Crítica: "Invocação do Mal 2" é um dos melhores do gênero 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “Invocação do Mal 2” é um dos melhores do gênero

Por Thiago Sampaio em Crítica

10 de junho de 2016

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Em tempos em que o gênero terror anda desgastado, com inúmeras produções lançadas anualmente com pouco ou nenhum impacto e conteúdo, “Invocação do Mal” (The Conjuring, 2013), de James Wan, conseguiu se sobressair com boas críticas, custando apenas U$ 20 milhões e faturando mais de U$ 300 milhões pelo mundo. A premissa não era inovadora: mais uma trama de casa mal-assombrada, sustos, exorcismos, tendo uma “história baseada em fatos reais” como pano de fundo. Porém, a condução era um diferencial, conseguindo provocar um efeito vital no espectador, ao mesmo tempo em que funcionava como produto comercial. Uma continuação era inevitável. “Invocação do Mal 2” (The Conjuring 2, 2016) chega repetindo a mesma fórmula que deu certo, mas com todos os ingredientes potencializados, garantindo muitos pulos da cadeira e um resultado ainda mais eficiente do que o anterior.

A sequência se passa sete anos após os eventos do filme anterior. A trama é baseada no caso Enfield Poltergeist, registrado no final da década de 1970 com a família Hodgson, na Inglaterra, centrado em duas irmãs supostamente possuídas. Os protagonistas, Lorraine (vivida por Vera Farmiga) e Ed Warren (vivido por Patrick Wilson), investigadores paranormais, afirmam que viram as jovens levitarem e até testemunharam quando uma delas se desmaterializou. A garota foi encontrada 20 minutos depois em uma grande caixa de fusíveis, com o corpo retorcido de tal forma que não era possível reproduzir a posição. Apesar dos eventos aparentemente inexplicáveis, a maior parte da mídia considera que as irmãs queriam pregar uma peça.

Assim como no anterior, o roteiro de Carey Hayes ao lado do próprio diretor James Wan usa histórias reais como forma de apelo extra para o grande público e assim destilarem os seus devaneios criativos. Além do caso Enfield, uma das tramas sobrenaturais mais famosas e adaptada para o cinema diversas vezes volta a ganhar espaço: o “Horror em Amityville”, que resultou na morte de uma família inteira por Ronald Defeo Jr., alegando ter ouvido vozes que o influenciaram a cometer os crimes. Apesar de o caso servir apenas como forma introdutória de “Invocação do Mal 2” para apresentar uma das principais assombrações – a freira pra lá de horripilante -, ele delimita as subtramas entre o casal Lorraine e Ed Warren, nos Estados Unidos, e o da família Hodgson, na Inglaterra, que inevitavelmente irão se cruzar em determinado momento.

James Wan não tenta reinventar o gênero e, propositalmente, brinca com os clichês. Estão lá o jogo Ouija, brinquedos musicais, crianças possuídas, e muitas, muitas criaturas bizarras de fazer arrepiar a espinha. Mas é aí onde reside o valor da franquia: o jovem diretor australiano descendente de chineses sabe fazer terror como poucos! Adotando o clima noir, com a típica ambientação dos anos 70 e fotografia acinzentada, ele consegue manter a aura de tensão constante com talento, como quem tem prazer pelo o que faz. Logo na cena de abertura, na recapitulação do caso de Amityville através da mente da personagem de Vera Farmiga, é possível perceber que o medo contínuo e sustos repentinos vão permear o longa-metragem.

É perceptível a diferença para produções caça-níqueis com personagens de atitudes estúpidas (uma delas, inclusive, é “Anabelle”, 2014, péssimo spin-off do primeiro longa). O medo de cada personagem é transposto para o espectador de maneira criativa, de modo que as figuras sombrias que surgem em cena são projetadas de maneiras variáveis, a partir da percepção de cada um. Assim, a já citada freira (Bonnie Aarons), o “Homem-Torto”, o misterioso Bill Wilkins (Bob Adrian) estão lá para mexer com o psicológico. E James Wan é eficiente nessa missão, pois por mais que sempre se espere um susto de algum lado, ele sempre dá um jeito de despistar e conseguir o objetivo de outra maneira, seja com o apelo dos gritos inesperados ou instigando a imaginação através da formação de alguma figura em um fundo desfocado. Destaque também para a atriz mirim Madison Wolfe, convencendo nas cenas de possessão por captar o contraste entre a feição inocente com os contorcionismos e a mudança de voz.

