O autismo e a relação mãe e filho

Por Roberta Tavares

A emoção transpira logo no primeiro contato. “Falar de autismo é uma coisa. Falar do autismo do meu filho é outra completamente diferente. A voz fica embargada e o choro é inevitável”, confessa Arlete Rebouças, membro da Associação Brasileira de Ação por Direitos da Pessoa com Autismo (Abraça).

Tiago CriançaClique na imagem para ampliar O primeiro choque sofrido pela mãe de Thiago Azevedo, de 21 anos, ocorreu ainda na maternidade, após o parto, quando soube que o filho tinha síndrome de Down. Demorou para assimilar a dor, passou por uma longa caminhada, redimensionando as expectativas e a visão de mundo. Quatro anos depois, no entanto, viria um segundo baque, não menos forte. Descobriu que o filho tinha autismo. “Foi um novo diagnóstico, uma nova surpresa. Cheia de dúvidas e incertezas, fiquei assustada”, conta.

Ao identificar a síndrome do filho, a reação de Arlete foi a de estudar e compreender o que era o transtorno. Já o pai, Fabrício Antônio, seguiu outro caminho – não oposto, mas diferente. Escolheu desenvolver um intenso convívio com o filho, um pouco alheio ao que falavam os cientistas e pesquisadores sobre o tema. “O pai sempre diz que ninguém conhece mais o Thiago do que ele. Nunca vi pessoas tão amigas quanto os dois”, conta a mãe.

A construção das palavras

A principal dificuldade do jovem é não se comunicar verbalmente. Na escola, Thiago tem acompanhamento psicopedagógico e terapêutico para, entre outras finalidades, trabalhar o desenvolvimento e a ampliação de efetivas formas de comunicação e expressão. Ou seja, ele precisa se fazer entender, mostrar suas necessidades e desejos por meio de gestos. Gestos que chegam a revelar mais do que qualquer declaração verbal.

Thiago e sua mãeClique na imagem para ampliar “Lembro o dia que ele aprendeu a comer biscoito, porque antes só aceitava comida de consistência pastosa ou líquida. Foi muito feliz! O que parece simples para muitos é uma conquista importantíssima para nós”, orgulha-se.

A comunicação de Thiago com a mãe é um processo singular. Arlete entende o olhar, o sorriso e os gestos do filho. “Ele gosta de música, de sol e de mar, de balanço de rede e de corpo, de passear de carro. Quanto mais longe, melhor. Reconhece trajetos e dá bronca quando mudamos o caminho conhecido ou quando chegamos próximo de casa, porque a vontade é de continuar o passeio.”

O dia a dia

Tiago na praia
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Arlete e Fabrício mergulham de cabeça no cotidiano do filho e expressam abertamente o amor profundo por Thiago. Aos sábados, domingos e feriados, vão à Praia do Futuro, em Fortaleza, para curtir o sol, o céu e o mar. “Thiago também é companheiro do pai e dos amigos nas pescarias e nos encontros no sítio da Messejana. Eles formam uma dupla fantástica.”

No entanto, o dia a dia da família muitas vezes é desgastante e estressante. “Por vezes, me desesperei, chorei, sofri, mas não desisti.” No auge do comportamento hiperativo, Thiago quebrava todos os pratos e copos de vidro da casa. Em razão disso, a residência deixou de ter objetos decorativos passíveis de serem quebrados, e os pais também evitavam sair para locais públicos com ele.

Graças à intervenção da escola, a família passou a frequentar restaurantes e casa de parentes. Muitas vezes, esbarram no olhar desconfiado de alguém. Superam, facilmente, mostrando que diferente é quem não entende a igualdade dos outros. “Agora vamos com o Thiago para onde ele gosta de ir, onde ele se sente bem. Não nos incomodam certos olhares. É bom que olhem. Nós existimos e estamos aqui; afinal, não somos invisíveis”, desabafa.

Carinho do toque, do beijo e do abraço

Contrariando alguns mitos sobre o autismo, a mãe conta que Thiago é supercarinhoso e sabe demonstrar os sentimentos. E, vale ressaltar, quando apronta, como todos os jovens, não é bom de disfarce. “Gosto de tantas coisas nele... Do abraço cheio de ternura.... Mas se tenho que optar, escolho o seu sorriso maroto após ter feito alguma travessura. Desarma qualquer um. Não há como resistir...”

Expectativas

O autismo é um transtorno em relação ao qual o mais comum são as incertezas. Não há criança com autismo que se desenvolva da mesma maneira que outra. Arlete prefere não criar expectativas sobre o dia de amanhã, aprendeu a aceitar e a amar o filho respeitando a sua forma de ser e de estar no mundo. “Ele representa um divisor de águas na minha vida. Tudo está antes ou vem depois dele. O Thiago resgatou o melhor pedaço de mim, me reinventou, me transformou no que hoje sou: uma pessoa melhor que antes dele” finaliza.

Confira duas cartas que Arlete escreveu para seu filho: