Ceará Archives - Página 40 de 41 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Ceará

Bandido pé-de-chinelo publica fotos de cela em rede social e humilha a Segurança no Ceará

Por Wanfil em Segurança

27 de novembro de 2012

Fotos de bandidos presos no Ceará postadas no Facebook. Escárnio e descontrole. Imagem: Reprodução / Barra Pesada.

Um assassino sem maior notoriedade no mundo do crime e que atende pela alcunha de “Ninja Nu” – o sujeito gosta de se exibir sem roupas pilotando uma motocicleta -, fez uso de um aparelho celular para tirar fotos dentro da cela em que estava preso e depois publicá-las na rede social Facebook.

Não é possível dizer se as imagens são de dentro de uma delegacia ou se foram feitas já na  Casa de Privação Provisória de Liberdade (CPPL) III, em Itaitinga, presídio onde ele estava até o começo desta semana. Mesmo assim, de acordo com a assessoria de imprensa da Secretaria de Justiça do Ceará, seis aparelhos celulares foram encontrados após uma revista na cela em que estavam o tal “Ninja Nu” e outros criminosos. Ou seja, o acesso a equipamentos é amplo e fácil.

Quem imagina que o acesso a celulares e outras regalias dentro das cadeias no Brasil é coisa de sofisticadas organizações criminosas ou de poderosos chefes de quadrilhas, está enganado. A degradação do sistema de segurança pública é maior e mais profunda. No Ceará, resta comprovado, qualquer bandido consegue fazer uso da tecnologia e escarnecer das autoridades publicamente, acessando até a internet! Podem realizar, se quiserem, reuniões virtuais. É o fim.

Os chefes criminosos, claro, devem ter formas mais eficientes, e portanto, mais perigosas, de contato com o mundo exterior, não para se exibirem ou brincarem, mas para coordenarem suas atividades ilegais desde dentro das unidades prisionais.

No programa Barra Pesada, o apresentador Nonato Albuquerque faz uma pergunta que tanto mais surpreende pela sua realidade desconcertante: Onde os presos recarregam seus celulares? Existem tomadas nas celas? Ou eles levam os aparelhos para tomadas externas? E aí, quem sabe responder?

E o que dizem nossas autoridades? E a OAB?

Na última quarta-feira (21), o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, abriu o Congresso de Ministros de Justiça do Mercosul e Estados Associados sobre acesso à Justiça, em solenidade no Centro de Eventos do Ceará. Junto com o ministro, que recentemente, ao saber que José Dirceu iria cumprir pena em regime fechado, declarou preferir morrer a ter que ir para uma penitenciária, estava a secretária da Justiça e Cidadania do Estado do Ceará, Mariana Lobo.

Discutiam na ocasião experiências para a “democratização do acesso à Justiça”. Bonito e certamente importante. No entanto, me parece mais urgente debater formas de ao menos impedir que presos continuem a cometer crimes de dentro de delegacias e presídios. Anunciar apreensões em revistas é tentar tapar o sol com a peneira, pois não resolve o problema. Começo a desconfiar que essas apreensões são os presos fazendo descarte de aparelhos ultrapassados…

O senhor ministro e a senhora secretária não são páreos para o “Ninja Nu”.  O Estado não consegue dar conta de problemas já bastante conhecidos. Por quê?

A OAB tem se notabilizado ultimamente por suas disputas eleitorais. Agora que passaram, o que a entidade teria a dizer sobre o caso? Nada? E a secretária? Em São Paulo, estado com os menores percentuais de assassinatos do país, chefes do crime organizado presos mandam matar policiais nas ruas. Fizeram das penitenciárias seus bunkers. Lá estão seguros para operar seus esquemas. No Ceará, pelo visto, trilhamos o mesmo caminho.

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A relação entre Executivo e Legislativo no Ceará: tudo dominado

Por Wanfil em Ceará, Política

21 de novembro de 2012

Imagem-metáfora: Qual menino representa o Legislativo e qual representa o Executivo? – Foto: Pinterest

Trecho de artigo assinado pela jornalista Dora Kramer, do jornal O Estado de São Paulo, nesta quarta:

“Ao mesmo tempo em que o Supremo afirma sua autonomia, o Congresso se afunda na submissão aos ditames do Executivo e das infames conveniências partidárias. Enquanto a Corte Suprema investe na punição dos crimes contra a administração pública, o Parlamento dá abrigo à impunidade”.

