Crítica: "O Destino de Uma Nação" é ágil e traz performance primorosa de Gary Oldman - Cinema Sinergia 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “O Destino de Uma Nação” é ágil e traz performance primorosa de Gary Oldman

Por Thiago Sampaio em Crítica

26 de Janeiro de 2018

Foto: Divulgação

Certas produções têm qualidades confundidas por causa da performance marcante de seus protagonistas. Casos, por exemplo, de Jamie Foxx em “Ray” (idem, 2004), Daniel Day Lewis em “Lincoln” (idem, 2012); dentre muitos outros exemplos. “O Destino de Uma Nação” (Darkest Hour, 2017), indicado a seis Oscars em 2018 (incluindo Melhor Filme) é um bom longa com típicos extremos de uma obra biográfica, porém, a atuação irretocável de Gary Oldman como Winston Churchill deu a ela uma visibilidade ampliada nos principais circuitos. Atenção esta, bem merecida, diga-se de passagem.

A trama se passa quando Winston Churchill (Oldman) está prestes a encarar um de seus maiores desafios: tomar posse do cargo de Primeiro Ministro da Grã-Bretanha. À beira de perder a guerra para a Alemanha, ele sofre pressão para fazer um acordo com Hitler para estabelecer o estado como parte do território do Terceiro Reich, mas resiste à pressão.

O roteiro de Anthony McCarthen (“A Teoria de Tudo, 2014) faz questão de dar toda a maquiada na exaltação ao ícone. A relutância geral em aceitá-lo como Primeiro Ministro, o problema com alcoolismo (raro o momento em que ele não está fumando charuto ou bebendo whisky), o fracasso com Gallipoli, está muito bem ressaltado. Ele apenas foi o escolhido pois o escolhido natural, Lord Halifax, recusou a oferta e Churchill era a única opção sem repulsa da oposição.

No fim das contas, é a postura de “vitória a qualquer custo” em seus emblemáticos discursos que o tornou um herói britânico e o longa mostra bem a sua persistência em lutar pelos seus objetivos em nome da própria nação, ao invés da “covardia” da redenção, ignorando o fato que tais atos possam ter dado continuidade à guerra e ocasionado mais mortes (e obviamente, salvo tantas outras).

E há de reconhecer que a direção de Joe Wright (“Orgulho e Preconceito”, 2005; “Desejo e Reparação”, 2007) garante momentos de tensão em meios às negociações diplomáticas, que chegam ao extremo com a Operação Dínamo, pela retirada dos aliados na praia de Dunquerque. E para quem assistiu ao longa “Dunkirk”, dirigido por Christopher Nolan neste mesmo ano, se torna ainda mais interessante conferir o “outro lado” da ação.

Winston era, de fato, um cidadão peculiar e sua obstinação em ir contra as recomendações de terceiros para conseguir colocar em prática aquilo que acredita é algo que merece destaque. E mesmo com a ação decorrendo quase a maior parte do tempo em cenários fechados e com fotografia (por necessidade) escura, Wright traz sua marca autoral. Elegante, por exemplo, quando a paleta vermelha toma conta por completo, através da luz de “No Ar”, da rádio no momento do discurso terminado às pressas, quando a violência está sendo anunciada. Assim como os planos traseiros quando Churchill entra ou sai das salas subterrâneas pelos túneis, como se estivesse no cano de uma arma prestes a ser disparada.

Wright deixa momentos explicitamente artísticos, como quando uma criança foca um avião aliado, por terra, através de um círculo feito pela própria mão que se fecha rapidamente. Outros, mais discretos e até mais eficientes, quando reforça a pressão sob o protagonista com a câmera fechada em seu rosto e sugere fugir do mesmo quando ele liga para “Franklin” (voz de David Strathairn), presidente dos Estados Unidos, solicitando auxílio durante a polêmica operação. A passagem do tempo através da data mudando na tela é feita de maneira não criativa, porém, confere dinâmica.

Mas como grande parte das cinebiografias políticas, há momentos que perdem em credibilidade. Por exemplo, Churchill era um machista reconhecido. Permitir a entrada de uma mulher, no caso sua escrivã Elizabeth (a carismática Lily James, fazendo o que pode para não soar caricata), na sala secreta de mapas é algo, pelo menos, duvidoso. A cena que ele conversa com a população no metrô, confirmando a decisão em lutar até o fim ao invés de expor fraqueza, por mais que o diretor se preocupe em trazer um plano horizontal, não mais de cima para baixo como anteriormente, soa um tanto novelesca, forçada.

