Crítica: "Spotlight: Segredos Revelados" é uma contundente aula de Jornalismo - Cinema Sinergia 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “Spotlight: Segredos Revelados” é uma contundente aula de Jornalismo

Por Thiago Sampaio em Crítica

29 de Janeiro de 2016

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Qual é o limite entre a fé e a alienação? Essa linha tênue, capaz de quebrar crenças, é a força motriz de “Spotlight: Segredos Revelados” (“Spotlight”, 2015), indicado a seis Oscars (Melhor Filme; Diretor; Ator Coadjuvante; Atriz Coadjuvante; Edição e Roteiro Original). Baseado em fatos reais no caso que rendeu o prêmio Pulitzer de Jornalismo em 2003, o longa-metragem retrata de maneira digna uma realidade chocante – casos de pedofilia envolvendo a Igreja Católica – sob o ponto de vista da imprensa investigativa.

Enredo

O drama mostra um grupo de jornalistas em Boston, do veículo Boston Globe, que reúne milhares de documentos capazes de provar diversos casos de abuso de crianças causados por padres católicos. Quando o time de repórteres da equipe Spotlight mergulha nas alegações de pedofilia, a investigação de um ano desvenda décadas de encobrimento nos mais altos níveis dos estabelecimentos legais, religiosos e governamentais, desencadeando uma onda de revelações ao redor do mundo.

Aula de jornalismo

“Spotlight: Segredos Revelados” é um longa-metragem que parece deslocado da sua época. Com um enredo forte e um desenvolvimento burocrático que se assemelha a filmes de investigação jornalística dos anos 60 e 70, é um daqueles exemplares que ocasionalmente surgem nos dias atuais com um ar retrô, como “Boa Noite e Boa Sorte” (2005) e “Frost/Nixon” (2008). Ele não é para ser apreciado ao longo dos 128 minutos de projeção, mas digerido, analisado. E é com muita precisão que o diretor Tom McCarthy (que veio da péssima comédia “Trocando os Pés”, estrelada por Adam Sandler) conduz essa jornada de revelações.

O longa ressalta o preciosismo do jornalismo pré-internet. Em tempos em que o imediatismo está à frente da qualidade, a urgência em divulgar uma notícia antes da concorrência sem a devida apuração, ver o trabalho executado pela equipe Spotlight é admirável. O levantamento dos casos de pedofilia é delicado, entrevistando não apenas por telefone, mas buscando fontes confiáveis e indo ao encontro das mesmas, pesquisando arquivos de publicações antigas, etc. Nesse quesito, é respeitável o fato de o roteiro de McCarthy, ao lado de Josh Singer (“O Quinto Poder”), manter termos próprios da profissão, como matéria “suíte”, “clipping”, a ética pelo “off the records”, etc.

Choque de realidade

À medida em que os fatos vão se desdobrando, tudo é bem explicado ao espectador, como se o mesmo participasse do processo de apuração. Por exemplo, quando conferimos que o número de denúncias se aproxima bastante com do o registro de padres afastados por motivos aleatórios pela igreja. E se hoje as redes sociais são ferramentas que contribuem (e também atrapalham) na propagação de informações, há quase 15 anos tudo era mais difícil por motivos óbvios, principalmente pela censura, agravada por se tratar de nada menos que a religião com o maior número de adeptos do mundo. E se tratando de um assunto tão delicado, não deixa de soar como um soco no estômago ver valores sendo confundidos, através de mães tendo total confiança ao entregar seus filhos para os padres ou vendo o relato de um jovem homossexual que acha comum tal abuso quando criança como forma de “aceitação”.

Em meio a denúncias esparsas, sempre refutadas pela igreja e muitas vezes omitidas pelos veículos de comunicação, Tom McCarthy se mostra bem sucedido ao transparecer a gravidade dos casos através de imagens singelas, como na naturalidade em que um padre assume um caso de abuso (“mas não estupro”, segundo ele) à personagem vivida por Rachel McAdams, seguida de crianças passeando de bicicleta em frente à casa do mesmo. O mesmo vale para a preocupação do personagem de Brian d’Arcy James com os filhos ao descobrir que um suspeito mora na mesma rua que ele, a ponto de deixar o alerta na geladeira, em uma cena que soa até cômica. Destaque para a bela trilha-sonora de Howard Shore, mantendo sempre o clima de melancolia ao longo da narrativa.