E no Ceará?

No Ceará a realidade não é diferente. Vejam o que disse o deputado Wellington Landin (PSB), com a autoridade de quem já presidiu a Assembleia Legislativa do estado, no início deste mês de novembro: “Sem meias palavras: o governador é o eleitor mais importante da Assembleia Legislativa. Essa decisão passa necessariamente pela palavra do governador. Passa necessariamente, não adianta a gente ficar aqui com meias palavras nem com hipocrisia.

A conclusão é incontornável: aqui também, descontadas as aparências, o poder Legislativo é comandado pelo poder Executivo.

A indicação que vale por uma nomeação

Tanto isso é verdade que a notícia sobre a indicação do deputado Zezinho Albuquerque como nome do PSB do Ceará (presidido por Cid Gomes) à presidência da Assembleia Legislativa equivale quase a uma nomeação. Aguarda-se apenas as negociações sobre a composição da mesa diretora e os ritos burocráticos necessários para a efetivação do escolhido. Leia mais

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Atentados a candidatos continuam mesmo após as eleições no Ceará: clima estranho e apatia nas investigações

Por Wanfil em Ceará

15 de outubro de 2012

Eleições marcadas por pistoleiros: Atentados contra a vontade do eleitor que ficam por isso mesmo, sem solução.

As eleições municipais de 2012 no Ceará foram marcadas pela violência como instrumento de intimidação e pela apatia na coibição dessa prática. Coisa de gente arrogante que se acha acima das regras e aposta na impunidade. Uma afronta ao espírito republicano e aos eleitores.

Mesmo depois de terminadas as eleições na maioria dos municípios, os crimes envolvendo candidatos continuam. Neste domingo (14), em Senador Pompeu, um homem morreu e duas mulheres ficaram feridas após serem baleados durante a comemoração da vitória de um vereador.

Em outro caso, um dia após as eleições, o prefeito reeleito  de Senador Sá, Alex Sandro Oliveira (PSDB), e o atual vice de Quixadá, Airton Buriti (PT), foram alvos de disparos, mas escaparam sem ferimentos.

Durante a campanha foram muitas as ocorrências. Em Milhã, um motociclista efetuou disparos contra a residência do candidato a prefeito Otacílio Pinheiro (PP). Em Caucaia, Paulo Gurgel (PSDB) registrou ter sido ameaçado por um homem armado. Em Pacajús, homens armados assaltaram a casa do prefeito Auri Costa (PR), que participava de um comício.

No dia 20 de setembro, o ex-prefeito e então candidato à Prefeitura de Santa Quitéria, Tomás Figueiredo (PSDB), teve o carro em que estava baleado por dois motoqueiros. A assessoria do candidato descreveu a situação na cidade como clima de terror. Um dia antes, um grupo armado efetuou uma série de disparos contra a residência e o veículo da atual prefeita do município de Orós, Fátima Maciel (PSB).

Em Fortaleza, o agente penitenciário Elias Alves da Silva, candidato a vereador pelo partido Democratas (DEM), foi assassinado no dia 26 de setembro.

Crimes sem resposta

Esse levantamento foi produzido após uma rápida busca pelo Jangadeiro Online. Há mais casos que cito de memória, como em Jardim e Croatá. Em comum nesses episódios, só o fato de que nada foi esclarecido. Não há relato de prisões efetuadas em resposta aos crimes cometidos com a evidente intenção de intimidar candidatos, pelos menos na maioria dos casos. Impunidade, como todos sabem, alimenta a ousadia dos criminosos. Leia mais

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O Ceará no Ideb: educação longe do ideal

Por Wanfil em Brasil

15 de agosto de 2012

Entre 2007 e 2011, alunos do ensino médio melhoraram 0,3 pontos. A média agora é de 3,4. Avanço lento para um problema urgente.

