Crítica: James Wan salva "Aquaman" de um fracasso ao abraçar a cafonice 
Publicidade

Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: James Wan salva “Aquaman” de um fracasso ao abraçar a cafonice

Por Thiago Sampaio em Crítica

18 de dezembro de 2018

Foto: Divulgação

Em tempos em que filmes de super-heróis são lançados a torto e direito, era uma missão bem complicada emplacar um longa sobre um ser que fala com peixes e pega carona num cavalo marinho rosa. Praticamente impossível levar à sério. A tarefa se torna ainda mais complicada em meio às adaptações para o cinema da DC Comics, marcadas pelo tom sombrio e “realista” de Zack Snyder (aqui produtor executivo). Mas o grande triunfo de “Aquaman” (idem, 2018) foi ter caído nas mãos de James Wan. Compreendendo o folclore pejorativo em torno do personagem, o longa abraça os exageros e, acertadamente, não busca transmitir o respaldo que não tem. É brega como o seu conceito e, no fim, acerta como diversão passageira. O que não impede de ser esquecível.

Na trama, filho de um humano com uma atlante, Arthur Curry (Jason Momoa) cresce com as capacidades metahumanas de seu povo. Quando seu irmão Orm (Patrick Wilson) deseja se tornar o Mestre dos Oceanos, subjugando os demais reinos aquáticos para que possa atacar a superfície, cabe a ele a tarefa de impedir a guerra iminente.

Responsável por elevar o nível do terror contemporâneo através de “Jogos Mortais” (Saw, 2004) e os dois “Invocação do Mal” (The Conjuring, 2013, 2016), além de comandar “Velozes e Furiosos 7” (Furious 7, 2015), o melhor da franquia, Wan estreia no universo heroico em águas nada seguras. Mas é fácil perceber a sua intenção ao aceitar o projeto: ele quer brincar desenvolvendo cenários grandiosos, criaturas estranhas e evocar o espírito infantil, rindo junto com o espectador de qualquer idade que algum dia já gostou daquilo. E consegue!

Tudo é muito colorido, beirando o extravagante! Se o ótimo “Mulher-Maravilha” (Wonder Woman, 2017) e o genérico “Liga da Justiça” (Justice League, 2017) já buscavam afastar aquela atmosfera séria, dominada por paletas cinzas ou azuladas, “Aquaman” chuta de vez para longe. Inclusive nas atuações, que sempre deixam claro que tudo aquilo é irreal. Se em “Liga” percebíamos um produto bastante afetado na pós-graduação para torná-lo mais leve, praticamente tentando copiar a tal “Fórmula Marvel”, aqui pelo menos temos um produto autêntico, com vida própria.

Assim, Wan apresenta um universo visualmente deslumbrante, cheio de criaturas digitais (tem até polvo tocando percussão e caranguejo gigante falando) e detalhes minuciosos como os figurinos de Atlântida, em que cada armadura tem traços de seu respectivo personagem. As naves possuem design semelhante a criaturas aquáticas. Certos detalhes claramente se assemelham a produções de TV, como os trajes que os atlantes utilizam na terra firme. A cena em que ensinam o Arraia Negra a usar uma arma deles beira o ridículo. O visual do vilão citado, por mais parecido que tenha ficado com o das HQs, parece saído do seriado “Power Rangers”. Desleixo? Para uma produção estimada em U$ 160 milhões, duvido muito!

Se o cineasta de origem chinesa já havia mostrado habilidade na condução de cenas de ação em “Velozes 7”, aqui ele confirma o talento. Desde a primeira aparição do personagem-título (que soa quase como uma propaganda de shampoo), temos uma ótima sequência de lutas em que não só entendemos o que acontece em cena, mas de cara percebemos a personalidade impiedosa do herói (e os riffs de guitarra entre um soco ou outro e uma parada dramática trazem a despretensão na dose certa). Há uma perseguição em cima de telhados na Itália, incluindo planos sequências, que é bastante estilosa.

Honrando suas raízes no terror, o diretor conduz uma cena num barco envolvendo monstros que é de encher os olhos. Quando o protagonista adentra a água com um sinalizador e é cercado por criaturas, conferimos um plano simplesmente belíssimo. O clímax, quando finalmente vemos o herói usando o clássico uniforme laranja e verde, as sequências parecem saídas direto de um desenho animado dos “Super Amigos” (isso é um elogio!). Tem entrada triunfal, o sonar para evocar as figuras marinhas, lutas bem coreografadas e, sim, tem cavalo marinho. Os fãs não vão se decepcionar, pois o que se espera de Aquaman, está ali.

