rezende, assim como já ocorre em países como China, Japão e Austrália, o biocarvão terá papel importante no aumento da capacidade produtiva do solo. Nesses países, grandes indústrias de pirólise aproveitam diferentes tipos de resíduos para produzir o insumo.

“A exploração madeireira como é feita hoje vai acabar. O plantio florestal será importante. Conseguir plantar essas florestas e elas produzirem mais em uma área menor será fundamental. O biochar vai fazer uma melhoria do solo para que se produza mais em uma mesma área, aproveitando resíduo da própria indústria madeireira”, resume.

 

Congresso

O potencial de uso de biocarvão na agricultura e as pesquisas feitas com esse produto no Brasil serão temas de discussões durante o XII Encontro Brasileiro de Substâncias Húmicas e Matéria Orgânica Natural,  de 16 a 20 de outubro, em Sinop (MT).

Confira a programação completa do evento e saiba como se inscrever no site http://xii-ebsh-mon.gpdae.net/.

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Brasil lista 20 pragas agrícolas mais importantes que ainda não chegaram ao País

Por Oswaldo Scaliotti em Eventos

04 de outubro de 2017

Foto: Justin Anthony Groves

A planta dainha Cirsium arvense prejudica trigo,soja, aveia e milho

 

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e a Embrapa elaboraram, pela primeira vez em conjunto, uma lista com as 20 pragas quarentenárias ausentes prioritárias para ações de vigilância e pesquisa, que ameaçam, caso entrem no País, culturas como milho, soja, mandioca, batata, arroz e várias frutas. Três das pragas listadas já contam, inclusive, com planos de contingência. Existem atualmente cerca de 500 pragas quarentenárias – entre fungos, insetos, bactérias, vírus, nematoides e plantas daninhas – oficialmente reconhecidas como ausentes no Brasil.

Em 2007, o Ministério publicou a Instrução Normativa nº 52, que estabeleceu a lista de pragas quarentenárias ausentes e presentes. A publicação dessa lista é uma das obrigações do País como membro da Convenção Internacional para Proteção dos Vegetais (CIPV). De acordo com o coordenador-geral de Proteção de Plantas do Mapa, Paulo Parizzi, essa convenção prevê que os países devem publicar listas de pragas regulamentadas a fim de que os outros países e parceiros comerciais possam ter mais clareza quanto às ações que cada um toma para evitar a introdução de pragas, uma vez que as medidas fitossanitárias devem ser tomadas para pragas que sejam regulamentadas pelo País. “A priorização é importante porque permite desenvolver um trabalho mais focado nas necessidades específicas de cada praga destacada, visando a evitar sua introdução e melhor preparo caso entrem, e dessa forma adotar as medidas necessárias para sua erradicação e controle.”

De acordo com Paulo Parizzi,  a parceria entre o Departamento de Sanidade Vegetal (DSV/Mapa) e a Embrapa traz benefícios tanto para o trabalho de vigilância quanto para a pesquisa. “O DSV se beneficia por poder contar com especialistas para dar suporte científico às suas ações, enquanto a Embrapa tem a possibilidade de ver o resultado de suas pesquisas ser traduzido em ações de regulamentação. Assim, os esforços das duas instituições são somados na luta contra a entrada de pragas quarentenárias.”

Das 20 pragas listadas como prioritárias, três já contam com planos de contingência: o fungo Moniliophthora roreri, que infecta os frutos do cacaueiro; o inseto Cydia pomonella, que ataca principalmente a maçã; e o Candidatus Phytoplasma palmae, fitoplasma que causa o amarelecimento-letal-do-coqueiro. Em março deste ano, o Mapa constituiu grupo de trabalho, do qual participam os pesquisadores Fernando Haddad e Miguel Dita, da Embrapa Mandioca e Fruticultura (BA), para elaborar o alerta fitossanitário e o plano de contingência para a raça 4 Tropical (R4T) de Fusarium oxysporum f. sp. cubense (Foc), fungo que ocasiona a doença conhecida como mal-do-panamá, uma das mais destrutivas da cultura da bananeira. Antes restrita ao sul da Ásia, onde sua rápida e agressiva disseminação tem provocado severas perdas em países como Filipinas, Taiwan, Indonésia e China, a raça 4 tropical, ou R4T, foi detectada no fim de 2013 em plantações da África. Segundo especialistas, sua chegada às Américas é uma questão de tempo. Existem hoje pelo menos 50 variedades suscetíveis ao R4T, o que converte esse patógeno em uma séria ameaça para a bananicultura mundial.

“Esse já é um desdobramento do trabalho de priorização. E o R4T foi considerado em 2015 oficialmente como praga quarentenária ausente pelo Mapa após trabalho desenvolvido pela Embrapa. O mesmo tentamos fazer agora com o vírus da estria- marrom-da-mandioca (CBSV), uma praga muito nociva, um vírus transmitido por mosca-branca, que causa prejuízos incalculáveis na África, que não pôde entrar na lista de prioritárias por ainda não ser reconhecida oficialmente”, conta o pesquisador Francisco Laranjeira, líder do Portfólio de Sanidade Vegetal da Embrapa.

Laranjeira acrescenta que uma das consequências desse trabalho de priorização é a detecção de lacunas, seja no campo do conhecimento científico, seja no da defesa fitossanitária. “Esse vírus da estria-marrom-da-mandioca, por exemplo, não pôde ser considerado na lista de prioritárias porque ainda não é regulamentado como praga quarentenária. Existe fora do País, é exótica, mas como ainda não foi reconhecida oficialmente como quarentenária, não podemos nem começar a trabalhar com ela”, conta. A Embrapa, assim como no caso do R4T, elaborou um documento com informações de pesquisa relacionadas ao estriado-marrom-da-mandioca para que o vírus seja reconhecido pelo Mapa como uma praga quarentenária ausente.

“Então, a tarefa não é simplesmente dizer que tais pragas são prioritárias e a pesquisa vai trabalhar com isso. A atuação conjunta entre o Mapa, a defesa agropecuária e a pesquisa é uma das grandes oportunidades de integração em políticas públicas e desenvolvimento tecnológico que surgiram com esse trabalho de priorização”, diz Laranjeira. Em maio deste ano, foi realizado, na Embrapa Mandioca e Fruticultura, como vitrine do trabalho que vem sendo executado, o Simpósio sobre Pragas Quarentenárias Ausentes de Mandioca e Fruteiras Tropicais, que reuniu especialistas da própria Embrapa, da Agência Estadual de Defesa Agropecuária do Estado da Bahia (Adab) e da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

 

Exemplo da importância dos mecanismos de defesa

Alerta fitossanitário e plano de contingência são mecanismos utilizados pela defesa fitossanitária para prevenir ou reduzir a possibilidade de entrada de material infectado no País, mas, caso isso aconteça, devem maximizar as chances de erradicação dessas pragas. Um exemplo da importância desses mecanismos é o que aconteceu com a Cydia pomonella, que já foi uma praga presente no País de 1991 a 2014. O Mapa constituiu um grupo de trabalho, definindo a implementação de um programa de supressão, substituído posteriormente por um programa de erradicação das plantas hospedeiras. Em 2014, após declarada oficialmente a erradicação da C. pomonella no Brasil, o programa foi substituído por um plano de contingência. Desde então, a C. pomonella continua com status de quarentenária ausente, sendo essa a única erradicação de um inseto-praga no Brasil.