O Índice de Desenvolvimento da Educação Brasileira (Ideb) de 2011 dos ensinos fundamental e médio de todo o Brasil comprova que: 1) a educação ofertada aos nossos jovens é de baixa qualidade; 2) pouco avançou nos últimos anos; 3) a rede pública é pior que a privada. Os resultados podem ser conferidos na íntegra no site do Ministério da Educação.

Seguem abaixo as notas obtidas no Ceará, com médias que variam numa escala de zero a 10.

4ª série / 5º ano

Total: Nota 4,9.  Meta projetada pelo MEC para 2011: 4,0.
Rede estadual: Nota 4,4.  Meta para 2011: 4,0.
Rede Privada: Nota: 6,0. Meta para 2011: 6,1.

8ª série / 9º ano

Total: Nota 4,2.  Meta projetada pelo MEC para 2011: 3,6.
Rede estadual: Nota 3,7.  Meta para 2011: 3,2.
Rede Privada: Nota: 5,7. Meta para 2011: 5,9.

3ª série Ensino Médio

Total: Nota 3,7.  Meta projetada pelo MEC para 2011: 3,6.
Rede estadual: Nota 3,4.  Meta projetada pelo MEC para 2011: 3,2.
Rede Privada: Nota: 5,9. Meta projetada pelo MEC para 2011: 5,8.

A boa notícia

Os números mostram que o Ceará conseguiu desempenho superior à meta estipulada pelo MEC. No ensino médio, comparado aos demais estados, a rede estadual do Ceará ficou em 9º lugar, à frente do Rio de Janeiro e do Distrito Federal, por exemplo. A situação é melhor na rede privada, que fica na 4ª posição, empatado com o Rio Grande do Sul e superando até mesmo São Paulo.

A má notícia

O desempenho nacional é muito, mas muito ruim mesmo. E olha que a rede privada é quem eleva a média, deixando claro que os alunos da rede pública estão em situação pior. A elevação nas notas registrado em 2011 foi obtido a partir de uma base de comparação deprimida. Portanto, o avanço registrado significa, na prática, que estamos um pouco menos piores, mesmo com metas bastante tímidas. Não se trata de ver os fatos com má vontade, pois é inegável que uma média de 3,4 para a rede estadual é um desastre. Trata-se de alunos absolutamente despreparados para a vida profissional e para colocar o Ceará e o Brasil numa posição razoável de competitividade com outras nações.

Vejam o que diz o próprio MEC: “Se o ritmo for mantido, o Brasil chegará a uma média superior a 6,0 em 2022. É o mesmo que dizer que teremos uma educação compatível com países de primeiro mundo antes do previsto“.

Ocorre que os países com educação de primeiro mundo não ficarão parados esperando pelo Brasil. Em 2022, suas médias também terão subido, talvez num ritmo maior do que o nosso. Leia mais

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Segurança no Ceará: cada um por si e Deus por todos

Por Wanfil em Segurança

09 de julho de 2012

O grupo de rock Engenheiros do Hawaii tem uma música chamada Fusão a Frio, cuja letra diz o seguinte:

“Ninguém sabe como serão os filhos desse casamento /indústria da informação + indústria do entretenimento / em doses homeopáticas, em escala industrial /tudo acaba em samba, é sempre carnaval / tudo acaba em sombras, é sempre vendaval.”

Lembrei-me dela ao ver essa notícia, divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IpeaSeis em cada 10 pessoas têm medo de assassinato. A informação está no estudo Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) sobre segurança pública.

Muro com cerca elétrica e arame farpado: Penitenciária? Instalação militar? Campo de concentração? Não. É uma residência. A violência incorporada no estilo de vida das pessoas comuns não causa indignação, só medo. Enquanto isso, as autoridades disfarçam.

No Nordeste, o medo de ser assassinado aumenta para 72,9%. Na região Sul, esse índice é de 39,1%.

E o que a música tem a ver com esses dados? Simples. A insegurança é o maior problema do Nordeste e o Ceará não destoa dessa realidade. Pelo contrário. Vivemos sombras e vendavais, mas por aqui tudo acaba em samba e sempre é carnaval. Estádios de futebol ou Centro de Eventos que comporta shows grandiosos, são boas iniciativas, claro, mas apresentadas como ações fundamentais. Porém, o fato é que moramos em casas rodeadas por cercas elétricas, como se fossem campos de concentração, e não somos mais capazes de perceber que isso não é normal. Não nos damos conta de que viver e conviver em paz é que é o essencial.

