Crítica: ‘O Homem de Aço’ é um voo pretensioso e turbulento de Superman - Cinema Sinergia 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: ‘O Homem de Aço’ é um voo pretensioso e turbulento de Superman

Por Thiago Sampaio em Crítica

18 de julho de 2013

Pôster de 'O Homem de Aço'

Foto: Divulgação

O Superman sempre foi um personagem bastante amado e odiado por muitos. Há os que contestem a sua falta de vulnerabilidade por causa do seu poder soberano, mas é fato que ele tem um lugar cativo na cultura pop.

Assim, após o criticado Superman – O Retorno (Superman Returns, 2006), dirigido por Bryan Singer, um novo filme recontando a origem do herói chega rodeado de expectativas. Fato é que “O Homem de Aço” (Man of Steel, 2013) é, de longe, a produção mais grandiosa do herói, mas nem por isso a melhor.

A trama começa no planeta Krypton. Percebendo que o planeta está prestes a entrar em colapso, Jor-El (Russell Crowe) envia o filho ainda bebê em uma nave para o planeta Terra. No novo lar, a criança é adotada por Jonathan (Kevin Costner) e Martha Kent (Diane Lane), que passam a chamá-lo de Clark.

O tempo passa, seus poderes vão aparecendo, evidenciando que não é um ser humano. Já adulto (vivido por Henry Cavill), ele usa seus dons para proteger os terráqueos do General Zod (Michael Shannon), um renegado de Krypton que busca a reinvenção do extinto planeta.

Antes de tudo, é preciso ressaltar que Superman – O Filme (Superman – The Movie, 1978) está eternizado na mente dos fãs como o longa-metragem mais fiel ao espírito leve e fantasioso das HQs do herói da DC Comics.

Após uma continuação eficiente (Superman II: A Aventura Continua, 1980) e duas fracassadas (Superman III, 1983; Superman IV: em Busca da Paz, 1987), além do já citado “O Retorno”, chegou a hora do personagem se reinventar. Após o elogiado teor sombrio da nova trilogia de Batman (2005; 2008; 2012), dirigida por Christopher Nolan, o próprio assumiu a produção do reboot, dando a Zack Snyder a missão de comandar a aventura.

Nova direção

Conhecido pela visão estética apurada, vista nos ótimos Madrugada dos Mortos (Dawn of the Dead, 2004), 300 (idem, 2007), Watchmen – O Filme (Watchmen, 2009) e o mediano Sucker Punch – Mundo Surreal (2011), Snyder se mostra bem mais contido no novo Superman em termos de inovação. Nesse caso, é nítida a influência de Christopher Nolan ao tentar aplicar um teor mais “realista”, com um tom acinzentado predominante, bem menos piadas e…sem cueca por cima do uniforme. Algo que funciona dentro da proposta de renovação, por mais que seja estranho para quem se acostumou a ver um ser de roupa azul, capa vermelha e um “S” no peito.

Mas Snyder, contando com o farto orçamento de U$ 225 milhões, mostra eficiência ao dar uma nova cara à franquia. Começando pela ótima sequencia inicial, quando vemos uma exótica caracterização do planeta Krypton, com trajes, animais e veículos exóticos, tons avermelhados ao fundo, lembrando o seriado “Jornada nas Estrelas”.

A ação inicial impressiona e enxerta expectativas. Quando a trama é transferida para a Terra, ele começa a brincadeira na edição, narrando a adaptação do jovem Clark através de inúmeros flashbacks, ao invés de seguir uma continuidade. O que pode ser visto como incômodo por muitos, vejo tal opção como um artifício válido, apesar de não criativo.

Identidade

E justamente quando Kal-El/Clark Kent busca conhecer a sua identidade e saber o seu papel no mundo é quando o filme mais mostra o seu valor. O roteiro de David S.Goyer (Batman Begins, 2005) e do próprio Nolan aborda de forma eficiente a relação do rapaz com os pais adotivos, de modo que uma sensação de impotência é forçada para que seja aceito na sociedade e se torne alguém comum. Nesse processo, Zack Snyder conduz boas cenas com o jovem se policiando a não salvar inocentes, levando desaforo para casa e, posteriormente, até uma reprodução da Fortaleza da Solidão – do filme de 1978.

