cultura Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

cultura

Cardápio literário: esqueça um pouco o Facebook e experimente Oblómov

Por Wanfil em Livros

02 de setembro de 2017

Oblómov: o que é essencial resiste ao teste do tempo

As atenções do público cearense que gosta de opinar nas redes virtuais se concentraram, na última semana, sobre divagações a respeito de um cardápio de restaurante e a indignação com a prisão de um estudante induzido por agente público a oferecer suborno. Na verdade, essas atenções, ao contrário da aparência de unidade, se dispersaram na esterilidade das discussões efêmeras, substituídas na próxima semana por outras polêmicas igualmente passageiras. E assim andamos em círculos sem sair do lugar.

Por isso mesmo é cada vez mais importante destacar conteúdos vacinados contra essa espécie de consumismo, capazes de assinalar reflexões mais pertinentes sobre valores permanentes. A literatura é campo fértil nesse sentido. Sim, existem os livros descartáveis e os modismos, mas a literatura que resiste ao passar teste do tempo é valiosa justamente por não centrarem foco no efêmero.

É o caso, por exemplo, do excepcional Oblómov, de Ivan Gontcharóv (1812-1891), que li recentemente, em que o personagem que dá nome a obra é caracterizado por inabalável preguiça que o leva a um gradual decadência financeira, física e psicológica, vivendo somente do que ainda é produzido pelos camponeses na propriedade rural herdada da família, mas roubado por oportunistas que se aproveitam de seu desinteresse pelos negócios.

Seu único e verdadeiro amigo é Stolz, criado numa fazenda vizinha, ensinado desde cedo pelo pai alemão a trabalhar para ter autonomia, tipo de educação criticada pela cuidadosa mãe de Oblómov como fruto de uma falta de classe, coisa típicas de burgueses grosseiros que se rebaixavam ao agirem como camponeses, conferindo pessoalmente a produção, e capazes até de criar universidades onde gente sem pedigree pudessem, vejam só, estudar. Vez por outra Oblómov, sujeito de inteligência privilegiada, parecia animado em reagir, fosse por causa de uma paixão ou impelido pela aflição das contas que venciam, mas depois voltava ao seu estado normal.

Bem vista a trama, trata-se de uma ácida comparação entre Rússia e Alemanha, que mira o espírito mesmo dessas nações. A indolência de uma elite russa que aspirava reproduzir a corte francesa e o pragmatismo alemão; o desejo russo de parar no tempo e o ímpeto alemão de seguir em frente. Países, podemos concluir, não vivem seus problemas ou prosperam por causa deste ou daquele político, desta ou daquela indústria, mas pelo conjunto de sua formação espiritual, moral e cultural.

Dia dessas a economista Mônica de Bolle, no artigo “A Cama de Oblómov”, comparou o Brasil com o desalentado anti-heroi de Gontcharóv, deitado eternamente a esperar por dias melhores, sem cuidar dos problemas reais que vive, sem querer entender que não é possível gastar mais do que se tem.

É claro que redes sociais são espaços pouco afeitos a esse tipo de discussão. Mas o que vale aqui é a lembrança de que existem outras opções para quem não deseja passar as semanas confundindo o trivial com o essencial.

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Desemprego cresce e autoridades divulgam carta sobre fusão entre Cultura e Educação: muita confusão, pouco resultado

Por Wanfil em Ceará

20 de Maio de 2016

Manifestantes 'ocupam' prédio do Iphan em Fortaleza contra a fusão de ministérios. O emprego deles é protestar

Manifestantes ‘ocupam’ prédio do Iphan em Fortaleza contra a fusão de ministérios. O emprego deles é protestar (Divulgação)

O governador do Ceará, Camilo Santana (PT), junto com os demais governadores de estados nordestinos, divulgou carta contra a “extinção” do Ministério da Cultura. Horas antes, o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (PDT) , e o presidente da Câmara de Vereadores, Salmito Filho (PDT), também assinaram texto contra a “extinção do Ministério da Cultura” e sua “incorporação ao Ministério da Educação”.