Os números comprovam: insegurança só aumenta

No Ceará, na área de segurança pública temos alarmes sonoros em postes, patinetes na Beira-Mar e viaturas policiais de luxo, tudo apresentado com enorme aparato publicitário. No entanto, de acordo com o mais recente Mapa da Violência,divulgado pelo Instituto Sangari, a taxa de 29, 7 homicídios por grupo de 100 mil habitantes registrada no Ceará em 2010 ultrapassou, pela primeira vez, a média nacional, que foi de 26,2. Em 1994, a taxa estadual era de 9,5. Os assassinatos mais que triplicaram! Adaptando a letra da canção, é a política de entretenimento sucumbindo diante da informação real.

As autoridades afirmam que o problema é a migração de quadrilhas do Sul/Sudeste para o Norte/Nordeste. Isso acontece, mas não podemos confundir causa e efeito. A segurança não cai com a migração de criminosos, os criminosos é que migram pela precariedade da segurança pública nesses estados. Sem contar que temos os nossos próprios criminosos presos e soltos diariamente.

Boas intenções não bastam

Não é o caso de lançar dúvidas a respeito das intenções de quem trabalha para mitigar essa situação, mas intenções não bastam. Enquanto os governos não reconhecerem a gravidade da situação, o problema persistirá.

Em 2009, a Prefeitura de Fortaleza realizou a I Conferência Municipal de Segurança Pública (Conseg), para  “criar uma cultura de paz baseada na segurança cidadã”. O encontro, que aconteceu em um hotel cinco estrelas repleto de seguranças… particulares!, é claro, seria  é “uma grande oportunidade para criar a ambiência necessária, a fim de consolidar um novo paradigma, visando efetivar a segurança pública como direito fundamental”. Papo furado. Na falta do que mostrar, autoridades procuram disfarçar, abusam de frases de efeito repletas de termos empolados e pomposos. E só!

No fundo, essa conversa de “cultura da paz” é uma forma esperta de não resolver o problema da violência. É gente que pretende sensibilizar criminosos organizando passeatas. O que está valendo – em termos de segurança – é o cada um por si e Deus por todos. Leia mais

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Refinaria não vem e cearenses são tapeados mais uma vez

Por Wanfil em Noticiário

26 de junho de 2012

A notícia que se repete ano após ano: Refinaria do Ceará não consta no plano de investimentos da Petrobras. Alguma novidade? Não. Mais uma vez o plano de negócios da empresa não faz previsão, até 2016, para a construção da refinaria “Premium 2” no Ceará.

Factoide

Desculpas não faltam: burocracia estatal, crise internacional, complexidade técnica, tudo muito difícil, mas nada que impeça, por exemplo, as obras superfaturadas da refinaria Abreu e Lima, no vizinho Pernambuco. É constrangedor observar como o ex-presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, político matreiro disfarçado de técnico, usou a estatal para criar um factoide eleitoreiro dessa dimensão.

Se a refinaria não era uma certeza, então que não fosse prometida, especialmente em troca de votos. Não tenho dúvida de que na próxima campanha presidencial – e estadual – o empreendimento constará como promessa encaminhada, em vias de execução para transformar a realidade, gerar empregos e mudar radicalmente a realidade. Tudo estelionato eleitoral.

Filme repetido

Em 2010, faltando apenas dois dias para o fim de seu segundo mandato, ex-presidente Lula esteve no Ceará para lançar a pedra fundamental da refinaria cujas obras não existem. É um acinte, mas não faltaram louvores e manchetes favoráveis para a promessa não cumprida, nem sequer iniciada, muito menos com orçamento previsto.

Um ano antes, escrevi um artigo para o jornal O Estado com o seguinte título: A refinaria não vem para o Ceará. O que mais falta acontecer para isso ficar claro? Reproduzo um trecho, em azul:

O caso da prometida refinaria de petróleo para o Ceará já não pode ser visto apenas como uma certeza constantemente adiada por causa de contratempos técnicos. Não cola mais. (…) Nunca um governo tão carente de realizações concretas foi tão popular. E o segredo não é apenas  o populismo assistencialista. Falta cobrança. A oposição é fraca a ponto de não conseguir explorar uma realidade que salta aos olhos. A base aliada de Lula no Ceará sabe bater palmas como poucas, mas seu entusiasmo febril é inversamente proporcional aos investimentos. Sobra discurso e falta ação. O resultado colhido é mais desprezo e mais promessas.

