Cearense que é pago para degustar cervejas conta como é a profissão de beer sommelier


Profissão dos sonhos: cearense pago para degustar cervejas conta rotina de trabalho

Um dos primeiros beer sommeliers do estado, João Filho fala sobre as possibilidades e os desafios da profissão no Ceará

Por Ana Beatriz Leite em Comportamento

9 de novembro de 2015 às 06:00

Há 4 anos
Formado pela Science of Beer, João Filho assistiu a abertura do mercado cearense para a profissão do beer sommelier (FOTO: Reprodução/Facebook)

Formado pela Science of Beer, João Filho assistiu à abertura do mercado cearense para a profissão do beer sommelier (FOTO: Reprodução/Facebook)

Assim como há para o vinho, você sabia que existem degustadores profissionais de cerveja? Receber dinheiro para tomar a bebida, a preferida dos brasileiros, parece um sonho, mas não é uma tarefa fácil. Para ser um beer sommelier é preciso dedicação e muitas horas destinadas ao estudo e pesquisa.

Foi graças à curiosidade que, de simples consumidor, João Filho se tornou degustador profissional. “Sempre tem as brincadeiras, o pessoal acha que ser sommelier é só beber cerveja e não fazer mais nada da vida. Claro que tem a parte de beber cerveja, que é muito boa, mas tem a parte do estudo também”, explica o publicitário que foi um dos primeiros sommeliers do estado.

Apreciador da bebida, tudo começou quando criou junto a um amigo um perfil no Twitter para divulgar os locais de Fortaleza onde a cerveja era mais barata. Com o tempo, os seguidores passaram a pedir também informações sobre os rótulos que podiam ser encontrados no mercado. Para não deixar ninguém na mão, João começou a estudar sobre os diferentes tipos de cerveja e criou um blog para dar essas informações, o Cervas Clube.

Com a notoriedade da página, vieram os convites para palestras, que deram o pontapé em sua profissionalização. “Eu não era nenhum especialista. Eu pensava: ‘sou só um blogueiro de cerveja’ e não me sentia à vontade, então em 2013 decidi fazer um curso”, conta. O fortalezense se formou sommelier pela Science of Beer. De volta à Fortaleza, acompanhou a abertura do mercado para a profissão.


As áreas de atuação do beer sommelier

João Filho já atuou em todas as áreas da profissão de beer sommelier. A primeira é o trabalho em distribuidoras de bebida, fazendo a escolha dos rótulos e o treinamento dos funcionários. A segunda é diretamente com os restaurantes, elaborando cartas de cerveja. “Os restaurantes começaram a perceber que as pessoas começavam a pedir por outros rótulos de cerveja, outros aromas, outros sabores. Eles não estavam preparados para isso e precisavam de consultoria. Nesse caso, o sommelier indica as cervejas e faz uma carta, focada em harmonização com os pratos ou não”, explica.

Outra opção é o serviço de palestras e cursos, ainda escasso nas regiões Norte e Nordeste. Das áreas de atuação, é a que João possui maior afinidade, por trabalhar há 6 anos como professor de publicidade: “Só uni duas coisas que eu gosto muito”. Por último, há a possibilidade de abrir ou se tornar sócio de um negócio. O fortalezense é sócio do Eitabier, bar especializado em cervejas especiais junto ao qual realiza periodicamente ciclos de palestras.

“Whisky pode ser caro, vinho pode ser caro, mas cerveja tem que ser barata. A mentalidade é que a gente tem que mudar. Se a cerveja é mais cara, tem um porquê por trás disso. É uma experiencia gustativa diferenciada” (João Filho, beer sommelier)

Com o aparecimento de outros profissionais no Ceará, que hoje devem somar uma dezena, João ambiciona um dia abrir um curso de sommelier e colocar o Ceará ao lado dos poucos que possuem o serviço no país. “Tem um público ávido por conhecimento, por se iniciar no assunto”, comenta com base em sua experiência em palestras na capital.

Uma profissão não valorizada

Apenas durante um ano, no período em que trabalhou em distribuidora, João Filho conseguiu tirar todo seu sustento do trabalho como sommelier. Segundo o publicitário, o problema está na não-valorização da profissão, muitas vezes por parte dos próprios profissionais.

“É uma profissão de certa forma nova, e muitas pessoas ainda não sabem valorizar a questão do profissional. As vezes querem pagar em cerveja, vem com aquela história de trocar trabalho por divulgação. Para quem está iniciando, as vezes é até bom, mas para quem está com o nome no mercado não colabora muito. A curto prazo cobrar barato para se promover é interessante; mas, mais na frente, se você quiser viver disso, a pessoa não vai querer pagar [porque antes pagava um preço menor]”.

A valorização do profissional, portanto, é o maior desafio. Mas não é o único. As cervejas especiais já possuem certo público, mas ainda é difícil convencer uma população acostumada à cerveja barata a investir um pouco mais em qualidade. “Whisky pode ser caro, vinho pode ser caro, mas cerveja tem que ser barata. A mentalidade é o que a gente tem que mudar. Se a cerveja é mais cara, tem um porquê por trás disso. É uma experiencia gustativa diferenciada“, explica.

Por enquanto, o mercado de Fortaleza não tem a capacidade de absorver todos os profissionais da cerveja. João é sincero. “As pessoas me perguntam: ‘João, vai ganhar muito bem?’. Infelizmente ainda não”. Mas, com o surgimento de estabelecimentos especializados e um público cada vez mais interessado na experiência gastronômica que a cerveja pode proporcionar, a tendência é que se valorize o trabalho do beer sommelier.

