Autismo: um mundo paralelo

Por Hayanne Narlla

Considerado uma deficiência, o autismo se manifesta de maneira grave por toda a vida. O termo vem do grego “autós”, que significa “de si mesmo”. Um distúrbio do desenvolvimento, o problema aparece nos três primeiros anos de vida, por isso os pais devem ficar atentos. O Jangadeiro Online entrevistou a presidente da Associação Brasileira de Ação por Direitos da Pessoa com Autismo (Abraça), Fátima Dourado – que é médica pediatra e psiquiatra da infância e da adolescência –, para esclarecer as principais dúvidas sobre a deficiência. De acordo com a médica, o autismo reúne um conjunto de problemas no desenvolvimento infantil que afeta a inteligência social do indivíduo. “Não é uma doença, tampouco uma anomalia. As pessoas com autismo costumam ser fisicamente perfeitas e são muito diferentes umas das outras”, explica. Ela afirma que o problema afeta diferentes habilidades, como as de se comunicar, interagir e se relacionar socialmente.

Problemas desenvolvidos pelo autismo

Os três principais sintomas, de acordo com Dourado, são as dificuldades de comunicação e interação sociais, além do padrão de atividades e interesses restrito e estereotipado. “Os pais geralmente percebem na criança o atraso para desenvolver a fala e uma dificuldade para a criança brincar com outras da mesma idade”, ressalta. A médica ainda alerta que outros problemas comportamentais podem se manifestar: hiperatividade, dificuldade de sono e de ingestão de alimentos sólidos.

Há uma falha no desenvolvimento da fala, causando em muitos casos o mutismo completo ou a fala monossilábica. Além disso, ainda há pessoas com o desenvolvimento de uma linguagem usada apenas para comunicar interesses imediatos. “Mas existem indivíduos com autismo que falam bastante com uma linguagem, muitas vezes, gramaticalmente perfeita. Contudo [eles] não ajustam a fala aos interesses do público ou do interlocutor, produzindo longos monólogos sobre temas do seu interesse, sem conseguir participar verdadeiramente de uma conversa”, esclarece.

Quanto à interação social, há casos com indivíduos completamente isolados e refratários ao contato social, e outros que interagem apenas o necessário para realizar ações pessoais, mas que não desenvolvem relações que envolvam maior intimidade. “São desajeitados socialmente”, pontua.

Mesmo com falha no desenvolvimento infantil, os autistas são bastante inteligentes. Apesar dos diferentes níveis de deficiência intelectual, alguns autistas podem ser considerados verdadeiros gênios, segundo Dourado. “São pessoas que aliam à sua grande inteligência lógico-matemática uma grande dificuldade para se relacionar socialmente”, diz.

“Existem os autistas savants, que aliam habilidades fantásticas – geralmente nas áreas de matemática, música ou pintura – a uma deficiência intelectual. Geralmente pessoas com autismo apresentam boas habilidades visuoespacial e de memória”, conta.

Como diagnosticar e tratar a deficiência?

Para confirmar as suspeitas de autismo, o paciente passa por duas etapas de diagnóstico: a anamnese e a observação. Durante o processo da anamnese, são colhidas informações sobre as etapas do desenvolvimento da criança com foco nas habilidades obrigatoriamente afetadas pelo autismo.

Já na fase de observação, o paciente é avaliado em ações espontâneas e outras semiestruturadas, sendo analisada a capacidade empática. Além disso, é avaliada a capacidade de levar em consideração pensamentos e crenças das outras pessoas envolvidas em ações solicitadas.

Após o diagnóstico, é necessário um encaminhamento para um tratamento. Fátima Dourado afirma que não há um único tratamento que sirva para todos os casos. “No entanto, os melhores tratamentos são os iniciados precocemente, por equipe multiprofissional, de forma interdisciplinar e com a participação da família”, explica.