oportunismo Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

oportunismo

Cheirinho de acordão

Por Wanfil em Política

07 de outubro de 2017

Clima de acordão tem como fim a autopreservação de grupos que precisam, como nunca, do foro privilegiado

As incertezas no cenário político nacional dificultam a costura de articulações para as eleições estaduais, perfazendo um ambiente propício à propagação de boatos e hipóteses. Faz parte. No Ceará, porém, o conjunto dessa boataria trafega em sentido único, dando a impressão de que as coisas caminham para uma espécie de pacto de sobrevivência e autopreservação geral, popularmente conhecido como “acordão”.

Indícios não faltam: adversários que passaram a trocar elogios, partidos em litígio que falam agora em estudar alianças com o inimigo, além dos ensaios sobre chapas inusitadas que surgem a todo instante. Sem contar ainda as declarações dúbias, cheias as reticências, do tipo “o momento agora é de unir forças pelo Ceará, eleição a gente pensa depois”. Não se percebe na maior parte disposição pra rupturas ou confrontações.

Pode ser que nada disso aconteça (mais pela dificuldade de encaixar egos do que por incompatibilidade de convicções ou de divergências morais), pessoalmente acho que não irá acontecer, mas que existe um cheiro de jeitinho esperto no ar, isso existe. E ninguém nega a ocorrência, digamos assim, de tratativas iniciais sobre eventuais pactos que até pouco tempo eram inimagináveis. Naturalmente, esse tipo de oportunismo em busca pelo foro privilegiado é apresentado ao distinto público como sinal da mais alta responsabilidade, de desapego altruísta e prudente sabedoria. Tudo isso não muda a natureza dessas conciliações de ocasião.

Um acordão que anula diferenças pessoais, ideológicas e partidárias em nome de conveniências particulares seria um desastre para um eleitor que anseia por mudanças, mas que corre o risco de acabar traído por gente ocupada demais em manter tudo como está.

Acordão é conluio.

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Camilo e Eunício unidos novamente? Tudo é possível no país das conveniências

Por Wanfil em Política

04 de setembro de 2017

Corre a notícia de que emissários de Camilo Santana e Eunício Oliveira estudam uma reaproximação entre PT e PMDB no Ceará, com vistas à reeleição de ambos. Seria isso possível depois das eleições de 2014, quando os dois trocaram insultos e acusações? E após o impeachment que pôs PT e PMDB em litígio no plano nacional? Como nenhuma das partes veio a público rejeitar os rumores e dizer que dessa água não beberá fica claro que a hipótese está, quando menos, sujeita a estudo, afinal, feio é perder eleição, diz a anedota.

Segundo o deputado estadual Audic Mota, do PMDB, em declaração ao jornal O Povo, “política é feita de conversa, de consenso, desde que não envolva nada ilícito”. Verdade. Poderia acrescentar ainda que também é feita ainda convicções e valores inegociáveis, mas é bem aí que as coisas sempre se complicam, e não é de hoje.

O historiador Paulo Mercadante, no clássico “A Consciência Conservadora no Brasil”, observa que desde a época do Império tudo se resolve entre a elite política com uma boa conversa, mesmo entre adversários aparentemente inconciliáveis. As lideranças liberais e conservadoras, reacionárias e revolucionárias, republicanas e monarquistas, escravistas e abolicionistas, por mais que se engalfinhassem em disputas políticas, conseguiam invariavelmente construir um denominador comum que pudesse resguardar posições na divisão do poder, sendo capazes até de absorver parte do ideário oposto para modular o entendimento.

É que na tradição política nacional valores e convicções sempre podem ser negociados. Como observou Vasconcellos de Drummond, diplomata e político amigo de José Bonifácio e de Dom Pedro II, ainda no século 18, com “governo de transações, convém ceder para conciliar”. O mesmo espírito pragmático com que, séculos depois, deputados, prefeitos e vereadores no Ceará pulam de partido em partido para apoiar o governo da hora, sem a menor cerimônia ou vergonha.

Se por um lado a propensão ao entendimento afasta o risco de extremismos, no Brasil a virtude do equilíbrio foi corrompida pelos jeitinhos, de modo que “a consciência conservadora” tornou-se eufemismo para o oportunismo que permite conservar o poder pelo poder. Por tudo isso, uma nova aliança local entre PT e PMDB no Ceará para 2018 não seria surpresa alguma e apenas confirmaria o princípio pelo qual, historicamente, quase sempre na política brasileira as conveniências pairam acima de qualquer convicção.

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O papa e os políticos papões: todos querem faturar com a visita de Francisco

Por Wanfil em Brasil

22 de julho de 2013

A visita do papa Francisco ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude tem causado grande expectativa não somente entre os fiéis católicos, mas também entre políticos de diferentes orientações religiosos e credos ideológicos, que se mostram ansiosos para aproveitar a ocasião para reciclar as imagens desgastadas, intenção disfarçada pela alegação das mais angelicais intenções.

É a procissão que reúne oportunistas que buscam lavar as próprias biografias encardidas com o prestígio do novo papa, reconhecido por sua simplicidade e pelo desapego aos bens materiais.

Até Cristina Kirchner, presidente da Argentina que tinha o religioso como desafeto, vai na onda. Irá com Dilma, ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), grupo revolucionário de orientação marxista-leninista, ou seja, anticristã, falar com o pontífice.

