Crítica: 'Praia do Futuro' prima por fugir do lugar comum - Cinema Sinergia 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: ‘Praia do Futuro’ prima por fugir do lugar comum

Por Thiago Sampaio em Crítica

15 de Maio de 2014

Pôster de 'Praia do Futuro'

Pôster de ‘Praia do Futuro’ – Foto: Divulgação

O longa-metragem “Praia do Futuro” (idem, 2014) atraiu a curiosidade da mídia por ter como protagonista Wagner Moura, em alta após sucessos como “Tropa de Elite 1 e 2” (2007, 2010), “O Homem do Futuro” (2011) e a ficção “Elysium” (2013). Em Fortaleza, o alarde foi ainda maior pela capital cearense ter servido como parte das locações. Porém, engana-se quem pensa que se trata de mais um filme cheio de ingredientes para agradar o público em geral. Fugindo do lugar comum e mergulhando no abstrato, o diretor Karim Aïnouz (“Madame Satã”, 2002) apresenta um ousado drama sobre amor, auto-descoberta, família e escolhas.

A história

A história gira em torno de Donato (Wagner Moura), um experiente salva-vidas na Praia do Futuro, em Fortaleza. Ao fracassar pela primeira vez em um resgate, ele acaba conhecendo o alemão Konrad (Clemens Schick), amigo da vítima. Motivado pelas circunstâncias, Donato resolve recomeçar a sua vida em Berlim, deixando para trás a família. Anos mais tarde, Ayrton (Jesuíta Barbosa), o irmão mais novo, embarca para a Europa em busca daquele que considerava o seu herói.

Romance diferente

Roteirizado pelo próprio Karim Aïnouz, ao lado de Felipe Bragança, o longa é ousado já ao trazer como pano de fundo o romance entre dois homens (o que provavelmente vai fazer os preconceituosos de plantão torcerem o nariz), Donato e Konrad, para abordar a complexidade da vida humana. Afinal, vale a pena largar família, emprego e rumar para uma terra desconhecida em nome de uma paixão? A possibilidade de se reinventar, as decepções familiares, a solidão, as diferenças de personalidades…todas essas vertentes são trabalhadas de maneira bastante cautelosa pelo diretor cearense, em trama dividida em três atos (O Abraço do Afogado, Um Herói Partido ao Meio, e Um Fantasma Que Fala Alemão).

Silêncio reflexivo

Conhecido por obras pretensiosas como “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo” (2009) e “O Céu de Suely” (2006), Karim Aïnouz é um cineasta que não costumar “mastigar” para o espectador as sensações que estão em cena. Em “Praia do Futuro”, poucos diálogos e um silêncio predominante servem para destilar milhares de pensamentos. Através dos movimentos de cada personagem, de longas sequencias de dança (característica presente em todas as suas obras), do barulho do mar, dos cenários em planos abertos (seja a bela praia brasileira ou a arquitetura refinada europeia), tudo evoca a reflexão para o que se passa na cabeça de cada indeciso personagem.

Em meio ao silêncio e cores fortes, muitas são os momentos de destaque, como a bela cena do trem, em que Donato faz a escolha entre voltar para o seu país ou permanecer com o companheiro. Ver o personagem de Wagner Moura deslocado em um lugar sem praia, com saudade da família que deixou para trás, amargurado ao segurar o capacete de motoqueiro de Konrad, ou no tenso (e ao mesmo tempo divertido) reencontro com o irmão Ayrton trazem uma carga pesada, ao mesmo tempo em que o destino de cada um permanece incerto. A “Praia do Futuro” do título não é apenas uma referência a praia cearense que serviu como parte das locações, já que os rumos da vida é um dos motes principais da produção.

Atuações

O baiano Wagner Moura adiciona mais uma atuação de destaque ao currículo encarnando um cearense de maneira convincente, com sotaque e sem cair no estereótipo. Com um personagem bastante complexo, visto que Donato não sabe ao certo o que quer para si, o ator se entrega por completo, com direito a cenas de sexo e um breve nu frontal. Em contrapartida, o alemão Clemens Schick encarna Konrad sempre com um ar de mistério, apesar de sempre ficar claro o seu bom caráter. Já Jesuíta Barbosa, pernambucano radicado em Fortaleza, também cumpre bem o seu papel ao conferir a Ayrton um misto de rebeldia e inocência, funcionando também como alívio cômico através das expressões cearenses.

Final poético

Com direito a um belo final poético, envolvendo motos, estrada e névoa, abrindo margem para inúmeras reflexões, “Praia do Futuro” prima por não tratar o espectador como estúpido. E em tempos em que as maiores bilheterias do cinema nacional se resumem a comédias descerebradas e estreladas por humoristas de TV, isso é, no mínimo, louvável.