Pois é. Não mudo uma vírgula do que disse no passado. Só o que muda constantemente é a data para o início das obras da refinaria.

Cobrar a promessa ou denunciar o embuste

O fato é que o governo federal percebeu que para conseguir votações expressivas no Ceará basta o bolsa família. Enquanto que para outros estados, mais exigentes, são necessárias ações de maior substância. No ano passado, o governador Cid Gomes denunciou, com razão, a situação das estradas federais no estado. Fez bem e o ministro, enrolado com corrupção, caiu. É hora de fazer o mesmo em relação a Petrobras, que sistematicamente exclui o Ceará em seu plano de investimentos. É preciso denunciar o embuste, explicando aos cearenses que o ex-presidente Lula e a presidente Dilma souberam vir aqui pedir votos, mas que na hora de entregar o que prometeram, deixam a Petrobras tergiversar.

Muitos podem pensar que estou exagerando, uma vez que a instalação de uma refinaria é algo realmente demorada, coisa e tal. Publico então um vídeo institucional do próprio Governo do Ceará. Nele não constam dúvidas ou empecilhos, só vantagens maravilhosas de uma realidade indiscutível. Quem um dia acreditou no que aparece no vídeo, sinto muito dizer, foi enganado.

 

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Cuidado senhores laranjas: sempre sobra pra vocês

Por Wanfil em Corrupção

23 de junho de 2012

Estátua de Lépido, a quem cabia carregar os “fardos infamantes” no lugar de Otávio e Marco Antônio, no Segundo Triunvirato.

O que Adalberto Vieira, ex-assessor do então deputado estadual José Guimarães flagrado em 2005 no notório caso dos dólares na cueca; Guedes Neto, ex-superintendente do Dnit, que chegou a ser preso numa operação da Polícia Federal em 2010; e Jurandir Santiago, ex-presidente do BNB e ex-adjunto da Secretaria da Cidades acusado de envolvimento no escândalo do “Banheiros Fantasmas” têm em comum?

Simples. Além dos problemas com a Justiça, todos foram levados aos cargos de confiança que ocuparam por padrinhos políticos que nada sofreram com a desgraça de seus apadrinhados. Ninguém foi condenado até o momento, é verdade, mas o constrangimento de ser indiciado por corrupção e de ter o nome exposto publicamente já serve para mostrar como certas atividades guardam riscos que muitas vezes são menosprezados.

O que parece coincidência, na verdade, é uma forma bastante conhecida das autoridades investigativas para “apagar” vestígios de participação em ilicitudes. Collor de Mello, por exemplo, nunca assinou nada que o desabonasse. Judicialmente, quem pagou o pato foram seus subalternos, inclusive a secretária particular. Se esses personagens que emprestam os nomes para que tubarões possam continuar nadando impunes fazem isso por ingenuidade, burrice ou ganância (ou tudo junto), cabe aos processos judiciais esclarecer.

Recentemente citei Shakespeare num post sobre o filme Coriolano. Vez por outra releio os clássicos do dramaturgo inglês do século XVI. E a cada vez, algo se mostra em sintonia com o presente. Na peça Júlio César, uma passagem ilustra perfeitamente o papel do laranja. Após o assassinato de César, Otávio e Marco Antônio conversam sobre Lépido, hábil guerreiro sem experiência política. Destaco algumas passagens em negrito.

Ato IV, Cena I

ANTÔNIO – (Sai Lépido.) É um homem fútil e de nulo mérito. Só serve para dar recados. Justo vos parece que o mundo dividido, como vai ser, em três, fique ele sendo dono de uma das partes?

OTÁVIO – Fazeis dele esse juízo? No entanto lhe pedistes a opinião (…).

