Críticas: duas visões diferentes sobre Mad Max - Estrada da Fúria


Críticas: duas visões diferentes sobre “Mad Max – Estrada da Fúria”

Gostei: “Cinema em sua acepção mais pura, feito de imagens marcantes e movimento perpétuo”; Não gostei: “Exagerou nas tintas e fez uma continuação confusa”

Por Tribuna do Ceará em Cinema

18 de maio de 2015 às 09:07

Há 4 anos
madmax

“Mad Max: Estrada da Fúria” está em cartaz nos cinemas (Foto: Warner)

Dois críticos de cinema destilam sua opinião criteriosa sobre a superprodução “Mad Max: Estrada da Fúria” (Mad Max: Fury Road, 2015) de George Miller. Um, George Pedrosa, gostou muito. O segundo jornalista, Filipe Quintans, nem tanto.

Gostei: “Cinema em sua acepção mais pura”

Por George Pedrosa*

O espectador médio esqueceu como é o “Cinema de ação” – e não por culpa dele. Na última década Hollywood se embriagou com as facilidades oferecidas pela computação gráfica e o que antes era uma ferramenta para criar elementos impossíveis virou uma muleta tão prevalente que anestesiou o público.

Aqui vai uma ideia insana: e se alguém pegasse o orçamento milionário que é normalmente despejado em computação gráfica… e aplicasse esses milhões de dólares em design de produção, figurino, maquiagem, dublês e efeitos especiais práticos?

Deixe para George Miller (Oscar de melhor filme de animação por Happy Feet: O Pinguim, 2006), um veterano de 70 anos de idade retornando com uma franquia de mais de três décadas, colocar essa teoria em prática e mostrar aos novinhos como é que se faz.

Se você não é um cinéfilo aficionado, é bem possível que nunca tenha assistido algum filme da trilogia Mad Max. Concluída em 1985 com o subestimado Além da Cúpula do Trovão (1985), a franquia curiosamente sumiu da discussão popular, apesar dos três filmes serem alguns dos mais influentes do Cinema. A partir de Mad Max 2 (1981), Miller fundiu elementos de faroeste, ficção científica e filmes de ação para criar uma estética pós-apocalíptica única, com desertos infinitos e cenas de ação caóticas em que gangues de lunáticos amantes de couro e espinhos se digladiam nas estradas.

“Mad Max: Estrada da Fúria” é, de algumas maneiras, um retorno às origens que acaba parecendo um avanço gigante porque os cineastas modernos se afastaram tão completamente dos princípios básicos do Cinema de ação. O filme é, essencialmente, uma longa perseguição de duas horas cujas sequências de combate veicular são conduzidas por George Miller e pela montadora Margaret Six com um ritmo de ópera à base de crack.

A ideia de que cineastas têm uma vida útil e que fazer Cinema é um jogo para pessoas mais jovens é tão prevalente que até Tarantino já declarou seu desejo de se aposentar antes de passar do auge. Pois Miller (assim como Scorsese com O Lobo de Wall Street) coloca esse senso comum à prova com seu trabalho mais energético, repleto de sequências inventivas de ação dirigidas com tanta segurança que chegam a constranger diretores mais jovens como Joss Whedon em A Era de Ultron (um filme que gostei bastante).

A tensão é quase insuportável porque a geografia dos cenários e as estratégias empregadas pelos participantes são sempre claras e também porque enxergamos pessoas de verdade em meio ao caos – em vários momentos me peguei preocupado com a saúde (física e mental) dos dublês que atravessam esse balé de destruição aos saltos e quedas.

Miller usa computação gráfica com parcimônia e da melhor forma que pode ser utilizada: na construção de cenários fantasiosos, como a Cidadela; impossíveis de serem filmados, como o interior de uma tempestade de areia; ou para apagar os cabos que sustentam atores e dublês. A economia nos efeitos digitais abre espaço para um design de produção espetacular e, mais importante, tátil: aqui temos veículos que se comportam como porcos-espinhos no asfalto, máquinas gigantes que usam pessoas como peças e personagens com deformações físicas devido à vida num deserto radioativo.

O diretor foge da estética sombria e enfadonha que é tão predominante em blockbusters contemporâneos e cria imagens instantaneamente divertidas, como o figurante que passa literalmente a história inteira tocando uma guitarra em cima de um caminhão de som. A ambientação pós-apocalíptica ganha peso com pequenos detalhes como a ignorância de um dos personagens quanto à palavra “árvore” ou a forma como todos comem qualquer bicho ou inseto que aparece por perto.

