Crítica: "Três Anúncios Para um Crime" é um drama com coragem de rir das próprias tragédias 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “Três Anúncios Para um Crime” é um drama com coragem de rir das próprias tragédias

Por Thiago Sampaio em Crítica

17 de Fevereiro de 2018

Foto: Divulgação

Desde o excelente “Na Mira do Chefe” (In Bruges, 2008), o diretor Martin McDonagh mostrava a aptidão para o humor negro com personagens caricatos, algo que ele viria a repetir em “Sete Psicopatas e um Shih Tzu” (Seven Psychopaths, 2012) sem a mesma eficácia. Agora em “Três Anúncios Para um Crime” (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, 2017), indicado a sete Oscars e vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama, ele encontra a racionalidade para desenvolver um drama sobre angústia e vingança. Ao mesmo tempo, os envolvidos passam por situações tão surreais que o longa também funciona como uma ótima comédia de erros.

Na trama, inconformada com a ineficácia da polícia em encontrar o culpado pelo brutal assassinato de sua filha, Mildred Hayes (Frances McDormand) decide chamar atenção para o caso não solucionado alugando três outdoors em uma estrada raramente usada. A inesperada atitude repercute em toda a cidade e suas consequências afetam várias pessoas, especialmente o delegado Willoughby (Woody Harrelson), responsável pela investigação, e o violento policial Dixon (Sam Rockwell).

Todo o roteiro, do próprio Martin McDonagh, gira em torno da tentativa da personagem Mildred de fazer justiça, mesmo que a verdade não venha à tona, mas que pelo menos o caso não caia no esquecimento. Mas como se trata de uma cidade pequena, em que é típico todo mundo se conhecer, os anúncios mexem com a paciência de todos, gerando intolerância para tudo que é lado. Para isso, o diretor/roteirista evita maniqueísmos. Ninguém é santo ou desprovido de algum tipo de preconceito. E nem há monstros por completo.

Começando por Willoughby, vivido com o misto de canastrice e bom humor típico de Woody Harrelson, que por mais que tenha o nome citado em um dos outdoors, ele foge do estereótipo de antagonista. Com os dias contados por causa do câncer, ele conta com o respeito da própria Mildred, ele se preocupa com a humanização de Dixon, além de ser um homem afetuoso com a família. Por mais que seja forçado pelo diretor para criar empatia pelo personagem, a narração em off dele após a cena no estábulo é o momento mais emocionante do longa.

E se Dixon teria todas as ferramentas para ser a peça repugnante da trama, assumidamente racista, violento a ponto de jogar uma pessoa pela janela apenas por impulso e que sempre abusa da autoridade, o roteiro “justifica” essa personalidade através da mãe intolerante e a falta de intelecto. Até mesmo o plot-point que culmina na virada (ou tentativa) de caráter dele, por mais absurda que seja a cena, não se torna tão improvável vindo de alguém desatento a ponto de perder o próprio distintivo. E Sam Rockwell está incrível, conferindo o exagero que o personagem exige, sotaque caipira, andar cambota, mas um certo ar de inocência.

Mas é mesmo a sempre ótima Frances McDormand a força-motriz da produção. De personalidade forte a ponto de encarar boa parte da cidade, Mildred não ousa em furar o dedo do dentista com a broca dele (e o diretor não esconde o quanto a cena é bizarra, pois Willoughby surge na cena seguinte dizendo que o ato foi engraçado, apesar de criminoso). Mas precisa lidar com a angústia por, de certa forma, se sentir culpada pela morte da filha (num flashback bem didático, porém, necessário).

Paralelo a tudo isso, ela ainda precisa tocar a relação complicada com o filho (o talentoso Lucas Hedges, de “Manchester à Beira-Mar”) e o ex-marido (John Hawkes). Mesmo uma mulher cheia de personalidade como ela se sente impotente diante de um homem opressor. A complexidade que McDormand dá a Mildread é notória quando ela confronta Willoughby, mas muda para um tom de preocupação logo quando ele apresenta uma fragilidade em decorrência da doença. E se a cidade é cheia de pessoas preconceituosas, a própria protagonista age com incômodo diante do anão James (Peter Dinklage, de “Game of Thrones“), mesmo ele sempre bem intencionado para com ela.

Em meio a cenas que provocam risos politicamente incorretos, como a cena em que uma das vítimas da violência de Dixon o identifica na mesma sala do hospital, Martin McDonagh confere algumas particularidades, como por exemplo, todas as tragédias ocorrerem pela noite. O dia representa a esperança. É belo o momento em que Mildred contempla um cervo em meio a um vazio num fim de tarde, mas logo em seguida ele desaparece. É como se a transição de turnos representasse a mudança do instinto dos personagens.

Há também alguns paralelos com o número três, não só nos outdoors do título. Por exemplo, as três cartas enviadas por Willoughby, em que a enviada para Mildred em especial, contém uma tirada cômica explicando uma atitude “misteriosa”, que define bem a maneira peculiar como o diretor desenvolve a química entre essas figuras desajeitadas e implicantes.

Com ares de um western moderno e sem tiroteios, personagens tridimensionais (sim, foi um trocadilho) que poderiam ter saído de um filme dos irmãos Ethan e Joel Coen (este último, marido de Frances McDormand), “Três Anúncios Para um Crime” traz uma agradável melancolia que, ciente da vergonha alheia, qualquer um pode tomar uma atitude drástica a qualquer momento, sem ter certeza de nada na vida. E como bem descreve um deles no momento de reflexão final: “decidimos no caminho”.