Mas não tem como negar que o destaque maior da produção é mesmo Gary Oldman. Mesmo debaixo da admirável maquiagem (merecidamente indicada ao Oscar) que o deixa quase irreconhecível, bem acima do peso e com papadas avantajadas, incorpora cada traço de Churchill com maestria. Do andar com postura torta e mãos para trás, voz aguda e sinuosa, até mesmo os mínimos trejeitos como a forma de pegar no copo, tudo está impecável. É o tipo de papel para consolidar a carreira brilhante de um ator com papéis tão distintos, como em “Drácula de Bram Stoker” (Dracula, 1992), “O Quinto Elemento” (The Fifth Element, 1997), “O Espião Que Sabia Demais” (Tinker Tailor Soldier Spy, 2011), entre tantos outros.

O elenco coadjuvante contribui para o produto ser bem sucedido. Kristin Scott Thomas confere uma sensibilidade cativante à Clementine Churchill, orgulhosa e sempre incentivando o marido, mas sem esconder o ar de amargura por viver sob à sombra de alguém tão ocupado. O ótimo Ben Mendelsohn confere ao Rei George VI uma versão bem mais madura e autoritária do que àquela de Colin Firth em “O Discurso do Rei” (The King’s Speech, 2010), por mais que ainda esteja ali toda a insegurança e humanidade. Já Stephan Dillane traz a Halifax a arrogância e e frieza de quem ao mesmo tempo quer impor autoridade, porém, não tem a coragem de dar as caras como a segunda maior patente de uma nação em situação crítica.

“O Destino de Uma Nação” traz uma história envolvente num recorte da História com detalhes duvidosos como qualquer produção do gênero, mas com uma narrativa ágil graças a uma direção segura e uma performance genial de um ícone peculiar e marcante. “Vitória a qualquer custo”, para Gary Oldman, foi levado bem à sério.

Nota: 8,0

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Crítica: “O Destino de Uma Nação” é ágil e traz performance primorosa de Gary Oldman

Por Thiago Sampaio em Crítica

26 de Janeiro de 2018

Foto: Divulgação

Certas produções têm qualidades confundidas por causa da performance marcante de seus protagonistas. Casos, por exemplo, de Jamie Foxx em “Ray” (idem, 2004), Daniel Day Lewis em “Lincoln” (idem, 2012); dentre muitos outros exemplos. “O Destino de Uma Nação” (Darkest Hour, 2017), indicado a seis Oscars em 2018 (incluindo Melhor Filme) é um bom longa com típicos extremos de uma obra biográfica, porém, a atuação irretocável de Gary Oldman como Winston Churchill deu a ela uma visibilidade ampliada nos principais circuitos. Atenção esta, bem merecida, diga-se de passagem.

A trama se passa quando Winston Churchill (Oldman) está prestes a encarar um de seus maiores desafios: tomar posse do cargo de Primeiro Ministro da Grã-Bretanha. À beira de perder a guerra para a Alemanha, ele sofre pressão para fazer um acordo com Hitler para estabelecer o estado como parte do território do Terceiro Reich, mas resiste à pressão.

O roteiro de Anthony McCarthen (“A Teoria de Tudo, 2014) faz questão de dar toda a maquiada na exaltação ao ícone. A relutância geral em aceitá-lo como Primeiro Ministro, o problema com alcoolismo (raro o momento em que ele não está fumando charuto ou bebendo whisky), o fracasso com Gallipoli, está muito bem ressaltado. Ele apenas foi o escolhido pois o escolhido natural, Lord Halifax, recusou a oferta e Churchill era a única opção sem repulsa da oposição.

No fim das contas, é a postura de “vitória a qualquer custo” em seus emblemáticos discursos que o tornou um herói britânico e o longa mostra bem a sua persistência em lutar pelos seus objetivos em nome da própria nação, ao invés da “covardia” da redenção, ignorando o fato que tais atos possam ter dado continuidade à guerra e ocasionado mais mortes (e obviamente, salvo tantas outras).