Esse trabalho em torno da Cydia pomonella, coordenado pelo entomologista Adalécio Kovaleski, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho (RS), vem sendo utilizado como referência por vários países. “Frequentemente participo, a convite do Mapa, de discussões comerciais de importação de frutas hospedeiras e tenho auxiliado o Ministério nas questões relativas ao Sistema de Mitigação de Risco para Cydia pomonella com a Argentina, tendo acompanhado seis missões visando a auditar o programa, entre outras atividades”, informa o pesquisador, que foi o responsável pelas primeiras capturas do inseto no País.

 

Metodologia para priorização

Utilizando a metodologia de priorização AHP, as pragas foram ranqueadas de acordo com 20 critérios divididos em três grandes grupos: entrada; estabelecimento e dispersão; e impacto estimado.

Na observação sobre a entrada, consideraram-se distância entre localização mais próxima e a fronteira brasileira, número de países fronteiriços em que ocorre, número geral de países em que ocorre, volume de importação de material hospedeiro/artigo regulamentado, número de importações de material hospedeiro/artigo regulamentado e número de continentes onde a praga ocorre. Estabelecimento e dispersão abrangem adaptação climática no Brasil, número de hospedeiros, área total das culturas hospedeiras, percentual de microrregiões com cultivos de hospedeiros, eficiência de métodos de controle (erradicação), estimativa de distância de dispersão natural anual e probabilidade de dispersão antrópica. E impactos estimados incluem critérios sobre expectativa de percentual de dano, valor da produção anual da cultura hospedeira, número de países que regulamentam a praga, número de estabelecimentos com a cultura hospedeira, número de empregos na cadeia produtiva dos cultivos hospedeiros e potencial de contaminação por agrotóxicos.

A definição dos critérios aconteceu durante workshop realizado em outubro de 2016 na sede da Embrapa, em Brasília, que reuniu oito Unidades (Embrapa Amapá, Embrapa Hortaliças, Embrapa Mandioca e Fruticultura, Embrapa Meio Ambiente, Embrapa Quarentena Vegetal, Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Embrapa Roraima e Embrapa Tabuleiros Costeiros), além do DSV. A ideia do workshop surgiu como resultado de um encontro promovido em agosto pelo DSV, em Brasília, quando a equipe da Embrapa foi convidada para apresentar o Portfólio de Sanidade Vegetal e o Arranjo Quarentena, conjunto de projetos coordenado pela pesquisadora da Embrapa Roraima Elisângela de Morais. “É a primeira vez que oficialmente o DSV e a Embrapa fazem uma lista dessas em conjunto. Isso promove mais integração entre as partes e pode dar, por exemplo, um direcionamento maior em termos de decisão de alocação de recursos para trabalhos com pragas quarentenárias”, analisa Laranjeira.

 

As 20 pragas quarentenárias ausentes prioritárias

 

Confira um breve resumo de cada uma das 20 pragas quarentenárias ausentes priorizadas (em ordem alfabética), com informações básicas sobre qual o tipo de praga, a cultura que ataca, onde está presente hoje no mundo e por que representa uma ameaça para o Brasil. O pesquisador Marcelo Lopes, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF), que integra o grupo de trabalho que atua na priorização, alerta que esse é o status delas atualmente, mas, caso entrem no País, podem apresentar comportamento diferente sob condições brasileiras, atacando, por exemplo, outros tipos de culturas.

African Cassava Mosaic Virus – vírus (mandioca)

Considerada a doença mais significativa da cultura da mandioca, o mosaico da mandioca é causado por um complexo de diferentes vírus, predominante em todas as regiões de cultivo de mandioca da África subsaariana e no subcontinente indiano. Possui várias formas de transmissão, incluindo a enxertia e inoculação mecânica em espécies de plantas herbáceas. Também é propagada por meio de manivas (ramas) infectadas. Uma característica fundamental das áreas geográficas gravemente afetadas pelo mosaico é a presença de grandes populações de moscas-brancas nas plantações, eficiente vetor desse complexo viral. A transmissão é do tipo persistente, e o vírus pode ficar retido na mosca-branca por até nove dias. O African cassava mosaic virus é uma das principais espécies causadoras do mosaico, tendo sido inicialmente descrito em 1894.  A incorporação da resistência a essa doença nas variedades brasileiras tem sido alvo do programa de melhoramento da Embrapa.

Anastrepha suspensa – inseto (goiaba)

Também conhecida como a mosca-das-frutas-do-caribe, ataca preferencialmente a goiaba, mas infesta várias outras espécies de importância econômica, como os citros. É originária das ilhas do Caribe, onde está distribuída por toda aquela região, além do sul e centro da Flórida e Guiana Francesa. Algumas características que a praga possui favorecem a ocorrência de prejuízos: alta variabilidade genética, alto potencial reprodutivo e alta adaptabilidade a diferentes ambientes. Há significativo risco de introdução no Brasil, pela fronteira com o Estado do Amapá. Algumas espécies de Anastrepha podem voar até 135 quilômetros. Portanto, o movimento natural pode ser um meio importante de dispersão. Já no comércio internacional, o principal meio de dispersão para áreas não infestadas é o transporte de frutas contendo larvas vivas.

Bactrocera dorsalis– inseto (frutíferas)

É uma espécie de mosca-das-frutas com alta capacidade reprodutiva. Ataca mais de 300 espécies de plantas, como goiaba, laranja, maçã, manga e pêssego. Está amplamente distribuída na Ásia (onde se originou), em locais como Índia, China, todo o Sudeste Asiático, Nova Guiné, ilhas do Pacífico Sul e Havaí, Filipinas e Palau. É a principal e mais destrutiva praga de frutas nos países em que se encontra e está entre as cinco principais pragas agrícolas no Sudeste Asiático. Sua introdução em novas áreas geralmente ocorre via transporte de frutos infestados, especialmente por passageiros aéreos e encomendas. Bactrocera dorsalis é uma ameaça para a fruticultura brasileira, pois o Brasil é o terceiro maior produtor de frutas do mundo e exporta cerca de 800 mil toneladas de frutas frescas por ano, sendo a maior parte das fruteiras hospedeiras da praga.

Boeremia foveata – fungo (batata)

A gangrena-da-batata tem como agente etiológico o fungo Boeremia foveata. As culturas da batata, beterraba, cenoura, cevada, ervilha, cidra e quinoa são hospedeiras do fungo, que é nativo da região dos Andes. A praga foi relatada em mais de 40 países, distribuídos principalmente pela Europa e de forma mais restrita na Ásia, Oceania, África e América. O risco de introdução no Brasil deve-se à presença do patógeno em países fronteiriços (Colômbia e Peru), além do Chile na América do Sul. Esse fungo pode sobreviver no solo, mas a principal forma de dispersão se dá por trânsito de batatas-sementes infectadas. O risco de introdução é potencializado pela ausência de sintomas nos tubérculos durante o cultivo devido ao período de incubação do patógeno. Há o risco adicional de acometimento de outras culturas nacionais.