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Profissão dos sonhos: cearense pago para degustar cervejas conta rotina de trabalho

Um dos primeiros beer sommeliers do estado, João Filho fala sobre as possibilidades e os desafios da profissão no Ceará

Por Ana Beatriz Leite em Comportamento

9 de novembro de 2015 às 06:00

Há 4 anos
Formado pela Science of Beer, João Filho assistiu a abertura do mercado cearense para a profissão do beer sommelier (FOTO: Reprodução/Facebook)

Formado pela Science of Beer, João Filho assistiu à abertura do mercado cearense para a profissão do beer sommelier (FOTO: Reprodução/Facebook)

Assim como há para o vinho, você sabia que existem degustadores profissionais de cerveja? Receber dinheiro para tomar a bebida, a preferida dos brasileiros, parece um sonho, mas não é uma tarefa fácil. Para ser um beer sommelier é preciso dedicação e muitas horas destinadas ao estudo e pesquisa.

Foi graças à curiosidade que, de simples consumidor, João Filho se tornou degustador profissional. “Sempre tem as brincadeiras, o pessoal acha que ser sommelier é só beber cerveja e não fazer mais nada da vida. Claro que tem a parte de beber cerveja, que é muito boa, mas tem a parte do estudo também”, explica o publicitário que foi um dos primeiros sommeliers do estado.

Apreciador da bebida, tudo começou quando criou junto a um amigo um perfil no Twitter para divulgar os locais de Fortaleza onde a cerveja era mais barata. Com o tempo, os seguidores passaram a pedir também informações sobre os rótulos que podiam ser encontrados no mercado. Para não deixar ninguém na mão, João começou a estudar sobre os diferentes tipos de cerveja e criou um blog para dar essas informações, o Cervas Clube.

Com a notoriedade da página, vieram os convites para palestras, que deram o pontapé em sua profissionalização. “Eu não era nenhum especialista. Eu pensava: ‘sou só um blogueiro de cerveja’ e não me sentia à vontade, então em 2013 decidi fazer um curso”, conta. O fortalezense se formou sommelier pela Science of Beer. De volta à Fortaleza, acompanhou a abertura do mercado para a profissão.


As áreas de atuação do beer sommelier

João Filho já atuou em todas as áreas da profissão de beer sommelier. A primeira é o trabalho em distribuidoras de bebida, fazendo a escolha dos rótulos e o treinamento dos funcionários. A segunda é diretamente com os restaurantes, elaborando cartas de cerveja. “Os restaurantes começaram a perceber que as pessoas começavam a pedir por outros rótulos de cerveja, outros aromas, outros sabores. Eles não estavam preparados para isso e precisavam de consultoria. Nesse caso, o sommelier indica as cervejas e faz uma carta, focada em harmonização com os pratos ou não”, explica.

Outra opção é o serviço de palestras e cursos, ainda escasso nas regiões Norte e Nordeste. Das áreas de atuação, é a que João possui maior afinidade, por trabalhar há 6 anos como professor de publicidade: “Só uni duas coisas que eu gosto muito”. Por último, há a possibilidade de abrir ou se tornar sócio de um negócio. O fortalezense é sócio do Eitabier, bar especializado em cervejas especiais junto ao qual realiza periodicamente ciclos de palestras.

“Whisky pode ser caro, vinho pode ser caro, mas cerveja tem que ser barata. A mentalidade é que a gente tem que mudar. Se a cerveja é mais cara, tem um porquê por trás disso. É uma experiencia gustativa diferenciada” (João Filho, beer sommelier)

Com o aparecimento de outros profissionais no Ceará, que hoje devem somar uma dezena, João ambiciona um dia abrir um curso de sommelier e colocar o Ceará ao lado dos poucos que possuem o serviço no país. “Tem um público ávido por conhecimento, por se iniciar no assunto”, comenta com base em sua experiência em palestras na capital.

Uma profissão não valorizada

Apenas durante um ano, no período em que trabalhou em distribuidora, João Filho conseguiu tirar todo seu sustento do trabalho como sommelier. Segundo o publicitário, o problema está na não-valorização da profissão, muitas vezes por parte dos próprios profissionais.

“É uma profissão de certa forma nova, e muitas pessoas ainda não sabem valorizar a questão do profissional. As vezes querem pagar em cerveja, vem com aquela história de trocar trabalho por divulgação. Para quem está iniciando, as vezes é até bom, mas para quem está com o nome no mercado não colabora muito. A curto prazo cobrar barato para se promover é interessante; mas, mais na frente, se você quiser viver disso, a pessoa não vai querer pagar [porque antes pagava um preço menor]”.

A valorização do profissional, portanto, é o maior desafio. Mas não é o único. As cervejas especiais já possuem certo público, mas ainda é difícil convencer uma população acostumada à cerveja barata a investir um pouco mais em qualidade. “Whisky pode ser caro, vinho pode ser caro, mas cerveja tem que ser barata. A mentalidade é o que a gente tem que mudar. Se a cerveja é mais cara, tem um porquê por trás disso. É uma experiencia gustativa diferenciada“, explica.

Por enquanto, o mercado de Fortaleza não tem a capacidade de absorver todos os profissionais da cerveja. João é sincero. “As pessoas me perguntam: ‘João, vai ganhar muito bem?’. Infelizmente ainda não”. Mas, com o surgimento de estabelecimentos especializados e um público cada vez mais interessado na experiência gastronômica que a cerveja pode proporcionar, a tendência é que se valorize o trabalho do beer sommelier.