E há de reconhecer que a direção de Joe Wright (“Orgulho e Preconceito”, 2005; “Desejo e Reparação”, 2007) garante momentos de tensão em meios às negociações diplomáticas, que chegam ao extremo com a Operação Dínamo, pela retirada dos aliados na praia de Dunquerque. E para quem assistiu ao longa “Dunkirk”, dirigido por Christopher Nolan neste mesmo ano, se torna ainda mais interessante conferir o “outro lado” da ação.

Winston era, de fato, um cidadão peculiar e sua obstinação em ir contra as recomendações de terceiros para conseguir colocar em prática aquilo que acredita é algo que merece destaque. E mesmo com a ação decorrendo quase a maior parte do tempo em cenários fechados e com fotografia (por necessidade) escura, Wright traz sua marca autoral. Elegante, por exemplo, quando a paleta vermelha toma conta por completo, através da luz de “No Ar”, da rádio no momento do discurso terminado às pressas, quando a violência está sendo anunciada. Assim como os planos traseiros quando Churchill entra ou sai das salas subterrâneas pelos túneis, como se estivesse no cano de uma arma prestes a ser disparada.

Wright deixa momentos explicitamente artísticos, como quando uma criança foca um avião aliado, por terra, através de um círculo feito pela própria mão que se fecha rapidamente. Outros, mais discretos e até mais eficientes, quando reforça a pressão sob o protagonista com a câmera fechada em seu rosto e sugere fugir do mesmo quando ele liga para “Franklin” (voz de David Strathairn), presidente dos Estados Unidos, solicitando auxílio durante a polêmica operação. A passagem do tempo através da data mudando na tela é feita de maneira não criativa, porém, confere dinâmica.

Mas como grande parte das cinebiografias políticas, há momentos que perdem em credibilidade. Por exemplo, Churchill era um machista reconhecido. Permitir a entrada de uma mulher, no caso sua escrivã Elizabeth (a carismática Lily James, fazendo o que pode para não soar caricata), na sala secreta de mapas é algo, pelo menos, duvidoso. A cena que ele conversa com a população no metrô, confirmando a decisão em lutar até o fim ao invés de expor fraqueza, por mais que o diretor se preocupe em trazer um plano horizontal, não mais de cima para baixo como anteriormente, soa um tanto novelesca, forçada.

Mas não tem como negar que o destaque maior da produção é mesmo Gary Oldman. Mesmo debaixo da admirável maquiagem (merecidamente indicada ao Oscar) que o deixa quase irreconhecível, bem acima do peso e com papadas avantajadas, incorpora cada traço de Churchill com maestria. Do andar com postura torta e mãos para trás, voz aguda e sinuosa, até mesmo os mínimos trejeitos como a forma de pegar no copo, tudo está impecável. É o tipo de papel para consolidar a carreira brilhante de um ator com papéis tão distintos, como em “Drácula de Bram Stoker” (Dracula, 1992), “O Quinto Elemento” (The Fifth Element, 1997), “O Espião Que Sabia Demais” (Tinker Tailor Soldier Spy, 2011), entre tantos outros.

O elenco coadjuvante contribui para o produto ser bem sucedido. Kristin Scott Thomas confere uma sensibilidade cativante à Clementine Churchill, orgulhosa e sempre incentivando o marido, mas sem esconder o ar de amargura por viver sob à sombra de alguém tão ocupado. O ótimo Ben Mendelsohn confere ao Rei George VI uma versão bem mais madura e autoritária do que àquela de Colin Firth em “O Discurso do Rei” (The King’s Speech, 2010), por mais que ainda esteja ali toda a insegurança e humanidade. Já Stephan Dillane traz a Halifax a arrogância e e frieza de quem ao mesmo tempo quer impor autoridade, porém, não tem a coragem de dar as caras como a segunda maior patente de uma nação em situação crítica.

“O Destino de Uma Nação” traz uma história envolvente num recorte da História com detalhes duvidosos como qualquer produção do gênero, mas com uma narrativa ágil graças a uma direção segura e uma performance genial de um ícone peculiar e marcante. “Vitória a qualquer custo”, para Gary Oldman, foi levado bem à sério.

Nota: 8,0