Pretensões

Por mais que tente ser “pés no chão” e busque explicações para tudo (até mesmo o S do peito), o longa metragem acaba por se atropelar nas próprias pretensões quando a ação explode de vez. Não tem como negar que é impressionante o que se vê em cena, mas Zack Snyder se rende ao exagero. São tantos cortes, tantos elementos na telona em frações de segundo, no melhor estilo Michael Bay em Transformers 3 (2011), que é impossível entender tudo o que está acontecendo. Sem falar do quão prolongado é o ato final, pois cerca de meia hora poderia ser cortada sem prejuízo. Assim, fica difícil engolir tal proposta realista vendo uma destruição inteira de uma cidade aos moldes de desenhos como “Dragon Ball Z” e “Cavaleiros do Zodíaco”.

Mas ‘O Homem de Aço’ se segura muito pela força do elenco. Henry Cavill busca se desprender do saudoso Christopher Reeve e passa a segurança necessária do herói, mesmo com as incertezas na fase da juventude (e ele convence como adolescente!). No contraponto, Amy Adams está no piloto automático vivendo uma versão “repórter corajosa” de Louis Lane, até porque o roteiro não dá margens para maior aprofundamento.

Michael Shannon convence na pele do General Zod, deixando de lado a feição séria de Terrence Stamp em “Superman II”, e adotando o ar lunático que lhe rendeu uma indicação ao Oscar por Foi Apenas Um Sonho (Revolutionary Road, 2008). Mas são os intérpretes dos pais do herói quem roubam a cena. Russell Crowe traz a presença forte e o sentimentalismo paternal que Jor-El precisa (assim como tinha Marlon Brando), com o diferencial de agora entrar em combate.

Kevin Costner também se mostra uma escolha acertada, sempre com um ar fraternal, de modo que a censura aos poderes de Clark nunca são vistas de modo negativo, pois é a preocupação com o “filho” que prepondera. Diane Lane também convence como uma mãe sempre atenciosa, porém, amargurada pelo fato de saber que um dia o filho de criação pode seguir rumos indesejados por causa de sua responsabilidade de outro mundo.

O herói não é mais aquele marcante, colorido e divertido de 1978. As escolhas do protagonista agora tomam o centro da história e as referências religiosas estão mais fortes do que nunca (seria Superman Jesus Cristo?!). Poderia ser bem melhor se a pretensão não fosse maior do que o próprio personagem pode ser. Sim, é difícil transformar algo já consolidado e sem muita margem para amadurecimento. No fim das contas, temos mais um bom filme de ação.

Nota: 7,0

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Crítica: ‘O Homem de Aço’ é um voo pretensioso e turbulento de Superman

Por Thiago Sampaio em Crítica

18 de julho de 2013

Pôster de 'O Homem de Aço'

Foto: Divulgação

O Superman sempre foi um personagem bastante amado e odiado por muitos. Há os que contestem a sua falta de vulnerabilidade por causa do seu poder soberano, mas é fato que ele tem um lugar cativo na cultura pop.

Assim, após o criticado Superman – O Retorno (Superman Returns, 2006), dirigido por Bryan Singer, um novo filme recontando a origem do herói chega rodeado de expectativas. Fato é que “O Homem de Aço” (Man of Steel, 2013) é, de longe, a produção mais grandiosa do herói, mas nem por isso a melhor.

A trama começa no planeta Krypton. Percebendo que o planeta está prestes a entrar em colapso, Jor-El (Russell Crowe) envia o filho ainda bebê em uma nave para o planeta Terra. No novo lar, a criança é adotada por Jonathan (Kevin Costner) e Martha Kent (Diane Lane), que passam a chamá-lo de Clark.

O tempo passa, seus poderes vão aparecendo, evidenciando que não é um ser humano. Já adulto (vivido por Henry Cavill), ele usa seus dons para proteger os terráqueos do General Zod (Michael Shannon), um renegado de Krypton que busca a reinvenção do extinto planeta.

Antes de tudo, é preciso ressaltar que Superman – O Filme (Superman – The Movie, 1978) está eternizado na mente dos fãs como o longa-metragem mais fiel ao espírito leve e fantasioso das HQs do herói da DC Comics.

Após uma continuação eficiente (Superman II: A Aventura Continua, 1980) e duas fracassadas (Superman III, 1983; Superman IV: em Busca da Paz, 1987), além do já citado “O Retorno”, chegou a hora do personagem se reinventar. Após o elogiado teor sombrio da nova trilogia de Batman (2005; 2008; 2012), dirigida por Christopher Nolan, o próprio assumiu a produção do reboot, dando a Zack Snyder a missão de comandar a aventura.

