Crítica: Encontrando equilíbrio, "Capitã Marvel" é um filme de origem redondo e eficiente 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: Encontrando equilíbrio, “Capitã Marvel” é um filme de origem redondo e eficiente

Por Thiago Sampaio em Crítica

12 de Março de 2019

Foto: Divulgação

Mais de dez anos depois do início do tão bem sucedido universo Marvel nos cinemas, o estúdio finalmente ganha o seu primeiro longa estrelado por uma heroína do sexo feminino, rodeado de expectativas pelos fãs por ser o último filme antes do tão aguardado “Vingadores: Ultimato” (Avengers: Endgame, 2019), em que muitos aguardam ganchos sugestivos.

Além disso, vem sofrendo até ameaças de boicote após declarações da protagonista Brie Larson em que disse que os eventos para a imprensa deveriam ser mais inclusivos. Afinal, há motivo para tanto incômodo? Não! “Capitã Marvel” (Captain Marvel, 2019) está longe de ser um filme marcante, tem os seus defeitos, mas o resultado é um longa bem amarrado dentro do próprio arco, transmitindo suas ideias com sutileza.

Na trama, Carol Danvers (Brie Larson) é uma ex-agente da Força Aérea norte-americana, que, sem se lembrar de sua vida na Terra, é recrutada pelos Kree para fazer parte de seu exército de elite. Inimiga declarada dos Skrull, ela acaba voltando ao seu planeta de origem para impedir uma invasão dos metaformos e, assim, vai acabar descobrindo a verdade sobre si, com a ajuda do agente Nick Fury (Samuel L. Jackson).

Dirigido pela dupla Anna Boden e Ryan Fleck (que fizeram o mediano “Mississipi Grind”, 2015), responsáveis também pelo roteiro, que teve intervenções de Geneva Robertson-Dworet (“Tomb Raider“, 2018), Nicole Perlman (“Os Guardiões da Galáxia”, 2014) e Meg LeFauve (“Divertida Mente“, 2015) – afinal, era necessário o toque feminino com muitas revisões – , a impressão é de que o estúdio agiu de maneira protocolar, com o menor risco de erros. E jogando com o regulamento debaixo do braço, a Marvel/Disney sabe o que fazer e entregou mais um produto que cumpre bem o seu dever, erguendo o tapete para a personagem que vai ter papel fundamental no megacrossover que virá em seguida.

Os próprios realizadores mostram consciência do próprio erro ao atrasaram em uma década o seu produto protagonizado por uma mulher, tanto que migraram a trama para os anos 90. Por mais que se trate de mais uma história de origem depois de tantas, eles tratam de organizar a narrativa de maneira não linear. A protagonista já surge num ambiente desconhecido, com a insegurança da falta de memória, sem sequer saber quem de fato é. Para isso, os flashbacks são incluídos ao longo do filme, tornando-o mais dinâmico nesta altura de campeonato, por mais que muitas vezes a montagem pareça atrapalhada, além dos velhos clichês do “caímos para aprender a se levantar”.

Nesse contexto, o universo dos Kree e dos Skull surge sem tanta inventividade, principalmente após a belíssima ambientação de Wakanda em “Pantera Negra” (Black Panther, 2018) ou a psicodelia de “Doutor Estranho” (Doutor Strange, 2017). É um espaço semelhante ao que já fora visto lá no primeiro “Guardiões da Galáxia” (Guardians of the Galaxy, 2013), esse sim surpreendente em termos de narrativa. Junto a isso, temos alguns efeitos especiais que, apesar de bem escondidos através da direção (algo que a Marvel sabe fazer bem), ainda soam aqui e acolá artificiais. As cenas de ação têm seus momentos, apesar das coreografias não muito criativas e ainda apelam para muitos cortes e pirotecnias que não impressionam mais.

Apesar de algumas coincidências forçadas como o fato de “Vers”, após uma ótima sequência de fuga, cair justamente na Terra em meio a um universo (literalmente!), ali, o desenrolar funciona. Principalmente por conta da excelente química da nossa desmemoriado heroína com um Nick Fury ainda em construção, rendendo tiradas comidas e passagens que soam quase como aventura urbana. Por mais que existam cenas de ação funcionais como a luta dentro do ônibus, sabemos que tudo ali é complemento para possíveis reviravoltas e um inevitável clímax explosivo.