ANTÔNIO – (…) Se sobre esse homem acumulamos honras, é para que nos poupemos do peso de fardos infamantes, que ele carrega tal como ouro o burro, que geme e sua sob a carga ingente e é tocado ou levado pela estrada que bem nos aprouver. Levado todo nosso tesouro ao ponto que queríamos, dos fardos o aliviamos e o deixamos como burro sem carga, para que à solta as orelhas sacuda e se regale nas pastagens do Estado.

OTÁVIO – Procedei como quiserdes; mas é um bom soldado, valente e experimentado.

ANTÔNIO – Meu cavalo, Otávio, também o é; por essa causa lhe dou sua ração. (…). Em muitas coisas Lépido é apenas isso. É necessário adestrá-lo, educá-lo, dirigi-lo; é um sujeito de espírito acanhado, que se alimenta só de rebotalhos, de imitações, apenas, fora de uso, já bastante surradas, que ele adota por moda. Só falai a seu respeito como de um instrumento manejável.

Todo laranja, ainda que não saiba (ou não queira ver) que é um laranja, ainda que imagine ser um servidor respeitado, não passa de um instrumento descartável. Vejam o episódio mais recente, com Jurandir Santiago. Ninguém mais assume sua indicação para o BNB. De uma hora para a outra virou órfão. Com os outros não foi diferente.

Portanto, senhores laranjas, cuidado. Quando o esquema é descoberto, aquele papel que você assinou ou o dinheiro que pediram para você sacar na boca do caixa, tudo aquilo que não era “nada demais”, será usado contra você. E seus padrinhos, livres dos “fardos infamantes”,  irão procurar novos Lépidos.

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Escândalo dos Banheiros Fantasmas: mais perto dos verdadeiros responsáveis

Por Wanfil em Corrupção

20 de junho de 2012

Arquivo Jangadeiro

A TV Jangadeiro mostrou que o caso dos banheiros fantasmas não se restringia a região metropolitana de Fortaleza. Na foto, um dos poucos kits sanitários “feitos” em Ipu. O prefeito está foragido e o ex-secretário adjunto da Secretaria das Cidades, Jurandir Santiago, será investigado.

Imagine, caro leitor, a situação de um síndico de algum condomínio residencial que anunciasse a reforma da portaria e não a realizasse, embora o dinheiro dos condôminos tivesse sumido, supostamente utilizado para a aquisição do material de construção que nunca chegou. Imagine ainda que, uma vez cobrado a prestar contas, esse síndico se limitasse a responsabilizar terceiros e lavasse as mãos. O que aconteceria? A resposta é óbvia. O síndico seria, só pra começar, imediatamente destituído e processado.

A origem

Pois essa é a exata situação de Jurandir Santiago, o iminente mais novo ex-presidente do Banco do Nordeste, que entregou o cargo ao ministro da Fazenda Guido Mantega, depois que seu nome foi incluído no rol dos denunciados no processo do escândalo dos “Banheiros Fantasmas”, como informa o blog da jornalista Kézya Diniz.

Em 2009, Santiago era secretário adjunto na Secretaria das Cidades do Ceará, uma pasta que ninguém sabe explicar muito bem para o que serve, quando mais de 3 milhões de reais foram liberados para a construção de banheiros na área rural do município de Ipu. O dinheiro foi liberado sem a devida fiscalização e os banheiros não foram construídos. O contribuinte e a gente humilde do interior, que vive sem direito a um vaso sanitário sequer, acabaram prejudicados pela, digamos assim, displicência com o nosso dinheiro. Prefeito de Ipu, Sávio Pontes, contra quem há um mandado de prisão justamente por esse caso, está foragido.

A recompensa

Pelos serviços prestados no governo estadual, Jurandir Santiago chegou ao BNB como a única indicação importante do governador Cid Gomes no governo federal. Alguns governadores emplacam ministros, outros conseguem descolar cargos de segundo escalão. É a vida.

A denúncia

No entano, uma vez no BNB, Santiago voltou ao noticiário de escândalos em dois casos. No começo do mês, a revista Época publicou matéria sobre uma investigação da Polícia Federal na instituição que apura o suposto desvio de R$ 100 milhões na instituição. O principal suspeito é justamente o então chefe de gabinete de Jurandir, Robério Gress, indicação do deputado federal José Guimarães (cotado para ser o novo presidente estadual do PT). Após a denúncia Gress foi transferido de cargo.