Essas iniciativas aconteceram no mesmo dia (19/05) em que o IBGE anunciou que o desemprego no Brasil chegou a 10,9% no primeiro trimestre deste ano. O Nordeste foi a região mais afeta, com índice de 12,8%  (o Sul está com 7,3%). No Ceará os desempregados são 10,8% e na Região Metropolitana de Fortaleza, 11,5%. E o que tem a ver uma coisa com a outra, Wanfil? Vamos por partes.

Não é o fim da Cultura
Dizer que o Ministério da Cultura será extinto pode dar a impressão de que as políticas públicas para a área serão também extintas. Não é por aí. A pasta será incorporada ao Ministério da Educação, no esforço para reduzir o número de ministérios. Menos custos, mais investimentos, diz o governo. Além do mais, a fusão entre cultura e educação não é nenhuma jabuticaba. No Japão é assim, acrescida de ciência e tecnologia no mesmo ministério.

O que está acontecendo aqui é uma disputa política por influência e verbas. O MinC é loteado entre grupos bem articulados, com direito a especialistas em editais e licitações. Seu campo de atuação pode ir desde a reforma de prédios históricos até o financiamento de festivais com as mais variadas temáticas (geralmente com viés ideológico sintonizado com bandeiras de partidos políticos de esquerda). Pois bem, durante anos esse universo foi aparelhado por entidades partidárias, artistas sem público (nem todos, óbvio) e grupos privados interessados em fazer do acesso aos recursos públicos um meio de vida. O receio é que um novo enfoque na aplicação desse dinheiro possa prejudicar esses grupos.

Indignação seletiva
A rigor, ser contra ou a favor da fusão não interfere no problema do desemprego. É perfeitamente possível que governadores e prefeitos discordem da decisão, afinal, estamos numa democracia. Mas é curioso que não tenham adotado atitude semelhante quando, por exemplo, o golpe da refinaria que não veio foi consumado. Onde estavam? Por que não fizeram uma carta cobrando ressarcimento ao Estado? E agora, o que dizem sobre o desemprego?

Aliás, poderiam nossas autoridades aproveitar o embalo e registrar, por escrito, repúdio ao rombo fiscal nas contas federais, assumindo publicamente o compromisso de ajudar, com suas bancadas, na aprovação de medidas de ajuste. Bom mesmo seria um documento pedindo desculpas aos brasileiros e aos cearenses desempregados pelo apoio que deram  ao governo e à gestora que arruinaram a economia com suas pedaladas fiscais. Problemas são muitos, ma a prioridade é tirar o País do buraco. O resto é perfumaria.

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Mais safadão sou eu!

Por Wanfil em Cultura

03 de Março de 2016

Wesley Safadão. Não sei a razão do adjetivo usado no nome artístico, mas o fato é que amigos e colegas só falam nele. Nas redes sociais e nos noticiários, sua presença é garantida. Não há como escapar. Cercado, decidi me render ao sucesso do artista e fui pesquisar um pouco a seu respeito.

Comecei pelo aspecto que sempre considero mais revelador: as letras. No Google fui em busca da, digamos assim, mensagem que o cantor propaga, ciente, desde sempre, que se trata de produto musical para consumo de massa, provavelmente de celebração pela vida ou pelos prazeres da vida, essas coisas.  Eis o que encontrei, aleatoriamente:

Camarote
Agora assista aí de camarote
Eu bebendo gela, tomando Ciroc
Curtindo na balada, só dando virote
E você de bobeira sem ninguém na geladeira
Pra aprender que amor não é brincadeira!

