Opinião: a perseguição ao filme "Ted" não passa de uma grande estupidez 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Opinião: a perseguição ao filme ‘Ted’ não passa de uma grande estupidez

Por Thiago Sampaio em Opinião

26 de setembro de 2012

Banner de "Ted" deixa explícita a censura

Banner de “Ted” deixa explícita a censura

Um assunto que tomou conta das redes sociais na última terça-feira (25) foi a “perseguição” do deputado Protógenes Queiroz (PC do B-SP) ao filme “Ted”, em cartaz nos cinemas brasileiros, alegando que o longa-metragem induz que o estilo de vida sem pudores e consumindo drogas é positivo.

Antes de tudo, o filme conta a história de John Bennett (vivido por Mark Wahlberg), um adulto que tem uma profunda amizade com o seu ursinho de pelúcia, que ganhou vida anos atrás graças ao encanto. Acontece que o bichinho é mal-humorado, mulherengo, sem papas na línguas e adora consumir produtos ilícitos.

Voltando para Protógenes, o deputado teve a “brilhante” ideia de levar o filho de 11 anos, pensando se tratar de apenas um filme infantil sobre um bichinho fofinho. Espantado, ele não poupou críticas através do seu Twitter: “Acionarei os meios legais, a fim de impedir que o lixo do filme infanto-juvenil ‘Ted’ seja exibido nacionalmente e apurar responsabilidades”.

E ele completou: “O filme não está apropriado para nenhuma faixa etária. Incentivar o consumo de drogas é crime, usando ainda ícones infantis”. Como se não bastasse, ainda lançou uma campanha para proibir a distribuição do longa-metragem no Brasil. “#ForaFilmeTED das telas do cinema brasileiro. Não aceitamos mais esses enlatados culturais americanos no Brasil”, escreveu.

Não demorou para o deputado sofrer várias críticas nas redes sociais, sendo acusado de hipócrita, além de desinformado pelo fato de a censura de 16 anos já induzir que o filme possui material inapropriado para crianças. Muitos internautas entraram em contato com o próprio político e até com Seth McFarlene, criador de “Ted”, para argumentar sobre situação. Campanhas foram feitas para que todos colocassem a foto do urso em seus avatares.

O outro lado da moeda

Em tempo: as críticas da população são mais do que aceitáveis. Sem tirar do político a vontade de conscientizar a população do que é errado e de poupar as crianças de influências negativas, há inúmeras vertentes mais fortes e concretas a serem combatidas do que um mero filme. A questão vai além dos clichês “proibir a liberdade de expressão” ou “a maior censura é de quem está censurando”.

Vale lembrar que Protógenes alegou que os pais levam os filhos ao cinema, iludidos pela premissa do urso falante e mal informados sobre o conteúdo do filme. Porém, é bom deixar claro que, além da censura de 16 anos (o que já fala por si só), o trailer e todos os materias de divulgação (como no banner da foto acima) deixam claro que não se trata de uma produção para crianças.

E no fim das contas, se ele levou o filho de 11 anos para assistir a um filme impróprio para menores de 16, ele não feriu a Lei? Mesmo se, mal informado sobre o conteúdo, imagina-se que não houve a devida verificação de documentos ao comprar o ingresso. O deputado não deveria brigar pela melhoria na fiscalização ao invés de tentar derrubar o filme em si, que por sua vez, só tem cunhos de entretenimento?

É fato que a questão de entreter ou não é relativa. Protógenes cita como exemplos positivos filmes como “Tropa de Elite” e “Cidade de Deus” por abordarem o consumo de drogas com um teor crítico. Ótimas produções, diga-se se passagem. Mas todas, assim como o inferior e nada sério “Ted”, são feitas com os mesmos cunhos comerciais para entreter uma massa que aprecia cinema. Nada mais. No dia em que toda obra lançada necessitar ser rigorosamente monitorada visando a educação das crianças, as prioridades do Brasil estarão mais reviradas do que nunca.

Puritanismo sem sentido

A tempestade em copo d’água é grande, já que esse não é o primeiro e nem vai ser o último produto a usar humor politicamente incorreto com personagens teoricamente infantis. E ainda mais se tratando de Seth McFarlene, criador do pesadíssimo desenho “Uma Família da Pesada” (Family Guy)! O urso Ted é um anjo na frente do pervertido, drogado e maléfico bebê Stewie. “Os Simpsons“, de Matt Groening, está sendo exibido na TV há nada menos que 23 anos, coleciona uma legião de fãs de diferentes gerações e tem como principal diferencial o humor sarcástico.

A TV brasileira de hoje passa por uma chata reformulação, em que tudo precisa ser bonitinho demais e as piadas polidas (quando não estão exibindo corpos semi nus). Muitas piadas envolvendo teor sexual e bebidas alcóolicas de programas de décadas passada, inclusive do saudoso humorístico “Os Trapalhões“, hoje perderam a vez e, em grande maioria, também a qualidade. Garanto que nenhuma criança que assistia às confusões de Mussum para tomar o seu “mé” cresceu estragada por esse motivo!

Protógenes afirma que está preparando um pronunciamento na Câmara e estuda a forma de pedir que a classificação indicativa de “Ted” mude para 18 anos. Com tantos assuntos a serem abordados em um país carente de educação, segurança e saúde, temos que lidar com essa grande perda de tempo. Do mesmo modo que eleitores colocam os políticos em seus cargos através de votos, cidadãos pagam por ingressos no cinema para terem minutos de diversão passageira (e saudável). E posso garantir que há uma grande diferença entre rir com personagens peculiares e comprar drogas ou incitar ilegalmente menores.

