Pesquisa diz que brasileiro é de direita - Cadê esse povo? - Blog do Wanfil 
Publicidade

Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Pesquisa diz que brasileiro é de direita – Cadê esse povo?

Por Wanfil em Ideologia

15 de outubro de 2013

Um texto um pouco maior, mas que considero importante por tratar de um dos temas mais vilipendiados por palpiteiros em geral.

Uma pesquisa do instituto Datafolha divulgada ontem mostrou que a maioria dos brasileiros simpatiza com valores tidos como de direita. Algumas das premissas utilizadas para definir o que viria a ser esquerda e direita são bastante questionáveis, mas esse não é o objeto deste texto.

O fato que interessa aqui é a leitura pela qual, segundo essa e outras pesquisas, o brasileiro médio teria um perfil mais conservador. Isso explicaria, por exemplo, o não ao referendo sobre a proibição da venda de armas em 2005 e a famosa Carta aos Brasileiros assinada por Lula nas eleições de 2002, quando o então candidato aderiu ao que antes chamava de neoliberalismo, para agradar ao eleitorado.

É por instinto, não por consciência

Faz algum sentido, mas essa propensão não deve ser superestimada, pois se fosse assim, a esquerda não estaria no poder, sem a direita conseguir ter pelo menos uma candidatura genuinamente de direita. O brasileiro tem sim certo perfil mais sintonizado com alguns pontos do que poderia ser chamado de direita conservadora, mas não por escolha consciente, mas antes por um compreensível instinto de sobrevivência. Como nossa história é marcada sobretudo pelas rupturas, com sucessivos governos autoritários agindo entre breves intervalos democráticos, o desejo de ter alguma estabilidade se consolidou na população. Mudanças, só por reformas, não mais por golpes ou revoluções.

No livro Esquerda e direita no eleitorado brasileiro: a identificação ideológica nas disputas presidenciais de 1989 e 1994, de 2002, o jornalista e cientista político André Singer, ex-porta-voz de Lula e sujeito que considero inteligente, afirma, em linhas gerais, que a massa  não domina conceitualmente as distinções entre os conceitos de direita e esquerda, mas que, entretanto, é capaz de subentendê-los por expressões colocadas nos discursos políticos. “Mudar tudo isso que está aí”, por exemplo, é identificado com a esquerda e com a ideia de alteração abrupta da ordem social, algo que a assusta. Já “melhorar o que precisa ser melhorado”, por sua vez, identificado como postura de centro-direita, agrada mais por sugerir um processo sem sobressaltos. Daí, segundo Singer, o sucesso dos adversários do PT naqueles anos.

Sem distinção de classe

O problema da tese de Singer é atribuir essa limitação aos estratos mais pobres da população. Na verdade, os setores com formação universitária, no Brasil, também não possui mais do que uma ideia vaga e rudimentar sobre o que venha a ser direita. Aprendem nas escolas e no ensino superior apenas o que a esquerda diz o que a direita é. Na verdade, a maioria dos esquerdistas que conheço é incapaz de dizer porque Marx não conseguiu concluir a tempo o terceiro volume de O Capital antes de morrer (v. As Etapas do Pensamento Sociológico, de Raymond Aron). Que dirá ter estudado – entenda-se aí ler as obras originais – de conservadores e direitistas.

Pior ainda quando falamos de professores e jornalistas. Esses aí, doutrinados desde o momento em que pisam no colégio pela primeira vez e acompanhados de perto em seus cursos, com raríssimas exceções (até conheço dois jornalistas cujos nomes não cito para evitar isolá-los socialmente por serem simpatizantes da – oh, Deus! – direita!), nunca leram na fonte Toynbee, Hayek, Gasset, Bastiat, Mises ou Tocqueville.  Gustavo Corção, José Guilherme Merquior e Paulo Mercadante então… Que o resto não saiba quem sejam, vá lá, mas quando essa deficiência é verificada em formadores de opinião, aí a coisa complica. Por aqui o negócio é ler e reler, como já se faz há 30 anos, Foucault, Luckács, Marcuse, Deleuze e tudo em quanto, sem contar o próprio Marx, quando se lê. Essa bagagem, diga-se, não é de forma alguma sinal de sofisticação intelectual, é apenas o básico que todo profissional formador de opinião deveria se obrigar a ter.

Distorções

Lembro uma vez quando cheguei para uma aula de ciências sociais da UFC e o professor me viu com um livro (Socialismo Liberal) do italiano Carlo Rosselli, prefaciado pelo Bresser Pereira. “Você sabe o que está lendo?”, perguntou-me assustado com cara de quem via, ali na sua frente, um fascista. No Brasil, social-democrata é direita! Para jornalistas, coitados, FHC é de direita, pois isso é o que a hegemonia do pensamento esquerdista permite que ele entenda como personificação da direita. Nesse mundo de chavões e fantasias, a esquerda é o impulso maravilhoso e angelical de igualdade e direita é a reunião das piores tendências do espírito humano, a começar pelo egoísmo e pela mesquinharia. E assim ficamos nesse maniqueísmo barato.

Essa direita que seria o ânimo espiritual do brasileiro segundo a pesquisa Datafolha, nada mais é do que a erupção de espasmos isolados, de ideias soltas, descoladas de uma unidade de princípio que possa ser devidamente identificada como ideologia (por isso não forma partido), vagando no vazio conceitual que a doutrinação esquerdista ainda não conseguiu ocupar. A direita no Brasil morreu com Carlos Lacerda. O resto, convenhamos, de Maluf a Delfim, está na base de apoio aos “progressistas” no poder.