Não entendi bem. Nunca bebi Ciroc, mas parece que isso confere status aos “baladeiros”. Outra coisa: quem não tem alguém na geladeira, fica de bobeira? Então, tá. Segui adiante:

Novinha Vai no Chão
Novinha vai no chão
Novinha vai no chão
Novinha vai no chão
Chão, chão, chão, chão

É… Posso parecer um tanto ultrapassado, mas essa conversa me pareceu chula. Se o conteúdo de Wesley é moderno, isso eu não sei, mas a sintaxe com certeza é conservadora e não arrisca: chão rima com chão.

Parei por aí. É mais do mesmo. Não me surpreendo com mais nada na cena cultural brasileira desde o sucesso de “Minha Eguinha Pocotó”; na verdade, a única conclusão que consigo elaborar nesse instante é que mais safadão sou eu, que perdi meu tempo.

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A ciclovia do atraso: pedalando sem ver o outro

Por Wanfil em Crônica

03 de Maio de 2015

outroManhã ensolarada de um domingo em Fortaleza. Decido fazer uma caminhada perto de casa. Mente sã, corpo são, é o que dizem. Acontece que por três vezes quase fui atropelado na calçada da Avenida Sebastião de Abreu, nas proximidades do Parque do Cocó, por alguns ciclistas que trafegavam pelo espaço destinado aos pedestres. Por algum motivo, rejeitavam a pista que aos domingos é destinada exclusivamente ao ciclistas. Por duas vezes precisei ir para o asfalto para que duplas de ciclistas pedalando lado a lado, expulsando os pedestres dali. Noutra, me protegi atrás de um poste. E experimente reclamar! Em vez de pedirem desculpas, ficavam enfezados. Eram minoria, mas ainda assim eram muitos.

Nesse ponto comecei a pensar por qual motivo essa turma dispensava a via exclusiva para desfilar na calçada. Não viam as pessoas caminhando? Não percebiam os demais ciclistas na pista correta?

Então me lembrei de uma vez, ainda estudante de História, que assisti a uma aula de Psicologia da Educação na Faculdade de Pedagogia da Universidade Federal do Ceará. Uma bela aula ministrada pelo professor Sílvio Gadelha. A certa altura, ele narrou à turma um episódio, quando levara um professor que viera de Portugal a uma praia nos arredores de Fortaleza. Entretanto, uma vez no local, um abarraca badalada, não conseguiram conversar, pois um jovem colocara o som de seu luxuoso carro a toda altura.

Ao sair de lá, Gadelha naturalmente pediu desculpas ao colega pela falta de educação do rapaz e explicou que isso era comum por aqui. E aí o português, cujo nome não me recordo, fez uma análise muito interessante. Para ele, o  jovem mal educado não agira daquela forma por maldade, no intuito de agredir os demais, muito pelo contrário. Sua motivação foi tão somente a satisfação pessoal, indiferente à presença dos demais clientes do estabelecimento. O sujeito simplesmente não reconhecia a existência do outro. Em certa medida, era possível que tivesse sido criado desde pequeno para pensar assim.

Os ciclistas que trafegavam cheios de si na calçada da Sebastião de Abreu, o faziam na urgência de satisfazerem seus propósitos imediatos, sem perceberem a existência do outro, que é a regra básica, a premissa fundamental, para o conceito de civilidade. Falta-lhes a educação para enxergarem os outros. A pretexto de celebrar uma vida saudável, reproduzem o que há de pior no trânsito: desrespeito aos demais e às regras de convivência. Não é a maioria, repito, mas são muitos. E sendo muitos, e por se acharem donos da razão e não sentirem vergonha do que fazem, perturbam. No próximo domingo, vou caminhar na esteira.

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“Cafajeste Music”: mais do que forró ruim, um estilo de vida

Por Wanfil em Cultura

10 de Janeiro de 2014

Forró Real - Reprodução: Facebook. Homens e mulheres reduzidos a estereótipos desprezíveis.

Forró Real – Reprodução: Facebook. Homens e mulheres reduzidos a estereótipos desprezíveis.