Assim como em Além da Cúpula do Trovão, os habitantes desse mundo incorporam e combinam não apenas os resquícios físicos, mas também culturais da sociedade pré-Apocalipse: água é “Aqua Cola”, carros são ícones religiosos e os soldados do vilão são kamikazes jihadistas que esperam viver na Valhalla viking após a morte.

O cuidado com os detalhes também se aplica às cenas de ação, nas quais interações rápidas jogam luz sobre a personalidade dos participantes. Quando Max, meio à contragosto, entrega seu rifle com poucas balas para uma Furiosa inquieta, captamos a dinâmica entre os dois com economia e sem necessidade de diálogos expositivos: Max é um guerreiro que tem lá seu orgulho, mas é pragmático ao reconhecer uma atiradora superior, enquanto Furiosa sabe que é competente mas não é arrogante a ponto de arrancar o rifle das mãos do parceiro.

O desenvolvimento do respeito mútuo entre os protagonistas é o centro do filme, e Tom Hardy e Charlize Theron empregam todo seu carisma e experiência de veteranos em performances econômicas que dizem muito apenas com o olhar. Hardy retrata bem a evolução de Max de sobrevivente egoísta até aliado improvável, sendo responsável por alguns dos momentos mais divertidos do filme com seu desespero e cansaço, enquanto Theron, imediatamente icônica desde o momento em que aparece em cena como a Imperator Furiosa, tem na motivação de sua personagem a força motriz que leva a história adiante.

Mesmo em meio à correria ininterrupta, Estrada da Fúria encontra espaço para dizer algo importante sobre as relações entre homens e mulheres em uma sociedade patriarcal, sobre como a opressão feminina em qualquer contexto vai ser eventualmente combatida com rebeldia coletiva e sobre como homens podem virar aliados nessa luta.

‘Estrada da Fúria’ é Cinema em sua acepção mais pura, um filme feito de imagens marcantes e movimento perpétuo que, com cenas de ação minuciosas, praticamente exige ser visto de novo. Só nos resta torcer por seu sucesso financeiro e que cineastas mais jovens se desapeguem um pouco da tecnologia de ponta e absorvam as lições deixadas por gênios como George Miller.

*George Pedrosa é jornalista e escreve no site de cultura pop Bolas na Parede.

Termo vetor - segunda versão - DEITADA - 10

 

Não gostei: “George Miller exagerou nas tintas e fez uma continuação confusa”

Por Filipe Quintans*

Há anos que o diretor George Miller tenta ‘levantar’ – no sentido de fazer acontecer – um quarto filme de Mad Max. O último foi em 1985 e trazia Mel Gibson no papel principal. Trinta anos se foram, o cinema comercial americano foi tomado de assalto pelos filmes-franquias, sobretudo de super-heróis, Mel Gibson tornou-se diretor e conhecido criador de caso, e a topografia de Hollywood mudou tanto a ponto de não aceitar mais experiências visuais criativas livres das obrigações financeiras ou dos grandes estúdios dando as cartas (ou cheques).

O que pensou Miller? Hora de revitalizar o personagem, mas jogando o jogo proposto pelos grandes estúdios (neste caso, Warner Bros.) e tornando seu projeto mais atrativo a olhos contemporâneos. Da música aos inúmeros efeitos visuais digitais, o novo Mad Max é um espécie de orgia visual de gasolina, sangue e guitarras pesadas, tomando emprestado de seus antecessores o clima pós-apocalíptico-cada-um-por-si.

Com Tom Hardy, ainda em ascensão, ainda a cumprir a liturgia da estrela hollywoodiana, no papel do Max do título, e Charlize Theron, um Oscar no balaio, grandes papéis no cartel, George Miller não conseguiu equilibrar drama e ação. Seu “guerreiro da estrada” é um brucutu que fala pouco, mera escada para a Imperatriz Furiosa de Theron.

Ao topar o papel, Charlize fez bem. Protagonista de fato do filme de Miller, a cabeça raspada, Charlize soterra a trama e seu “co-protagonista” com autoridade de heroína raras vezes vista. Interpretando uma espécie de oficial avançada de um líder supremo leproso chamado Immortan Joe, ela sai em busca de redenção no outback australiano.

O ‘novo’ Mad Max se resume a essa busca por redenção. Na tentativa de marcar território entre os filmes contemporâneos de ação, George Miller exagerou nas tintas e fez uma continuação confusa.

*Filipe Quintans é jornalista e escreve para o El Clandestino!

