Cocó Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Cocó

Parque do Cocó é terra sem lei

Por Wanfil em Fortaleza

22 de agosto de 2013

Manifestantes no Cocó comemoram decisão judicial que lhes favorece, após se recusarem a obedecer decisão judicial que lhes era contrária. Foto: Roberta Tavares / Tribuna do Ceará

Manifestantes no Cocó comemoram decisão judicial que lhes favorece, após se recusarem a obedecer decisão judicial que lhes era contrária.  Foto: Cristiano Pantanal / Tribuna do Ceará

O Parque do Cocó é, definitivamente, terra sem lei. Pode figurar, sem medo de engano, como símbolo de uma confusão geral sobre o papel do Estado, dos movimentos sociais e da própria ordem institucional que os rege.

Nada ali é certo. Não se sabe, ou melhor, nem as autoridades sabem, se o parque é municipal, estadual ou federal. No vácuo das formalizações, as incertezas prevalecem. Assim, prefeitura e manifestantes acampados no Cocó se igualam na ideia de que podem fazer o que bem entenderem, como e quando quiserem. E ai de quem não concordar.

Essa pretensão voluntariosa, autoritária mesmo, acaba ainda reforçada por decisões seguidas e contraditórias da Justiça, que ora manda desocupar o local, ora impede a sua desocupação, como aconteceu nesta quinta-feira.

Nesse chove e não molha, sobram acusações e faltam bom senso e respeito pelo cidadão. Os próprios manifestantes, que adoram aparecer no noticiário e nas redes sociais posando de vítimas da truculência policial, não perdem a oportunidade de serem hostis com profissionais da imprensa.

O caso do Cocó reflete a presente realidade do Ceará: uma imensa confusão institucional, jurídica e política, um deserto infértil onde a cidadania não brota, um profundo vazio de autoridade, com grupos e governos tentando fazer valer, a qualquer custo, na base do grito, as suas vontades.

O resto que se dane.

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O ecologista universitário

Por Wanfil em Artigo, Movimentos Sociais

14 de agosto de 2013

Descobri recentemente que assim como há o “forró universitário” e o “sertanejo universitário”, existe o “ecologismo universitário”. A classificação é informal, mas compreende grupos de indivíduos, jovens na maioria, alunos de cursos superiores. Em comum, a capacidade de transformar a fonte original de suas inspirações em produtos medíocres, para consumo fácil.

Entrei em contato com os ecologistas universitários em razão do post Qual a diferença entre a polêmica do Parque do Cocó e uma novela?, pelo qual recebi diversas críticas na fanpage do Tribuna do Ceará no Facebook, feitas por universitários indignados com o que entendem ser, digamos, falta de alinhamento com a causa que simpatizam, no caso, o impedimento da construção de dois viadutos nas imediações do local.

Pelas observações lá anotadas, é lícito supor que a maioria se deixou levar por impressões nascidas da mera leitura do título, sem atinar para o teor do artigo, em que sequer entro no mérito de quem tem ou não razão na polêmica, atendo-me somente a uma análise do comportamento das partes em litígio: defensores versus críticos da obra. Alguns que o leram, na ânsia de aderir ao coro das críticas, e em obediência ao espírito de corpo, endossaram os chavões típicos dos grupos doutrinados.

Não vou discutir questões de estilo (“o estilo é o homem”, dizia o Conde de Buffon): frases truncadas, ofensas, erros gramaticais grosseiros. Segundo me disseram, na Internet o erro é a norma. Escrever corretamente, pois, é puro capricho elitista e esnobe. E eu que imaginava que a norma culta ajudava na organização e transmissão do pensamento.

O que me impressionou nos ecologistas universitários, além do fato de muitos não saberem distinguir artigo de reportagem, é a disposição de atacar quem não reze pela cartilha dos preceitos politicamente corretos que, em suas cabecinhas, se passam por pensamento crítico de muita profundidade. A mera desconfiança de que o sujeito não concorde incondicionalmente com a pauta que julgam ser a correta, já lhes basta para que busquem desqualificá-lo pessoalmente. Não há argumentos em suas críticas, mas impropérios vazios e vulgares.

Não percebem que a beleza e a pujança da democracia residem justamente na contraposição de ideias, no debate honesto que não se deixa ofuscar por rótulos preconceituosos, na capacidade de convencer pela razão. Imaginam que ecologia é bandeira anticapitalista e não de aprimoramento no modo de produção.

A diferença entre os sertanejos, forrozeiros e ecologistas universitários é que os dois primeiros não aspiram representar um tipo de arte superior, enquanto os últimos acreditam ser o suprassumo da consciência humana. A indignação que demonstram não é ânsia de justiça, é afetação contra qualquer possibilidade de dissenso.

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Qual a diferença entre a polêmica do Parque do Cocó e uma novela?