O cantor e compositor David Duarte cunhou a expressão “Cafajeste Music” para definir o forró pasteurizado da atualidade, carregado de exaltações ao consumo de álcool, à misoginia, ao sexo irresponsável e à egolatria. Segundo Duarte, não se trata de uma questão restrita ao campo musical, mas de um fenômeno de amplitude muito maior, que permeia as relações sociais do cotidiano.

Essas considerações foram feitas em dois vídeos onde o cantor, autor de músicas como a belíssima Bússola (uma das minhas preferidas, com participação de Manassés), aborda o tema: “Idiotas Orgânicos” (Hegemonia do Mau Gosto) e “Cafajeste Music” (Muito mais que uma mera disfunção estética). Com efeito, é uma das melhores leituras que já vi sobre a nossa realidade cultural.

A partir dela, cheguei à seguinte pergunta: Como chegamos a tal estado de indigência? Afinal, do Ceará brotaram talentos como Fagner, Belchior, Ednardo, Amelinha, Fausto Nilo e Humberto Teixeira (parceiro de Luiz Gonzaga), autores e intérpretes de canções belíssimas.

Desde o final dos anos 70 e início dos 80 do século passado, portanto, desde a redemocratização do país, os grandes talentos sumiram. Talvez só o sanfoneiro Waldonys, na condição de instrumentista. Depois quase tudo se dissipou na padronização de um modelo que promove a exaltação de uma falsa alegria que tem um quê de histeria. Com o tempo, essa música descartável feita para consumo imediato tornou-se o padrão.

Mesmo os grupos mais famosos desse meio, repaginados com roupas de grife, não escapam da pobreza estética, técnica e moral da “Cafajeste Music”. Exagero? Não, nada disso. Que dizer de uma sociedade que tem referência de sucesso artístico e comercial, e ainda com ares de celebridade fina, algo assim:

Dá um arrepio quando ela sai pedalando
Mas tem uma mão na frente que tá sempre atrapalhando
Acho que ela tem medo do periquito voar
Por isso que ela não para de tampar
(Bicicletinha – Aviões do Forró )

E de mulheres – muitas com formação de nível superior – que vibram de emoção ao ouvir o ídolo dizer isso:

Hoje eu pego uma fulera
Em cima da mesa faço ela dançar
Eu tiro tiro a calcinha da boneca
Faço como peteca jogo pra lá e pra cá
(Levante o dedo quem gosta de rapariga- Garota Safada )

Ou de rapazes que têm por modelo de masculinidade quem fala assim:

Sou cabra raparigueiro, gosto de raparigar,
Raparigar é minha sina, nasci pra raparigar.
A festa só fica boa quando chega a rapariga,
E no forró da rapariga todo mundo vai dançar!
(Trenzinho da sacanagem – Forró Real)

Vítimas

Esses foram exemplos colhidos aleatoriamente. Evito o quanto posso essas produções, porque sou atento ao que ouço. Mas não vai aqui nenhum recalque moralista. Pelo contrário. A rebeldia, a sensualidade e o erotismo são estímulos que podem ser encontrados em criações de grande valor na arte, sem vulgaridade ou depreciação de gênero.

Como disse David Duarte em seu vídeo, a questão é que a má qualidade dessas produções (gosto se discute, defende o cantor, no que concordo plenamente) reflete um ambiente social degradado, focado na satisfação pessoal superficial, na arrogância e no desprezo às mulheres. Seu conteúdo não tem nada que sugira alguma elevação espiritual. Nelas, a dor não ensina e o amor não constrói, ficando tudo resumido a álcool e sexo vazio.

Acima, pergunto o que esperar de pessoas que consomem esse material sem filtros. A resposta é simples: não espero nada. Nem cobro. São, em boa medida, vítimas de um cartel de produção musical que aposta nos baixos instintos para ganhar dinheiro. De artistas e intelectuais que se omitem, que evitam debater cultura, em dizer que isso ou aquilo é ruim, por receio de não parecer relativista. E de pais que evitam (ou não querem, ou não sabem) conhecer e conversar sobre o que seus filhos andam vendo, ouvindo e assimilando. A deseducação acaba em noções como as ideias de que a “fuleira” trai por vingança e o “cachaceiro” não perdoa as “raparigas”.

