Como se tornar um jornalista queridíssimo e bacana 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Como se tornar um jornalista queridíssimo e bacana

Por Wanfil em Crônica, Imprensa

02 de dezembro de 2012

Um amigo me mostrou uma lista de discussão na qual estudantes de jornalismo da UFC fazem comentários sobre minha pessoa por ocasião do texto que fiz a respeito da escandalosa filtragem ideológica no enunciado do Enade, o exame do governo federal para avaliar universitários. Alguns mais afoitos classificaram a mim como “lixo”, “preguiçoso” e “arremedo do Diogo Mainardi ,que por sua vez era arremedo do Paulo Francis”. E o que eles acham do uso político do Enade para fins de propaganda? Não sei. Eu diria que essa predisposição para a desqualificação pessoal é sinal de alinhamento ideológico, o que reforçaria a tese do meu texto. Não cito os nomes dos jovens para poupá-los do vexame de se expor nessa situação e porque eles são justamente o efeito do proselitismo no ensino brasileiro. Fazem parte de uma legião condicionada a repudiar qualquer ideia que fuja ao corte de pensamento que lhes foi apresentado como expressão única da virtude e do belo.

O certo é que procurar ideias fora do mainstream, ou pior, tentar ter pensamentos singulares – ainda que baseados em leitura de qualidade – é um risco. Melhor mesmo é aderir ao coro dos contentes, com ensina ao filho o personagem do conto Teoria do Medalhão, de Machado de Assis (leiam-no, caros). Assim, para os que não gostam de viver a emoção de nadar contra a maré, elaborei uma breve receita de jornalista bacana, de forma que aqueles que a sigam não possam ser chamados nunca de arremedos de Paulo Francis.

1) A primeira coisa que um aspirante a jornalista precisa saber é que a norma culta da gramática não passa de um instrumento de discriminação criado para humilhar os analfabetos acidentais e os ignorantes por opção, além coibir a criatividade pulsante da escola das ruas. Portanto, nunca, nunca mesmo, aponte o erro de um colega, mesmo no caso de debate e ainda que isso possa evitar possíveis erros de interpretação. Mostrar que entende da matéria-prima do ofício é arrogância de elitista;

2) Um jornalista de verdade sabe, porque todo mundo sabe, que desde sempre não pode haver decência em alguém que não seja um esquerdista/progressista. Um esquerdista pode até errar, mas se o faz é por descuido, um momento de fraqueza; enquanto um conservador/reacionário sempre age mal de forma deliberada. Dessa forma, caso o futuro jornalista cultive o obsoleto hábito de ler livros, deve afastar-se de autores liberais, ou mesmo dos clássicos, bastando-lhe alguns parágrafos de Marilena Chauí, Emir Sader, Eduardo Galeano, Noam Chomsky ou a turma da Escola de Frankfurt. Cite um desses que é batata: todos o terão como grande intelectual;

3) Sempre elogie qualquer texto, desde que este não atente contra o politicamente correto ou contra a imagem sacrossanta das ONGs, dos partidos de esquerda, das Farc, de terroristas (vítimas do imperialismo americano), do Lula ou de ambientalistas. Esses serão sempre aliados do povo e de tudo o que é bom, ainda que espetem a conta de suas convicções em algum ministério;

4) Toda vez que for instigado a citar uma publicação ou emissora como modelo, cite as pequenas, aquelas que não despertam interesse maior. Fica chique. Jamais confesse acompanhar o conteúdo de quem tem público, de quem é capaz de sobreviver por conta própria, sem necessitar de anúncios estatais. Diga que Carta Capital é a melhor e que Paulo Henrique Amorim e Mino Carta é que são independentes;

5) Seja a favor de cotas que beneficiem qualquer minoria e de artistas populares que tenham origem na “comunidade”. Critique a Igreja e os EUA sempre que puder. Elogie Cuba e Venezuela. Importante: o capitão Nascimento pode parecer legal, mas é reacionário e não entende que traficante é oprimido que se revolta contra o sistema;

6) Repita sempre que possível que o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo foi um golpe contra a sociedade, mas nunca cite nada sobre reserva de mercado (ninguém pensa nisso, não é mesmo?).

Pronto. Creio que assim, um jornalista sempre será recebido de braços abertos nas festas e reuniões da categoria e elogiado em listas de discussão de aspirantes à profissão.