Nota: 8,0

Confira a matéria com as entrevistas de Wagner Moura e Karim Aïnouz em passagem por Fortaleza

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Crítica: ‘Praia do Futuro’ prima por fugir do lugar comum

Por Thiago Sampaio em Crítica

15 de Maio de 2014

Pôster de 'Praia do Futuro'

Pôster de ‘Praia do Futuro’ – Foto: Divulgação

O longa-metragem “Praia do Futuro” (idem, 2014) atraiu a curiosidade da mídia por ter como protagonista Wagner Moura, em alta após sucessos como “Tropa de Elite 1 e 2” (2007, 2010), “O Homem do Futuro” (2011) e a ficção “Elysium” (2013). Em Fortaleza, o alarde foi ainda maior pela capital cearense ter servido como parte das locações. Porém, engana-se quem pensa que se trata de mais um filme cheio de ingredientes para agradar o público em geral. Fugindo do lugar comum e mergulhando no abstrato, o diretor Karim Aïnouz (“Madame Satã”, 2002) apresenta um ousado drama sobre amor, auto-descoberta, família e escolhas.

A história

A história gira em torno de Donato (Wagner Moura), um experiente salva-vidas na Praia do Futuro, em Fortaleza. Ao fracassar pela primeira vez em um resgate, ele acaba conhecendo o alemão Konrad (Clemens Schick), amigo da vítima. Motivado pelas circunstâncias, Donato resolve recomeçar a sua vida em Berlim, deixando para trás a família. Anos mais tarde, Ayrton (Jesuíta Barbosa), o irmão mais novo, embarca para a Europa em busca daquele que considerava o seu herói.

Romance diferente

Roteirizado pelo próprio Karim Aïnouz, ao lado de Felipe Bragança, o longa é ousado já ao trazer como pano de fundo o romance entre dois homens (o que provavelmente vai fazer os preconceituosos de plantão torcerem o nariz), Donato e Konrad, para abordar a complexidade da vida humana. Afinal, vale a pena largar família, emprego e rumar para uma terra desconhecida em nome de uma paixão? A possibilidade de se reinventar, as decepções familiares, a solidão, as diferenças de personalidades…todas essas vertentes são trabalhadas de maneira bastante cautelosa pelo diretor cearense, em trama dividida em três atos (O Abraço do Afogado, Um Herói Partido ao Meio, e Um Fantasma Que Fala Alemão).

Silêncio reflexivo

Conhecido por obras pretensiosas como “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo” (2009) e “O Céu de Suely” (2006), Karim Aïnouz é um cineasta que não costumar “mastigar” para o espectador as sensações que estão em cena. Em “Praia do Futuro”, poucos diálogos e um silêncio predominante servem para destilar milhares de pensamentos. Através dos movimentos de cada personagem, de longas sequencias de dança (característica presente em todas as suas obras), do barulho do mar, dos cenários em planos abertos (seja a bela praia brasileira ou a arquitetura refinada europeia), tudo evoca a reflexão para o que se passa na cabeça de cada indeciso personagem.

Em meio ao silêncio e cores fortes, muitas são os momentos de destaque, como a bela cena do trem, em que Donato faz a escolha entre voltar para o seu país ou permanecer com o companheiro. Ver o personagem de Wagner Moura deslocado em um lugar sem praia, com saudade da família que deixou para trás, amargurado ao segurar o capacete de motoqueiro de Konrad, ou no tenso (e ao mesmo tempo divertido) reencontro com o irmão Ayrton trazem uma carga pesada, ao mesmo tempo em que o destino de cada um permanece incerto. A “Praia do Futuro” do título não é apenas uma referência a praia cearense que serviu como parte das locações, já que os rumos da vida é um dos motes principais da produção.

Atuações

O baiano Wagner Moura adiciona mais uma atuação de destaque ao currículo encarnando um cearense de maneira convincente, com sotaque e sem cair no estereótipo. Com um personagem bastante complexo, visto que Donato não sabe ao certo o que quer para si, o ator se entrega por completo, com direito a cenas de sexo e um breve nu frontal. Em contrapartida, o alemão Clemens Schick encarna Konrad sempre com um ar de mistério, apesar de sempre ficar claro o seu bom caráter. Já Jesuíta Barbosa, pernambucano radicado em Fortaleza, também cumpre bem o seu papel ao conferir a Ayrton um misto de rebeldia e inocência, funcionando também como alívio cômico através das expressões cearenses.

Final poético

Com direito a um belo final poético, envolvendo motos, estrada e névoa, abrindo margem para inúmeras reflexões, “Praia do Futuro” prima por não tratar o espectador como estúpido. E em tempos em que as maiores bilheterias do cinema nacional se resumem a comédias descerebradas e estreladas por humoristas de TV, isso é, no mínimo, louvável.

Nota: 8,0

Confira a matéria com as entrevistas de Wagner Moura e Karim Aïnouz em passagem por Fortaleza