Brevipalpus chilensis – ácaro (kiwi, videira)

Ácaro conhecido como falso-ácaro-vermelho-chileno, tem como principal hospedeiro a uva, mas também ataca kiwi, limão, caqui, cherimoia, ligustro e várias flores e plantas ornamentais. O Brevipalpus chilensis foi descrito em 1949 em limões interceptados importados do Chile. Porém, espécimes guardados em museu são datados do início dos anos 1900. É reportado somente no Chile, especialmente a região temperada desse país, causando severos danos em uva para vinho tinto. Os ácaros se desenvolvem na parte de baixo das folhas, principalmente ao longo das nervuras, causando amarelecimento e encarquilhamento de folhas e morte de brotos. Devido ao seu tamanho diminuto, B. chilensis pode ser facilmente transportado em material vegetal vivo ou morto. É uma ameaça para cultivos de uvas no sul do Brasil.

Candidatus Phytoplasma palmae – fitoplasma (coqueiro)

O amarelecimento-letal (AL) é uma doença causada pelo fitoplasma Candidatus Phytoplasma palmae. A variabilidade desse microrganismo é alta, inclusive com relatos de que existem diferentes fitoplasmas associados à doença, a depender da região do planeta em que ocorre. A transmissão desse microrganismo por meio da cigarrinha Haplaxius crudus já foi confirmada, sendo possível também haver outros insetos vetores envolvidos em sua disseminação. Recentemente, espécimes de H. crudus foram coletados na região Norte do Brasil, confirmando a presença do vetor do AL no País. A principal planta hospedeira dessa doença é o coqueiro, sendo considerada a mais devastadora doença dessa cultura no mundo. Porém, o AL também causa a morte de mais de 40 espécies de palmeiras. Até hoje não foi detectada nenhuma variedade de coqueiro resistente. O AL já dizimou plantações na América do Norte (EUA e México) e em diversos países da América Central e Caribe, bem como na África. A região Norte do Brasil pode ser considerada a área com maior risco de introdução do AL, devido à proximidade com o Caribe e ao intenso trânsito de pessoas nas fronteiras portando material vegetal ou insetos transmissores infectados.

Cirsium arvense – planta daninha (trigo, milho, aveia, soja)

Cirsium arvense (L.) Scop. (cardo-canadense) é uma planta infestante extremamente nociva em climas temperados. Afeta lavouras de ervilha, milho, feijões, alfafa, beterraba açucareira, trigo, soja, pastagens e pradarias, entre outras. É de fácil dispersão com sementes minúsculas que podem ser conduzidas pelo vento a distâncias de até mil metros. Acredita-se que o centro de origem seja entre o Mediterrâneo e as zonas temperadas da Europa e sua distribuição nativa engloba norte da África e Eurásia Temperada, que inclui a Ásia menor, Sibéria, China e Japão. Foi introduzida na América do Norte e Hemisfério Sul e hoje se encontra em todas as províncias do Canadá, Nova Zelândia, África do Sul, Chile e sudeste da Austrália. A espécie merece atenção nos estados do Sul do Brasil, pois se apresenta morfologicamente semelhante a outros cardos já existentes nessa região, o que dificultaria sua detecção precoce.

Cydia pomonella – inseto (maçã)

Considerada a principal praga da maçã no mundo, trata-se de um inseto, uma mariposa. Os hospedeiros primários são a maçã, nozes, pera e marmelo, e secundários as frutas de caroço (pêssego, ameixa, nectarina, cereja e damasco). Embora atualmente seja considerada uma praga quarentenária ausente do Brasil, ocorreu entre 1991 até 2014, ano em que foi considerada oficialmente erradicada. No entanto,  sua presença na Argentina e ampla distribuição geográfica (América do Sul, América do Norte, vários países da África, Europa, Rússia, países do Oriente Médio e Austrália) tornam a probabilidade de uma nova introdução não desprezível. O impacto seria considerável, visto o alto potencial biótico da praga para  condições ambientais brasileiras. É uma praga de regulamentação internacional, o que faz com que países importadores das frutas brasileiras imponham restrições sanitárias.

Ditylenchus destructor – nematoide (milho, batata)

Nematoide com ampla gama de hospedeiros, que compreende mais de 90 espécies de plantas, sendo a batata a principal. Outras plantas hospedeiras são batata-doce, cenoura, beterraba, plantas daninhas e várias plantas ornamentais como lírio, tulipa, gladíolo e dália. D. destructor está presente na Europa, Ásia, África do Sul, América do Norte e Oceania. É de significativa importância econômica, causando grandes perdas na cultura da batata, principalmente na Europa e em vários países que formavam a União Soviética. Os efeitos de D. destructor podem ainda ser percebidos após a colheita ou durante o armazenamento dos tubérculos. A espécie é capaz de sobreviver à dessecação e baixas temperaturas. Após o desenvolvimento do nematoide, os tecidos tornam-se necrosados e há invasão de bactérias, fungos, ácaros e outros nematoides.

Fusarium oxysporum f.sp. cubense Raça 4 Tropical – fungo (banana)

O fungo Fusarium oxysporum f.sp. cubense é o agente etiológico da doença denominada mal-do-panamá. A doença ocorre no País, mas especificamente a Raça 4 Tropical desse fungo é uma praga quarentenária ausente do Brasil e das Américas. Estima-se que mais de 80% das bananas cultivadas sejam suscetíveis a essa raça, com destaque para as cultivares do grupo Cavendish, resistentes às raças 1 e 2. A murcha de Fusarium foi descrita pela primeira vez na Austrália em 1876, tendo origem provável no sudeste do continente asiático, no entanto, a nova variante do fungo foi relatada a partir dos anos 1990. A Raça 4 Tropical está presente no norte da Austrália, China, Indonésia, Malásia, Filipinas, Taiwan, Sumatra, Sulawesi, Jordânia e Moçambique. O fungo pode ser disperso associado a plantas infectadas, além de solo contaminado ou qualquer instrumento, equipamento e até mesmo calçados que carreguem solo. O fluxo de água em áreas contaminadas pode aumentar o foco da doença. No Brasil, pode causar sérios impactos à produção visto que praticamente todos os materiais plantados comercialmente são suscetíveis à Raça 4 Tropical.

Globodera rostochiensis – nematoide (batata)

O nematoide do cisto da batata é considerado uma das principais pragas da batata em áreas de clima temperado e também em climas mais quentes nas localidades mediterrânea e chilena onde as batatas são cultivadas durante a temporada inverno-primavera. Possui cerca de 150 espécies hospedeiras do gênero Solanum. Muitas dessas são espécies selvagens encontradas na América do Sul (batata amarela e batata roxa). Está presente também na África, Ásia, América Central (Panamá), Europa, além do Médio Oriente, América do Norte e Oceania. Pode demorar até 20 anos a partir do momento em que G. rostochiensis é introduzido em uma área antes de os sintomas serem observados nas plantas de batata. As perdas podem ser de até 80% em áreas tropicais de cultivo de batata, nos quais o nível de infestação pelo nematoide é alto e o cultivo é contínuo.

Lobesia botrana – inseto (videira)

Inseto conhecido popularmente como traça-da-uva ou traça-dos-cachos-de-uva. Trata-se de uma pequena mariposa, com menos de um centímetro e meio que ataca as flores e os frutos das videiras. É uma praga polífaga, que se desenvolve em plantas de mais de 25 famílias. Na cultura da uva, põe seus ovos isoladamente, distribuindo-os no cacho de uvas, o que dificulta sua visualização, e as lagartas alojam-se no interior dos cachos, sendo difícil o seu controle. Está presente no continente Europeu, nos Estados Unidos e países da América do Sul. Na Europa, é considerada a principal praga da videira. Está presente tanto na Argentina quanto no Chile, que exportam uvas para o Brasil, sendo que a Argentina faz fronteira com o País, ou seja, pode ser introduzida na região Sul, que tem áreas de produção de uvas e condições climáticas para que a praga se estabeleça.