Grande elenco

Mas se tratando de um longa-metragem sem maiores atrativos visuais, o elenco como um todo é um show à parte. Destaque para Mark Ruffalo (mais uma vez indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), que, com seu já tradicional jeito tranquilo e taciturno, é o que mais reflete a decepção com os fatos descobertos, revelando a tristeza pessoal por se dizer católico e não sentir vontade de voltar a frequentar a igreja. Rachel McAdams, também indicada a Atriz Coadjuvante, também está eficiente, trazendo a sensibilidade à trama como a única mulher da equipe Spotlight, e também a que mais se mostra traumatizada com tudo.

Michael Keaton, excelente em cena, dá o tom perfeito de sobriedade ao experiente Walter ‘Robby’ Robinson, jornalista que se vê sempre numa corda bamba por compreender a delicadeza e o perigo da divulgação de tais informações. Se Robby se vê em um eterno dilema, o mesmo não se aplica a Marty Baron, em que Liev Schreiber confere a frieza necessária para um editor de uma reportagem de tamanha gravidade. Completando o elenco, os ótimos Stanley Tucci, Billy Crudup e John Slattery têm participações relevantes, conferindo peso à produção.

Não vai agradar a todos

O longa pode soar maniqueísta para alguns, principalmente os mais radicais, por apresentar uma questão que afronte a igreja. Independente disso, a mensagem transpõe uma sensação incômoda ao espectador por se tratar de uma questão que, dentre muitos outras, são omitidas por motivos de força maior. Crenças à parte, é um filme que pode até não torna-se memorável ao longo dos anos, mas essencial nas disciplinas do curso de Jornalismo da nossa atual e próxima geração.

Nota: 8,5

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Crítica: “Spotlight: Segredos Revelados” é uma contundente aula de Jornalismo

Por Thiago Sampaio em Crítica

29 de Janeiro de 2016

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Qual é o limite entre a fé e a alienação? Essa linha tênue, capaz de quebrar crenças, é a força motriz de “Spotlight: Segredos Revelados” (“Spotlight”, 2015), indicado a seis Oscars (Melhor Filme; Diretor; Ator Coadjuvante; Atriz Coadjuvante; Edição e Roteiro Original). Baseado em fatos reais no caso que rendeu o prêmio Pulitzer de Jornalismo em 2003, o longa-metragem retrata de maneira digna uma realidade chocante – casos de pedofilia envolvendo a Igreja Católica – sob o ponto de vista da imprensa investigativa.

Enredo

O drama mostra um grupo de jornalistas em Boston, do veículo Boston Globe, que reúne milhares de documentos capazes de provar diversos casos de abuso de crianças causados por padres católicos. Quando o time de repórteres da equipe Spotlight mergulha nas alegações de pedofilia, a investigação de um ano desvenda décadas de encobrimento nos mais altos níveis dos estabelecimentos legais, religiosos e governamentais, desencadeando uma onda de revelações ao redor do mundo.

Aula de jornalismo

“Spotlight: Segredos Revelados” é um longa-metragem que parece deslocado da sua época. Com um enredo forte e um desenvolvimento burocrático que se assemelha a filmes de investigação jornalística dos anos 60 e 70, é um daqueles exemplares que ocasionalmente surgem nos dias atuais com um ar retrô, como “Boa Noite e Boa Sorte” (2005) e “Frost/Nixon” (2008). Ele não é para ser apreciado ao longo dos 128 minutos de projeção, mas digerido, analisado. E é com muita precisão que o diretor Tom McCarthy (que veio da péssima comédia “Trocando os Pés”, estrelada por Adam Sandler) conduz essa jornada de revelações.