E agora, o procurador Geral de Justiça, Ricardo Machado, volta com o caso do Ipu. A situação ficou insustentável. Evidentemente, Jurandir Santiago é inocente até que se prove o contrário. Suspeito mesmo que ele seja apenas um técnico que se deixou seduzir pelo canto da sereia dos políticos. Ocorre que, assim como a mulher de César, a um presidente de instituição financeira não pode recair dúvida sobre sua honestidade ou, no caso, competência técnica.

A responsabilidade

Até o momento, apenas os destinatários mais notórios dos recursos que sumiram  tinham sido alcançados pelas investigações. Teodorico Menezes, do Tribunal de Contas do Estado, acusado de operar entidades de fachada e o prefeito Sávio Pontes, do Ipu. Da parte que liberou indevidamente e não fiscalizou a aplicação desses recursos, apenas subalternos menores tinham sido afastados.

Portanto, para encerrar, vale lembrar que o destino dado aos recursos da Secretaria das Cidades não é (verbo conjugado no presente mesmo) responsabilidade apenas de Jurandir Santiago, seu ex-secretário adjunto. Embora fossem suas as assinaturas estampadas em diversos convênios investigados, seus superiores são corresponsáveis, se não administrativamente e judicialmente, pelo menos politicamente pelos atos do órgão. Seus nomes são Camilo Santana e Joaquim Cartaxo, ex-titulares da pasta. É o ônus da liderança. Ou não é?

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Cid, Luizianne e o darwinismo eleitoral

Por Wanfil em Partidos

28 de Maio de 2012

Darwinismo eleitoral: Não é o mais leal a uma ideologia ou o mais fiel a um aliado que sobrevive. É aquele que se adapta melhor as conveniências das pesquisas.

A semana que passou foi marcada pela troca de farpas, via imprensa, entre a prefeita Luizianne Lins (PT) e o governador Cid Gomes (PSB), sobre a manutenção ou não da aliança eleitoral entre seus partidos para as eleições de outubro em Fortaleza.

A prefeita reclamou da falta de diálogo entre os dois. Em seguida, Cid afirmou estar quites com a prefeita e completou afirmado estar livre doravante, embora reconheça e tenha gratidão pelo apoio vigente nos últimos oito anos.

As bases de uma aliança

Em nenhum momento questões como divergências ideológicas ou incompatibilidades programáticas foram colocadas como entraves para a continuação da parceria. Nada. Críticas veladas sobre incompetência e insinuações de desvios éticos trocadas por integrantes de ambas as gestões não causaram abalos maiores, antes disso, resultaram de um desacerto de natureza bem mais objetiva: a sobrevivência de seus respectivos projetos políticos.

A verdade é que a aliança entre PT e PSB em Fortaleza se desfaz em função de sua única e verdadeira razão de existir: as conveniências eleitorais. Não há prestação de contas, ações conjuntas ou realizações de relevância em debate. A aliança não funcionou do ponto de vista administrativo e isso é tomado como detalhe secundário. Isso não é exclusividade da união entre PT e PSB. É um mal do frágil partidarismo brasileiro, questão que pretendo abordar em outro texto.

Pragmatismo

Cada grupo – governo e município – tem suas pesquisas internas. O movimento de Cid é cristalino: descolamento progressivo da incômoda aliada, que tenta manter a estrutura de poder atual sob sua influência no município e dentro de seu próprio partido. O governo certamente avaliou o peso de entrar numa eleição como força auxiliar de um candidato escolhido por Luizianne. E optou por se afastar dessa possibilidade, com o devido cuidado de evitar transformar o antigo companheiro em vítima.

Fosse a gestão municipal bem avaliada pelo eleitorado, a história seria bem diferente. O próprio governo seria o primeiro a alardear que a parceria eleitoral se projetou em harmonia administrativa de sucesso. Entretanto, o que acontece é o oposto: a silenciosa tentativa de esconder essa parceria administrativa – vendida em eleições passadas como solução infalível.

