Nunca antes na história o movimento feminista foi tão forte no Carnaval


Nunca antes na história o movimento feminista foi tão forte no Carnaval

Em Fortaleza, blocos como “Adeus, Amélia”, “Damas Cortejam” e “Bloco das Emponderadas” levaram centenas de mulheres às ruas

Por Roberta Tavares em Carnaval

10 de fevereiro de 2016 às 12:18

Há 3 anos

Bloco 'Adeus, Amélia' contou com apoio da We World Brasil e do Instituto Maria da Penha (FOTO: Divulgação)

Bloco ‘Adeus, Amélia’ contou com apoio da We World Brasil e do Instituto Maria da Penha (FOTO: Divulgação)

Por todo o Brasil, o movimento feminista aproveitou a irreverência característica do Carnaval para chamar a atenção das pessoas sobre questões relacionadas a preconceitos de gênero. Em Fortaleza, isso chamou a atenção.

Nos quatro dias de folia (e no período de Pré-Carnaval também), foram levantadas bandeiras de apoio e respeito às mulheres, além do enfrentamento à violência contra o sexo feminino e o destaque para a importância do aleitamento materno em público.

Por meio de blocos como “Adeus, Amélia”, “Damas Cortejam” e “Bloco das Emponderadas”, centenas de mulheres foram às ruas de Fortaleza a fim de protestar contra o machismo e o abuso, mesmo que de forma indireta, e se divertir.

O Bloco “Adeus, Amélia” desfilou na última segunda-feira (8). Mais de 800 mulheres, muitas ao lado dos companheiros, cantaram, dançaram e gritaram palavras de ordem. O objetivo era apenas um: chamar atenção para os direitos do sexo feminino. A iniciativa contou com o apoio da We World Brasil e do Instituto Maria da Penha – referências importantes da luta no cenário nacional e internacional.

Segundo a coordenadora executiva de Políticas para as Mulheres, Márcia Luce, uma das organizadoras, a presença de blocos feministas foi valiosa para o Carnaval na cidade. “Falamos sobre a masculinidade positiva, com o intuito de sensibilizar os homens e trazê-los para a causa. Sempre as mulheres são citadas como as responsáveis nos cuidados da casa, dos filhos, e mostramos que os homens também pode ser responsáveis por esses cuidados. Ficamos felizes em vê-los participando”, comemora.

Por meio de frases como “Porfírio, cuida do teu filho” e “José, faz o seu café”, o bloco seguiu pelas Ruas Antônio Pompeu e Floriano Peixoto, no Centro de Fortaleza, até a Avenida Domingos Olímpio.

“É contagiante a alegria das mulheres na avenida. Todo mundo se empolga. É bom demais pegar a folia do Carnaval e utilizar para levantar a bandeira de luta das mulheres. A gente precisa chamar atenção para o preço da violência, ela custa caro”, reflete.

De acordo com Márcia, o Carnaval é uma grande oportunidade para falar sobre questões como assédio e a violência, porque é um período em que o número de ocorrências aumenta sensivelmente. Ela cita como exemplo o crime de morte ocorrido em Maranguape, no último domingo (7), quando um homem matou a própria esposa com golpes de faca e depois se suicidou. “É uma realidade que ainda amedronta nossa sociedade”.

Blusas e fantasias

Sâmara Gurgel, uma das diretoras do bloco de pré-carnaval Damas Cortejam, flagrou no Carnaval diversas manifestações contra o machismo, seja através de blusas, placas, fantasias ou até mesmo verbalmente. Segundo disse, a participação dos grupos também pareceu crescer na capital cearense, com coletivos feministas, como a Marcha Mundial das Mulheres, Movimento Mulheres em Luta, Mulheres no Graffiti, Ciclanas e Bloco das Trepadeiras.

Acreditamos que o recado foi introduzido. Foi incrível. Ficamos surpresas e muito felizes por nos depararmos com mais de duas mil pessoas na Praça da Gentilândia. Foi lindo mesmo no dia!”.

O momento, afinal, é mais do que propício para as causas feministas. “É um momento em que a objetificação da mulher está muito presente. A internalização dessa concepção se reflete na atitude de muitos homens durante o Carnaval, como os que se acreditam no direito de tocar e agarrar mulheres sem o seu consentimento, por exemplo. Esta e outras posturas ‘naturalizadas’ sinalizam que a tentativa de desconstrução do machismo deve se intensificar no Carnaval, mas a luta é todo dia”.

"A luta é todo dia", diz uma das integrantes do bloco Damas Cortejam (FOTO: Hiane Braun)

“A luta é todo dia”, diz uma das integrantes do bloco Damas Cortejam (FOTO: Hiane Braun)

Campanha Carnaval sem Assédio

Apesar da intensa luta feminina, uma pesquisa feita pelo Instituto Data Popular, como contribuição à campanha Carnaval Sem Assédio, do site Catraca Livre, mostra que a maior parte da visão masculina ainda é machista em relação à participação de mulheres nos festejos de rua. “O que existe por parte dos homens é uma naturalização do machismo”, avalia o presidente do Instituto Data Popular, Renato Meirelles, em entrevista à Agência Brasil.

De acordo com a sondagem, 61% dos homens abordados afirmaram que uma mulher solteira que vai pular Carnaval não pode reclamar de ser cantada. E 49% disseram que bloco de Carnaval não é lugar para mulher “direita”. A pesquisa confirma a percepção distorcida do sexo masculino que a mulher, ao participar de bloco de rua, quer ser assediada.