Termo vetor - segunda versão - DEITADA - 3

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Críticas: duas visões diferentes sobre “Mad Max – Estrada da Fúria”

Gostei: “Cinema em sua acepção mais pura, feito de imagens marcantes e movimento perpétuo”; Não gostei: “Exagerou nas tintas e fez uma continuação confusa”

Por Tribuna do Ceará em Cinema

18 de maio de 2015 às 09:07

Há 4 anos
madmax

“Mad Max: Estrada da Fúria” está em cartaz nos cinemas (Foto: Warner)

Dois críticos de cinema destilam sua opinião criteriosa sobre a superprodução “Mad Max: Estrada da Fúria” (Mad Max: Fury Road, 2015) de George Miller. Um, George Pedrosa, gostou muito. O segundo jornalista, Filipe Quintans, nem tanto.

Gostei: “Cinema em sua acepção mais pura”

Por George Pedrosa*

O espectador médio esqueceu como é o “Cinema de ação” – e não por culpa dele. Na última década Hollywood se embriagou com as facilidades oferecidas pela computação gráfica e o que antes era uma ferramenta para criar elementos impossíveis virou uma muleta tão prevalente que anestesiou o público.

Aqui vai uma ideia insana: e se alguém pegasse o orçamento milionário que é normalmente despejado em computação gráfica… e aplicasse esses milhões de dólares em design de produção, figurino, maquiagem, dublês e efeitos especiais práticos?

Deixe para George Miller (Oscar de melhor filme de animação por Happy Feet: O Pinguim, 2006), um veterano de 70 anos de idade retornando com uma franquia de mais de três décadas, colocar essa teoria em prática e mostrar aos novinhos como é que se faz.

Se você não é um cinéfilo aficionado, é bem possível que nunca tenha assistido algum filme da trilogia Mad Max. Concluída em 1985 com o subestimado Além da Cúpula do Trovão (1985), a franquia curiosamente sumiu da discussão popular, apesar dos três filmes serem alguns dos mais influentes do Cinema. A partir de Mad Max 2 (1981), Miller fundiu elementos de faroeste, ficção científica e filmes de ação para criar uma estética pós-apocalíptica única, com desertos infinitos e cenas de ação caóticas em que gangues de lunáticos amantes de couro e espinhos se digladiam nas estradas.

“Mad Max: Estrada da Fúria” é, de algumas maneiras, um retorno às origens que acaba parecendo um avanço gigante porque os cineastas modernos se afastaram tão completamente dos princípios básicos do Cinema de ação. O filme é, essencialmente, uma longa perseguição de duas horas cujas sequências de combate veicular são conduzidas por George Miller e pela montadora Margaret Six com um ritmo de ópera à base de crack.

A ideia de que cineastas têm uma vida útil e que fazer Cinema é um jogo para pessoas mais jovens é tão prevalente que até Tarantino já declarou seu desejo de se aposentar antes de passar do auge. Pois Miller (assim como Scorsese com O Lobo de Wall Street) coloca esse senso comum à prova com seu trabalho mais energético, repleto de sequências inventivas de ação dirigidas com tanta segurança que chegam a constranger diretores mais jovens como Joss Whedon em A Era de Ultron (um filme que gostei bastante).

A tensão é quase insuportável porque a geografia dos cenários e as estratégias empregadas pelos participantes são sempre claras e também porque enxergamos pessoas de verdade em meio ao caos – em vários momentos me peguei preocupado com a saúde (física e mental) dos dublês que atravessam esse balé de destruição aos saltos e quedas.

Miller usa computação gráfica com parcimônia e da melhor forma que pode ser utilizada: na construção de cenários fantasiosos, como a Cidadela; impossíveis de serem filmados, como o interior de uma tempestade de areia; ou para apagar os cabos que sustentam atores e dublês. A economia nos efeitos digitais abre espaço para um design de produção espetacular e, mais importante, tátil: aqui temos veículos que se comportam como porcos-espinhos no asfalto, máquinas gigantes que usam pessoas como peças e personagens com deformações físicas devido à vida num deserto radioativo.

O diretor foge da estética sombria e enfadonha que é tão predominante em blockbusters contemporâneos e cria imagens instantaneamente divertidas, como o figurante que passa literalmente a história inteira tocando uma guitarra em cima de um caminhão de som. A ambientação pós-apocalíptica ganha peso com pequenos detalhes como a ignorância de um dos personagens quanto à palavra “árvore” ou a forma como todos comem qualquer bicho ou inseto que aparece por perto.