Darwinismo

O naturalista britânico Charles Darwin consagrou a tese de que somente as espécies mais aptas conseguem sobreviver. Projetando essa característica no ambiente competitivo da política partidária nacional, é fácil observar por que os aliados de hoje podem ser os adversários de amanhã; ou como os inimigos de ontem viram os companheiros de hoje, dançando conforme a música tocada pelas pesquisas. O que interesse é a perspectiva de conquista ou de manutenção do poder. Quem não se adapta, fica para trás. Eis um modo de fazer política que tão cedo não corre o risco de extinção.

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As revelações da seca que castiga o Ceará. Ou: Sem água, não adianta ter aquário

Por Wanfil em Ceará

25 de Maio de 2012

Retirantes (1944), de Cândido Portinari. Sina nordestina?

O Nordeste sofre mais uma vez com a seca. Mais precisamente, a gente humilde do sertão sofre com a estiagem. Para socorrê-las, o governo do Ceará lançou uma campanha de arrecadação de água potável e de alimentos não perecíveis para distribuir entre as famílias atingidas, batizada de Força Solidária. Ninguém em sã consciência é contra uma iniciativa dessas. Nessa hora de necessidade, qualquer ajuda é preciosa. No entanto, é preciso estar atento para não se deixar enganar pelas aparências. O que parece agilidade governamental na verdade é disfarce para a própria imprevidência da gestão pública. Vejamos.

Fenômeno cíclico

Primeiro, não estamos diante de uma catástrofe inesperada. Secas são fenômenos perfeitamente esperados no semi-árido por uma série de razões, como pode atestar qualquer climatologista. Não constituem, portanto, nenhuma novidade ambiental resultante de eventuais desequilíbrios. Via de regra, é algo com que temos que conviver.

Segundo, quando governos lançam campanhas de solidariedade, é justamente a condição de emergência – o inesperado – que as justificam. Dificuldades de acesso ao locais a serem atendidos, destruição dos estoques ou grande número de desabrigados em função de alguma tragédia, demandam esforços adicionais que não estavam previstos. Agora, se o caso é crônico – “histórico”, como bem lembrou o secretário Nelson Martins, do Desenvolvimento Agrário – ou cíclico, políticas públicas de prevenção ou de convivência deveriam ter sido ser estipuladas pelo governo. Se ao longo dos anos as ações de vários governos contribuíram para reduzir os impactos de secas menores, fica claro que ainda não conseguimos conviver com uma seca maior. Leia mais

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As revelações da seca que castiga o Ceará. Ou: Sem água, não adianta ter aquário

Por Wanfil em Ceará

25 de Maio de 2012

Retirantes (1944), de Cândido Portinari. Sina nordestina?

O Nordeste sofre mais uma vez com a seca. Mais precisamente, a gente humilde do sertão sofre com a estiagem. Para socorrê-las, o governo do Ceará lançou uma campanha de arrecadação de água potável e de alimentos não perecíveis para distribuir entre as famílias atingidas, batizada de Força Solidária. Ninguém em sã consciência é contra uma iniciativa dessas. Nessa hora de necessidade, qualquer ajuda é preciosa. No entanto, é preciso estar atento para não se deixar enganar pelas aparências. O que parece agilidade governamental na verdade é disfarce para a própria imprevidência da gestão pública. Vejamos.

Fenômeno cíclico

Primeiro, não estamos diante de uma catástrofe inesperada. Secas são fenômenos perfeitamente esperados no semi-árido por uma série de razões, como pode atestar qualquer climatologista. Não constituem, portanto, nenhuma novidade ambiental resultante de eventuais desequilíbrios. Via de regra, é algo com que temos que conviver.

Segundo, quando governos lançam campanhas de solidariedade, é justamente a condição de emergência – o inesperado – que as justificam. Dificuldades de acesso ao locais a serem atendidos, destruição dos estoques ou grande número de desabrigados em função de alguma tragédia, demandam esforços adicionais que não estavam previstos. Agora, se o caso é crônico – “histórico”, como bem lembrou o secretário Nelson Martins, do Desenvolvimento Agrário – ou cíclico, políticas públicas de prevenção ou de convivência deveriam ter sido ser estipuladas pelo governo. Se ao longo dos anos as ações de vários governos contribuíram para reduzir os impactos de secas menores, fica claro que ainda não conseguimos conviver com uma seca maior. (mais…)