Nota: 8,0

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Crítica: “Três Anúncios Para um Crime” é um drama com coragem de rir das próprias tragédias

Por Thiago Sampaio em Crítica

17 de Fevereiro de 2018

Foto: Divulgação

Desde o excelente “Na Mira do Chefe” (In Bruges, 2008), o diretor Martin McDonagh mostrava a aptidão para o humor negro com personagens caricatos, algo que ele viria a repetir em “Sete Psicopatas e um Shih Tzu” (Seven Psychopaths, 2012) sem a mesma eficácia. Agora em “Três Anúncios Para um Crime” (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, 2017), indicado a sete Oscars e vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama, ele encontra a racionalidade para desenvolver um drama sobre angústia e vingança. Ao mesmo tempo, os envolvidos passam por situações tão surreais que o longa também funciona como uma ótima comédia de erros.

Na trama, inconformada com a ineficácia da polícia em encontrar o culpado pelo brutal assassinato de sua filha, Mildred Hayes (Frances McDormand) decide chamar atenção para o caso não solucionado alugando três outdoors em uma estrada raramente usada. A inesperada atitude repercute em toda a cidade e suas consequências afetam várias pessoas, especialmente o delegado Willoughby (Woody Harrelson), responsável pela investigação, e o violento policial Dixon (Sam Rockwell).

Todo o roteiro, do próprio Martin McDonagh, gira em torno da tentativa da personagem Mildred de fazer justiça, mesmo que a verdade não venha à tona, mas que pelo menos o caso não caia no esquecimento. Mas como se trata de uma cidade pequena, em que é típico todo mundo se conhecer, os anúncios mexem com a paciência de todos, gerando intolerância para tudo que é lado. Para isso, o diretor/roteirista evita maniqueísmos. Ninguém é santo ou desprovido de algum tipo de preconceito. E nem há monstros por completo.

Começando por Willoughby, vivido com o misto de canastrice e bom humor típico de Woody Harrelson, que por mais que tenha o nome citado em um dos outdoors, ele foge do estereótipo de antagonista. Com os dias contados por causa do câncer, ele conta com o respeito da própria Mildred, ele se preocupa com a humanização de Dixon, além de ser um homem afetuoso com a família. Por mais que seja forçado pelo diretor para criar empatia pelo personagem, a narração em off dele após a cena no estábulo é o momento mais emocionante do longa.

E se Dixon teria todas as ferramentas para ser a peça repugnante da trama, assumidamente racista, violento a ponto de jogar uma pessoa pela janela apenas por impulso e que sempre abusa da autoridade, o roteiro “justifica” essa personalidade através da mãe intolerante e a falta de intelecto. Até mesmo o plot-point que culmina na virada (ou tentativa) de caráter dele, por mais absurda que seja a cena, não se torna tão improvável vindo de alguém desatento a ponto de perder o próprio distintivo. E Sam Rockwell está incrível, conferindo o exagero que o personagem exige, sotaque caipira, andar cambota, mas um certo ar de inocência.

Mas é mesmo a sempre ótima Frances McDormand a força-motriz da produção. De personalidade forte a ponto de encarar boa parte da cidade, Mildred não ousa em furar o dedo do dentista com a broca dele (e o diretor não esconde o quanto a cena é bizarra, pois Willoughby surge na cena seguinte dizendo que o ato foi engraçado, apesar de criminoso). Mas precisa lidar com a angústia por, de certa forma, se sentir culpada pela morte da filha (num flashback bem didático, porém, necessário).

Paralelo a tudo isso, ela ainda precisa tocar a relação complicada com o filho (o talentoso Lucas Hedges, de “Manchester à Beira-Mar”) e o ex-marido (John Hawkes). Mesmo uma mulher cheia de personalidade como ela se sente impotente diante de um homem opressor. A complexidade que McDormand dá a Mildread é notória quando ela confronta Willoughby, mas muda para um tom de preocupação logo quando ele apresenta uma fragilidade em decorrência da doença. E se a cidade é cheia de pessoas preconceituosas, a própria protagonista age com incômodo diante do anão James (Peter Dinklage, de “Game of Thrones“), mesmo ele sempre bem intencionado para com ela.

Em meio a cenas que provocam risos politicamente incorretos, como a cena em que uma das vítimas da violência de Dixon o identifica na mesma sala do hospital, Martin McDonagh confere algumas particularidades, como por exemplo, todas as tragédias ocorrerem pela noite. O dia representa a esperança. É belo o momento em que Mildred contempla um cervo em meio a um vazio num fim de tarde, mas logo em seguida ele desaparece. É como se a transição de turnos representasse a mudança do instinto dos personagens.

Há também alguns paralelos com o número três, não só nos outdoors do título. Por exemplo, as três cartas enviadas por Willoughby, em que a enviada para Mildred em especial, contém uma tirada cômica explicando uma atitude “misteriosa”, que define bem a maneira peculiar como o diretor desenvolve a química entre essas figuras desajeitadas e implicantes.

Com ares de um western moderno e sem tiroteios, personagens tridimensionais (sim, foi um trocadilho) que poderiam ter saído de um filme dos irmãos Ethan e Joel Coen (este último, marido de Frances McDormand), “Três Anúncios Para um Crime” traz uma agradável melancolia que, ciente da vergonha alheia, qualquer um pode tomar uma atitude drástica a qualquer momento, sem ter certeza de nada na vida. E como bem descreve um deles no momento de reflexão final: “decidimos no caminho”.

Nota: 8,0