Futebol: o falso valor de algo sem importância 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Futebol: o falso valor de algo sem importância

Por Wanfil em Crônica

12 de novembro de 2012

Cadeiras quebras no PV por torcedores frustrados. Retrato de uma sociedade que prioriza o circo em detrimento do pão. Foto: Hebert Lemos

O título deste post é uma provocação derivada de uma frase atribuída ao ex-técnico da seleção italiana Arrigo Sacchi: “Il calcio è la cosa più importante delle cose non importanti”, ou “o futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes”. A tirada me veio à mente ao ler no noticiário sobre atos de destruição e vandalismo registrados no Estádio Presidente Vargas, após a equipe do Fortaleza ser eliminada na Série C do Campeonato Brasileiro.

À luz da lógica, nada faz sentido. Times que por longos períodos não disputam a Série A são, via de regra, ruins de bola. Incapazes de jogar com equipes de verdade, fazem um campeonato à parte. Suas torcidas, portanto, deveriam estar imunizadas contra a arrogância e a soberba, uma vez que jamais comemoram títulos de expressão nacional. Torcedor de time ruim precisa ser humilde por necessidade. Um raro exemplo dessa compreensão é a torcida do Ferroviário, aqui no Ceará.

No entanto, de alguma forma, boa parte dos torcedores de times ruins se isolam do resto do mundo em torneios de baixa qualidade, como as divisões inferiores e os campeonatos estaduais, e passam a emular o comportamento desrespeitoso das torcidas dos grandes times.

Reação irracional e sem sentido

Imaginando-se portadores de algo especialíssimo, muitos torcedores adotam a adoração fanática ao clube como religião. Seu Paraíso são os delírios de glória, que no mundo real não se concretizam, claro. E assim, na primeira frustração, os vândalos destroem o PV reformado às custas de dinheiro público, como se fossem credores de uma qualidade superior que não existe no futebol cearense. Se eventualmente um time local sobre à primeira divisão, é para apanhar dos grandes. Isso não é sarcasmo, é uma constatação empírica.

Na tentativa de tratar como desvio de conduta algo que se generaliza cada vez mais entre torcidas de diversos clubes, comentaristas esportivos não tardam em disparar: “Não são torcedores!”. E eu digo: Claro que são! Externam com violência o descontentamento que lhes aflige porque são violentos e vivem numa sociedade tolerante com a violência. Alguns marmanjos reagem de forma diferente e choram. Isso mesmo, vão às lágrimas porque um time de futebol perde uma partida. Outros ficam irascíveis dentro de casa e destratam cônjuges e parentes. Há quem fique doente.

Quando falo de generalização, me refiro ao trabalho de excitação feito pela imprensa, capaz de chamar de “jogo do século” uma partida entre Fortaleza e Oeste (SP), ou de classificar de “craque” um atleta que não consegue espaço entre os melhores profissionais da área. E ainda atiça com expressões beligerantes: “É a hora do mata-mata!”, “uma batalha de 90 minutos”, “os guerreiros voltam a campo”, “a pressão da torcida será fundamental” etc., etc. Esperar o quê disso? Os brutos captam a mensagem de forma literal…

Sublimação da guerra

O que leva pessoas a fazer de algo feito para ser um lazer, algo que gera sofrimento psicológico e confronto físico até com a polícia? O esporte, reza um pensamento sociológico, seria a sublimação da guerra. Como tal, representa um competição onde só um pode sair vitorioso. E toda competição gera expectativa nos participantes e frustração nos derrotados.

A diferença, parece-me, está na forma como esses sentimentos se manifestam entre nós. Todos sabem como resolver o problema: cadeia para os malandros arruaceiros. Mas ninguém leva isso à cabo. No fundo, existe uma certa solidariedade com os perdedores. E como eu disse, uma tolerância com a violência, que não conseguimos sublimar. Somos violentos enquanto sociedade, com nossos 50 mil homicídios por ano. E desprezamos o que é e uso coletivo.

Eu deixei de frequentar estádios faz um bom tempo, para não me arriscar à tôa. Prefiro a televisão. Sim, eu gosto de futebol e dou a ele a importância merecida: é um lazer, um momento para relaxar com amigos, não importa o time de cada um. Por mim, que pago a conta enquanto contribuinte, o PV fica lá destruído, como um triste retrato da nossa natureza.