Mas é bom já ir ciente de que não irá ver nenhuma produção inovadora. Tem problemas e não são poucos. O roteiro de Will Beall (“Caça aos Gângsteres”, 2013) e David Leslie Johnson-McGoldrick (trazido de “Invocação do Mal 2”), em cima do argumento do próprio James Wan e Geoff Johns (entendam como um cara com muita moral na DC Comics), traz a batida história da briga pelo trono de um reino escondido, algo bem parecido com o recente “Pantera Negra” (Black Planther, 2018), da empresa rival. A busca pelo tridente superpoderoso nada mais é do que um “McGuffin”, uma desculpa para arrancar mais sequências de ação.

Os longos 143 minutos de projeção soam excessivos nesse fiapo de história, principalmente durante o segundo ato, focado no aprofundamento da relação de Arthur Curry com Mera, quando os personagens não possuem química alguma. Muito por causa de uma apática Amber Heard, que mesmo sob um visual cartunesco digno de cosplay, não parece comprar a ideia de autoparódia. Os flashbacks sobre a origem de Arthur são até necessários, mas provocam uma queda de ritmo.

As piadas acontecem o tempo todo. Muitas funcionam, como a do início, num bar, em que insinuam um clichê e logo em seguida o quebra com uma tietagem que se torna cômica. Mas muitas soam forçadas, incluindo gag com urina ou quando o casal come flores que estão à venda, numa forma de demonstrar deslocamento e atitude de companheirismo num mundo estranho. É, não rolou!

Apesar dos muitos nomes conhecidos do elenco, é mesmo Jason Momoa quem consegue destaque por atribuir carisma a um brutamontes com um poder…peculiar. Não que ele tenha melhorado em termos de atuação, pois continua com o mesmo estereótipo de durão, mas, aqui se mostra bem mais à vontade no papel. No papel do seu “mentor”, Willem Dafoe soa um tanto deslocado, sem oportunidade de mostrar o ar paternal que tem para com Arthur, desperdiçando o enorme talento do ator.

Amigo de projetos recorrentes de James Wan, Patrick Wilson aqui parece seguir no modo automático como o Rei Orm, um típico playboy com ambição de poder, nada criativo. Dolph Lundgreen cumpre o seu papel como um governante de voz grave e onipresente e o pouco conhecido Yahya Abdul-Mateen II (da série “The Get Down”) acaba roubando a cena, pois pelo menos nele, é possível perceber ódio e motivação real, mesmo sendo tão pitoresco. Pena que aqui ele serve apenas como preparação para um inevitável segundo capítulo.

Maior nome do elenco, Nicole Kidman traz sua beleza natural e empoderamento para a rainha Atlanna, mas ela compreende a despretensão (pelo menos em termos de narrativa) do projeto, o que é positivo. Ela apresenta uma boa interação com Temuera Morrison (o Jango Fett dos Episódios II e III de Star Wars, 2002, 2005), que por sua vez, surge como uma escolha inusitada e bastante inspirada do casting. Ele capta a fraternidade de um não-americano apaixonado, de bom coração e fiel às suas origens.

Kidman é uma das mais afetadas com o uso do CGI no rosto quando a câmera é aproximada. Vamos lá, os efeitos especiais não são precários. Bem longe disso! Mas criar um universo em baixo d’água não é nada simples. O movimento dos cabelos, uma certa artificialidade nas expressões e movimentos dos personagens (Dafoe juvenescido ficou bem estranho) gera um certo incômodo inicial. Passado algum tempo, percebe-se que se trata de algo grandioso ao extremo e acabamos nos acostumando.

Aqui não temos tanto aquele bad boy de armadura prateada e soltando frases de efeito, como “My maaaaan” ou “Buyaaaahhh”. Mentira, temos sim! Mas pelo menos desta vez, ele é tratado da forma como sempre foi: galhofa e com alguns momentos de êxtase que vão atingir quem espera por isso. Não tem nada de novo, mas é um bom (re)começo para essa nova safra da DC nas telonas de Imax.