Por Wanfil em Fortaleza, Ideologia

13 de agosto de 2013

A polêmica sobre a construção de viadutos nas imediações do Parque do Cocó possui duas vertentes de simbolismos politicamente trabalhados.

De um lado, os indefesos contra os truculentos, os fracos contra os fortes, os inocentes contra os opressores, a agenda do futuro contra a agenda do passado, a democracia participativa contra a ditadura das instituições governamentais. Do outro, os ocupados que constroem contra os desocupados sustentados por sabe-se lá quem, os práticos contra os tolos, a modernidade contra o atraso, o interesse coletivo contra o interesse de grupo, os formalistas construtivos contra os falsos revolucionários.

É mais ou menos assim que vêem uns aos outros os simpatizantes e os antipatizantes da obra, sempre na confortável condição de se verem, cada qual, no papel dos bons contra os maus.

Suspeito que a maioria dos fortalezenses não esteja nem aí para o caso. Que importa tanta celeuma para quem mora no Conjunto Ceará ou na Barra do Ceará? O debate é localizado, gera muito calor e pouca luz. Apesar disso, parece haver, pelo menos nos círculos sociais interessados no assunto, uma espécie de catarse típica das “causas” politicamente corretas exibidas em novelas. E aí as opiniões se misturam em meio a análises superficiais ou interessadas em distorcer a questão, com o agravante de que os envolvidos acreditam ser os legítimos representantes dos mais sublimes interesses da sociedade, ou de uma causa, ou de um sonho, de uma ideologia, ou ainda uma profecia.

Trata-se de uma mistura do arquétipo religioso do sacrifício que leva à salvação (perdão, Carl Jung), com a chamada cultura pop, onde a construção ou não de um viaduto ganha ares épicos de um Star Wars.

E tal como as novelas, todo o imbróglio do Cocó é irritantemente previsível. O uso da força na ação de retirada dos manifestantes acampados no local foi necessário ou abusivo? No fundo, a pergunta existe apenas para manter o caso em evidência. As partes contam com esse enredo, uns para posarem de vítima, outros pensando em resolver seus problemas de trânsito. Sem entrar no mérito da questão (numa contenda, cada parte se acha sempre com a razão), nessa novela não existe mocinho ou bandido, só figurantes usados para dramatizar o velho enredo das disputas políticas.

No final, os viadutos serão construídos e cada parte saberá tirar o devido proveito em forma de votos. É sempre assim.

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Qual a diferença entre a polêmica do Parque do Cocó e uma novela?

Por Wanfil em Fortaleza, Ideologia

13 de agosto de 2013

A polêmica sobre a construção de viadutos nas imediações do Parque do Cocó possui duas vertentes de simbolismos politicamente trabalhados.

De um lado, os indefesos contra os truculentos, os fracos contra os fortes, os inocentes contra os opressores, a agenda do futuro contra a agenda do passado, a democracia participativa contra a ditadura das instituições governamentais. Do outro, os ocupados que constroem contra os desocupados sustentados por sabe-se lá quem, os práticos contra os tolos, a modernidade contra o atraso, o interesse coletivo contra o interesse de grupo, os formalistas construtivos contra os falsos revolucionários.

É mais ou menos assim que vêem uns aos outros os simpatizantes e os antipatizantes da obra, sempre na confortável condição de se verem, cada qual, no papel dos bons contra os maus.

Suspeito que a maioria dos fortalezenses não esteja nem aí para o caso. Que importa tanta celeuma para quem mora no Conjunto Ceará ou na Barra do Ceará? O debate é localizado, gera muito calor e pouca luz. Apesar disso, parece haver, pelo menos nos círculos sociais interessados no assunto, uma espécie de catarse típica das “causas” politicamente corretas exibidas em novelas. E aí as opiniões se misturam em meio a análises superficiais ou interessadas em distorcer a questão, com o agravante de que os envolvidos acreditam ser os legítimos representantes dos mais sublimes interesses da sociedade, ou de uma causa, ou de um sonho, de uma ideologia, ou ainda uma profecia.

Trata-se de uma mistura do arquétipo religioso do sacrifício que leva à salvação (perdão, Carl Jung), com a chamada cultura pop, onde a construção ou não de um viaduto ganha ares épicos de um Star Wars.

E tal como as novelas, todo o imbróglio do Cocó é irritantemente previsível. O uso da força na ação de retirada dos manifestantes acampados no local foi necessário ou abusivo? No fundo, a pergunta existe apenas para manter o caso em evidência. As partes contam com esse enredo, uns para posarem de vítima, outros pensando em resolver seus problemas de trânsito. Sem entrar no mérito da questão (numa contenda, cada parte se acha sempre com a razão), nessa novela não existe mocinho ou bandido, só figurantes usados para dramatizar o velho enredo das disputas políticas.

No final, os viadutos serão construídos e cada parte saberá tirar o devido proveito em forma de votos. É sempre assim.