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Futebol: o falso valor de algo sem importância

Por Wanfil em Crônica

12 de novembro de 2012

Cadeiras quebras no PV por torcedores frustrados. Retrato de uma sociedade que prioriza o circo em detrimento do pão. Foto: Hebert Lemos

O título deste post é uma provocação derivada de uma frase atribuída ao ex-técnico da seleção italiana Arrigo Sacchi: “Il calcio è la cosa più importante delle cose non importanti”, ou “o futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes”. A tirada me veio à mente ao ler no noticiário sobre atos de destruição e vandalismo registrados no Estádio Presidente Vargas, após a equipe do Fortaleza ser eliminada na Série C do Campeonato Brasileiro.

À luz da lógica, nada faz sentido. Times que por longos períodos não disputam a Série A são, via de regra, ruins de bola. Incapazes de jogar com equipes de verdade, fazem um campeonato à parte. Suas torcidas, portanto, deveriam estar imunizadas contra a arrogância e a soberba, uma vez que jamais comemoram títulos de expressão nacional. Torcedor de time ruim precisa ser humilde por necessidade. Um raro exemplo dessa compreensão é a torcida do Ferroviário, aqui no Ceará.

No entanto, de alguma forma, boa parte dos torcedores de times ruins se isolam do resto do mundo em torneios de baixa qualidade, como as divisões inferiores e os campeonatos estaduais, e passam a emular o comportamento desrespeitoso das torcidas dos grandes times.

Reação irracional e sem sentido

Imaginando-se portadores de algo especialíssimo, muitos torcedores adotam a adoração fanática ao clube como religião. Seu Paraíso são os delírios de glória, que no mundo real não se concretizam, claro. E assim, na primeira frustração, os vândalos destroem o PV reformado às custas de dinheiro público, como se fossem credores de uma qualidade superior que não existe no futebol cearense. Se eventualmente um time local sobre à primeira divisão, é para apanhar dos grandes. Isso não é sarcasmo, é uma constatação empírica.

Na tentativa de tratar como desvio de conduta algo que se generaliza cada vez mais entre torcidas de diversos clubes, comentaristas esportivos não tardam em disparar: “Não são torcedores!”. E eu digo: Claro que são! Externam com violência o descontentamento que lhes aflige porque são violentos e vivem numa sociedade tolerante com a violência. Alguns marmanjos reagem de forma diferente e choram. Isso mesmo, vão às lágrimas porque um time de futebol perde uma partida. Outros ficam irascíveis dentro de casa e destratam cônjuges e parentes. Há quem fique doente.

Quando falo de generalização, me refiro ao trabalho de excitação feito pela imprensa, capaz de chamar de “jogo do século” uma partida entre Fortaleza e Oeste (SP), ou de classificar de “craque” um atleta que não consegue espaço entre os melhores profissionais da área. E ainda atiça com expressões beligerantes: “É a hora do mata-mata!”, “uma batalha de 90 minutos”, “os guerreiros voltam a campo”, “a pressão da torcida será fundamental” etc., etc. Esperar o quê disso? Os brutos captam a mensagem de forma literal…

Sublimação da guerra

O que leva pessoas a fazer de algo feito para ser um lazer, algo que gera sofrimento psicológico e confronto físico até com a polícia? O esporte, reza um pensamento sociológico, seria a sublimação da guerra. Como tal, representa um competição onde só um pode sair vitorioso. E toda competição gera expectativa nos participantes e frustração nos derrotados.

A diferença, parece-me, está na forma como esses sentimentos se manifestam entre nós. Todos sabem como resolver o problema: cadeia para os malandros arruaceiros. Mas ninguém leva isso à cabo. No fundo, existe uma certa solidariedade com os perdedores. E como eu disse, uma tolerância com a violência, que não conseguimos sublimar. Somos violentos enquanto sociedade, com nossos 50 mil homicídios por ano. E desprezamos o que é e uso coletivo.

Eu deixei de frequentar estádios faz um bom tempo, para não me arriscar à tôa. Prefiro a televisão. Sim, eu gosto de futebol e dou a ele a importância merecida: é um lazer, um momento para relaxar com amigos, não importa o time de cada um. Por mim, que pago a conta enquanto contribuinte, o PV fica lá destruído, como um triste retrato da nossa natureza.