A ambientação na década passada obviamente traria muito pano na manga para instigar a nostalgia, mas acertadamente a produção faz isso de maneira pontual. Ela cai numa locadora Blockbuster onde lá está um pôster de “True Lies” (idem, 1994), há aparições de capa de disco do Smashing Pumkins, gags relacionadas a lentidão da internet discada, mas sem apoiar nisso para alavancar sucesso, seguindo carona na onda que o divertido seriado “Stanger Things” (idem, 2016-atualmente) vem surfando. Os elementos estão lá, arrancam alguns risos, mas não são tratados como essenciais.

E sabendo utilizar deste ponto de equilíbrio, a questão da representatividade está lá naturalmente como uma mulher mais forte do que todos os demais personagens, não a sexualizando através do uniforme ou a inserindo em romances “obrigatórios”, afinal, ela poderia perfeitamente ter algo com o personagem de Jude Law, mas o momento mais “íntimo” entre eles é um convite para lutar. Sim, há uma outra passagem que vem para somar, com a cantada por um motoqueiro que insiste para que ela responda de alguma maneira (e a atitude dela a seguir é a melhor possível), ou uma fala num momento decisivo de que “não tem nada a provar para ninguém”. A “lacração” que tantos criticam acontece sem precisar levantar cartazes ou discursos expositivos.

Indo nesta pegada, mérito da excelente trilha sonora, em maior parte composta por banda de rock encabeçadas por mulheres, que fogem da obviedade, como No Doubt, Hole, Garbage, Republica, Elastica, entre outros. Até as poucas exceções, como a clássica “Come As You Are”, do Nirvana, toca num momento condizente pois ali, raramente, ser um homem quem está no controle da situação. E teve crítica por aí de que a produção perdeu a chance de fazer algo como “Guardiões da Galáxia” fez. Menos, gente! Criar a identidade própria é importante e, em relação às músicas, mandaram muito bem.

Muitos criticaram a atuação de Brie Larson, julgando-a apática num papel tão forte. Vejo que a atriz, premiada com o Oscar de Melhor Atriz por “O Quarto de Jack” (2016), captou a perdição de uma personagem que tem uma força que inicialmente não sabe controlar e sofre pela amnésia, numa constante crise de identidade. Seus toques estão nos pequenos detalhes, como as ironias enquanto luta contra capangas, tiradas sarcásticas com Nick Fury e até nos momentos de delicadeza com a amiga Maria (Lashana Rambeau) e sua filha Monica (Akira Akbar). Quando enfim ela mostra o real potencial da Capitã, a heroína que pode salvar os Vingadores, ela se diverte bastante como deveria ser.

Coadjuvante de luxo, Samuel L. Jackson (atuando sob um efeito de rejuvenescimento bem impressionante) tem destaque como uma versão diferente de Nick Fury, carismático e com piadas ranzinzas que, em maior parte, funcionam. Com dois olhos e cabelo, ele ainda não era diretor da S.H.I.E.L.D, mas já mostrava algum diferencial como espião e um lado ainda inédito, brincando com o gato, lavando louça e cantando The Marveletes (“Mr. Postman”, quem nunca?!). Jude Law, como Yon-Rogg, mistura o charme e mistério que o personagem precisa. Mas no fim das costas, quem rouba a cena é mesmo o gato Goose, feito numa mistura de CGI com efeitos práticos, que rende os melhores momentos cômicos.

Se Ben Mendelsohn parecia marcado pelos papeis carrancudos, aqui ele tem a chance de mostrar descontração, mesmo debaixo de muita maquiagem, como Talos, o Skrull líder. Ele consegue torná-lo humano e fica fácil criar empatia com ele. Diferente da ótima Annette Benning, que que apesar da extrema importância na trama, parece bastante engessada como uma militar rígida. Enquanto isso, figuras conhecidas que já deram as caras em longas anteriores, casos de Clark Gregg como o agente Coulson, Lee Pace como Ronan, e Djimon Hounsoun como Korath, eles soam mais como fan-services, já que pouca iria interferir na trama se fossem outros personagens.

E aqui temos mais um longa sem tantas novidades, mas com sua devida importância para aquele universo. É o básico bem feito e que ainda amarra fios e deixa outros soltos para o universo tão vangloriando. A importância dela está lá e mexe com a curiosidade do que ela pode fazer na próxima fase deste embaralhado mundo de heróis. Ainda bem.

Obs: há duas cenas pós-créditos. A primeira, essencial. A segunda, engraçadinha.