Não é o caso de pregar a censura, que isso é mascarar o problema em vez de enfrentá-lo. Nem de ser contra o forró, ritmo que nos toca por fazer parte da nossa história. Aliás, é uma defesa do forró. Esse modelo que critico aqui me parece algo importado do RAP americano e do Funk carioca, com seus ressentimentos, ostentação e misoginia. Mas isso fica para outro texto.

Também não é nada contra a diversão despretensiosa. Nem tudo pode ser arte de alto nível.  Mas essa condição não pode servir de justificativa para que o culto ao chulo e a hegemonia da mediocridade ocupem todos os espaços da produção cultural, a ponto de matar, por inanição, as manifestações de valor construtivo.

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Parque do Cocó é terra sem lei

Por Wanfil em Fortaleza

22 de agosto de 2013

Manifestantes no Cocó comemoram decisão judicial que lhes favorece, após se recusarem a obedecer decisão judicial que lhes era contrária. Foto: Roberta Tavares / Tribuna do Ceará

Manifestantes no Cocó comemoram decisão judicial que lhes favorece, após se recusarem a obedecer decisão judicial que lhes era contrária.  Foto: Cristiano Pantanal / Tribuna do Ceará

O Parque do Cocó é, definitivamente, terra sem lei. Pode figurar, sem medo de engano, como símbolo de uma confusão geral sobre o papel do Estado, dos movimentos sociais e da própria ordem institucional que os rege.

Nada ali é certo. Não se sabe, ou melhor, nem as autoridades sabem, se o parque é municipal, estadual ou federal. No vácuo das formalizações, as incertezas prevalecem. Assim, prefeitura e manifestantes acampados no Cocó se igualam na ideia de que podem fazer o que bem entenderem, como e quando quiserem. E ai de quem não concordar.

Essa pretensão voluntariosa, autoritária mesmo, acaba ainda reforçada por decisões seguidas e contraditórias da Justiça, que ora manda desocupar o local, ora impede a sua desocupação, como aconteceu nesta quinta-feira.

Nesse chove e não molha, sobram acusações e faltam bom senso e respeito pelo cidadão. Os próprios manifestantes, que adoram aparecer no noticiário e nas redes sociais posando de vítimas da truculência policial, não perdem a oportunidade de serem hostis com profissionais da imprensa.

O caso do Cocó reflete a presente realidade do Ceará: uma imensa confusão institucional, jurídica e política, um deserto infértil onde a cidadania não brota, um profundo vazio de autoridade, com grupos e governos tentando fazer valer, a qualquer custo, na base do grito, as suas vontades.

O resto que se dane.

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A violência no futebol é filha da cultura da impunidade com a desmoralização das instituições

Por Wanfil em Tribuna Band News FM

16 de Abril de 2013

Meu comentário na rádio Tribuna BandNews FM – 101.7, sobre os constantes casos de violência registrados nos dias de jogos de futebol em Fortaleza.

Ouça o áudio:

[haiku url=”http://tribunadoceara.com.br/blogs/wanderley-filho/files/2013/04/POLÍTICA-WANDERLEY-FILHO-VIOLÊNCIA-NO-FUTEBOL-E-A-DEGRADAÇÃO-DAS-INSTITUIÇÕES.mp3″]

 

Segue a transcrição:

Torcedor baleado por rival antes do clássico entre Ceará e Fortaleza: cena que se repete jogo após jogo. Crime que prospera na sombra da degradação das instituições legais. Foto: Cristiano Pantanal / Jangadeiro

Torcedor baleado por rival em Fortaleza: crimes que se repetem jogo após jogo, e que prosperam na sombra da degradação das instituições legais. Foto: Cristiano Pantanal / Jangadeiro

A morte de dois homens numa briga de torcidas, horas antes do jogo entre Ceará e Fortaleza no último domingo, coloca mais uma vez em debate a existência das torcidas organizadas. O Ministério Público já estuda a possibilidade de proibi-las nos estádios, tal como já aconteceu em São Paulo.