Mas não só de sustos vive a continuação. O roteiro dá grande atenção ao desenvolvimento do casal Lorraine e Ed Warren, de modo que, mesmo atuando há anos no meio sobrenatural, eles são humanos como qualquer um. Apesar de sabermos que eles existem na vida real (Ed, no caso, faleceu em 2006, em decorrência de uma parada cardíaca), a trama mantém o mistério até o fim sobre o destino. Desta vez conhecemos melhor as suas motivações e Vera Farmiga (da série “Bates Motel”) é responsável pela carga dramática do longa, enquanto o jeito taciturno de Patrick Wilson confere humanidade a um personagem tão forte. Sim, por incrível que pareça, “Invocação do Mal 2” é também um filme sobre família, com direito a uma emblemática cena do protagonista cantando “Can’t Help Falling In Love”, de Elvis Presley, num momento de descontração em meio a tanto desespero.

E James Wan foge do lugar comum ao usar do seu produto como um exercício de metalinguagem. Ao invés de fantasmas tradicionais ele opta por monstros, como o “Homem-Torto”, criado através de animação em stop-motion, que mais parece saído de filmes de Tim Burton ou da franquia Harry Potter (mas que fique bem claro, ele não precisa de um filme próprio, ok? “Anabelle” já basta!). Além disso, ele não teme em incluir momentos de humor, algo ausente do anterior, como quando os personagens saem correndo da casa após verem os fenômenos, além de diversas referências pop, como uma alusão à clássica capa do álbum “Abbey Road”, dos Beatles. Por sinal, a trilha sonora, recheada de clássicos como “London Calling” (The Clash) e “I Started A Joke” (Bee Gees) é outro ponto alto.

Cumprindo suas propostas com louvor, “Invocação do Mal 2” deve superar o sucesso do primeiro filme, rendendo um terceiro filme em um futuro não tão distante. Pode não revolucionar o terror, mas se trata de um dos melhores produtos do gênero dos últimos anos. E isso, com certeza, é grande coisa!

Nota: 9,0

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Crítica: “Invocação do Mal 2” é um dos melhores do gênero

Por Thiago Sampaio em Crítica

10 de junho de 2016

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Em tempos em que o gênero terror anda desgastado, com inúmeras produções lançadas anualmente com pouco ou nenhum impacto e conteúdo, “Invocação do Mal” (The Conjuring, 2013), de James Wan, conseguiu se sobressair com boas críticas, custando apenas U$ 20 milhões e faturando mais de U$ 300 milhões pelo mundo. A premissa não era inovadora: mais uma trama de casa mal-assombrada, sustos, exorcismos, tendo uma “história baseada em fatos reais” como pano de fundo. Porém, a condução era um diferencial, conseguindo provocar um efeito vital no espectador, ao mesmo tempo em que funcionava como produto comercial. Uma continuação era inevitável. “Invocação do Mal 2” (The Conjuring 2, 2016) chega repetindo a mesma fórmula que deu certo, mas com todos os ingredientes potencializados, garantindo muitos pulos da cadeira e um resultado ainda mais eficiente do que o anterior.

A sequência se passa sete anos após os eventos do filme anterior. A trama é baseada no caso Enfield Poltergeist, registrado no final da década de 1970 com a família Hodgson, na Inglaterra, centrado em duas irmãs supostamente possuídas. Os protagonistas, Lorraine (vivida por Vera Farmiga) e Ed Warren (vivido por Patrick Wilson), investigadores paranormais, afirmam que viram as jovens levitarem e até testemunharam quando uma delas se desmaterializou. A garota foi encontrada 20 minutos depois em uma grande caixa de fusíveis, com o corpo retorcido de tal forma que não era possível reproduzir a posição. Apesar dos eventos aparentemente inexplicáveis, a maior parte da mídia considera que as irmãs queriam pregar uma peça.

