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01 de setembro de 2014

A fonte da longevidade

A trajetória da natação cearense passa pela história de dois bons amigos: José Augusto Parente (70) e Maria José Veras (63). Há 25 anos juntos, o “casal” é só sorrisos quando o assunto é piscina.

“Seu” Zé Augusto aprendeu a nadar nas águas da praia do Náutico, na orla de Fortaleza. O ano era 1956. O início foi trágico: “Um maníaco me pegou pelo pé e me levou matar afogado. Lá no fundo. Ele era doente e pagava uma enfermeira para ficar no lugar dele e fugia. Só me salvei porque me viram gritando. Eu vomitei muito. Foi traumático”, relembra.

Depois deste momento, ainda aos 6 anos, ele adquiriu um livro e começou a praticar. “Existiam umas mãos de sapo que nos ajudava a nadar. Mandei fazer umas pranchas e comecei a nadar do Náutico ao Babagula [restaurante a 3 quilômetros] diariamente”, afirma Zé Augusto.

José Augusto Parente é um dos  'fundadores' da natação no Ceará (FOTO: RENATO FERREIRA/TRIBUNA DO CEARÁ])

José Augusto Parente é um dos ‘fundadores’ da natação no Ceará (FOTO: RENATO FERREIRA/TRIBUNA DO CEARÁ])

Após as primeiras “braçadas”, o precoce nadador mudou-se para Baturité, a 100 quilômetros de Fortaleza. Foi estudar em um mosteiro de padres jesuítas, onde ficou interno. Mas o destino de Augusto Parente estava escrito. Deus escreve certo por linhas tortas, já dizia o ditado. No interior do Ceará ele se deparou com sua 1ª piscina e continuou a praticar natação.

Cerca de 2 anos depois e já adolescente, Zé Augusto voltou para Fortaleza. Na época, estava sendo testada a piscina do Clube dos Diários, que era um tradicional reduto de bailes da capital cearense. “Era uma caixa de concreto que havia vazamentos. Antes de ir para Baturité eu tinha tomado banho nela {risos}. Quando eu voltei já estava pronta e eu comecei a treinar no Clube”, conta com sorriso estampado no rosto.

Os treinamentos no Clube dos Diários proporcionaram um salto na carreira do jovem nadador. Logo no início da década de 60, na altura dos seus 16 anos, Augusto Parente bateu o recorde brasileiro dos 100 metros rasos, mas lamenta o cenário da época. “Antigamente não tinha muita coisa. Só tinha a equipe dos Diários, depois veio a piscina do Círculo Militar. Daquele ‘povo antigo’ só tem eu praticamente nadando no Ceará. O Diários foi a 1ª equipe que se formou. Eram duas competições por ano. Junto a outros nadadores como Alex Tavares, Assis Miranda, fundamos a Federação Cearense de Natação para tentar alavancar o esporte”, lembra.

A falta de regulamentação do esporte no Estado na época impediu que Zé Augusto registrasse seu recorde brasileiro de natação. “Eu bati o recorde de 1 minuto e 8 décimos. O presidente da Federação pediu para não registrar o meu tempo, pois na época tinha que regulamentar pela Federação Cearense de Despostos e assim, a Federação Cearense de Natação ficaria sempre subjugado. E como eu torcia pelo bem do esporte, acabei não oficializando meu tempo. Hoje eu só tenho o registro nos jornais”, lamenta.

Na altura dos seus 70 anos, a memória e o sorriso são marcas da longevidade deste atleta. Nas suas andanças pelas piscinas de Fortaleza, ele relembra um momento engraçado e marcante. Confira:

Apesar dos louros obtidos na adolescência, recordes batidos e muitas braçadas, Seu Zé teve que deixar as piscinas para se dedicar aos estudos e ao futuro casamento. Segundo ele, a falta de apoio proporcionou o hiato. Décadas depois, já aos 42 anos, ele voltou com tudo e se juntou a outros atletas na Associação Cearense Master de Natação.

Competindo por todo o país e até mesmo for a dele, Augusto diz que não vive sem a natação. “Minha vida se distribui entre meu trabalho, minha família e a natação. Se tirar a natação eu morro. Seu eu não vier todo dia eu fico cheio de dores. Faço até uma hora e 15 de treinamento. São 2 mil metros diariamente”, explica.

Maria José treina forte todos os dias para chegar bem às competições (FOTO: RENATO FERREIRA/TRIBUNA DO CEARÁ)

Maria José treina forte todos os dias para chegar bem às competições (FOTO: RENATO FERREIRA/TRIBUNA DO CEARÁ)

Mesmo aos 70 anos, ele não pensa parar. Afinal, além da qualidade de vida que o esporte proporciona à sua longevidade, na natação ele encontrou uma amizade especial: “Dona Mazé”. Companheira de piscina há 25 anos, Maria José Veras também conquistou muitas medalhas ao longo do tempo. Aos 63 anos, ela relembra seus primeiros mergulhos também na orla de Fortaleza.

“Eu morava em frente ao mar. Quando eu tinha 10 anos, chegada da escola e ia nadar com os amigos na Ponte Metálica [ponto turístico de Fortaleza]. Na mesma época, um professor de natação chamado Ricardo Leite, que dava aulas no Náutico, me chamou para treinar nas piscinas, eu aceitei”, conta Dona Mazé.