Com certeza, torcedores de bem não sentiriam nenhuma falta desses desocupados que fazem do ato de torcer, uma obsessão imbecil e também uma espécie de meio de vida, embora não produzam nada que se aproveite.

No entanto, é importante compreendermos que as torcidas organizadas são a parte mais visível de uma praga que se alastra Brasil afora: uma cultura que se caracteriza pelo ressentimento e pelo desprezo aos deveres, ao trabalho honesto e às leis, e por um profundo desrespeito aos direitos dos outros. São, em suma, mais uma expressão de nosso culto à impunidade e da nossa histórica omissão com a educação.

Os marginais que usam os estádios e as partidas de futebol como palco para suas guerras particulares não temem as forças policiais porque, como todos, não a consideram eficiente. E também não respeitam as leis porque apostam, igualmente, na incompetência da Justiça. Eles vicejam justamente na falência e na degradação dessas instituições.

É preciso então que as autoridades se façam respeitar por esses indivíduos, com o devido uso da força e das punições exemplares. Duvido que aqueles torcedores do Corinthians, presos na Bolívia acusados de matar um jovem num estádio, tenham coragem de voltar lá para fazer baderna.

Enquanto os vagabundos tiverem a certeza de que não há o que temer na hora de cometer seus crimes, seja nos estádios, seja nas brigas de gangues nas periferias, nada vai mudar. Banir as torcidas organizadas dos estádios sinaliza um recado, é uma forma de dizer que tudo tem limite! Mas a ação do estado não deve parar por aí. Isso ainda é muito pouco. É preciso acabar mesmo é com a impunidade.

Nota: A respeito desse assunto, o portal Tribuna do Ceará publicou a contundente charge de Moésio Fiúza, que reproduzo abaixo.

Charge

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Morre Hugo Chávez, ficam as paixões de um tempo que já passou

Por Wanfil em Internacional

05 de Março de 2013

A morte do presidente venezuelano Hugo Chávez é o assunto do momento. O estilo polêmico, os discursos longos, o alinhamento ideológico com Fidel Castro, a retórica anticapitalista (sem abrir mão dos lucros advindos do abundante petróleo na Venezuela), o posicionamento antiamericanista (sem cortar laços comerciais com o Tio Sam), e a promessa de um novo socialismo – o bolivarianismo, fizeram de Chávez um ícone da esquerda latino americana, um símbolo a encarnar toda a frustração acumulada com a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética. Morre o homem e fica o personagem para o noticiário. Como entrará para a História, só o tempo dirá.

Os admiradores de Chávez enxergam nele a coragem de enfrentar adversários poderosos. Seus críticos o tomam como um sabotador do regime democrático e inimigo da imprensa livre.

Enquanto cronistas a favor e contra atiçam paixões políticas e os jornais publicam os obituários pré-editados do presidente que morreu após longa enfermidade, me atenho aqui a um aspecto mais, digamos, cultural, presente e atuante na América Latina.

Alguns fatos bastam como sinalizadores do atual estágio de maturidade política que vivemos no continente. Nesse instante, todos se perguntam: para onde vai a Venezuela? Com efeito, Chávez foi uma liderança que ofuscou novas lideranças e a Venezuela carece de mais estabilidade institucional. Ninguém sabe ao certo quem assume o poder no país. E isso em si é bastante revelador.