O longa ressalta o preciosismo do jornalismo pré-internet. Em tempos em que o imediatismo está à frente da qualidade, a urgência em divulgar uma notícia antes da concorrência sem a devida apuração, ver o trabalho executado pela equipe Spotlight é admirável. O levantamento dos casos de pedofilia é delicado, entrevistando não apenas por telefone, mas buscando fontes confiáveis e indo ao encontro das mesmas, pesquisando arquivos de publicações antigas, etc. Nesse quesito, é respeitável o fato de o roteiro de McCarthy, ao lado de Josh Singer (“O Quinto Poder”), manter termos próprios da profissão, como matéria “suíte”, “clipping”, a ética pelo “off the records”, etc.

Choque de realidade

À medida em que os fatos vão se desdobrando, tudo é bem explicado ao espectador, como se o mesmo participasse do processo de apuração. Por exemplo, quando conferimos que o número de denúncias se aproxima bastante com do o registro de padres afastados por motivos aleatórios pela igreja. E se hoje as redes sociais são ferramentas que contribuem (e também atrapalham) na propagação de informações, há quase 15 anos tudo era mais difícil por motivos óbvios, principalmente pela censura, agravada por se tratar de nada menos que a religião com o maior número de adeptos do mundo. E se tratando de um assunto tão delicado, não deixa de soar como um soco no estômago ver valores sendo confundidos, através de mães tendo total confiança ao entregar seus filhos para os padres ou vendo o relato de um jovem homossexual que acha comum tal abuso quando criança como forma de “aceitação”.

Em meio a denúncias esparsas, sempre refutadas pela igreja e muitas vezes omitidas pelos veículos de comunicação, Tom McCarthy se mostra bem sucedido ao transparecer a gravidade dos casos através de imagens singelas, como na naturalidade em que um padre assume um caso de abuso (“mas não estupro”, segundo ele) à personagem vivida por Rachel McAdams, seguida de crianças passeando de bicicleta em frente à casa do mesmo. O mesmo vale para a preocupação do personagem de Brian d’Arcy James com os filhos ao descobrir que um suspeito mora na mesma rua que ele, a ponto de deixar o alerta na geladeira, em uma cena que soa até cômica. Destaque para a bela trilha-sonora de Howard Shore, mantendo sempre o clima de melancolia ao longo da narrativa.

Grande elenco

Mas se tratando de um longa-metragem sem maiores atrativos visuais, o elenco como um todo é um show à parte. Destaque para Mark Ruffalo (mais uma vez indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), que, com seu já tradicional jeito tranquilo e taciturno, é o que mais reflete a decepção com os fatos descobertos, revelando a tristeza pessoal por se dizer católico e não sentir vontade de voltar a frequentar a igreja. Rachel McAdams, também indicada a Atriz Coadjuvante, também está eficiente, trazendo a sensibilidade à trama como a única mulher da equipe Spotlight, e também a que mais se mostra traumatizada com tudo.

Michael Keaton, excelente em cena, dá o tom perfeito de sobriedade ao experiente Walter ‘Robby’ Robinson, jornalista que se vê sempre numa corda bamba por compreender a delicadeza e o perigo da divulgação de tais informações. Se Robby se vê em um eterno dilema, o mesmo não se aplica a Marty Baron, em que Liev Schreiber confere a frieza necessária para um editor de uma reportagem de tamanha gravidade. Completando o elenco, os ótimos Stanley Tucci, Billy Crudup e John Slattery têm participações relevantes, conferindo peso à produção.

Não vai agradar a todos

O longa pode soar maniqueísta para alguns, principalmente os mais radicais, por apresentar uma questão que afronte a igreja. Independente disso, a mensagem transpõe uma sensação incômoda ao espectador por se tratar de uma questão que, dentre muitos outras, são omitidas por motivos de força maior. Crenças à parte, é um filme que pode até não torna-se memorável ao longo dos anos, mas essencial nas disciplinas do curso de Jornalismo da nossa atual e próxima geração.

Nota: 8,5