Irmãs perseguidas na ditadura relembram sofrimentos e evolução


Irmãs perseguidas na ditadura relembram sofrimentos e evolução

50 anos após o golpe militar, o Tribuna do Ceará traz a história das três irmãs Serra Azul, que lutaram contra a ditadura

Por Hayanne Narlla em Ceará

1 de abril de 2014 às 08:30

Há 5 anos
Helena Serra Azul foi uma das mulheres cearenses que lutou contra a ditadura (FOTO: Arquivo Pessoal)

Helena Serra Azul foi uma das mulheres cearenses que lutou contra a ditadura (FOTO: Arquivo Pessoal)

1° de abril de 1964. Jango, que até então era presidente, foi deposto e Ranieri Mazzili, o presidente da Câmara dos Deputados, assumiu o cargo máximo do Brasil no dia seguinte. Mesmo com as resistências da época, após 15 dias, o 1º presidente da ditadura assumia: Humberto de Alencar Castelo Branco. E o golpe estava decretado.

No mesmo período, a família Serra Azul assistia ao evento sem expectativa do que os reflexos do novo sistema causariam após quatro anos. Ainda adolescente, a primogênita das três filhas da família, sonhava em ser médica e já criava a esperança de mudar o Brasil e, quem sabe, o mundo.

Depois de 50 anos do golpe, a professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) Helena Serra Azul conta sua história e das irmãs, mergulhando nos traumas e nos momentos de um pouco de alegria. Foram muitas emoções, muitas desilusões e muita saudade. Sobre definir esse período, nem ela sabe ao certo. Porém, leva consigo a certeza de que a mulher que se tornou é resultado da força adquirida naquele período.

Além de Helena, Iracema e Maria do Carmo (a Cacau) Serra Azul – que são auditoras fiscais – também vivenciaram o regime militar de forma até mesmo surreal, que mais pareceria uma lenda. As três irmãs lutaram contra o autoritarismo da época, foram presas, tiveram seus maridos detidos, sofreram torturas, viveram na clandestinidade. Hoje, ao se lembrarem de tudo o que passou, percebem que o laço de amizade entre elas é mais forte, fazendo com que nenhuma queira perder a outra novamente.

Lembranças

Helena e o marido foram presos em Recife. Ela teve o filho ainda na prisão (FOTO: Arquivo pessoal)

Helena e o marido foram presos em Recife. Ela teve o filho ainda na prisão (FOTO: Arquivo pessoal)

“Em 64, eu era ainda adolescente e a gente ouviu a discussão sobre a ditadura e tudo. Mas a minha participação mais efetiva foi na universidade, quando fiz vestibular e passei em medicina. A participação da medicina era muito grande, é tanto que a gente vê pelos jornais da época que falam muito das manifestações e muita gente de lá participava. A gente lutava contra a ditadura e por melhores condições de vida, com questões mais específicas”, relembra.

Em 1968, quando o Ato Institucional 5 (AI-5) foi instaurado, Helena estava no segundo ano de faculdade e conheceu o que significa a palavra terror. “Foi o golpe do golpe. Tivemos a casa invadida e eu tinha acabado de me casar”. Por sorte, Helena e o marido Francisco Monteiro não estavam na residência, quando a polícia a invadiu. Tiveram que fugir e foram para Recife. A partir daí, viveram na clandestinidade e ela deu adeus ao seu sobrenome Serra Azul.

Em Recife, o casal foi preso em 1969 e solto em 1971. Na época, Helena estava grávida e teve seu filho no Presídio Feminino do Bom Pastor. Até os 8 meses de nascido, o filho permaneceu com ela, mas foi mandado para a casa da avó, para evitar problemas de saúde. No dia em que foi solta, um alívio. Pisar na rua novamente trazia uma felicidade sem tamanho. Mas a tristeza viria logo ao lembrar dos rostos e grandes afetos que permaneceram presos.

