Cenários eleitorais em Fortaleza: uma entrevista com Lídia Cavalcante 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Uma conversa sobre eleições 2012 em Fortaleza, com Lídia Cavalcante

Por Wanfil em Entrevista

18 de Abril de 2012

Leio no blog da jornalista Kézya Diniz que alguns partidos em Fortaleza começam a se movimentar de olho no processo eleitoral deste ano. Propagandas de televisão, reuniões, ensaios e entrevistas. Sem contar o clima de racha entre as siglas que atualmente comandam a capital cearense, PT e PSB. Com o avançar do calendário, as eleições 2012 entram no noticiário paulatinamente.

Ainda é cedo para definir favoritos. O importante agora é tentar enxergar tendências e a movimentação em torno da expectativa de poder gerada por um processo eleitoral em que o chefe do executivo não poderá concorrer à reeleição. Para isso, conversei com a cientista política Lídia Cavalcante Freitas, que atua como consultora de marketing político e de comunicação. Pensei muito antes de convidar alguém para falar sobre esse assunto. Evitei os medalhões acadêmicos de sempre, cujas ideias já são pra lá de conhecidas, e procurei alguém que reúna conhecimento teórico com prática, juventude com experiência. Daí nasceu a conversa com a Lídia Cavalcante, a quem agradeço a gentileza. Segue o bate-papo.

Wanfil –  Quais forças políticas polarizam, com real expectativa de poder, a disputa eleitoral em Fortaleza neste ano?

Lídia Cavalcante – Em um cenário de sucessão, onde a prefeita não pode mais se candidatar, emergem várias forças, inicialmente dentro do próprio partido que está no governo e que apresenta seus nomes. No campo das oposições, o PDT tem o deputado estadual Heitor Férrer como pré-candidato; no PSDB, a expectativa gira em torno do nome do ex-deputado estadual Marcos Cals; há a expectativa em torno do DEM, com o já conhecido candidato Moroni Torgan; e o PSOL, que deverá apresentar Renato Roseno, que conseguiu excelente votação para deputado federal em 2010. O PMDB ainda mantém diálogo interno para definir se apresentará candidato ou se irá compor a aliança com o PT.

Pode haver ainda uma divisão da base da prefeita Luizianne Lins e o surgimento de duas novas candidaturas, com Roberto Cláudio pelo PSB (embora existam outros nomes à disposição) e Inácio Arruda pelo PC do B. O cenário do momento, entre os partidos, basicamente é esse.

Wanfil – PT e PSB compuseram uma aliança bem sucedida no Ceará nos últimos 8 anos, mas que agora mostra desgaste. Além disso, nem Cid Gomes, nem Luizianne Lins, podem concorrer à reeleição. Como isso afeta essa parceria?

LD – A parceria entre o governador e a prefeita refere-se à manutenção do poder de seus grupos no Ceará e em Fortaleza. No entanto, são projetos distintos. O processo de sucessão é encarado por ambos como mais um degrau estratégico para casa um, pois a escolha do sucessor reflete a influência de ambos dentro de seus partidos, não necessariamente às diretrizes partidárias. Como presidentes de seus partidos, conseguiram manter até o momento a aliança eleitoral, mas esta se apresenta corroída pelos questionamentos internos de ambos os partidos.

Não há, hoje, dentro do PSB e do PT, uma convicção de que a aliança deva ser mantida a todo custo, nem de que ela seja vital para cada um dos partidos, e é crescente o desejo no PSB de desvincular sua imagem à gestão de Luizianne. As rachaduras na parceria ganham mais extensão na impossibilidade de reeleição de ambos, o que traz a oportunidade para novos nomes assumirem as posições principais de gestores municipais e estaduais, respectivamente. Para os partidos da base aliada, inclusive para parte do PT, a sustentação da aliança gira em torno da apresentação de uma nova ideia de gestão, diferente da desenvolvida por Luizianne nos últimos 8 anos.

Wanfil – O PSB tem um projeto que se desenha hegemônico no Ceará, enquanto o PT alimenta um projeto hegemônico no plano nacional. Em outras palavras, são forças políticas que almejam ser protagonistas e não coadjuvantes do processo político. Na sua opinião, é possível conciliar na base projetos dessa natureza?