De certo modo, Chávez e as reações que ele provoca, boas ou más, justas ou injustas, é a expressão de um atraso: vivemos, todos, imersos numa cultura que é subproduto da Guerra Fria da segunda metade do século passado. A América Latina é a lata de lixo da História. Aqui ainda discutimos se o socialismo é melhor que o capitalismo e aplaudimos a miséria cubana como ato de resistência. Nas áreas de ciências humanas das universidades, lemos os mesmos livros de 20, 30 anos, presos no universo marxista sem o estímulo para ultrapassar suas fronteiras arcaicas. Lemos Eduardo Galeano como se fosse uma revelação. Cultuamos dualismos e maniqueísmos que o resto do mundo já superou.

O problema não é saber se Hugo Chávez foi democrata ou autoritário. O problema é perder tempo com isso, é ver presidentes pairando acima das instituições, o personalismo que procura salvadores messiânicos em toda esquina.

Hugo Chávez morreu, mas o pano de fundo para explorar ressentimentos continua. Na América Latina, olhamos para trás e quase nunca para frente.

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Ação quer impedir construção de estátua de santa no Crato. Sou contra.

Por Wanfil em Ceará

01 de Março de 2013

Parece fácil traçar uma linha separando completamente Estado e religião. A moral religiosa está inserida até nas leis, e isso não é ruim.

Parece fácil traçar uma linha separando completamente Estado e religião, mas isso é uma ilusão. É que não existe sociedade laica.

Pelo Twitter perguntam o que penso da seguinte notícia: Ministério Público tenta impedir construção de monumento religioso com dinheiro público no Crato. Para quem é de fora, Crato fica na região sul do Ceará, conhecida como Cariri, e é vizinha à cidade de Juazeiro do Norte, conhecida pela romaria de devotos do padre Cícero, que nem santo é, mas que tem uma estátua de grande estatura.

Religião X Estado laico

Não vou me ater a questões de cunho jurídico ou administrativo eventualmente presentes no caso. Se existem pendências ou desconfianças sobre a lisura do empreendimento, que se faça rigorosa investigação. No entanto, a Procuradoria de Justiça, de acordo com notícia publicada no blog Polítika, entende que “o fato de ser utilizado recurso público para a construção de monumento com cunho religioso ‘lesa frontalmente’ o Estado Democrático de Direito”. Esse é o ponto que me interessa: a interpretação sobre o caráter do Estado laico. É uma questão delicada. Não faz muito tempo, quando um procurador quis retirar a expressão “Deus seja louvado” das cédulas de real, escrevi o post Estado laico é diferente de ateísmo oficial, cujo trecho reproduzo:

Com efeito, Estado laico é aquele que não permite que perseguições sejam feitas em nome de uma religião ou de uma crença. Essa concepção não corresponde a um suposto Estado ateu ou agnóstico, que nega, prescinde ou mesmo despreza a dimensão espiritual de seu povo. (…)  Sim, o Estado brasileiro é laico, não tem religião oficial, mas não renega a importância da religiosidade como traço inerente à cultura nacional.

Indo um pouco mais além, o Estado nem sequer obriga que as pessoas tenham religião, como já aconteceu no passado ou como acontece hoje em algumas teocracias orientais. A rigor, é impossível imaginar uma separação completa entre religião e o aparelho secular, pois estes estão umbilicalmente ligados. Praticamente todos os preceitos morais que norteiam a legislação possuem gênese nos códigos religiosos. Seria o caso de revogar a pretensão igualitária, conceito de inspiração cristã, de nossa Constituição?

Aspectos históricos, sócio-culturais e econômicos

Mas Wanfil, você está exagerando. Uma coisa é o aspecto filosófico de uma lei, outra é gastar dinheiro público com uma estátua de Nossa Senhora de Fátima. Certo, Vamos lá. Ninguém gosta de ver seus impostos aplicados em obras cujas justificativas que não lhes dizem respeito. Eu, por exemplo, não concordo com a realização da Copa no Brasil e não ando em estádios, mas mesmo assim patrocinei a construção do novo Castelão, em Fortaleza. Prevaleceram a vontade da maioria, o interesse econômico, incluindo aí o incremento do  fluxo turístico, e a questão cultural: futebol é a maior religião pagã do Brasil.