Moniliophthora roreri – fungo (cacau)

A monilíase tem como agente etiológico o fungo Moniliophthora roreri. As culturas do cacaueiro e do cupuaçuzeiro sofrem os maiores impactos da praga. Mas a doença pode incidir também sobre plantas silvestres do gênero Herrania, conhecidas como cacau-jacaré. O primeiro relato da doença foi no Equador em 1917, mas a provável origem do fungo é a Colômbia. A doença está restrita ao continente americano. Há relatos em Belize, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Peru e Venezuela. A incidência da doença em países fronteiriços eleva o risco de introdução no Brasil pela região Norte. Estima-se que a monilíase pode causar perdas de até 80% na produtividade de frutos no Brasil, caso não haja controle da doença, com o consequente abandono de áreas ou aumento dos custos de produção.

Pantoea stewartii – bactéria (milho)

É uma bactéria originária da América e afeta o milho, principalmente o milho doce, causando uma murcha conhecida como a doença de Stewartii. Os sintomas caracterizam-se por listras amarelas, encharcadas ao longo das folhas e pela murcha. A bactéria sobrevive em restos culturais e é transmitida por sementes. Uma forma importante de dispersão dá-se, ainda, pelo inseto-vetor, o besouro Chaetocnema pulicaria. A doença de Stewartii foi verificada, inicialmente, nos Estados Unidos, em 1898. Na Europa, existem relatos na Áustria, Grécia, Polônia, Romênia e Rússia, onde a bactéria é considerada de menor importância devido, provavelmente, à ausência do vetor. Sérios impactos econômicos podem ser considerados com a introdução da bactéria no Brasil devido à importância do milho como alimento ou commodity.

Plum Pox Virus – vírus (pessegueiro, ameixeira)

Sharka ou plum pox é uma das doenças mais destrutivas de frutos de plantas do gênero Prunus. É particularmente prejudicial em damasco, ameixa-europeia, pêssego e ameixa-japonesa, porque reduz a qualidade e causa queda prematura de frutos. A doença foi relatada pela primeira vez em ameixa-europeia na Bulgária em 1917 e descrita como uma doença viral em 1932. Desde então, o vírus se espalhou progressivamente para uma grande parte da Europa. Apresenta distribuição restrita na América do Sul, América do Norte e Ásia. O agente causal, Plum pox virus (PPV), é facilmente transmitido por muitas espécies de afídeos de forma não persistente e por enxertia. O movimento do material vegetal propagativo infectado é a principal maneira pela qual o PPV é disseminado a longas distâncias. A transmissão por enxertia pode contribuir para a disseminação viral se o material de plantio a ser utilizado não for certificado.

Striga spp. – planta daninha (milho, caupi)

Striga ou witchweed (erva-de-bruxa) é um gênero parasita do sistema radicular que drena nutrientes, carboidratos e água das plantas hospedeiras causando atrofia, murcha e clorose. Mais de 30 espécies de striga são reconhecidas no mundo, 80% das quais são endêmicas na África. Striga asiatica (L.) Kuntze é semiparasita de cereais como milho, sorgo e arroz e de cana-de-açúcar, e é considerada a espécie do gênero mais difundida pelo mundo. Ocorre na África, península arábica, Ásia e no fim do século XX já havia infestado 200 mil hectares na Carolina do Norte (EUA) antes de ser notificada. Striga hermonthica (Delile) Benth., também semiparasita, está adaptada a infectar gramíneas dos trópicos semiáridos da África. Já Striga gesnerioides (Willd.) Vatke tem o hábito holoparasita (parasitismo completo), sendo praga de fumo, feijão-caupi e batata-doce. Essa espécie ocorre no Leste da África e recentemente foi relatada na Flórida e Guiana.

Tomato ringspot virus – vírus (frutíferas e tomate)

Vírus que infecta fruteiras de clima temperado, como framboesa, amora, maçã, ameixa, cereja, pêssego, uva e morango, que são propagadas principalmente por mudas e estacas, perpetuando os vírus nos pomares, caso o material esteja infectado. Além disso, é transmitido por sementes de framboesa, morango, pelargônio, soja, tabaco e tomate. Também infecta pimenta, pepino, lírio e orquídeas. A disseminação a curta distância dentro do cultivo ocorre principalmente via vetor, que são nematoides. O vírus está amplamente disseminado na América do Norte e Europa, ocorrendo também na Austrália e Nova Zelândia, e de forma mais restrita na África, Ásia, América Central e América do Sul. A principal ameaça do vírus ao Brasil está representada por sua ampla gama de hospedeiros. Essa ameaça pode se tornar maior em virtude de trânsito de material vegetal infectado e solo com presença de nematoides transmissores.

Toxotrypana curvicauda – inseto (mamão)

Conhecido como a mosca-do-mamão, o inseto também já foi encontrado em manga e outras plantas. Está presente na América Central e Caribe (Bahamas, Belize, Costa Rica, Cuba, República Dominicana, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, Nicarágua, Panamá, Porto Rico, São Cristóvão e Neves, Trinidad e Tobago, Ilhas Virgens dos Estados Unidos); na América do Norte (México e Estados Unidos) e na América do Sul (Colômbia e Venezuela). É a principal praga de mamão nas regiões tropicais e subtropicais dessas regiões. Os frutos infestados com suas larvas tornam-se amarelos e caem da árvore prematuramente. A praga dissemina-se por meio do transporte de frutos infestados e por amostras de solo. Considerando a relevância socioeconômica do cultivo de mamão no Brasil (um dos maiores produtores e exportadores da fruta), a introdução de Toxotrypana curvicauda no País causaria grandes prejuízos.

Xanthomonas oryzae pv. oryzae – bactéria (arroz)

Trata-se de uma bactéria que causa a queima bacteriana do arroz ou a murcha denominada “Kresek” em plântulas. Foi relatada primeiramente no Japão em 1922 e se dispersou para Bangladesh, China, Coreia, Filipinas, Índia, Indonésia, Malásia, Mianmar, Nepal, Paquistão, Sri Lanka, Tailândia, Taiwan, Vietnã, Austrália, Bolívia, Colômbia, Burkina Faso, Camarões, Costa Rica, El Salvador, Equador, Gabão, Honduras, Mali, México, Niger, Panamá, Rússia, Senegal, Togo, Estados Unidos e Venezuela. O seu potencial de introdução em áreas indenes ocorre por meio de sementes, solos e água contaminados e por meio de plantas selvagens. Representa uma ameaça para o Brasil, pois a bactéria pode ser introduzida pelas sementes e se adaptar em áreas de plantio com temperaturas e umidade elevadas em diferentes biomas.

Xylella fastidiosa subsp. fastidiosa – bactéria (videira)

A bactéria Xylella fastidiosa subsp. fastidiosa causa a doença conhecida como mal- de-pierce da videira, além de infectar outras espécies vegetais, incluindo a amendoeira e a alfafa. A doença foi primeiramente descrita em 1892, nos Estados Unidos, onde foi responsável pelo desaparecimento de extensas áreas de plantio de uvas viníferas e americanas. Até há pouco tempo, a espécie Xylella fastidiosa estava presente nas Américas, mas, nos dois últimos anos, sua ocorrência foi registrada na Ásia e na Europa (França, Itália, Alemanha e Espanha). X. fastidiosa subsp. fastidiosa representa grande ameaça por ser altamente agressiva, de difícil controle e por ser disseminada por insetos vetores, as cigarrinhas. O controle químico dos vetores não traz resultados promissores. A bactéria pode se dispersar por meio de material de propagação vegetativa contaminado e pode causar sérios danos à viticultura do País na circunstância de uma introdução inadvertida.

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Brasil lista 20 pragas agrícolas mais importantes que ainda não chegaram ao País

Por Oswaldo Scaliotti em Eventos

04 de outubro de 2017

Foto: Justin Anthony Groves

A planta dainha Cirsium arvense prejudica trigo,soja, aveia e milho

 

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e a Embrapa elaboraram, pela primeira vez em conjunto, uma lista com as 20 pragas quarentenárias ausentes prioritárias para ações de vigilância e pesquisa, que ameaçam, caso entrem no País, culturas como milho, soja, mandioca, batata, arroz e várias frutas. Três das pragas listadas já contam, inclusive, com planos de contingência. Existem atualmente cerca de 500 pragas quarentenárias – entre fungos, insetos, bactérias, vírus, nematoides e plantas daninhas – oficialmente reconhecidas como ausentes no Brasil.

Em 2007, o Ministério publicou a Instrução Normativa nº 52, que estabeleceu a lista de pragas quarentenárias ausentes e presentes. A publicação dessa lista é uma das obrigações do País como membro da Convenção Internacional para Proteção dos Vegetais (CIPV). De acordo com o coordenador-geral de Proteção de Plantas do Mapa, Paulo Parizzi, essa convenção prevê que os países devem publicar listas de pragas regulamentadas a fim de que os outros países e parceiros comerciais possam ter mais clareza quanto às ações que cada um toma para evitar a introdução de pragas, uma vez que as medidas fitossanitárias devem ser tomadas para pragas que sejam regulamentadas pelo País. “A priorização é importante porque permite desenvolver um trabalho mais focado nas necessidades específicas de cada praga destacada, visando a evitar sua introdução e melhor preparo caso entrem, e dessa forma adotar as medidas necessárias para sua erradicação e controle.”

De acordo com Paulo Parizzi,  a parceria entre o Departamento de Sanidade Vegetal (DSV/Mapa) e a Embrapa traz benefícios tanto para o trabalho de vigilância quanto para a pesquisa. “O DSV se beneficia por poder contar com especialistas para dar suporte científico às suas ações, enquanto a Embrapa tem a possibilidade de ver o resultado de suas pesquisas ser traduzido em ações de regulamentação. Assim, os esforços das duas instituições são somados na luta contra a entrada de pragas quarentenárias.”

Das 20 pragas listadas como prioritárias, três já contam com planos de contingência: o fungo Moniliophthora roreri, que infecta os frutos do cacaueiro; o inseto Cydia pomonella, que ataca principalmente a maçã; e o Candidatus Phytoplasma palmae, fitoplasma que causa o amarelecimento-letal-do-coqueiro. Em março deste ano, o Mapa constituiu grupo de trabalho, do qual participam os pesquisadores Fernando Haddad e Miguel Dita, da Embrapa Mandioca e Fruticultura (BA), para elaborar o alerta fitossanitário e o plano de contingência para a raça 4 Tropical (R4T) de Fusarium oxysporum f. sp. cubense (Foc), fungo que ocasiona a doença conhecida como mal-do-panamá, uma das mais destrutivas da cultura da bananeira. Antes restrita ao sul da Ásia, onde sua rápida e agressiva disseminação tem provocado severas perdas em países como Filipinas, Taiwan, Indonésia e China, a raça 4 tropical, ou R4T, foi detectada no fim de 2013 em plantações da África. Segundo especialistas, sua chegada às Américas é uma questão de tempo. Existem hoje pelo menos 50 variedades suscetíveis ao R4T, o que converte esse patógeno em uma séria ameaça para a bananicultura mundial.

“Esse já é um desdobramento do trabalho de priorização. E o R4T foi considerado em 2015 oficialmente como praga quarentenária ausente pelo Mapa após trabalho desenvolvido pela Embrapa. O mesmo tentamos fazer agora com o vírus da estria- marrom-da-mandioca (CBSV), uma praga muito nociva, um vírus transmitido por mosca-branca, que causa prejuízos incalculáveis na África, que não pôde entrar na lista de prioritárias por ainda não ser reconhecida oficialmente”, conta o pesquisador Francisco Laranjeira, líder do Portfólio de Sanidade Vegetal da Embrapa.

Laranjeira acrescenta que uma das consequências desse trabalho de priorização é a detecção de lacunas, seja no campo do conhecimento científico, seja no da defesa fitossanitária. “Esse vírus da estria-marrom-da-mandioca, por exemplo, não pôde ser considerado na lista de prioritárias porque ainda não é regulamentado como praga quarentenária. Existe fora do País, é exótica, mas como ainda não foi reconhecida oficialmente como quarentenária, não podemos nem começar a trabalhar com ela”, conta. A Embrapa, assim como no caso do R4T, elaborou um documento com informações de pesquisa relacionadas ao estriado-marrom-da-mandioca para que o vírus seja reconhecido pelo Mapa como uma praga quarentenária ausente.

“Então, a tarefa não é simplesmente dizer que tais pragas são prioritárias e a pesquisa vai trabalhar com isso. A atuação conjunta entre o Mapa, a defesa agropecuária e a pesquisa é uma das grandes oportunidades de integração em políticas públicas e desenvolvimento tecnológico que surgiram com esse trabalho de priorização”, diz Laranjeira. Em maio deste ano, foi realizado, na Embrapa Mandioca e Fruticultura, como vitrine do trabalho que vem sendo executado, o Simpósio sobre Pragas Quarentenárias Ausentes de Mandioca e Fruteiras Tropicais, que reuniu especialistas da própria Embrapa, da Agência Estadual de Defesa Agropecuária do Estado da Bahia (Adab) e da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

 

Exemplo da importância dos mecanismos de defesa

Alerta fitossanitário e plano de contingência são mecanismos utilizados pela defesa fitossanitária para prevenir ou reduzir a possibilidade de entrada de material infectado no País, mas, caso isso aconteça, devem maximizar as chances de erradicação dessas pragas. Um exemplo da importância desses mecanismos é o que aconteceu com a Cydia pomonella, que já foi uma praga presente no País de 1991 a 2014. O Mapa constituiu um grupo de trabalho, definindo a implementação de um programa de supressão, substituído posteriormente por um programa de erradicação das plantas hospedeiras. Em 2014, após declarada oficialmente a erradicação da C. pomonella no Brasil, o programa foi substituído por um plano de contingência. Desde então, a C. pomonella continua com status de quarentenária ausente, sendo essa a única erradicação de um inseto-praga no Brasil.

Esse trabalho em torno da Cydia pomonella, coordenado pelo entomologista Adalécio Kovaleski, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho (RS), vem sendo utilizado como referência por vários países. “Frequentemente participo, a convite do Mapa, de discussões comerciais de importação de frutas hospedeiras e tenho auxiliado o Ministério nas questões relativas ao Sistema de Mitigação de Risco para Cydia pomonella com a Argentina, tendo acompanhado seis missões visando a auditar o programa, entre outras atividades”, informa o pesquisador, que foi o responsável pelas primeiras capturas do inseto no País.

