Orwell Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Orwell

O Brasil e o espírito do tempo

Por Wanfil em Cultura

27 de Abril de 2019

“Escritores e Leviatã” é o título de um pequeno ensaio escrito por George Orwell em 1948 (o mesmo ano em que ele publicou 1984). Pois bem, logo no início do texto, uma passagem chamou a minha atenção:

“Não quero aqui expressar uma opinião favorável ou contrária ao patrocínio estatal das artes, mas apenas salientar que o tipo de Estado que nos governa deve depender em parte da atmosfera intelectual dominante: quer dizer, nesse contexto, deve depender em parte da atitude dos próprios escritores e artistas, e de sua disposição ou não de manter vivo o espírito do liberalismo”.

Não me interessa agora o antagonismo entre os “patrocínios estatais das artes” e o “espírito do liberalismo”, mas sim a relação entre a “atmosfera intelectual” e o “tipo de de Estado que nos governa”. Repare: Orwell não indaga sobre o tipo de sujeito ou de partido que está no poder, mas sobre o pensamento predominante na forma de organização estatal que domina o pedaço. É algo mais profundo e duradouro.

O paralelismo foi automático: Qual tipo de Estado governa o Brasil? E o Ceará? Pois é. Respostas, quaisquer que sejam, não podem ignorar algumas características: ineficiente, paternalista, burocrático, corporativista.

Qual tipo de atmosfera intelectual prevalece no país desde algumas décadas? Com exceções que sempre confirmam a regra, certas distinções são inescapáveis: partidária, ativista, burocrática, corporativista.

Não existe efeito sem causa. Orwell tinha razão.

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Lição de como viver em contradição e ainda posar de coerente

Por Wanfil em Ideologia

25 de outubro de 2013

Impressiona como aqui no Brasil, como uma das maiores taxas de homicídios do mundo e metade da população sem saneamento básico, entre outras calamidades, a principal discussão em períodos eleitorais seja a privatização de serviços ou empresas públicas. O assunto voltou à tona agora que a presidente Dilma é acusada (até pela oposição!) de privatizar a exploração do pré-sal ao leiloar o Campo de Libra para empresas privadas buscarem – oh, santo Marxs, o lucro! Segundo a presidente, tudo não passa de “xenofobia”!, em referência ao fato das companhias que “alugaram” o pré-sal serem estrangeiras e misturando alhos com bugalhos.

Como é possível alguém ser eleito denunciando como crime o CONCEITO de privatização, e depois de eleito, privatizar seguidamente, não apenas negando o que se faz com o uso de malabarismos retóricos, mas jurando ainda que não há contradição entre discurso e ação? E não é só Dilma não. O ex-presidente Lula, que já definiu a si mesmo, acertadamente, de “metamorfose ambulante”, mudando de convicções ao sabor das circunstâncias, somente na área financeira, privatizou vários bancos estaduais federalizados na gestão de FHC, sempre acusado de… privatizar isso ou aquilo! Vai eleição, volta eleição, lá vai a ladainha.

O problema é que aqueles que condenam as privatizações como pecado capital, privatizam. Mas como fazer isso e não sair desmoralizado? Simples: acreditando na própria mentira. Nesse ponto, transcrevo um trecho da distopia 1984, em que o autor George Orwell, explica direitinho como funciona esse método, que consiste na arte de enganar a própria memória para que se possa viver em contradição sem nunca precisar reconhecer erros, técnica que ele chamou de “duplipensar”:

Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, DEFENDER SIMULTANEAMENTE DUAS OPINIÕES OPOSTAS, SABENDO-AS CONTRADITÓRIAS E AINDA ASSIM ACREDITANDO EM AMBAS; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da democracia e que o Partido era o guardião da democracia; ESQUECER TUDO QUANTO FOSSE NECESSÁRIO ESQUECER, TRAZÊ-LO À MEMÓRIA PRONTAMENTE NO MOMENTO PRECISO, E DEPOIS TORNÁ-LO A ESQUECER; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra “duplipensar” era necessário usar o duplipensar.

Nas eleições do ano que vem, o tema voltará com o mesmo viés de sempre. Que militantes doutrinados enveredem por esse caminho, ´re compreensível. Tomam o partido (em substituição da moral judaico-cristã) por um novo “imperativo categórico”, expressão de Kant utilizada por Gramsci para justificar esse tipo de conduta. O que impressiona mesmo é ver tanta gente com formação superior cair no truque por tanto tempo.

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Lição de como viver em contradição e ainda posar de coerente

Por Wanfil em Ideologia

25 de outubro de 2013

Impressiona como aqui no Brasil, como uma das maiores taxas de homicídios do mundo e metade da população sem saneamento básico, entre outras calamidades, a principal discussão em períodos eleitorais seja a privatização de serviços ou empresas públicas. O assunto voltou à tona agora que a presidente Dilma é acusada (até pela oposição!) de privatizar a exploração do pré-sal ao leiloar o Campo de Libra para empresas privadas buscarem – oh, santo Marxs, o lucro! Segundo a presidente, tudo não passa de “xenofobia”!, em referência ao fato das companhias que “alugaram” o pré-sal serem estrangeiras e misturando alhos com bugalhos.

Como é possível alguém ser eleito denunciando como crime o CONCEITO de privatização, e depois de eleito, privatizar seguidamente, não apenas negando o que se faz com o uso de malabarismos retóricos, mas jurando ainda que não há contradição entre discurso e ação? E não é só Dilma não. O ex-presidente Lula, que já definiu a si mesmo, acertadamente, de “metamorfose ambulante”, mudando de convicções ao sabor das circunstâncias, somente na área financeira, privatizou vários bancos estaduais federalizados na gestão de FHC, sempre acusado de… privatizar isso ou aquilo! Vai eleição, volta eleição, lá vai a ladainha.

O problema é que aqueles que condenam as privatizações como pecado capital, privatizam. Mas como fazer isso e não sair desmoralizado? Simples: acreditando na própria mentira. Nesse ponto, transcrevo um trecho da distopia 1984, em que o autor George Orwell, explica direitinho como funciona esse método, que consiste na arte de enganar a própria memória para que se possa viver em contradição sem nunca precisar reconhecer erros, técnica que ele chamou de “duplipensar”:

Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, DEFENDER SIMULTANEAMENTE DUAS OPINIÕES OPOSTAS, SABENDO-AS CONTRADITÓRIAS E AINDA ASSIM ACREDITANDO EM AMBAS; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da democracia e que o Partido era o guardião da democracia; ESQUECER TUDO QUANTO FOSSE NECESSÁRIO ESQUECER, TRAZÊ-LO À MEMÓRIA PRONTAMENTE NO MOMENTO PRECISO, E DEPOIS TORNÁ-LO A ESQUECER; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra “duplipensar” era necessário usar o duplipensar.

Nas eleições do ano que vem, o tema voltará com o mesmo viés de sempre. Que militantes doutrinados enveredem por esse caminho, ´re compreensível. Tomam o partido (em substituição da moral judaico-cristã) por um novo “imperativo categórico”, expressão de Kant utilizada por Gramsci para justificar esse tipo de conduta. O que impressiona mesmo é ver tanta gente com formação superior cair no truque por tanto tempo.