Depois da chuva: entrevistas imaginárias sobre dramas reais - Blog do Wanfil 
Publicidade

Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Depois da chuva: entrevistas imaginárias sobre dramas reais

Por Wanfil em Ceará

31 de Março de 2014

Parte do Hospital Geral de Fortaleza destruída por uma chuva. Nada muda.

Parte do Hospital Geral de Fortaleza destruída por uma chuva. Nada muda.

No livro A Cabra Vadia, Nelson Rodrigues publicou, em 1968, uma crônica com entrevistas imaginárias feitas com figuras importantes num terreno baldio, que tinham por única testemunha uma cabra.

De certa forma, Rodrigues fez uma espécie de “jornalismo fantástico”, onde a fantasia dos diálogos fictícios desnudava as desgastadas respostas padronizadas do famoso entrevistado. O tempo passa e o que sempre me chama a atenção é a imutabilidade dessa propensão de políticos às respostas previsíveis, só para fazer tipo.

Pensando nisso e vendo os problemas causados pela chuva que caiu sobre Fortaleza na madrugada desta segunda (31), pensei como uma simples pergunta seria respondida oficialmente por algumas das nossas principais autoridades:

A pergunta

– O que o senhor faria para evitar casos como o desabamento do teto do Hospital Geral de Fortaleza, a invasão de baratas no Gonzaguinha do José Walter, ou a inundação do túnel do Metrofor no Mondubim?

As respostas

Cid Gomes (PROS), governador do Ceará
– Ah… Se você comparar com gestões anteriores, verá que nunca foram investidos tantos recursos para evitar problemas com chuvas ou com falta de chuvas, pode escolher. Estamos mais bem equipados do que os Estados Unidos em matéria de planejamento contra desastres naturais.

Roberto Cláudio (PROS), prefeito de Fortaleza
– Primeiramente, vamos fazer um viaduto no lugar do túnel. E fazer uma discussão com a sociedade civil para ver como fazer com os hospitais. Vou pessoalmente acompanhar essa questão.

Eunício Oliveira (PMDB), senador
– Pela minha proximidade com a presidenta Dilma, eu conversaria junto com os demais partidos da base governista no Ceará, para conseguir mais recursos e resolver o problema até o período das eleições, deixando bem claro que ainda não é hora de falar em eleições.

Zezinho Albuquerque (PROS), presidente da Assembleia Legislativa
– Eu faria uma campanha de conscientização em todo o Estado explicando a importância de evitarmos inundações.

Luizianne Lins (PT), ex-prefeita de Fortaleza
– Eu investiria todos os recursos que deixei para o meu sucessor.

Ciro Gomes (PROS), secretário de Saúde do Ceará
– Isso tudo [as denúncias] é coisa de gente movida pelo ódio. Essas filmagens foram feitas por médicos. Por que não retiraram os pacientes antes?

Roberto Pessoa (PR), ex-prefeito de Maracanaú
– Primeiro eu conferiria uns emails ali.

João Alfredo (PSOL), vereador de Fortaleza
– Eu impediria a especulação imobiliária fundada no axioma capitalista que deseja lucrar com os espaços coletivos, financiando gestões que não respeitam a cidade.

José Guimarães (PT), deputado federal
– É preciso ter muita calma antes de sair acusando as pessoas. A quem interessa o sofrimento dos pacientes? Ao governo que não é. Portanto, nós do PT estamos aqui para apoiar medidas construtivas.

Heitor Férrer (PDT), deputado estadual
– Eu faria um auditoria. Quantos milhões dos contribuintes cearenses não foram gastos em reformas de hospitais que agora não resistem a uma chuva?

Fernando Hugo (SDD), deputado estadual
– Eu continuaria a confiar no governo do Estado. Não serão esses percalços diluvianos de magnitude bíblicas que irão abalar minha confiança no trabalho hercúleo feito até agora. Da minha boca jamais sairão manifestações labiofonéticas de pessimismo agourento.

Esses nomes me vieram à mente. Será que esqueci alguém que mereceria uma entrevista imaginária?