LD – Teoricamente, a conciliação é possível já que o PSB é alinhado com o PT nacional e compõe a base da presidente Dilma, se mostrando comprometido com o projeto quando abriu mão de suas candidaturas em alguns estados para o PT na eleição de 2010. O problema é que, a essa altura, isso pode parecer forçado, devido ao processo de desgaste na aliança.

Wanfil – O PSDB conseguiu se caracterizar como oposição e como pólo de alternativa de poder? E o PMDB, que por tanto tempo governou Fortaleza, ainda pode surpreender? O PC do B, sigla atrelada ao projeto do PT, tem chances correndo por fora?

LD – A oposição em Fortaleza não apresenta contornos definidos para o eleitor, pois tem aparecido um pouco fragmentada no cenário político. A dicotomia esquerda X direita deixou de definir os partidos, e a composição de amplas alianças em torno dos projetos de Cid Gomes e Luizianne Lins prejudicou a compreensão das bandeiras dos partidos que atuam no cenário político.

Com a antiga “oposição” agora no governo, os partidos que detiveram o poder ao longo dos anos e se identificaram com uma imagem de “situação”, e deixaram de ocupar alguns espaços, como é o caso do PSDB, que possui uma bancada composta de um único vereador na capital. Com isso o partido tornou-se ausente perante o eleitor e resumiu sua atuação ao período eleitoral.

O PMDB precisa, antes de tudo, resolver suas questões internas, pois ainda não conseguiu definir se apresenta um projeto político alternativo ou continua a compor a base da prefeita. Essa indefinição pode gerar certa desconfiança no eleitor, que teria dificuldades em identificar seu candidato como situação (e continuidade) ou oposição. Mas os movimentos do partido, até o momento, caminham para a manutenção da aliança.

Já o PC do B, mesmo sendo reconhecido pela sociedade, personificando positivamente seus ideais no Senador Inácio Arruda, precisa de composição de alianças para construir sua viabilidade, visto que seu tempo de rádio e TV não são significativos perante os demais.

O papel de alternativa de poder a ser assumido por esses partidos passa pelo resgate de suas identidades partidárias perante a sociedade, para que as siglas possam comunicar suas ideias e assumir uma postura diferente da relacionada com sua atuação em momentos ou governos anteriores. Tanto a situação como a oposição, precisam investir na formação de quadros que personifiquem essa identidade diferenciada e construir alianças que garantam a viabilidade de seus projetos.

Wanfil – Até que ponto a falta de uma oposição atuante pode interferir na estratégia eleitoral de quem está no poder? Isso gera uma zona de conforto? Ou abre espaço para que as disputas internas se intensifiquem?

LDA falta de oposição é, por definição, uma situação degenerativa para qualquer poder estabelecido, pois suscita as tais “zonas de conforto” nos governantes e na população como um todo, que passa a acreditar que é melhor deixar como está, por não conseguir encontrar candidatos com características diferentes ou melhores. Na mesma proporção, a movimentação política necessária para a manutenção dessa ausência de oposição, suscita as vaidades dos que fazem parte do projeto político e acabam por priorizar os acordos em detrimento da qualidade da gestão pública. Cria-se um círculo vicioso de descontentamento entre os partidários e seus pares, e a população e seus gestores, causando constante instabilidade no poder e na governabilidade.

Wanfil – Quem será o grande eleitor nas próximas eleições na capital cearense? Dilma, Ciro, Cid, ou Luizianne? Até que ponto numa eleição como a desse ano comporta o conceito de transferência de votos de uma liderança política para o seu escolhido?

LD – Até o momento, o principal ator é o Governador Cid Gomes, que mantém um longo silêncio aumentando as especulações sobre a manutenção da aliança, enquanto as disputas internas do PT são acompanhadas passo-a-passo pela mídia e pela população. No momento em que as posições sejam assumidas, Luizianne Lins traz toda a força de seu inegável capital político (independente dos percalços da gestão) ao cenário eleitoral e, consequentemente, seu candidato receberá a confiança uma parcela significativa do eleitorado que acompanha Luizianne.

— X — X —

Lidiane Cavalcante Freitas é Cientista Política com pós graduação em Marketing Político e Assessoria de Comunicação.

Atua como Consultora de Marketing Político nas áreas de planejamento de campanhas eleitorais, avaliação e posicionamento de imagem, comunicação política e análise de dados eleitorais.

Fundou e dirige, desde 2008, o Instituto de Desenvolvimento Político e Social – IDPS atuando junto ao poder público nas áreas de políticas públicas, planejamento de gestão participativa e projetos de formação política e cidadã.