Nota: 7,5

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Crítica: Encontrando equilíbrio, “Capitã Marvel” é um filme de origem redondo e eficiente

Por Thiago Sampaio em Crítica

12 de Março de 2019

Foto: Divulgação

Mais de dez anos depois do início do tão bem sucedido universo Marvel nos cinemas, o estúdio finalmente ganha o seu primeiro longa estrelado por uma heroína do sexo feminino, rodeado de expectativas pelos fãs por ser o último filme antes do tão aguardado “Vingadores: Ultimato” (Avengers: Endgame, 2019), em que muitos aguardam ganchos sugestivos.

Além disso, vem sofrendo até ameaças de boicote após declarações da protagonista Brie Larson em que disse que os eventos para a imprensa deveriam ser mais inclusivos. Afinal, há motivo para tanto incômodo? Não! “Capitã Marvel” (Captain Marvel, 2019) está longe de ser um filme marcante, tem os seus defeitos, mas o resultado é um longa bem amarrado dentro do próprio arco, transmitindo suas ideias com sutileza.

Na trama, Carol Danvers (Brie Larson) é uma ex-agente da Força Aérea norte-americana, que, sem se lembrar de sua vida na Terra, é recrutada pelos Kree para fazer parte de seu exército de elite. Inimiga declarada dos Skrull, ela acaba voltando ao seu planeta de origem para impedir uma invasão dos metaformos e, assim, vai acabar descobrindo a verdade sobre si, com a ajuda do agente Nick Fury (Samuel L. Jackson).

Dirigido pela dupla Anna Boden e Ryan Fleck (que fizeram o mediano “Mississipi Grind”, 2015), responsáveis também pelo roteiro, que teve intervenções de Geneva Robertson-Dworet (“Tomb Raider“, 2018), Nicole Perlman (“Os Guardiões da Galáxia”, 2014) e Meg LeFauve (“Divertida Mente“, 2015) – afinal, era necessário o toque feminino com muitas revisões – , a impressão é de que o estúdio agiu de maneira protocolar, com o menor risco de erros. E jogando com o regulamento debaixo do braço, a Marvel/Disney sabe o que fazer e entregou mais um produto que cumpre bem o seu dever, erguendo o tapete para a personagem que vai ter papel fundamental no megacrossover que virá em seguida.

Os próprios realizadores mostram consciência do próprio erro ao atrasaram em uma década o seu produto protagonizado por uma mulher, tanto que migraram a trama para os anos 90. Por mais que se trate de mais uma história de origem depois de tantas, eles tratam de organizar a narrativa de maneira não linear. A protagonista já surge num ambiente desconhecido, com a insegurança da falta de memória, sem sequer saber quem de fato é. Para isso, os flashbacks são incluídos ao longo do filme, tornando-o mais dinâmico nesta altura de campeonato, por mais que muitas vezes a montagem pareça atrapalhada, além dos velhos clichês do “caímos para aprender a se levantar”.

Nesse contexto, o universo dos Kree e dos Skull surge sem tanta inventividade, principalmente após a belíssima ambientação de Wakanda em “Pantera Negra” (Black Panther, 2018) ou a psicodelia de “Doutor Estranho” (Doutor Strange, 2017). É um espaço semelhante ao que já fora visto lá no primeiro “Guardiões da Galáxia” (Guardians of the Galaxy, 2013), esse sim surpreendente em termos de narrativa. Junto a isso, temos alguns efeitos especiais que, apesar de bem escondidos através da direção (algo que a Marvel sabe fazer bem), ainda soam aqui e acolá artificiais. As cenas de ação têm seus momentos, apesar das coreografias não muito criativas e ainda apelam para muitos cortes e pirotecnias que não impressionam mais.

Apesar de algumas coincidências forçadas como o fato de “Vers”, após uma ótima sequência de fuga, cair justamente na Terra em meio a um universo (literalmente!), ali, o desenrolar funciona. Principalmente por conta da excelente química da nossa desmemoriado heroína com um Nick Fury ainda em construção, rendendo tiradas comidas e passagens que soam quase como aventura urbana. Por mais que existam cenas de ação funcionais como a luta dentro do ônibus, sabemos que tudo ali é complemento para possíveis reviravoltas e um inevitável clímax explosivo.