Publicidade aqui

Depois da chuva: entrevistas imaginárias sobre dramas reais

Por Wanfil em Ceará

31 de Março de 2014

Parte do Hospital Geral de Fortaleza destruída por uma chuva. Nada muda.

Parte do Hospital Geral de Fortaleza destruída por uma chuva. Nada muda.

No livro A Cabra Vadia, Nelson Rodrigues publicou, em 1968, uma crônica com entrevistas imaginárias feitas com figuras importantes num terreno baldio, que tinham por única testemunha uma cabra.

De certa forma, Rodrigues fez uma espécie de “jornalismo fantástico”, onde a fantasia dos diálogos fictícios desnudava as desgastadas respostas padronizadas do famoso entrevistado. O tempo passa e o que sempre me chama a atenção é a imutabilidade dessa propensão de políticos às respostas previsíveis, só para fazer tipo.

Pensando nisso e vendo os problemas causados pela chuva que caiu sobre Fortaleza na madrugada desta segunda (31), pensei como uma simples pergunta seria respondida oficialmente por algumas das nossas principais autoridades:

A pergunta

– O que o senhor faria para evitar casos como o desabamento do teto do Hospital Geral de Fortaleza, a invasão de baratas no Gonzaguinha do José Walter, ou a inundação do túnel do Metrofor no Mondubim?

As respostas

Cid Gomes (PROS), governador do Ceará
– Ah… Se você comparar com gestões anteriores, verá que nunca foram investidos tantos recursos para evitar problemas com chuvas ou com falta de chuvas, pode escolher. Estamos mais bem equipados do que os Estados Unidos em matéria de planejamento contra desastres naturais.

Roberto Cláudio (PROS), prefeito de Fortaleza
– Primeiramente, vamos fazer um viaduto no lugar do túnel. E fazer uma discussão com a sociedade civil para ver como fazer com os hospitais. Vou pessoalmente acompanhar essa questão.

Eunício Oliveira (PMDB), senador
– Pela minha proximidade com a presidenta Dilma, eu conversaria junto com os demais partidos da base governista no Ceará, para conseguir mais recursos e resolver o problema até o período das eleições, deixando bem claro que ainda não é hora de falar em eleições.

Zezinho Albuquerque (PROS), presidente da Assembleia Legislativa
– Eu faria uma campanha de conscientização em todo o Estado explicando a importância de evitarmos inundações.

Luizianne Lins (PT), ex-prefeita de Fortaleza
– Eu investiria todos os recursos que deixei para o meu sucessor.

Ciro Gomes (PROS), secretário de Saúde do Ceará
– Isso tudo [as denúncias] é coisa de gente movida pelo ódio. Essas filmagens foram feitas por médicos. Por que não retiraram os pacientes antes?

Roberto Pessoa (PR), ex-prefeito de Maracanaú
– Primeiro eu conferiria uns emails ali.

João Alfredo (PSOL), vereador de Fortaleza
– Eu impediria a especulação imobiliária fundada no axioma capitalista que deseja lucrar com os espaços coletivos, financiando gestões que não respeitam a cidade.

José Guimarães (PT), deputado federal
– É preciso ter muita calma antes de sair acusando as pessoas. A quem interessa o sofrimento dos pacientes? Ao governo que não é. Portanto, nós do PT estamos aqui para apoiar medidas construtivas.

Heitor Férrer (PDT), deputado estadual
– Eu faria um auditoria. Quantos milhões dos contribuintes cearenses não foram gastos em reformas de hospitais que agora não resistem a uma chuva?

Fernando Hugo (SDD), deputado estadual
– Eu continuaria a confiar no governo do Estado. Não serão esses percalços diluvianos de magnitude bíblicas que irão abalar minha confiança no trabalho hercúleo feito até agora. Da minha boca jamais sairão manifestações labiofonéticas de pessimismo agourento.

Esses nomes me vieram à mente. Será que esqueci alguém que mereceria uma entrevista imaginária?