No Carnaval (festa da qual não gosto), dinheiro público financia desfiles que celebram personagens e crenças de religiões de origem africana. Seria o caso de vigiar o conteúdo dos enredos? O mesmo se dá com o Natal, quando as cidades se enfeitam. O que parece simples, como vemos, vai se complicando. O que vale, nessas ocasiões, é fazer do evento algo que seja de interesse geral, dentro das melhores práticas econômicas, sociais e administrativas. Leia mais

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A fugaz alegria do Carnaval

Por Wanfil em Cultura

09 de Fevereiro de 2013

Carnaval, 1970, óleo sobre tela, de Di Cavacanti.

Carnaval, 1970, óleo sobre tela –  Di Cavacanti

Qual o significado do Carnaval? A resposta, evidentemente, pode assumir formas distintas, dependendo dos aspectos histórico-culturais do lugar, da religião, idade e personalidade das pessoas, e infinitas outras variáveis individuais ou de grupo.

O certo é que, diferenças à parte, o Carnaval é a maior festa popular do país, capaz de mobilizar atenções e recursos, fazendo que tudo o mais se torne secundário nesse período.

Existem ainda as explicações didáticas, que remetem às origens europeias ou pagãs da festa, posteriormente adaptadas a preceitos religiosos diversos. Mas o Carnaval, na prática, possui características bem mais imediatas, que ignoram toda essa teorização. É algo facilmente observável nas imagens e entrevistas feitas com famosos e anônimos: a manifestação de uma alegria histriônica, por vezes histérica, advinda da busca obsessiva por diversão e da obrigação de externar felicidade, como se o contentamento e a alegria fossem bens de consumo fast food e não estados de espírito resultantes de ações e crenças duradouras.

Via de regra (as exceções confirmam a regra), nas entrevistas as pessoas recorrem a lugares-comuns como “tudo é festa!”, “momento de extravasar”, “esquecer os problemas”, “beijar muito!”, “beber até cair”, “vale tudo”, enfim, um conjunto de frases feitas que denotam uma ansiedade de aproveitar aquele momento limitado em detrimento das obrigações cotidianas. É a celebração do fugaz. Leia mais

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A fugaz alegria do Carnaval

Por Wanfil em Cultura

09 de Fevereiro de 2013

Carnaval, 1970, óleo sobre tela, de Di Cavacanti.

Carnaval, 1970, óleo sobre tela –  Di Cavacanti

Qual o significado do Carnaval? A resposta, evidentemente, pode assumir formas distintas, dependendo dos aspectos histórico-culturais do lugar, da religião, idade e personalidade das pessoas, e infinitas outras variáveis individuais ou de grupo.

O certo é que, diferenças à parte, o Carnaval é a maior festa popular do país, capaz de mobilizar atenções e recursos, fazendo que tudo o mais se torne secundário nesse período.

Existem ainda as explicações didáticas, que remetem às origens europeias ou pagãs da festa, posteriormente adaptadas a preceitos religiosos diversos. Mas o Carnaval, na prática, possui características bem mais imediatas, que ignoram toda essa teorização. É algo facilmente observável nas imagens e entrevistas feitas com famosos e anônimos: a manifestação de uma alegria histriônica, por vezes histérica, advinda da busca obsessiva por diversão e da obrigação de externar felicidade, como se o contentamento e a alegria fossem bens de consumo fast food e não estados de espírito resultantes de ações e crenças duradouras.

Via de regra (as exceções confirmam a regra), nas entrevistas as pessoas recorrem a lugares-comuns como “tudo é festa!”, “momento de extravasar”, “esquecer os problemas”, “beijar muito!”, “beber até cair”, “vale tudo”, enfim, um conjunto de frases feitas que denotam uma ansiedade de aproveitar aquele momento limitado em detrimento das obrigações cotidianas. É a celebração do fugaz. (mais…)