Assim como no anterior, o roteiro de Carey Hayes ao lado do próprio diretor James Wan usa histórias reais como forma de apelo extra para o grande público e assim destilarem os seus devaneios criativos. Além do caso Enfield, uma das tramas sobrenaturais mais famosas e adaptada para o cinema diversas vezes volta a ganhar espaço: o “Horror em Amityville”, que resultou na morte de uma família inteira por Ronald Defeo Jr., alegando ter ouvido vozes que o influenciaram a cometer os crimes. Apesar de o caso servir apenas como forma introdutória de “Invocação do Mal 2” para apresentar uma das principais assombrações – a freira pra lá de horripilante -, ele delimita as subtramas entre o casal Lorraine e Ed Warren, nos Estados Unidos, e o da família Hodgson, na Inglaterra, que inevitavelmente irão se cruzar em determinado momento.

James Wan não tenta reinventar o gênero e, propositalmente, brinca com os clichês. Estão lá o jogo Ouija, brinquedos musicais, crianças possuídas, e muitas, muitas criaturas bizarras de fazer arrepiar a espinha. Mas é aí onde reside o valor da franquia: o jovem diretor australiano descendente de chineses sabe fazer terror como poucos! Adotando o clima noir, com a típica ambientação dos anos 70 e fotografia acinzentada, ele consegue manter a aura de tensão constante com talento, como quem tem prazer pelo o que faz. Logo na cena de abertura, na recapitulação do caso de Amityville através da mente da personagem de Vera Farmiga, é possível perceber que o medo contínuo e sustos repentinos vão permear o longa-metragem.

É perceptível a diferença para produções caça-níqueis com personagens de atitudes estúpidas (uma delas, inclusive, é “Anabelle”, 2014, péssimo spin-off do primeiro longa). O medo de cada personagem é transposto para o espectador de maneira criativa, de modo que as figuras sombrias que surgem em cena são projetadas de maneiras variáveis, a partir da percepção de cada um. Assim, a já citada freira (Bonnie Aarons), o “Homem-Torto”, o misterioso Bill Wilkins (Bob Adrian) estão lá para mexer com o psicológico. E James Wan é eficiente nessa missão, pois por mais que sempre se espere um susto de algum lado, ele sempre dá um jeito de despistar e conseguir o objetivo de outra maneira, seja com o apelo dos gritos inesperados ou instigando a imaginação através da formação de alguma figura em um fundo desfocado. Destaque também para a atriz mirim Madison Wolfe, convencendo nas cenas de possessão por captar o contraste entre a feição inocente com os contorcionismos e a mudança de voz.

Mas não só de sustos vive a continuação. O roteiro dá grande atenção ao desenvolvimento do casal Lorraine e Ed Warren, de modo que, mesmo atuando há anos no meio sobrenatural, eles são humanos como qualquer um. Apesar de sabermos que eles existem na vida real (Ed, no caso, faleceu em 2006, em decorrência de uma parada cardíaca), a trama mantém o mistério até o fim sobre o destino. Desta vez conhecemos melhor as suas motivações e Vera Farmiga (da série “Bates Motel”) é responsável pela carga dramática do longa, enquanto o jeito taciturno de Patrick Wilson confere humanidade a um personagem tão forte. Sim, por incrível que pareça, “Invocação do Mal 2” é também um filme sobre família, com direito a uma emblemática cena do protagonista cantando “Can’t Help Falling In Love”, de Elvis Presley, num momento de descontração em meio a tanto desespero.

E James Wan foge do lugar comum ao usar do seu produto como um exercício de metalinguagem. Ao invés de fantasmas tradicionais ele opta por monstros, como o “Homem-Torto”, criado através de animação em stop-motion, que mais parece saído de filmes de Tim Burton ou da franquia Harry Potter (mas que fique bem claro, ele não precisa de um filme próprio, ok? “Anabelle” já basta!). Além disso, ele não teme em incluir momentos de humor, algo ausente do anterior, como quando os personagens saem correndo da casa após verem os fenômenos, além de diversas referências pop, como uma alusão à clássica capa do álbum “Abbey Road”, dos Beatles. Por sinal, a trilha sonora, recheada de clássicos como “London Calling” (The Clash) e “I Started A Joke” (Bee Gees) é outro ponto alto.

Cumprindo suas propostas com louvor, “Invocação do Mal 2” deve superar o sucesso do primeiro filme, rendendo um terceiro filme em um futuro não tão distante. Pode não revolucionar o terror, mas se trata de um dos melhores produtos do gênero dos últimos anos. E isso, com certeza, é grande coisa!

Nota: 9,0