 

Metodologia para priorização

Utilizando a metodologia de priorização AHP, as pragas foram ranqueadas de acordo com 20 critérios divididos em três grandes grupos: entrada; estabelecimento e dispersão; e impacto estimado.

Na observação sobre a entrada, consideraram-se distância entre localização mais próxima e a fronteira brasileira, número de países fronteiriços em que ocorre, número geral de países em que ocorre, volume de importação de material hospedeiro/artigo regulamentado, número de importações de material hospedeiro/artigo regulamentado e número de continentes onde a praga ocorre. Estabelecimento e dispersão abrangem adaptação climática no Brasil, número de hospedeiros, área total das culturas hospedeiras, percentual de microrregiões com cultivos de hospedeiros, eficiência de métodos de controle (erradicação), estimativa de distância de dispersão natural anual e probabilidade de dispersão antrópica. E impactos estimados incluem critérios sobre expectativa de percentual de dano, valor da produção anual da cultura hospedeira, número de países que regulamentam a praga, número de estabelecimentos com a cultura hospedeira, número de empregos na cadeia produtiva dos cultivos hospedeiros e potencial de contaminação por agrotóxicos.

A definição dos critérios aconteceu durante workshop realizado em outubro de 2016 na sede da Embrapa, em Brasília, que reuniu oito Unidades (Embrapa Amapá, Embrapa Hortaliças, Embrapa Mandioca e Fruticultura, Embrapa Meio Ambiente, Embrapa Quarentena Vegetal, Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Embrapa Roraima e Embrapa Tabuleiros Costeiros), além do DSV. A ideia do workshop surgiu como resultado de um encontro promovido em agosto pelo DSV, em Brasília, quando a equipe da Embrapa foi convidada para apresentar o Portfólio de Sanidade Vegetal e o Arranjo Quarentena, conjunto de projetos coordenado pela pesquisadora da Embrapa Roraima Elisângela de Morais. “É a primeira vez que oficialmente o DSV e a Embrapa fazem uma lista dessas em conjunto. Isso promove mais integração entre as partes e pode dar, por exemplo, um direcionamento maior em termos de decisão de alocação de recursos para trabalhos com pragas quarentenárias”, analisa Laranjeira.

 

As 20 pragas quarentenárias ausentes prioritárias

 

Confira um breve resumo de cada uma das 20 pragas quarentenárias ausentes priorizadas (em ordem alfabética), com informações básicas sobre qual o tipo de praga, a cultura que ataca, onde está presente hoje no mundo e por que representa uma ameaça para o Brasil. O pesquisador Marcelo Lopes, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF), que integra o grupo de trabalho que atua na priorização, alerta que esse é o status delas atualmente, mas, caso entrem no País, podem apresentar comportamento diferente sob condições brasileiras, atacando, por exemplo, outros tipos de culturas.

African Cassava Mosaic Virus – vírus (mandioca)

Considerada a doença mais significativa da cultura da mandioca, o mosaico da mandioca é causado por um complexo de diferentes vírus, predominante em todas as regiões de cultivo de mandioca da África subsaariana e no subcontinente indiano. Possui várias formas de transmissão, incluindo a enxertia e inoculação mecânica em espécies de plantas herbáceas. Também é propagada por meio de manivas (ramas) infectadas. Uma característica fundamental das áreas geográficas gravemente afetadas pelo mosaico é a presença de grandes populações de moscas-brancas nas plantações, eficiente vetor desse complexo viral. A transmissão é do tipo persistente, e o vírus pode ficar retido na mosca-branca por até nove dias. O African cassava mosaic virus é uma das principais espécies causadoras do mosaico, tendo sido inicialmente descrito em 1894.  A incorporação da resistência a essa doença nas variedades brasileiras tem sido alvo do programa de melhoramento da Embrapa.

Anastrepha suspensa – inseto (goiaba)

Também conhecida como a mosca-das-frutas-do-caribe, ataca preferencialmente a goiaba, mas infesta várias outras espécies de importância econômica, como os citros. É originária das ilhas do Caribe, onde está distribuída por toda aquela região, além do sul e centro da Flórida e Guiana Francesa. Algumas características que a praga possui favorecem a ocorrência de prejuízos: alta variabilidade genética, alto potencial reprodutivo e alta adaptabilidade a diferentes ambientes. Há significativo risco de introdução no Brasil, pela fronteira com o Estado do Amapá. Algumas espécies de Anastrepha podem voar até 135 quilômetros. Portanto, o movimento natural pode ser um meio importante de dispersão. Já no comércio internacional, o principal meio de dispersão para áreas não infestadas é o transporte de frutas contendo larvas vivas.

Bactrocera dorsalis– inseto (frutíferas)

É uma espécie de mosca-das-frutas com alta capacidade reprodutiva. Ataca mais de 300 espécies de plantas, como goiaba, laranja, maçã, manga e pêssego. Está amplamente distribuída na Ásia (onde se originou), em locais como Índia, China, todo o Sudeste Asiático, Nova Guiné, ilhas do Pacífico Sul e Havaí, Filipinas e Palau. É a principal e mais destrutiva praga de frutas nos países em que se encontra e está entre as cinco principais pragas agrícolas no Sudeste Asiático. Sua introdução em novas áreas geralmente ocorre via transporte de frutos infestados, especialmente por passageiros aéreos e encomendas. Bactrocera dorsalis é uma ameaça para a fruticultura brasileira, pois o Brasil é o terceiro maior produtor de frutas do mundo e exporta cerca de 800 mil toneladas de frutas frescas por ano, sendo a maior parte das fruteiras hospedeiras da praga.

Boeremia foveata – fungo (batata)

A gangrena-da-batata tem como agente etiológico o fungo Boeremia foveata. As culturas da batata, beterraba, cenoura, cevada, ervilha, cidra e quinoa são hospedeiras do fungo, que é nativo da região dos Andes. A praga foi relatada em mais de 40 países, distribuídos principalmente pela Europa e de forma mais restrita na Ásia, Oceania, África e América. O risco de introdução no Brasil deve-se à presença do patógeno em países fronteiriços (Colômbia e Peru), além do Chile na América do Sul. Esse fungo pode sobreviver no solo, mas a principal forma de dispersão se dá por trânsito de batatas-sementes infectadas. O risco de introdução é potencializado pela ausência de sintomas nos tubérculos durante o cultivo devido ao período de incubação do patógeno. Há o risco adicional de acometimento de outras culturas nacionais.

Brevipalpus chilensis – ácaro (kiwi, videira)

Ácaro conhecido como falso-ácaro-vermelho-chileno, tem como principal hospedeiro a uva, mas também ataca kiwi, limão, caqui, cherimoia, ligustro e várias flores e plantas ornamentais. O Brevipalpus chilensis foi descrito em 1949 em limões interceptados importados do Chile. Porém, espécimes guardados em museu são datados do início dos anos 1900. É reportado somente no Chile, especialmente a região temperada desse país, causando severos danos em uva para vinho tinto. Os ácaros se desenvolvem na parte de baixo das folhas, principalmente ao longo das nervuras, causando amarelecimento e encarquilhamento de folhas e morte de brotos. Devido ao seu tamanho diminuto, B. chilensis pode ser facilmente transportado em material vegetal vivo ou morto. É uma ameaça para cultivos de uvas no sul do Brasil.