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Opinião: a perseguição ao filme ‘Ted’ não passa de uma grande estupidez

Por Thiago Sampaio em Opinião

26 de setembro de 2012

Banner de "Ted" deixa explícita a censura

Banner de “Ted” deixa explícita a censura

Um assunto que tomou conta das redes sociais na última terça-feira (25) foi a “perseguição” do deputado Protógenes Queiroz (PC do B-SP) ao filme “Ted”, em cartaz nos cinemas brasileiros, alegando que o longa-metragem induz que o estilo de vida sem pudores e consumindo drogas é positivo.

Antes de tudo, o filme conta a história de John Bennett (vivido por Mark Wahlberg), um adulto que tem uma profunda amizade com o seu ursinho de pelúcia, que ganhou vida anos atrás graças ao encanto. Acontece que o bichinho é mal-humorado, mulherengo, sem papas na línguas e adora consumir produtos ilícitos.

Voltando para Protógenes, o deputado teve a “brilhante” ideia de levar o filho de 11 anos, pensando se tratar de apenas um filme infantil sobre um bichinho fofinho. Espantado, ele não poupou críticas através do seu Twitter: “Acionarei os meios legais, a fim de impedir que o lixo do filme infanto-juvenil ‘Ted’ seja exibido nacionalmente e apurar responsabilidades”.

E ele completou: “O filme não está apropriado para nenhuma faixa etária. Incentivar o consumo de drogas é crime, usando ainda ícones infantis”. Como se não bastasse, ainda lançou uma campanha para proibir a distribuição do longa-metragem no Brasil. “#ForaFilmeTED das telas do cinema brasileiro. Não aceitamos mais esses enlatados culturais americanos no Brasil”, escreveu.

Não demorou para o deputado sofrer várias críticas nas redes sociais, sendo acusado de hipócrita, além de desinformado pelo fato de a censura de 16 anos já induzir que o filme possui material inapropriado para crianças. Muitos internautas entraram em contato com o próprio político e até com Seth McFarlene, criador de “Ted”, para argumentar sobre situação. Campanhas foram feitas para que todos colocassem a foto do urso em seus avatares.

O outro lado da moeda

Em tempo: as críticas da população são mais do que aceitáveis. Sem tirar do político a vontade de conscientizar a população do que é errado e de poupar as crianças de influências negativas, há inúmeras vertentes mais fortes e concretas a serem combatidas do que um mero filme. A questão vai além dos clichês “proibir a liberdade de expressão” ou “a maior censura é de quem está censurando”.

Vale lembrar que Protógenes alegou que os pais levam os filhos ao cinema, iludidos pela premissa do urso falante e mal informados sobre o conteúdo do filme. Porém, é bom deixar claro que, além da censura de 16 anos (o que já fala por si só), o trailer e todos os materias de divulgação (como no banner da foto acima) deixam claro que não se trata de uma produção para crianças.

E no fim das contas, se ele levou o filho de 11 anos para assistir a um filme impróprio para menores de 16, ele não feriu a Lei? Mesmo se, mal informado sobre o conteúdo, imagina-se que não houve a devida verificação de documentos ao comprar o ingresso. O deputado não deveria brigar pela melhoria na fiscalização ao invés de tentar derrubar o filme em si, que por sua vez, só tem cunhos de entretenimento?

É fato que a questão de entreter ou não é relativa. Protógenes cita como exemplos positivos filmes como “Tropa de Elite” e “Cidade de Deus” por abordarem o consumo de drogas com um teor crítico. Ótimas produções, diga-se se passagem. Mas todas, assim como o inferior e nada sério “Ted”, são feitas com os mesmos cunhos comerciais para entreter uma massa que aprecia cinema. Nada mais. No dia em que toda obra lançada necessitar ser rigorosamente monitorada visando a educação das crianças, as prioridades do Brasil estarão mais reviradas do que nunca.

Puritanismo sem sentido

A tempestade em copo d’água é grande, já que esse não é o primeiro e nem vai ser o último produto a usar humor politicamente incorreto com personagens teoricamente infantis. E ainda mais se tratando de Seth McFarlene, criador do pesadíssimo desenho “Uma Família da Pesada” (Family Guy)! O urso Ted é um anjo na frente do pervertido, drogado e maléfico bebê Stewie. “Os Simpsons“, de Matt Groening, está sendo exibido na TV há nada menos que 23 anos, coleciona uma legião de fãs de diferentes gerações e tem como principal diferencial o humor sarcástico.

A TV brasileira de hoje passa por uma chata reformulação, em que tudo precisa ser bonitinho demais e as piadas polidas (quando não estão exibindo corpos semi nus). Muitas piadas envolvendo teor sexual e bebidas alcóolicas de programas de décadas passada, inclusive do saudoso humorístico “Os Trapalhões“, hoje perderam a vez e, em grande maioria, também a qualidade. Garanto que nenhuma criança que assistia às confusões de Mussum para tomar o seu “mé” cresceu estragada por esse motivo!

Protógenes afirma que está preparando um pronunciamento na Câmara e estuda a forma de pedir que a classificação indicativa de “Ted” mude para 18 anos. Com tantos assuntos a serem abordados em um país carente de educação, segurança e saúde, temos que lidar com essa grande perda de tempo. Do mesmo modo que eleitores colocam os políticos em seus cargos através de votos, cidadãos pagam por ingressos no cinema para terem minutos de diversão passageira (e saudável). E posso garantir que há uma grande diferença entre rir com personagens peculiares e comprar drogas ou incitar ilegalmente menores.