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Uma conversa sobre eleições 2012 em Fortaleza, com Lídia Cavalcante

Por Wanfil em Entrevista

18 de Abril de 2012

Leio no blog da jornalista Kézya Diniz que alguns partidos em Fortaleza começam a se movimentar de olho no processo eleitoral deste ano. Propagandas de televisão, reuniões, ensaios e entrevistas. Sem contar o clima de racha entre as siglas que atualmente comandam a capital cearense, PT e PSB. Com o avançar do calendário, as eleições 2012 entram no noticiário paulatinamente.

Ainda é cedo para definir favoritos. O importante agora é tentar enxergar tendências e a movimentação em torno da expectativa de poder gerada por um processo eleitoral em que o chefe do executivo não poderá concorrer à reeleição. Para isso, conversei com a cientista política Lídia Cavalcante Freitas, que atua como consultora de marketing político e de comunicação. Pensei muito antes de convidar alguém para falar sobre esse assunto. Evitei os medalhões acadêmicos de sempre, cujas ideias já são pra lá de conhecidas, e procurei alguém que reúna conhecimento teórico com prática, juventude com experiência. Daí nasceu a conversa com a Lídia Cavalcante, a quem agradeço a gentileza. Segue o bate-papo.

Wanfil –  Quais forças políticas polarizam, com real expectativa de poder, a disputa eleitoral em Fortaleza neste ano?

Lídia Cavalcante – Em um cenário de sucessão, onde a prefeita não pode mais se candidatar, emergem várias forças, inicialmente dentro do próprio partido que está no governo e que apresenta seus nomes. No campo das oposições, o PDT tem o deputado estadual Heitor Férrer como pré-candidato; no PSDB, a expectativa gira em torno do nome do ex-deputado estadual Marcos Cals; há a expectativa em torno do DEM, com o já conhecido candidato Moroni Torgan; e o PSOL, que deverá apresentar Renato Roseno, que conseguiu excelente votação para deputado federal em 2010. O PMDB ainda mantém diálogo interno para definir se apresentará candidato ou se irá compor a aliança com o PT.

Pode haver ainda uma divisão da base da prefeita Luizianne Lins e o surgimento de duas novas candidaturas, com Roberto Cláudio pelo PSB (embora existam outros nomes à disposição) e Inácio Arruda pelo PC do B. O cenário do momento, entre os partidos, basicamente é esse.

Wanfil – PT e PSB compuseram uma aliança bem sucedida no Ceará nos últimos 8 anos, mas que agora mostra desgaste. Além disso, nem Cid Gomes, nem Luizianne Lins, podem concorrer à reeleição. Como isso afeta essa parceria?

LD – A parceria entre o governador e a prefeita refere-se à manutenção do poder de seus grupos no Ceará e em Fortaleza. No entanto, são projetos distintos. O processo de sucessão é encarado por ambos como mais um degrau estratégico para casa um, pois a escolha do sucessor reflete a influência de ambos dentro de seus partidos, não necessariamente às diretrizes partidárias. Como presidentes de seus partidos, conseguiram manter até o momento a aliança eleitoral, mas esta se apresenta corroída pelos questionamentos internos de ambos os partidos.

Não há, hoje, dentro do PSB e do PT, uma convicção de que a aliança deva ser mantida a todo custo, nem de que ela seja vital para cada um dos partidos, e é crescente o desejo no PSB de desvincular sua imagem à gestão de Luizianne. As rachaduras na parceria ganham mais extensão na impossibilidade de reeleição de ambos, o que traz a oportunidade para novos nomes assumirem as posições principais de gestores municipais e estaduais, respectivamente. Para os partidos da base aliada, inclusive para parte do PT, a sustentação da aliança gira em torno da apresentação de uma nova ideia de gestão, diferente da desenvolvida por Luizianne nos últimos 8 anos.

Wanfil – O PSB tem um projeto que se desenha hegemônico no Ceará, enquanto o PT alimenta um projeto hegemônico no plano nacional. Em outras palavras, são forças políticas que almejam ser protagonistas e não coadjuvantes do processo político. Na sua opinião, é possível conciliar na base projetos dessa natureza?

LD – Teoricamente, a conciliação é possível já que o PSB é alinhado com o PT nacional e compõe a base da presidente Dilma, se mostrando comprometido com o projeto quando abriu mão de suas candidaturas em alguns estados para o PT na eleição de 2010. O problema é que, a essa altura, isso pode parecer forçado, devido ao processo de desgaste na aliança.