Nota: 7,0

Publicidade aqui

Crítica: James Wan salva “Aquaman” de um fracasso ao abraçar a cafonice

Por Thiago Sampaio em Crítica

18 de dezembro de 2018

Foto: Divulgação

Em tempos em que filmes de super-heróis são lançados a torto e direito, era uma missão bem complicada emplacar um longa sobre um ser que fala com peixes e pega carona num cavalo marinho rosa. Praticamente impossível levar à sério. A tarefa se torna ainda mais complicada em meio às adaptações para o cinema da DC Comics, marcadas pelo tom sombrio e “realista” de Zack Snyder (aqui produtor executivo). Mas o grande triunfo de “Aquaman” (idem, 2018) foi ter caído nas mãos de James Wan. Compreendendo o folclore pejorativo em torno do personagem, o longa abraça os exageros e, acertadamente, não busca transmitir o respaldo que não tem. É brega como o seu conceito e, no fim, acerta como diversão passageira. O que não impede de ser esquecível.

Na trama, filho de um humano com uma atlante, Arthur Curry (Jason Momoa) cresce com as capacidades metahumanas de seu povo. Quando seu irmão Orm (Patrick Wilson) deseja se tornar o Mestre dos Oceanos, subjugando os demais reinos aquáticos para que possa atacar a superfície, cabe a ele a tarefa de impedir a guerra iminente.

Responsável por elevar o nível do terror contemporâneo através de “Jogos Mortais” (Saw, 2004) e os dois “Invocação do Mal” (The Conjuring, 2013, 2016), além de comandar “Velozes e Furiosos 7” (Furious 7, 2015), o melhor da franquia, Wan estreia no universo heroico em águas nada seguras. Mas é fácil perceber a sua intenção ao aceitar o projeto: ele quer brincar desenvolvendo cenários grandiosos, criaturas estranhas e evocar o espírito infantil, rindo junto com o espectador de qualquer idade que algum dia já gostou daquilo. E consegue!

Tudo é muito colorido, beirando o extravagante! Se o ótimo “Mulher-Maravilha” (Wonder Woman, 2017) e o genérico “Liga da Justiça” (Justice League, 2017) já buscavam afastar aquela atmosfera séria, dominada por paletas cinzas ou azuladas, “Aquaman” chuta de vez para longe. Inclusive nas atuações, que sempre deixam claro que tudo aquilo é irreal. Se em “Liga” percebíamos um produto bastante afetado na pós-graduação para torná-lo mais leve, praticamente tentando copiar a tal “Fórmula Marvel”, aqui pelo menos temos um produto autêntico, com vida própria.

Assim, Wan apresenta um universo visualmente deslumbrante, cheio de criaturas digitais (tem até polvo tocando percussão e caranguejo gigante falando) e detalhes minuciosos como os figurinos de Atlântida, em que cada armadura tem traços de seu respectivo personagem. As naves possuem design semelhante a criaturas aquáticas. Certos detalhes claramente se assemelham a produções de TV, como os trajes que os atlantes utilizam na terra firme. A cena em que ensinam o Arraia Negra a usar uma arma deles beira o ridículo. O visual do vilão citado, por mais parecido que tenha ficado com o das HQs, parece saído do seriado “Power Rangers”. Desleixo? Para uma produção estimada em U$ 160 milhões, duvido muito!

Se o cineasta de origem chinesa já havia mostrado habilidade na condução de cenas de ação em “Velozes 7”, aqui ele confirma o talento. Desde a primeira aparição do personagem-título (que soa quase como uma propaganda de shampoo), temos uma ótima sequência de lutas em que não só entendemos o que acontece em cena, mas de cara percebemos a personalidade impiedosa do herói (e os riffs de guitarra entre um soco ou outro e uma parada dramática trazem a despretensão na dose certa). Há uma perseguição em cima de telhados na Itália, incluindo planos sequências, que é bastante estilosa.

Honrando suas raízes no terror, o diretor conduz uma cena num barco envolvendo monstros que é de encher os olhos. Quando o protagonista adentra a água com um sinalizador e é cercado por criaturas, conferimos um plano simplesmente belíssimo. O clímax, quando finalmente vemos o herói usando o clássico uniforme laranja e verde, as sequências parecem saídas direto de um desenho animado dos “Super Amigos” (isso é um elogio!). Tem entrada triunfal, o sonar para evocar as figuras marinhas, lutas bem coreografadas e, sim, tem cavalo marinho. Os fãs não vão se decepcionar, pois o que se espera de Aquaman, está ali.