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Como se tornar um jornalista queridíssimo e bacana

Por Wanfil em Crônica, Imprensa

02 de dezembro de 2012

Um amigo me mostrou uma lista de discussão na qual estudantes de jornalismo da UFC fazem comentários sobre minha pessoa por ocasião do texto que fiz a respeito da escandalosa filtragem ideológica no enunciado do Enade, o exame do governo federal para avaliar universitários. Alguns mais afoitos classificaram a mim como “lixo”, “preguiçoso” e “arremedo do Diogo Mainardi ,que por sua vez era arremedo do Paulo Francis”. E o que eles acham do uso político do Enade para fins de propaganda? Não sei. Eu diria que essa predisposição para a desqualificação pessoal é sinal de alinhamento ideológico, o que reforçaria a tese do meu texto. Não cito os nomes dos jovens para poupá-los do vexame de se expor nessa situação e porque eles são justamente o efeito do proselitismo no ensino brasileiro. Fazem parte de uma legião condicionada a repudiar qualquer ideia que fuja ao corte de pensamento que lhes foi apresentado como expressão única da virtude e do belo.

O certo é que procurar ideias fora do mainstream, ou pior, tentar ter pensamentos singulares – ainda que baseados em leitura de qualidade – é um risco. Melhor mesmo é aderir ao coro dos contentes, com ensina ao filho o personagem do conto Teoria do Medalhão, de Machado de Assis (leiam-no, caros). Assim, para os que não gostam de viver a emoção de nadar contra a maré, elaborei uma breve receita de jornalista bacana, de forma que aqueles que a sigam não possam ser chamados nunca de arremedos de Paulo Francis.

1) A primeira coisa que um aspirante a jornalista precisa saber é que a norma culta da gramática não passa de um instrumento de discriminação criado para humilhar os analfabetos acidentais e os ignorantes por opção, além coibir a criatividade pulsante da escola das ruas. Portanto, nunca, nunca mesmo, aponte o erro de um colega, mesmo no caso de debate e ainda que isso possa evitar possíveis erros de interpretação. Mostrar que entende da matéria-prima do ofício é arrogância de elitista;

2) Um jornalista de verdade sabe, porque todo mundo sabe, que desde sempre não pode haver decência em alguém que não seja um esquerdista/progressista. Um esquerdista pode até errar, mas se o faz é por descuido, um momento de fraqueza; enquanto um conservador/reacionário sempre age mal de forma deliberada. Dessa forma, caso o futuro jornalista cultive o obsoleto hábito de ler livros, deve afastar-se de autores liberais, ou mesmo dos clássicos, bastando-lhe alguns parágrafos de Marilena Chauí, Emir Sader, Eduardo Galeano, Noam Chomsky ou a turma da Escola de Frankfurt. Cite um desses que é batata: todos o terão como grande intelectual;

3) Sempre elogie qualquer texto, desde que este não atente contra o politicamente correto ou contra a imagem sacrossanta das ONGs, dos partidos de esquerda, das Farc, de terroristas (vítimas do imperialismo americano), do Lula ou de ambientalistas. Esses serão sempre aliados do povo e de tudo o que é bom, ainda que espetem a conta de suas convicções em algum ministério;

4) Toda vez que for instigado a citar uma publicação ou emissora como modelo, cite as pequenas, aquelas que não despertam interesse maior. Fica chique. Jamais confesse acompanhar o conteúdo de quem tem público, de quem é capaz de sobreviver por conta própria, sem necessitar de anúncios estatais. Diga que Carta Capital é a melhor e que Paulo Henrique Amorim e Mino Carta é que são independentes;

5) Seja a favor de cotas que beneficiem qualquer minoria e de artistas populares que tenham origem na “comunidade”. Critique a Igreja e os EUA sempre que puder. Elogie Cuba e Venezuela. Importante: o capitão Nascimento pode parecer legal, mas é reacionário e não entende que traficante é oprimido que se revolta contra o sistema;

6) Repita sempre que possível que o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo foi um golpe contra a sociedade, mas nunca cite nada sobre reserva de mercado (ninguém pensa nisso, não é mesmo?).

Pronto. Creio que assim, um jornalista sempre será recebido de braços abertos nas festas e reuniões da categoria e elogiado em listas de discussão de aspirantes à profissão.