Candidatus Phytoplasma palmae – fitoplasma (coqueiro)

O amarelecimento-letal (AL) é uma doença causada pelo fitoplasma Candidatus Phytoplasma palmae. A variabilidade desse microrganismo é alta, inclusive com relatos de que existem diferentes fitoplasmas associados à doença, a depender da região do planeta em que ocorre. A transmissão desse microrganismo por meio da cigarrinha Haplaxius crudus já foi confirmada, sendo possível também haver outros insetos vetores envolvidos em sua disseminação. Recentemente, espécimes de H. crudus foram coletados na região Norte do Brasil, confirmando a presença do vetor do AL no País. A principal planta hospedeira dessa doença é o coqueiro, sendo considerada a mais devastadora doença dessa cultura no mundo. Porém, o AL também causa a morte de mais de 40 espécies de palmeiras. Até hoje não foi detectada nenhuma variedade de coqueiro resistente. O AL já dizimou plantações na América do Norte (EUA e México) e em diversos países da América Central e Caribe, bem como na África. A região Norte do Brasil pode ser considerada a área com maior risco de introdução do AL, devido à proximidade com o Caribe e ao intenso trânsito de pessoas nas fronteiras portando material vegetal ou insetos transmissores infectados.

Cirsium arvense – planta daninha (trigo, milho, aveia, soja)

Cirsium arvense (L.) Scop. (cardo-canadense) é uma planta infestante extremamente nociva em climas temperados. Afeta lavouras de ervilha, milho, feijões, alfafa, beterraba açucareira, trigo, soja, pastagens e pradarias, entre outras. É de fácil dispersão com sementes minúsculas que podem ser conduzidas pelo vento a distâncias de até mil metros. Acredita-se que o centro de origem seja entre o Mediterrâneo e as zonas temperadas da Europa e sua distribuição nativa engloba norte da África e Eurásia Temperada, que inclui a Ásia menor, Sibéria, China e Japão. Foi introduzida na América do Norte e Hemisfério Sul e hoje se encontra em todas as províncias do Canadá, Nova Zelândia, África do Sul, Chile e sudeste da Austrália. A espécie merece atenção nos estados do Sul do Brasil, pois se apresenta morfologicamente semelhante a outros cardos já existentes nessa região, o que dificultaria sua detecção precoce.

Cydia pomonella – inseto (maçã)

Considerada a principal praga da maçã no mundo, trata-se de um inseto, uma mariposa. Os hospedeiros primários são a maçã, nozes, pera e marmelo, e secundários as frutas de caroço (pêssego, ameixa, nectarina, cereja e damasco). Embora atualmente seja considerada uma praga quarentenária ausente do Brasil, ocorreu entre 1991 até 2014, ano em que foi considerada oficialmente erradicada. No entanto,  sua presença na Argentina e ampla distribuição geográfica (América do Sul, América do Norte, vários países da África, Europa, Rússia, países do Oriente Médio e Austrália) tornam a probabilidade de uma nova introdução não desprezível. O impacto seria considerável, visto o alto potencial biótico da praga para  condições ambientais brasileiras. É uma praga de regulamentação internacional, o que faz com que países importadores das frutas brasileiras imponham restrições sanitárias.

Ditylenchus destructor – nematoide (milho, batata)

Nematoide com ampla gama de hospedeiros, que compreende mais de 90 espécies de plantas, sendo a batata a principal. Outras plantas hospedeiras são batata-doce, cenoura, beterraba, plantas daninhas e várias plantas ornamentais como lírio, tulipa, gladíolo e dália. D. destructor está presente na Europa, Ásia, África do Sul, América do Norte e Oceania. É de significativa importância econômica, causando grandes perdas na cultura da batata, principalmente na Europa e em vários países que formavam a União Soviética. Os efeitos de D. destructor podem ainda ser percebidos após a colheita ou durante o armazenamento dos tubérculos. A espécie é capaz de sobreviver à dessecação e baixas temperaturas. Após o desenvolvimento do nematoide, os tecidos tornam-se necrosados e há invasão de bactérias, fungos, ácaros e outros nematoides.

Fusarium oxysporum f.sp. cubense Raça 4 Tropical – fungo (banana)

O fungo Fusarium oxysporum f.sp. cubense é o agente etiológico da doença denominada mal-do-panamá. A doença ocorre no País, mas especificamente a Raça 4 Tropical desse fungo é uma praga quarentenária ausente do Brasil e das Américas. Estima-se que mais de 80% das bananas cultivadas sejam suscetíveis a essa raça, com destaque para as cultivares do grupo Cavendish, resistentes às raças 1 e 2. A murcha de Fusarium foi descrita pela primeira vez na Austrália em 1876, tendo origem provável no sudeste do continente asiático, no entanto, a nova variante do fungo foi relatada a partir dos anos 1990. A Raça 4 Tropical está presente no norte da Austrália, China, Indonésia, Malásia, Filipinas, Taiwan, Sumatra, Sulawesi, Jordânia e Moçambique. O fungo pode ser disperso associado a plantas infectadas, além de solo contaminado ou qualquer instrumento, equipamento e até mesmo calçados que carreguem solo. O fluxo de água em áreas contaminadas pode aumentar o foco da doença. No Brasil, pode causar sérios impactos à produção visto que praticamente todos os materiais plantados comercialmente são suscetíveis à Raça 4 Tropical.

Globodera rostochiensis – nematoide (batata)

O nematoide do cisto da batata é considerado uma das principais pragas da batata em áreas de clima temperado e também em climas mais quentes nas localidades mediterrânea e chilena onde as batatas são cultivadas durante a temporada inverno-primavera. Possui cerca de 150 espécies hospedeiras do gênero Solanum. Muitas dessas são espécies selvagens encontradas na América do Sul (batata amarela e batata roxa). Está presente também na África, Ásia, América Central (Panamá), Europa, além do Médio Oriente, América do Norte e Oceania. Pode demorar até 20 anos a partir do momento em que G. rostochiensis é introduzido em uma área antes de os sintomas serem observados nas plantas de batata. As perdas podem ser de até 80% em áreas tropicais de cultivo de batata, nos quais o nível de infestação pelo nematoide é alto e o cultivo é contínuo.

Lobesia botrana – inseto (videira)

Inseto conhecido popularmente como traça-da-uva ou traça-dos-cachos-de-uva. Trata-se de uma pequena mariposa, com menos de um centímetro e meio que ataca as flores e os frutos das videiras. É uma praga polífaga, que se desenvolve em plantas de mais de 25 famílias. Na cultura da uva, põe seus ovos isoladamente, distribuindo-os no cacho de uvas, o que dificulta sua visualização, e as lagartas alojam-se no interior dos cachos, sendo difícil o seu controle. Está presente no continente Europeu, nos Estados Unidos e países da América do Sul. Na Europa, é considerada a principal praga da videira. Está presente tanto na Argentina quanto no Chile, que exportam uvas para o Brasil, sendo que a Argentina faz fronteira com o País, ou seja, pode ser introduzida na região Sul, que tem áreas de produção de uvas e condições climáticas para que a praga se estabeleça.