Mas é bom já ir ciente de que não irá ver nenhuma produção inovadora. Tem problemas e não são poucos. O roteiro de Will Beall (“Caça aos Gângsteres”, 2013) e David Leslie Johnson-McGoldrick (trazido de “Invocação do Mal 2”), em cima do argumento do próprio James Wan e Geoff Johns (entendam como um cara com muita moral na DC Comics), traz a batida história da briga pelo trono de um reino escondido, algo bem parecido com o recente “Pantera Negra” (Black Planther, 2018), da empresa rival. A busca pelo tridente superpoderoso nada mais é do que um “McGuffin”, uma desculpa para arrancar mais sequências de ação.

Os longos 143 minutos de projeção soam excessivos nesse fiapo de história, principalmente durante o segundo ato, focado no aprofundamento da relação de Arthur Curry com Mera, quando os personagens não possuem química alguma. Muito por causa de uma apática Amber Heard, que mesmo sob um visual cartunesco digno de cosplay, não parece comprar a ideia de autoparódia. Os flashbacks sobre a origem de Arthur são até necessários, mas provocam uma queda de ritmo.

As piadas acontecem o tempo todo. Muitas funcionam, como a do início, num bar, em que insinuam um clichê e logo em seguida o quebra com uma tietagem que se torna cômica. Mas muitas soam forçadas, incluindo gag com urina ou quando o casal come flores que estão à venda, numa forma de demonstrar deslocamento e atitude de companheirismo num mundo estranho. É, não rolou!

Apesar dos muitos nomes conhecidos do elenco, é mesmo Jason Momoa quem consegue destaque por atribuir carisma a um brutamontes com um poder…peculiar. Não que ele tenha melhorado em termos de atuação, pois continua com o mesmo estereótipo de durão, mas, aqui se mostra bem mais à vontade no papel. No papel do seu “mentor”, Willem Dafoe soa um tanto deslocado, sem oportunidade de mostrar o ar paternal que tem para com Arthur, desperdiçando o enorme talento do ator.

Amigo de projetos recorrentes de James Wan, Patrick Wilson aqui parece seguir no modo automático como o Rei Orm, um típico playboy com ambição de poder, nada criativo. Dolph Lundgreen cumpre o seu papel como um governante de voz grave e onipresente e o pouco conhecido Yahya Abdul-Mateen II (da série “The Get Down”) acaba roubando a cena, pois pelo menos nele, é possível perceber ódio e motivação real, mesmo sendo tão pitoresco. Pena que aqui ele serve apenas como preparação para um inevitável segundo capítulo.

Maior nome do elenco, Nicole Kidman traz sua beleza natural e empoderamento para a rainha Atlanna, mas ela compreende a despretensão (pelo menos em termos de narrativa) do projeto, o que é positivo. Ela apresenta uma boa interação com Temuera Morrison (o Jango Fett dos Episódios II e III de Star Wars, 2002, 2005), que por sua vez, surge como uma escolha inusitada e bastante inspirada do casting. Ele capta a fraternidade de um não-americano apaixonado, de bom coração e fiel às suas origens.

Kidman é uma das mais afetadas com o uso do CGI no rosto quando a câmera é aproximada. Vamos lá, os efeitos especiais não são precários. Bem longe disso! Mas criar um universo em baixo d’água não é nada simples. O movimento dos cabelos, uma certa artificialidade nas expressões e movimentos dos personagens (Dafoe juvenescido ficou bem estranho) gera um certo incômodo inicial. Passado algum tempo, percebe-se que se trata de algo grandioso ao extremo e acabamos nos acostumando.

Aqui não temos tanto aquele bad boy de armadura prateada e soltando frases de efeito, como “My maaaaan” ou “Buyaaaahhh”. Mentira, temos sim! Mas pelo menos desta vez, ele é tratado da forma como sempre foi: galhofa e com alguns momentos de êxtase que vão atingir quem espera por isso. Não tem nada de novo, mas é um bom (re)começo para essa nova safra da DC nas telonas de Imax.

Nota: 7,0