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Nunca antes na história o movimento feminista foi tão forte no Carnaval

Em Fortaleza, blocos como “Adeus, Amélia”, “Damas Cortejam” e “Bloco das Emponderadas” levaram centenas de mulheres às ruas

Por Roberta Tavares em Carnaval

10 de fevereiro de 2016 às 12:18

Há 3 anos

Bloco 'Adeus, Amélia' contou com apoio da We World Brasil e do Instituto Maria da Penha (FOTO: Divulgação)

Bloco ‘Adeus, Amélia’ contou com apoio da We World Brasil e do Instituto Maria da Penha (FOTO: Divulgação)

Por todo o Brasil, o movimento feminista aproveitou a irreverência característica do Carnaval para chamar a atenção das pessoas sobre questões relacionadas a preconceitos de gênero. Em Fortaleza, isso chamou a atenção.

Nos quatro dias de folia (e no período de Pré-Carnaval também), foram levantadas bandeiras de apoio e respeito às mulheres, além do enfrentamento à violência contra o sexo feminino e o destaque para a importância do aleitamento materno em público.

Por meio de blocos como “Adeus, Amélia”, “Damas Cortejam” e “Bloco das Emponderadas”, centenas de mulheres foram às ruas de Fortaleza a fim de protestar contra o machismo e o abuso, mesmo que de forma indireta, e se divertir.

O Bloco “Adeus, Amélia” desfilou na última segunda-feira (8). Mais de 800 mulheres, muitas ao lado dos companheiros, cantaram, dançaram e gritaram palavras de ordem. O objetivo era apenas um: chamar atenção para os direitos do sexo feminino. A iniciativa contou com o apoio da We World Brasil e do Instituto Maria da Penha – referências importantes da luta no cenário nacional e internacional.

Segundo a coordenadora executiva de Políticas para as Mulheres, Márcia Luce, uma das organizadoras, a presença de blocos feministas foi valiosa para o Carnaval na cidade. “Falamos sobre a masculinidade positiva, com o intuito de sensibilizar os homens e trazê-los para a causa. Sempre as mulheres são citadas como as responsáveis nos cuidados da casa, dos filhos, e mostramos que os homens também pode ser responsáveis por esses cuidados. Ficamos felizes em vê-los participando”, comemora.

Por meio de frases como “Porfírio, cuida do teu filho” e “José, faz o seu café”, o bloco seguiu pelas Ruas Antônio Pompeu e Floriano Peixoto, no Centro de Fortaleza, até a Avenida Domingos Olímpio.

“É contagiante a alegria das mulheres na avenida. Todo mundo se empolga. É bom demais pegar a folia do Carnaval e utilizar para levantar a bandeira de luta das mulheres. A gente precisa chamar atenção para o preço da violência, ela custa caro”, reflete.

De acordo com Márcia, o Carnaval é uma grande oportunidade para falar sobre questões como assédio e a violência, porque é um período em que o número de ocorrências aumenta sensivelmente. Ela cita como exemplo o crime de morte ocorrido em Maranguape, no último domingo (7), quando um homem matou a própria esposa com golpes de faca e depois se suicidou. “É uma realidade que ainda amedronta nossa sociedade”.

Blusas e fantasias

Sâmara Gurgel, uma das diretoras do bloco de pré-carnaval Damas Cortejam, flagrou no Carnaval diversas manifestações contra o machismo, seja através de blusas, placas, fantasias ou até mesmo verbalmente. Segundo disse, a participação dos grupos também pareceu crescer na capital cearense, com coletivos feministas, como a Marcha Mundial das Mulheres, Movimento Mulheres em Luta, Mulheres no Graffiti, Ciclanas e Bloco das Trepadeiras.

Acreditamos que o recado foi introduzido. Foi incrível. Ficamos surpresas e muito felizes por nos depararmos com mais de duas mil pessoas na Praça da Gentilândia. Foi lindo mesmo no dia!”.

O momento, afinal, é mais do que propício para as causas feministas. “É um momento em que a objetificação da mulher está muito presente. A internalização dessa concepção se reflete na atitude de muitos homens durante o Carnaval, como os que se acreditam no direito de tocar e agarrar mulheres sem o seu consentimento, por exemplo. Esta e outras posturas ‘naturalizadas’ sinalizam que a tentativa de desconstrução do machismo deve se intensificar no Carnaval, mas a luta é todo dia”.

"A luta é todo dia", diz uma das integrantes do bloco Damas Cortejam (FOTO: Hiane Braun)

“A luta é todo dia”, diz uma das integrantes do bloco Damas Cortejam (FOTO: Hiane Braun)

Campanha Carnaval sem Assédio

Apesar da intensa luta feminina, uma pesquisa feita pelo Instituto Data Popular, como contribuição à campanha Carnaval Sem Assédio, do site Catraca Livre, mostra que a maior parte da visão masculina ainda é machista em relação à participação de mulheres nos festejos de rua. “O que existe por parte dos homens é uma naturalização do machismo”, avalia o presidente do Instituto Data Popular, Renato Meirelles, em entrevista à Agência Brasil.

De acordo com a sondagem, 61% dos homens abordados afirmaram que uma mulher solteira que vai pular Carnaval não pode reclamar de ser cantada. E 49% disseram que bloco de Carnaval não é lugar para mulher “direita”. A pesquisa confirma a percepção distorcida do sexo masculino que a mulher, ao participar de bloco de rua, quer ser assediada.