Moniliophthora roreri – fungo (cacau)

A monilíase tem como agente etiológico o fungo Moniliophthora roreri. As culturas do cacaueiro e do cupuaçuzeiro sofrem os maiores impactos da praga. Mas a doença pode incidir também sobre plantas silvestres do gênero Herrania, conhecidas como cacau-jacaré. O primeiro relato da doença foi no Equador em 1917, mas a provável origem do fungo é a Colômbia. A doença está restrita ao continente americano. Há relatos em Belize, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Peru e Venezuela. A incidência da doença em países fronteiriços eleva o risco de introdução no Brasil pela região Norte. Estima-se que a monilíase pode causar perdas de até 80% na produtividade de frutos no Brasil, caso não haja controle da doença, com o consequente abandono de áreas ou aumento dos custos de produção.

Pantoea stewartii – bactéria (milho)

É uma bactéria originária da América e afeta o milho, principalmente o milho doce, causando uma murcha conhecida como a doença de Stewartii. Os sintomas caracterizam-se por listras amarelas, encharcadas ao longo das folhas e pela murcha. A bactéria sobrevive em restos culturais e é transmitida por sementes. Uma forma importante de dispersão dá-se, ainda, pelo inseto-vetor, o besouro Chaetocnema pulicaria. A doença de Stewartii foi verificada, inicialmente, nos Estados Unidos, em 1898. Na Europa, existem relatos na Áustria, Grécia, Polônia, Romênia e Rússia, onde a bactéria é considerada de menor importância devido, provavelmente, à ausência do vetor. Sérios impactos econômicos podem ser considerados com a introdução da bactéria no Brasil devido à importância do milho como alimento ou commodity.

Plum Pox Virus – vírus (pessegueiro, ameixeira)

Sharka ou plum pox é uma das doenças mais destrutivas de frutos de plantas do gênero Prunus. É particularmente prejudicial em damasco, ameixa-europeia, pêssego e ameixa-japonesa, porque reduz a qualidade e causa queda prematura de frutos. A doença foi relatada pela primeira vez em ameixa-europeia na Bulgária em 1917 e descrita como uma doença viral em 1932. Desde então, o vírus se espalhou progressivamente para uma grande parte da Europa. Apresenta distribuição restrita na América do Sul, América do Norte e Ásia. O agente causal, Plum pox virus (PPV), é facilmente transmitido por muitas espécies de afídeos de forma não persistente e por enxertia. O movimento do material vegetal propagativo infectado é a principal maneira pela qual o PPV é disseminado a longas distâncias. A transmissão por enxertia pode contribuir para a disseminação viral se o material de plantio a ser utilizado não for certificado.

Striga spp. – planta daninha (milho, caupi)

Striga ou witchweed (erva-de-bruxa) é um gênero parasita do sistema radicular que drena nutrientes, carboidratos e água das plantas hospedeiras causando atrofia, murcha e clorose. Mais de 30 espécies de striga são reconhecidas no mundo, 80% das quais são endêmicas na África. Striga asiatica (L.) Kuntze é semiparasita de cereais como milho, sorgo e arroz e de cana-de-açúcar, e é considerada a espécie do gênero mais difundida pelo mundo. Ocorre na África, península arábica, Ásia e no fim do século XX já havia infestado 200 mil hectares na Carolina do Norte (EUA) antes de ser notificada. Striga hermonthica (Delile) Benth., também semiparasita, está adaptada a infectar gramíneas dos trópicos semiáridos da África. Já Striga gesnerioides (Willd.) Vatke tem o hábito holoparasita (parasitismo completo), sendo praga de fumo, feijão-caupi e batata-doce. Essa espécie ocorre no Leste da África e recentemente foi relatada na Flórida e Guiana.

Tomato ringspot virus – vírus (frutíferas e tomate)

Vírus que infecta fruteiras de clima temperado, como framboesa, amora, maçã, ameixa, cereja, pêssego, uva e morango, que são propagadas principalmente por mudas e estacas, perpetuando os vírus nos pomares, caso o material esteja infectado. Além disso, é transmitido por sementes de framboesa, morango, pelargônio, soja, tabaco e tomate. Também infecta pimenta, pepino, lírio e orquídeas. A disseminação a curta distância dentro do cultivo ocorre principalmente via vetor, que são nematoides. O vírus está amplamente disseminado na América do Norte e Europa, ocorrendo também na Austrália e Nova Zelândia, e de forma mais restrita na África, Ásia, América Central e América do Sul. A principal ameaça do vírus ao Brasil está representada por sua ampla gama de hospedeiros. Essa ameaça pode se tornar maior em virtude de trânsito de material vegetal infectado e solo com presença de nematoides transmissores.

Toxotrypana curvicauda – inseto (mamão)

Conhecido como a mosca-do-mamão, o inseto também já foi encontrado em manga e outras plantas. Está presente na América Central e Caribe (Bahamas, Belize, Costa Rica, Cuba, República Dominicana, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, Nicarágua, Panamá, Porto Rico, São Cristóvão e Neves, Trinidad e Tobago, Ilhas Virgens dos Estados Unidos); na América do Norte (México e Estados Unidos) e na América do Sul (Colômbia e Venezuela). É a principal praga de mamão nas regiões tropicais e subtropicais dessas regiões. Os frutos infestados com suas larvas tornam-se amarelos e caem da árvore prematuramente. A praga dissemina-se por meio do transporte de frutos infestados e por amostras de solo. Considerando a relevância socioeconômica do cultivo de mamão no Brasil (um dos maiores produtores e exportadores da fruta), a introdução de Toxotrypana curvicauda no País causaria grandes prejuízos.

Xanthomonas oryzae pv. oryzae – bactéria (arroz)

Trata-se de uma bactéria que causa a queima bacteriana do arroz ou a murcha denominada “Kresek” em plântulas. Foi relatada primeiramente no Japão em 1922 e se dispersou para Bangladesh, China, Coreia, Filipinas, Índia, Indonésia, Malásia, Mianmar, Nepal, Paquistão, Sri Lanka, Tailândia, Taiwan, Vietnã, Austrália, Bolívia, Colômbia, Burkina Faso, Camarões, Costa Rica, El Salvador, Equador, Gabão, Honduras, Mali, México, Niger, Panamá, Rússia, Senegal, Togo, Estados Unidos e Venezuela. O seu potencial de introdução em áreas indenes ocorre por meio de sementes, solos e água contaminados e por meio de plantas selvagens. Representa uma ameaça para o Brasil, pois a bactéria pode ser introduzida pelas sementes e se adaptar em áreas de plantio com temperaturas e umidade elevadas em diferentes biomas.

Xylella fastidiosa subsp. fastidiosa – bactéria (videira)

A bactéria Xylella fastidiosa subsp. fastidiosa causa a doença conhecida como mal- de-pierce da videira, além de infectar outras espécies vegetais, incluindo a amendoeira e a alfafa. A doença foi primeiramente descrita em 1892, nos Estados Unidos, onde foi responsável pelo desaparecimento de extensas áreas de plantio de uvas viníferas e americanas. Até há pouco tempo, a espécie Xylella fastidiosa estava presente nas Américas, mas, nos dois últimos anos, sua ocorrência foi registrada na Ásia e na Europa (França, Itália, Alemanha e Espanha). X. fastidiosa subsp. fastidiosa representa grande ameaça por ser altamente agressiva, de difícil controle e por ser disseminada por insetos vetores, as cigarrinhas. O controle químico dos vetores não traz resultados promissores. A bactéria pode se dispersar por meio de material de propagação vegetativa contaminado e pode causar sérios danos à viticultura do País na circunstância de uma introdução inadvertida.