Assim como em Além da Cúpula do Trovão, os habitantes desse mundo incorporam e combinam não apenas os resquícios físicos, mas também culturais da sociedade pré-Apocalipse: água é “Aqua Cola”, carros são ícones religiosos e os soldados do vilão são kamikazes jihadistas que esperam viver na Valhalla viking após a morte.

O cuidado com os detalhes também se aplica às cenas de ação, nas quais interações rápidas jogam luz sobre a personalidade dos participantes. Quando Max, meio à contragosto, entrega seu rifle com poucas balas para uma Furiosa inquieta, captamos a dinâmica entre os dois com economia e sem necessidade de diálogos expositivos: Max é um guerreiro que tem lá seu orgulho, mas é pragmático ao reconhecer uma atiradora superior, enquanto Furiosa sabe que é competente mas não é arrogante a ponto de arrancar o rifle das mãos do parceiro.

O desenvolvimento do respeito mútuo entre os protagonistas é o centro do filme, e Tom Hardy e Charlize Theron empregam todo seu carisma e experiência de veteranos em performances econômicas que dizem muito apenas com o olhar. Hardy retrata bem a evolução de Max de sobrevivente egoísta até aliado improvável, sendo responsável por alguns dos momentos mais divertidos do filme com seu desespero e cansaço, enquanto Theron, imediatamente icônica desde o momento em que aparece em cena como a Imperator Furiosa, tem na motivação de sua personagem a força motriz que leva a história adiante.

Mesmo em meio à correria ininterrupta, Estrada da Fúria encontra espaço para dizer algo importante sobre as relações entre homens e mulheres em uma sociedade patriarcal, sobre como a opressão feminina em qualquer contexto vai ser eventualmente combatida com rebeldia coletiva e sobre como homens podem virar aliados nessa luta.

‘Estrada da Fúria’ é Cinema em sua acepção mais pura, um filme feito de imagens marcantes e movimento perpétuo que, com cenas de ação minuciosas, praticamente exige ser visto de novo. Só nos resta torcer por seu sucesso financeiro e que cineastas mais jovens se desapeguem um pouco da tecnologia de ponta e absorvam as lições deixadas por gênios como George Miller.

*George Pedrosa é jornalista e escreve no site de cultura pop Bolas na Parede.

Termo vetor - segunda versão - DEITADA - 10

 

Não gostei: “George Miller exagerou nas tintas e fez uma continuação confusa”

Por Filipe Quintans*

Há anos que o diretor George Miller tenta ‘levantar’ – no sentido de fazer acontecer – um quarto filme de Mad Max. O último foi em 1985 e trazia Mel Gibson no papel principal. Trinta anos se foram, o cinema comercial americano foi tomado de assalto pelos filmes-franquias, sobretudo de super-heróis, Mel Gibson tornou-se diretor e conhecido criador de caso, e a topografia de Hollywood mudou tanto a ponto de não aceitar mais experiências visuais criativas livres das obrigações financeiras ou dos grandes estúdios dando as cartas (ou cheques).

O que pensou Miller? Hora de revitalizar o personagem, mas jogando o jogo proposto pelos grandes estúdios (neste caso, Warner Bros.) e tornando seu projeto mais atrativo a olhos contemporâneos. Da música aos inúmeros efeitos visuais digitais, o novo Mad Max é um espécie de orgia visual de gasolina, sangue e guitarras pesadas, tomando emprestado de seus antecessores o clima pós-apocalíptico-cada-um-por-si.

Com Tom Hardy, ainda em ascensão, ainda a cumprir a liturgia da estrela hollywoodiana, no papel do Max do título, e Charlize Theron, um Oscar no balaio, grandes papéis no cartel, George Miller não conseguiu equilibrar drama e ação. Seu “guerreiro da estrada” é um brucutu que fala pouco, mera escada para a Imperatriz Furiosa de Theron.

Ao topar o papel, Charlize fez bem. Protagonista de fato do filme de Miller, a cabeça raspada, Charlize soterra a trama e seu “co-protagonista” com autoridade de heroína raras vezes vista. Interpretando uma espécie de oficial avançada de um líder supremo leproso chamado Immortan Joe, ela sai em busca de redenção no outback australiano.

O ‘novo’ Mad Max se resume a essa busca por redenção. Na tentativa de marcar território entre os filmes contemporâneos de ação, George Miller exagerou nas tintas e fez uma continuação confusa.

*Filipe Quintans é jornalista e escreve para o El Clandestino!

Termo vetor - segunda versão - DEITADA - 3