De volta ao Ceará, em 1972, o casal novamente seria preso. Dessa vez, no interior do estado. “Nos arrastaram, botaram capuz, apontaram armas e meu filho assistiu tudo. Aquela coisa toda que parece um filme”, admite. Foram levados ao 23º Batalhão de Caçadores do Exército, em Fortaleza, localizado na Avenida 13 de Maio.

Cacau

Iracema, Helena e Maria do Carmo são as irmãs que fizeram parte da luta no Ceará (FOTO: Arquivo pessoal)

Iracema, Helena e Maria do Carmo são as irmãs que fizeram parte da luta no Ceará (FOTO: Arquivo pessoal)

A surpresa aconteceu quando Maria do Carmo foi também levada ao 23º BC. É nessa parte que a história das irmãs se mesclam. Cacau, que tinha acabado de completar 18 anos, foi obrigada a dar um depoimento. Porém, a desculpa inventada resultou em sua prisão. “Isso era um sequestro, porque ficamos incomunicáveis. Tivemos que dar depoimento para tudo e foi muito tortura. A Cacau quase entrava em coma”, revela Helena.

Após ser solta e retornar à faculdade, Helena penou para concluir os estudos. Depois de formada, veio o problema de não conseguir emprego e até ser demitida do trabalho por ter participado de manifestações. Ela, acompanhada de sua família, foi tentar a vida em São Paulo e, pelo menos, conseguiu emprego junto às irmãs.

Após a época de tormenta, Cacau ainda prestou concurso para o Ministério da Fazenda. Porém, por causa de seus ideais, não pode assumir o cargo.

Iracema

Era a vez da 3ª irmã aparecer na história. Iracema foi presa em 1974. O motivo seriam as denúncias contra seu marido, também envolvido na luta contra o regime militar. Antes da prisão, o casal e mais dois filhos viviam na clandestinidade, em Recife. Mas acabaram caindo nas mãos da polícia.

Com os pais detidos, os filhos foram apreendidos. Iracema passou um bom período de sua vida sem saber onde eles estavam. Para quem é mãe, o tempo parece ser eterno. Somente após sua mãe e a sogra de Helena investigarem e irem atrás das crianças com ajuda de uma advogada, que conseguiram tê-las de volta. Um dos filhos ficou extramente traumatizado. Após ser solta, Iracema voltou para Fortaleza, mas seu marido permaneceu preso. Somente depois que foi libertado.

“Minha mãe ficava rezando e chorando. Meu pai ficava indo atrás. Minha mãe também foi atrás. A gente sempre contou com a família no ponto de vista de não ser abandonado. Eles seguraram a nossa barra para poder viver tudo isso”, confidenciou Helena.

Reflexão

Após quase 50 anos de toda essa história, Helena avaliou que o sofrimento trouxe uma coisa boa: aumentou o elo da família. “A gente fica com nossos fantasmas e aprende a lidar com isso. Isso dá muita força para você enfrentar os outros problemas”. O único ponto que ainda parece ser sua fraqueza é quando se fala das torturas. “Eu prefiro não falar disso. Ficou no passado. Você não tem ideia do que é viver em uma ditadura”.

Sobre a sociedade atual, Helena ainda não considera o ideal. Além disso, acha que a mudança para a democracia foi muito lenta. “Lutei a vida toda para a construção de uma sociedade dessa. Ainda acredito numa sociedade mais socialista, pessoas com mais espaço para se desenvolver. Acho que isso é possível. Não como a gente pensava na juventude. A gente achava que ia conseguir mudar a sociedade em pouco tempo”.

Mesmo não tendo conseguido o objetivo da época, as três irmãs se alegram de que tudo tenha mudado. A liberdade atual é essencial para o desenvolvimento da sociedade. “O fato da gente não viver numa ditadura é ótimo! Mas isso não foi dado, isso foi conquistado e muitos perderam a vida”. É acreditando nisso e mantendo a esperança do que ainda pode ser melhorado, que as irmãs Serra Azul tem a certeza de que a luta não foi em vão.