Publicidade aqui

Pesquisa diz que brasileiro é de direita – Cadê esse povo?

Por Wanfil em Ideologia

15 de outubro de 2013

Um texto um pouco maior, mas que considero importante por tratar de um dos temas mais vilipendiados por palpiteiros em geral.

Uma pesquisa do instituto Datafolha divulgada ontem mostrou que a maioria dos brasileiros simpatiza com valores tidos como de direita. Algumas das premissas utilizadas para definir o que viria a ser esquerda e direita são bastante questionáveis, mas esse não é o objeto deste texto.

O fato que interessa aqui é a leitura pela qual, segundo essa e outras pesquisas, o brasileiro médio teria um perfil mais conservador. Isso explicaria, por exemplo, o não ao referendo sobre a proibição da venda de armas em 2005 e a famosa Carta aos Brasileiros assinada por Lula nas eleições de 2002, quando o então candidato aderiu ao que antes chamava de neoliberalismo, para agradar ao eleitorado.

É por instinto, não por consciência

Faz algum sentido, mas essa propensão não deve ser superestimada, pois se fosse assim, a esquerda não estaria no poder, sem a direita conseguir ter pelo menos uma candidatura genuinamente de direita. O brasileiro tem sim certo perfil mais sintonizado com alguns pontos do que poderia ser chamado de direita conservadora, mas não por escolha consciente, mas antes por um compreensível instinto de sobrevivência. Como nossa história é marcada sobretudo pelas rupturas, com sucessivos governos autoritários agindo entre breves intervalos democráticos, o desejo de ter alguma estabilidade se consolidou na população. Mudanças, só por reformas, não mais por golpes ou revoluções.

No livro Esquerda e direita no eleitorado brasileiro: a identificação ideológica nas disputas presidenciais de 1989 e 1994, de 2002, o jornalista e cientista político André Singer, ex-porta-voz de Lula e sujeito que considero inteligente, afirma, em linhas gerais, que a massa  não domina conceitualmente as distinções entre os conceitos de direita e esquerda, mas que, entretanto, é capaz de subentendê-los por expressões colocadas nos discursos políticos. “Mudar tudo isso que está aí”, por exemplo, é identificado com a esquerda e com a ideia de alteração abrupta da ordem social, algo que a assusta. Já “melhorar o que precisa ser melhorado”, por sua vez, identificado como postura de centro-direita, agrada mais por sugerir um processo sem sobressaltos. Daí, segundo Singer, o sucesso dos adversários do PT naqueles anos.

Sem distinção de classe

O problema da tese de Singer é atribuir essa limitação aos estratos mais pobres da população. Na verdade, os setores com formação universitária, no Brasil, também não possui mais do que uma ideia vaga e rudimentar sobre o que venha a ser direita. Aprendem nas escolas e no ensino superior apenas o que a esquerda diz o que a direita é. Na verdade, a maioria dos esquerdistas que conheço é incapaz de dizer porque Marx não conseguiu concluir a tempo o terceiro volume de O Capital antes de morrer (v. As Etapas do Pensamento Sociológico, de Raymond Aron). Que dirá ter estudado – entenda-se aí ler as obras originais – de conservadores e direitistas.

Pior ainda quando falamos de professores e jornalistas. Esses aí, doutrinados desde o momento em que pisam no colégio pela primeira vez e acompanhados de perto em seus cursos, com raríssimas exceções (até conheço dois jornalistas cujos nomes não cito para evitar isolá-los socialmente por serem simpatizantes da – oh, Deus! – direita!), nunca leram na fonte Toynbee, Hayek, Gasset, Bastiat, Mises ou Tocqueville.  Gustavo Corção, José Guilherme Merquior e Paulo Mercadante então… Que o resto não saiba quem sejam, vá lá, mas quando essa deficiência é verificada em formadores de opinião, aí a coisa complica. Por aqui o negócio é ler e reler, como já se faz há 30 anos, Foucault, Luckács, Marcuse, Deleuze e tudo em quanto, sem contar o próprio Marx, quando se lê. Essa bagagem, diga-se, não é de forma alguma sinal de sofisticação intelectual, é apenas o básico que todo profissional formador de opinião deveria se obrigar a ter.

Distorções

Lembro uma vez quando cheguei para uma aula de ciências sociais da UFC e o professor me viu com um livro (Socialismo Liberal) do italiano Carlo Rosselli, prefaciado pelo Bresser Pereira. “Você sabe o que está lendo?”, perguntou-me assustado com cara de quem via, ali na sua frente, um fascista. No Brasil, social-democrata é direita! Para jornalistas, coitados, FHC é de direita, pois isso é o que a hegemonia do pensamento esquerdista permite que ele entenda como personificação da direita. Nesse mundo de chavões e fantasias, a esquerda é o impulso maravilhoso e angelical de igualdade e direita é a reunião das piores tendências do espírito humano, a começar pelo egoísmo e pela mesquinharia. E assim ficamos nesse maniqueísmo barato.

Essa direita que seria o ânimo espiritual do brasileiro segundo a pesquisa Datafolha, nada mais é do que a erupção de espasmos isolados, de ideias soltas, descoladas de uma unidade de princípio que possa ser devidamente identificada como ideologia (por isso não forma partido), vagando no vazio conceitual que a doutrinação esquerdista ainda não conseguiu ocupar. A direita no Brasil morreu com Carlos Lacerda. O resto, convenhamos, de Maluf a Delfim, está na base de apoio aos “progressistas” no poder.