Aos 12 anos a nadadora já estava competindo. A adolescência foi de títulos, mas assim como Zé Augusto, Mazé teve que parar por conta dos estudos, ainda aos 16 anos. O tempo passou e o amor pelas águas não acabou. Aos 49 ela retornou às piscinas e hoje compete na categoria Master. Vivendo a melhor idade com muita saúde, Maria José relata o que aprendeu com a natação: “Uma das coisas que aprendi foi ter disciplina. Acordar cedo e vir treinar todos os dias. Isso faz parte de uma vida, não é?”, diz.

O segredo da longevidade ela não esconde. Ser determinada, mesmo após os 60, é o motivo para seguir forte. Mãe de dois filhos já casados, ela se diz vencedora. “Meus filhos perguntam se eu quero vender as medalhas, os troféus. E os netinhos amam os troféus. Eles colocam no pescoço e dizem: ‘a vovó’ é atleta”, comemora.

Antes do fim da entrevista, a sorridente atleta diz que não pensa em parar. “Todos os dias eu peço a Deus que me dê saúde e condição física para eu ir até os 80”.

Alunos que ensinam

O fisiologista Renato de Paula Pinheiro, técnico de natação há mais de 20 anos, já treinou atletas de todas as categorias, mas afirma ter um “gostinho” especial pelo trabalho junto aos idosos. “Não é fácil trabalhar com atletas, principalmente o pessoal do Master, mas tem aquela recompensa. Você vê aquela pessoa que sai de casa 5 horas da manhã. E não vem à força, vem por quer. E eu sinto que estou contribuindo para o bem-estar e a saúde”, diz, satisfeito.

Técnico Renato de Paula (à direita) acompanha os atletas da Associação Cearense Master de Natação (RENATO FERREIRA/TRIBUNA DO CEARÁ)

Técnico Renato de Paula (à direita) acompanha os atletas da Associação Cearense Master de Natação (RENATO FERREIRA/TRIBUNA DO CEARÁ)

O treinamento para a faixa etária pós 60 anos é cauteloso. Movimentos errados podem prejudicar o atleta e a intensidade desregulada traz malefícios à saúde. “O treinamento deve ser na faixa dos 3 mil metros diários. Tem muita gente que nada voluntariamente, sem acompanhamento, e acaba alterando até o sistema nervoso. Se você treina com métodos baseados em pesquisas científicas, você rende mais. Se você não tem o acompanhamento técnico pode adquirir lesões e ainda não ter o rendimento esperado”, alerta o técnico Renato de Paula.

Essa dedicação e colaboração para a qualidade de vida do grupo da terceira idade da Associação Cearense Master de Natação tem também um retorno emocional. “Ser técnico é mais difícil, mas a gente aprende diariamente com estas pessoas. Todo dia eles me ensinam algo. Às vezes, mesmo nadando errado, eles me mostram uma saída. Às vezes a gente chega estressado, mas chega aqui a gente brinca e os problemas vão embora”, finaliza.

Cuidar da saúde: o segredo da longevidade

Uma vez que o processo de envelhecimento é inevitável para todos, é importante que desde cedo na vida haja investimento em promoção de envelhecimento saudável. De acordo com o professor de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – Seccional Ceará (SBGG/CE), médico Jarbas de Sá Roriz Filho, as medidas mais importantes a serem tomadas são relacionadas à alimentação e à prática regular de atividade física.

“Ao longo do processo de envelhecimento há aumento da necessidade de diversos nutrientes que precisa ser assegurada para prevenção e controle de diversas doenças e por outro lado a ingestão excessiva de calorias e de determinados grupos nutricionais também é maléfica ao organismo, aumentando a ocorrência de agravos e complicações à saúde”, alerta Dr. Jarbas Roriz.

Sabe-se que a atividade física é importante em todas as idades, mas ela tem importância ainda maior para o idoso. Dr. Jarbas afirma ainda que a melhora do condicionamento físico por meio do exercício é benéfica para o metabolismo do organismo e possibilita a prevenção e controle de doenças crônicas tais como obesidade, hipertensão, diabetes, colesterol elevado que em conjunto estão associadas a diversas complicações cardiovasculares.

A natação, por exemplo, é um esporte dos mais completos para o provimento da qualidade de vida. A prática, como mostra a história de Seu Zé Augusto e Doma Mazé, tem seus benefícios para a longevidade: “O idoso pode ser beneficiado por todos os aspectos, auxiliando no controle do peso, manutenção da mobilidade, preservação do equilíbrio, melhora do metabolismo e dessa forma ajudando na prevenção e controle das doenças comuns do envelhecimento”, explica o presidente da SBGG/CE.

Dr. Roriz lembra que nunca é tarde para começar uma atividade física. Mesmo para quem nunca praticou exercícios, mas alerta para os cuidados: “O idoso é o grupo etário que mais se beneficia do exercício, devendo iniciar atividade física mesmo que nunca tenha realizado anteriormente na vida. É fundamental, entretanto, que procure fazer uma avaliação médica antes do início da prática de exercício. A consulta com o médico é importante para avaliação da condição de saúde em geral e da capacidade funcional do idoso para dessa forma auxiliar na escolha da melhor modalidade de atividade física a ser praticada com segurança considerando sua condição de saúde”, finaliza.


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