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Irmãs perseguidas na ditadura relembram sofrimentos e evolução

50 anos após o golpe militar, o Tribuna do Ceará traz a história das três irmãs Serra Azul, que lutaram contra a ditadura

Por Hayanne Narlla em Ceará

1 de abril de 2014 às 08:30

Há 5 anos
Helena Serra Azul foi uma das mulheres cearenses que lutou contra a ditadura (FOTO: Arquivo Pessoal)

Helena Serra Azul foi uma das mulheres cearenses que lutou contra a ditadura (FOTO: Arquivo Pessoal)

1° de abril de 1964. Jango, que até então era presidente, foi deposto e Ranieri Mazzili, o presidente da Câmara dos Deputados, assumiu o cargo máximo do Brasil no dia seguinte. Mesmo com as resistências da época, após 15 dias, o 1º presidente da ditadura assumia: Humberto de Alencar Castelo Branco. E o golpe estava decretado.

No mesmo período, a família Serra Azul assistia ao evento sem expectativa do que os reflexos do novo sistema causariam após quatro anos. Ainda adolescente, a primogênita das três filhas da família, sonhava em ser médica e já criava a esperança de mudar o Brasil e, quem sabe, o mundo.

Depois de 50 anos do golpe, a professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) Helena Serra Azul conta sua história e das irmãs, mergulhando nos traumas e nos momentos de um pouco de alegria. Foram muitas emoções, muitas desilusões e muita saudade. Sobre definir esse período, nem ela sabe ao certo. Porém, leva consigo a certeza de que a mulher que se tornou é resultado da força adquirida naquele período.

Além de Helena, Iracema e Maria do Carmo (a Cacau) Serra Azul – que são auditoras fiscais – também vivenciaram o regime militar de forma até mesmo surreal, que mais pareceria uma lenda. As três irmãs lutaram contra o autoritarismo da época, foram presas, tiveram seus maridos detidos, sofreram torturas, viveram na clandestinidade. Hoje, ao se lembrarem de tudo o que passou, percebem que o laço de amizade entre elas é mais forte, fazendo com que nenhuma queira perder a outra novamente.

Lembranças

Helena e o marido foram presos em Recife. Ela teve o filho ainda na prisão (FOTO: Arquivo pessoal)

Helena e o marido foram presos em Recife. Ela teve o filho ainda na prisão (FOTO: Arquivo pessoal)

“Em 64, eu era ainda adolescente e a gente ouviu a discussão sobre a ditadura e tudo. Mas a minha participação mais efetiva foi na universidade, quando fiz vestibular e passei em medicina. A participação da medicina era muito grande, é tanto que a gente vê pelos jornais da época que falam muito das manifestações e muita gente de lá participava. A gente lutava contra a ditadura e por melhores condições de vida, com questões mais específicas”, relembra.

Em 1968, quando o Ato Institucional 5 (AI-5) foi instaurado, Helena estava no segundo ano de faculdade e conheceu o que significa a palavra terror. “Foi o golpe do golpe. Tivemos a casa invadida e eu tinha acabado de me casar”. Por sorte, Helena e o marido Francisco Monteiro não estavam na residência, quando a polícia a invadiu. Tiveram que fugir e foram para Recife. A partir daí, viveram na clandestinidade e ela deu adeus ao seu sobrenome Serra Azul.

Em Recife, o casal foi preso em 1969 e solto em 1971. Na época, Helena estava grávida e teve seu filho no Presídio Feminino do Bom Pastor. Até os 8 meses de nascido, o filho permaneceu com ela, mas foi mandado para a casa da avó, para evitar problemas de saúde. No dia em que foi solta, um alívio. Pisar na rua novamente trazia uma felicidade sem tamanho. Mas a tristeza viria logo ao lembrar dos rostos e grandes afetos que permaneceram presos.