A ambientação na década passada obviamente traria muito pano na manga para instigar a nostalgia, mas acertadamente a produção faz isso de maneira pontual. Ela cai numa locadora Blockbuster onde lá está um pôster de “True Lies” (idem, 1994), há aparições de capa de disco do Smashing Pumkins, gags relacionadas a lentidão da internet discada, mas sem apoiar nisso para alavancar sucesso, seguindo carona na onda que o divertido seriado “Stanger Things” (idem, 2016-atualmente) vem surfando. Os elementos estão lá, arrancam alguns risos, mas não são tratados como essenciais.

E sabendo utilizar deste ponto de equilíbrio, a questão da representatividade está lá naturalmente como uma mulher mais forte do que todos os demais personagens, não a sexualizando através do uniforme ou a inserindo em romances “obrigatórios”, afinal, ela poderia perfeitamente ter algo com o personagem de Jude Law, mas o momento mais “íntimo” entre eles é um convite para lutar. Sim, há uma outra passagem que vem para somar, com a cantada por um motoqueiro que insiste para que ela responda de alguma maneira (e a atitude dela a seguir é a melhor possível), ou uma fala num momento decisivo de que “não tem nada a provar para ninguém”. A “lacração” que tantos criticam acontece sem precisar levantar cartazes ou discursos expositivos.

Indo nesta pegada, mérito da excelente trilha sonora, em maior parte composta por banda de rock encabeçadas por mulheres, que fogem da obviedade, como No Doubt, Hole, Garbage, Republica, Elastica, entre outros. Até as poucas exceções, como a clássica “Come As You Are”, do Nirvana, toca num momento condizente pois ali, raramente, ser um homem quem está no controle da situação. E teve crítica por aí de que a produção perdeu a chance de fazer algo como “Guardiões da Galáxia” fez. Menos, gente! Criar a identidade própria é importante e, em relação às músicas, mandaram muito bem.

Muitos criticaram a atuação de Brie Larson, julgando-a apática num papel tão forte. Vejo que a atriz, premiada com o Oscar de Melhor Atriz por “O Quarto de Jack” (2016), captou a perdição de uma personagem que tem uma força que inicialmente não sabe controlar e sofre pela amnésia, numa constante crise de identidade. Seus toques estão nos pequenos detalhes, como as ironias enquanto luta contra capangas, tiradas sarcásticas com Nick Fury e até nos momentos de delicadeza com a amiga Maria (Lashana Rambeau) e sua filha Monica (Akira Akbar). Quando enfim ela mostra o real potencial da Capitã, a heroína que pode salvar os Vingadores, ela se diverte bastante como deveria ser.

Coadjuvante de luxo, Samuel L. Jackson (atuando sob um efeito de rejuvenescimento bem impressionante) tem destaque como uma versão diferente de Nick Fury, carismático e com piadas ranzinzas que, em maior parte, funcionam. Com dois olhos e cabelo, ele ainda não era diretor da S.H.I.E.L.D, mas já mostrava algum diferencial como espião e um lado ainda inédito, brincando com o gato, lavando louça e cantando The Marveletes (“Mr. Postman”, quem nunca?!). Jude Law, como Yon-Rogg, mistura o charme e mistério que o personagem precisa. Mas no fim das costas, quem rouba a cena é mesmo o gato Goose, feito numa mistura de CGI com efeitos práticos, que rende os melhores momentos cômicos.

Se Ben Mendelsohn parecia marcado pelos papeis carrancudos, aqui ele tem a chance de mostrar descontração, mesmo debaixo de muita maquiagem, como Talos, o Skrull líder. Ele consegue torná-lo humano e fica fácil criar empatia com ele. Diferente da ótima Annette Benning, que que apesar da extrema importância na trama, parece bastante engessada como uma militar rígida. Enquanto isso, figuras conhecidas que já deram as caras em longas anteriores, casos de Clark Gregg como o agente Coulson, Lee Pace como Ronan, e Djimon Hounsoun como Korath, eles soam mais como fan-services, já que pouca iria interferir na trama se fossem outros personagens.

E aqui temos mais um longa sem tantas novidades, mas com sua devida importância para aquele universo. É o básico bem feito e que ainda amarra fios e deixa outros soltos para o universo tão vangloriando. A importância dela está lá e mexe com a curiosidade do que ela pode fazer na próxima fase deste embaralhado mundo de heróis. Ainda bem.

Obs: há duas cenas pós-créditos. A primeira, essencial. A segunda, engraçadinha.

Nota: 7,5