A brasileira irá propor uma “ação articulada contra a pobreza”, associando a opção de Francisco pelos pobres aos projetos assistencialistas do governo. Do ponto de vista intelectual, ligar a formação jesuíta do papa ao surrado discurso de luta de classes é uma fraude, mas no jogo de aparências da política, o compromisso com o conhecimento ou a verdade não é levado em consideração. Pior ainda é tentar associá-la a uma administração com intuito de obter dividendos políticos.

Padre Cícero

Na agenda de reuniões do papa está um encontro com o deputado federal pelo Ceará José Guimarães, líder do PT na Câmara Federal, marcado com o apoio da Presidência da República, no qual o parlamentar fará um apelo em favor do processo de reabilitação do Padre Cícero Romão Batista, expulso da Igreja Católica em 1916.

É evidente que a Igreja Católica não necessita da consultoria teológica de políticos brasileiros, mas uma vez que a intenção é mesmo a de criar factoides, isso pouco importa. Se Padre Cícero for redimido, Guimarães poderá usar a foto do encontro com o papa para reivindicar para eleitores a autoria do feito, na esperança de ofuscar o famoso escândalo da cueca em sua biografia, operando o milagre da redenção política.

Recado preventivo aos políticos

É claro que a Igreja sabe das artimanhas dos políticos. E por isso, preventivamente, o porta-voz do Vaticano, Frederico Lombardi, adiantou ao jornal Folha de São Paulo: “O papa fala sempre que a boa nova do Evangelho é para todos. Não toma partido, fala à consciência de cada um na construção da sociedade. São fortes mensagens de responsabilidade, com acentos sobre a solidariedade e o respeito aos direitos individuais.”

Pois é, para a doutrina católica, a salvação é individual, não de classes. É para o rico e para o pobre, segundo a consciência individual de cada um, independente de posições políticas.

Num país com grande número de católicos, o apelo da visita de um novo papa de perfil popular e carismático é uma tentação irresistível ao pecado da vaidade que seduz tantos políticos. Para Francisco, isso deve ser algo comum, próprio da condição que assumiu, afinal, o papa também é um chefe de Estado. Portanto, receber autoridades seculares com interesses que não são os do espírito, não passa de ossos do ofício.

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O papa e os políticos papões: todos querem faturar com a visita de Francisco

Por Wanfil em Brasil

22 de julho de 2013

A visita do papa Francisco ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude tem causado grande expectativa não somente entre os fiéis católicos, mas também entre políticos de diferentes orientações religiosos e credos ideológicos, que se mostram ansiosos para aproveitar a ocasião para reciclar as imagens desgastadas, intenção disfarçada pela alegação das mais angelicais intenções.

É a procissão que reúne oportunistas que buscam lavar as próprias biografias encardidas com o prestígio do novo papa, reconhecido por sua simplicidade e pelo desapego aos bens materiais.

Até Cristina Kirchner, presidente da Argentina que tinha o religioso como desafeto, vai na onda. Irá com Dilma, ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), grupo revolucionário de orientação marxista-leninista, ou seja, anticristã, falar com o pontífice.

A brasileira irá propor uma “ação articulada contra a pobreza”, associando a opção de Francisco pelos pobres aos projetos assistencialistas do governo. Do ponto de vista intelectual, ligar a formação jesuíta do papa ao surrado discurso de luta de classes é uma fraude, mas no jogo de aparências da política, o compromisso com o conhecimento ou a verdade não é levado em consideração. Pior ainda é tentar associá-la a uma administração com intuito de obter dividendos políticos.

Padre Cícero

Na agenda de reuniões do papa está um encontro com o deputado federal pelo Ceará José Guimarães, líder do PT na Câmara Federal, marcado com o apoio da Presidência da República, no qual o parlamentar fará um apelo em favor do processo de reabilitação do Padre Cícero Romão Batista, expulso da Igreja Católica em 1916.

É evidente que a Igreja Católica não necessita da consultoria teológica de políticos brasileiros, mas uma vez que a intenção é mesmo a de criar factoides, isso pouco importa. Se Padre Cícero for redimido, Guimarães poderá usar a foto do encontro com o papa para reivindicar para eleitores a autoria do feito, na esperança de ofuscar o famoso escândalo da cueca em sua biografia, operando o milagre da redenção política.

Recado preventivo aos políticos

É claro que a Igreja sabe das artimanhas dos políticos. E por isso, preventivamente, o porta-voz do Vaticano, Frederico Lombardi, adiantou ao jornal Folha de São Paulo: “O papa fala sempre que a boa nova do Evangelho é para todos. Não toma partido, fala à consciência de cada um na construção da sociedade. São fortes mensagens de responsabilidade, com acentos sobre a solidariedade e o respeito aos direitos individuais.”

Pois é, para a doutrina católica, a salvação é individual, não de classes. É para o rico e para o pobre, segundo a consciência individual de cada um, independente de posições políticas.

Num país com grande número de católicos, o apelo da visita de um novo papa de perfil popular e carismático é uma tentação irresistível ao pecado da vaidade que seduz tantos políticos. Para Francisco, isso deve ser algo comum, próprio da condição que assumiu, afinal, o papa também é um chefe de Estado. Portanto, receber autoridades seculares com interesses que não são os do espírito, não passa de ossos do ofício.