De volta ao Ceará, em 1972, o casal novamente seria preso. Dessa vez, no interior do estado. “Nos arrastaram, botaram capuz, apontaram armas e meu filho assistiu tudo. Aquela coisa toda que parece um filme”, admite. Foram levados ao 23º Batalhão de Caçadores do Exército, em Fortaleza, localizado na Avenida 13 de Maio.

Cacau

Iracema, Helena e Maria do Carmo são as irmãs que fizeram parte da luta no Ceará (FOTO: Arquivo pessoal)

Iracema, Helena e Maria do Carmo são as irmãs que fizeram parte da luta no Ceará (FOTO: Arquivo pessoal)

A surpresa aconteceu quando Maria do Carmo foi também levada ao 23º BC. É nessa parte que a história das irmãs se mesclam. Cacau, que tinha acabado de completar 18 anos, foi obrigada a dar um depoimento. Porém, a desculpa inventada resultou em sua prisão. “Isso era um sequestro, porque ficamos incomunicáveis. Tivemos que dar depoimento para tudo e foi muito tortura. A Cacau quase entrava em coma”, revela Helena.

Após ser solta e retornar à faculdade, Helena penou para concluir os estudos. Depois de formada, veio o problema de não conseguir emprego e até ser demitida do trabalho por ter participado de manifestações. Ela, acompanhada de sua família, foi tentar a vida em São Paulo e, pelo menos, conseguiu emprego junto às irmãs.

Após a época de tormenta, Cacau ainda prestou concurso para o Ministério da Fazenda. Porém, por causa de seus ideais, não pode assumir o cargo.

Iracema

Era a vez da 3ª irmã aparecer na história. Iracema foi presa em 1974. O motivo seriam as denúncias contra seu marido, também envolvido na luta contra o regime militar. Antes da prisão, o casal e mais dois filhos viviam na clandestinidade, em Recife. Mas acabaram caindo nas mãos da polícia.

Com os pais detidos, os filhos foram apreendidos. Iracema passou um bom período de sua vida sem saber onde eles estavam. Para quem é mãe, o tempo parece ser eterno. Somente após sua mãe e a sogra de Helena investigarem e irem atrás das crianças com ajuda de uma advogada, que conseguiram tê-las de volta. Um dos filhos ficou extramente traumatizado. Após ser solta, Iracema voltou para Fortaleza, mas seu marido permaneceu preso. Somente depois que foi libertado.

“Minha mãe ficava rezando e chorando. Meu pai ficava indo atrás. Minha mãe também foi atrás. A gente sempre contou com a família no ponto de vista de não ser abandonado. Eles seguraram a nossa barra para poder viver tudo isso”, confidenciou Helena.

Reflexão

Após quase 50 anos de toda essa história, Helena avaliou que o sofrimento trouxe uma coisa boa: aumentou o elo da família. “A gente fica com nossos fantasmas e aprende a lidar com isso. Isso dá muita força para você enfrentar os outros problemas”. O único ponto que ainda parece ser sua fraqueza é quando se fala das torturas. “Eu prefiro não falar disso. Ficou no passado. Você não tem ideia do que é viver em uma ditadura”.

Sobre a sociedade atual, Helena ainda não considera o ideal. Além disso, acha que a mudança para a democracia foi muito lenta. “Lutei a vida toda para a construção de uma sociedade dessa. Ainda acredito numa sociedade mais socialista, pessoas com mais espaço para se desenvolver. Acho que isso é possível. Não como a gente pensava na juventude. A gente achava que ia conseguir mudar a sociedade em pouco tempo”.

Mesmo não tendo conseguido o objetivo da época, as três irmãs se alegram de que tudo tenha mudado. A liberdade atual é essencial para o desenvolvimento da sociedade. “O fato da gente não viver numa ditadura é ótimo! Mas isso não foi dado, isso foi conquistado e muitos perderam a vida”. É acreditando nisso e mantendo a esperança do que ainda pode ser melhorado, que as irmãs Serra Azul tem a certeza de que a luta não foi em vão.