Nova direção

Conhecido pela visão estética apurada, vista nos ótimos Madrugada dos Mortos (Dawn of the Dead, 2004), 300 (idem, 2007), Watchmen – O Filme (Watchmen, 2009) e o mediano Sucker Punch – Mundo Surreal (2011), Snyder se mostra bem mais contido no novo Superman em termos de inovação. Nesse caso, é nítida a influência de Christopher Nolan ao tentar aplicar um teor mais “realista”, com um tom acinzentado predominante, bem menos piadas e…sem cueca por cima do uniforme. Algo que funciona dentro da proposta de renovação, por mais que seja estranho para quem se acostumou a ver um ser de roupa azul, capa vermelha e um “S” no peito.

Mas Snyder, contando com o farto orçamento de U$ 225 milhões, mostra eficiência ao dar uma nova cara à franquia. Começando pela ótima sequencia inicial, quando vemos uma exótica caracterização do planeta Krypton, com trajes, animais e veículos exóticos, tons avermelhados ao fundo, lembrando o seriado “Jornada nas Estrelas”.

A ação inicial impressiona e enxerta expectativas. Quando a trama é transferida para a Terra, ele começa a brincadeira na edição, narrando a adaptação do jovem Clark através de inúmeros flashbacks, ao invés de seguir uma continuidade. O que pode ser visto como incômodo por muitos, vejo tal opção como um artifício válido, apesar de não criativo.

Identidade

E justamente quando Kal-El/Clark Kent busca conhecer a sua identidade e saber o seu papel no mundo é quando o filme mais mostra o seu valor. O roteiro de David S.Goyer (Batman Begins, 2005) e do próprio Nolan aborda de forma eficiente a relação do rapaz com os pais adotivos, de modo que uma sensação de impotência é forçada para que seja aceito na sociedade e se torne alguém comum. Nesse processo, Zack Snyder conduz boas cenas com o jovem se policiando a não salvar inocentes, levando desaforo para casa e, posteriormente, até uma reprodução da Fortaleza da Solidão – do filme de 1978.

Pretensões

Por mais que tente ser “pés no chão” e busque explicações para tudo (até mesmo o S do peito), o longa metragem acaba por se atropelar nas próprias pretensões quando a ação explode de vez. Não tem como negar que é impressionante o que se vê em cena, mas Zack Snyder se rende ao exagero. São tantos cortes, tantos elementos na telona em frações de segundo, no melhor estilo Michael Bay em Transformers 3 (2011), que é impossível entender tudo o que está acontecendo. Sem falar do quão prolongado é o ato final, pois cerca de meia hora poderia ser cortada sem prejuízo. Assim, fica difícil engolir tal proposta realista vendo uma destruição inteira de uma cidade aos moldes de desenhos como “Dragon Ball Z” e “Cavaleiros do Zodíaco”.

Mas ‘O Homem de Aço’ se segura muito pela força do elenco. Henry Cavill busca se desprender do saudoso Christopher Reeve e passa a segurança necessária do herói, mesmo com as incertezas na fase da juventude (e ele convence como adolescente!). No contraponto, Amy Adams está no piloto automático vivendo uma versão “repórter corajosa” de Louis Lane, até porque o roteiro não dá margens para maior aprofundamento.

Michael Shannon convence na pele do General Zod, deixando de lado a feição séria de Terrence Stamp em “Superman II”, e adotando o ar lunático que lhe rendeu uma indicação ao Oscar por Foi Apenas Um Sonho (Revolutionary Road, 2008). Mas são os intérpretes dos pais do herói quem roubam a cena. Russell Crowe traz a presença forte e o sentimentalismo paternal que Jor-El precisa (assim como tinha Marlon Brando), com o diferencial de agora entrar em combate.

Kevin Costner também se mostra uma escolha acertada, sempre com um ar fraternal, de modo que a censura aos poderes de Clark nunca são vistas de modo negativo, pois é a preocupação com o “filho” que prepondera. Diane Lane também convence como uma mãe sempre atenciosa, porém, amargurada pelo fato de saber que um dia o filho de criação pode seguir rumos indesejados por causa de sua responsabilidade de outro mundo.

O herói não é mais aquele marcante, colorido e divertido de 1978. As escolhas do protagonista agora tomam o centro da história e as referências religiosas estão mais fortes do que nunca (seria Superman Jesus Cristo?!). Poderia ser bem melhor se a pretensão não fosse maior do que o próprio personagem pode ser. Sim, é difícil transformar algo já consolidado e sem muita margem para amadurecimento. No fim das contas, temos mais um bom filme de ação.

Nota: 7,0