Wanfil – O PSDB conseguiu se caracterizar como oposição e como pólo de alternativa de poder? E o PMDB, que por tanto tempo governou Fortaleza, ainda pode surpreender? O PC do B, sigla atrelada ao projeto do PT, tem chances correndo por fora?

LD – A oposição em Fortaleza não apresenta contornos definidos para o eleitor, pois tem aparecido um pouco fragmentada no cenário político. A dicotomia esquerda X direita deixou de definir os partidos, e a composição de amplas alianças em torno dos projetos de Cid Gomes e Luizianne Lins prejudicou a compreensão das bandeiras dos partidos que atuam no cenário político.

Com a antiga “oposição” agora no governo, os partidos que detiveram o poder ao longo dos anos e se identificaram com uma imagem de “situação”, e deixaram de ocupar alguns espaços, como é o caso do PSDB, que possui uma bancada composta de um único vereador na capital. Com isso o partido tornou-se ausente perante o eleitor e resumiu sua atuação ao período eleitoral.

O PMDB precisa, antes de tudo, resolver suas questões internas, pois ainda não conseguiu definir se apresenta um projeto político alternativo ou continua a compor a base da prefeita. Essa indefinição pode gerar certa desconfiança no eleitor, que teria dificuldades em identificar seu candidato como situação (e continuidade) ou oposição. Mas os movimentos do partido, até o momento, caminham para a manutenção da aliança.

Já o PC do B, mesmo sendo reconhecido pela sociedade, personificando positivamente seus ideais no Senador Inácio Arruda, precisa de composição de alianças para construir sua viabilidade, visto que seu tempo de rádio e TV não são significativos perante os demais.

O papel de alternativa de poder a ser assumido por esses partidos passa pelo resgate de suas identidades partidárias perante a sociedade, para que as siglas possam comunicar suas ideias e assumir uma postura diferente da relacionada com sua atuação em momentos ou governos anteriores. Tanto a situação como a oposição, precisam investir na formação de quadros que personifiquem essa identidade diferenciada e construir alianças que garantam a viabilidade de seus projetos.

Wanfil – Até que ponto a falta de uma oposição atuante pode interferir na estratégia eleitoral de quem está no poder? Isso gera uma zona de conforto? Ou abre espaço para que as disputas internas se intensifiquem?

LDA falta de oposição é, por definição, uma situação degenerativa para qualquer poder estabelecido, pois suscita as tais “zonas de conforto” nos governantes e na população como um todo, que passa a acreditar que é melhor deixar como está, por não conseguir encontrar candidatos com características diferentes ou melhores. Na mesma proporção, a movimentação política necessária para a manutenção dessa ausência de oposição, suscita as vaidades dos que fazem parte do projeto político e acabam por priorizar os acordos em detrimento da qualidade da gestão pública. Cria-se um círculo vicioso de descontentamento entre os partidários e seus pares, e a população e seus gestores, causando constante instabilidade no poder e na governabilidade.

Wanfil – Quem será o grande eleitor nas próximas eleições na capital cearense? Dilma, Ciro, Cid, ou Luizianne? Até que ponto numa eleição como a desse ano comporta o conceito de transferência de votos de uma liderança política para o seu escolhido?

LD – Até o momento, o principal ator é o Governador Cid Gomes, que mantém um longo silêncio aumentando as especulações sobre a manutenção da aliança, enquanto as disputas internas do PT são acompanhadas passo-a-passo pela mídia e pela população. No momento em que as posições sejam assumidas, Luizianne Lins traz toda a força de seu inegável capital político (independente dos percalços da gestão) ao cenário eleitoral e, consequentemente, seu candidato receberá a confiança uma parcela significativa do eleitorado que acompanha Luizianne.

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Lidiane Cavalcante Freitas é Cientista Política com pós graduação em Marketing Político e Assessoria de Comunicação.

Atua como Consultora de Marketing Político nas áreas de planejamento de campanhas eleitorais, avaliação e posicionamento de imagem, comunicação política e análise de dados eleitorais.

Fundou e dirige, desde 2008, o Instituto de Desenvolvimento Político e Social – IDPS atuando junto ao poder público nas áreas de políticas públicas, planejamento de gestão participativa e projetos de formação política e cidadã.