Startups: cearenses ainda têm medo de arriscar investimentos


Startups: cearenses ainda têm medo de arriscar investimentos

Poucas são as pessoas que se arriscam em atividades em que se pode perder tudo e ganhar nada

Por Hayanne Narlla em Ceará

29 de dezembro de 2013 às 07:51

Há 6 anos

Alto risco. Em terra de gente que agrega valor ao camarote, poucas são as pessoas que se arriscam em atividades em que se pode perder tudo e ganhar nada. Isso acontece mesmo que os lucros possam ultrapassar o valor estimado ou desejado, indo ao infinito.

Uma ideia inovadora pode virar uma grande empresa lucrativa (FOTO: Flickr/ Creative Commons/ Heisenberg Media)

Uma ideia inovadora pode virar uma grande empresa lucrativa (FOTO: Flickr/ Creative Commons/ Heisenberg Media)

As startups são esse tipo de negócio, que encaixa uma boa ideia, poder de escala e custo zero para planejamento. Mas para o empreendimento dar certo, é necessário um valor considerável para validação da proposta. É nessa hora que os investidores entram na história, aplicando dinheiro com uma extrema incerteza. E com muita fé, acreditam no crescimento e descartam o fracasso. Por isso, eles são chamados de anjos.

Porém, se os brasileiros tem um pé atrás, os cearenses tem o corpo inteiro. Conhecidos por investir em setores com retorno garantido, há uma dificuldade em encontrar quem se arrisque por aqui. É o que palpita o representante do núcleo cearense da organização Anjos do Brasil, Milton Sousa.

O grupo começou a se articular recentemente, em janeiro de 2013. Desde então, se reúnem com empresários, apresentando o novo modelo de empreendedorismo. “Atuamos basicamente fomentando, multiplicando investidores. Contactamos muitos potenciais investidores, mas muitos não conheciam o modelo, nem a empresa, e não quiseram investir”, explica.

A falta de interesse acontece principalmente devido a cultura local. “Conversamos com vários potenciais investidores e o que eles falavam é não conheciam bem o investimento. O cearense está acostumado a investir no ramo imobiliário. Isso é comum em outros estados também. É um processo muito novo no Brasil”, considera.

É pensando numa forma de reverter o quadro, que o Anjos do Brasil no Ceará formulou novas estratégias para trazer esses empresários ao mundo as startups. Agora, os potenciais investidores serão convidados a se tornarem mentores de uma empresa, para melhor conhecê-la e, quem sabe, aplicar dinheiro no futuro. “Também vamos fazer as rodadas de negócio, que é uma pequena reunião com três startups altamente qualificadas, que vão se apresentar aos investidores, com objetivo de despertar interesse”.

>LEIA MAIS:

Investidores anjos

O Ceará é o segundo estado do Nordeste mais desenvolvido, quando se trata de startups. Ele fica atrás somente de Alagoas. Ao todo, são apenas dez investidores anjos no estado. Dinheiro investido mesmo há somente em três empresas. A expectativa é de que até o fim de 2014 existam 15 anjos que apliquem realmente boas quantias.

“O investidor anjo tem um perfil de risco, um conservador não se adéqua ao anjo. Geralmente, eles já trabalham em setores de tecnologia e já têm uma experiência e um conhecimento de mercado. Também têm alto recurso financeiro para realizar o investimento. Eles conseguem abrir o mercado para aquela startup”, enfatiza Sousa.

Idealizadores de inovações

Davi Rocha, 26 anos, ainda na universidade teve uma boa ideia. Dividiu a vontade de colocá-la em prática com mais dois amigos, em 2011. Hoje, é sócio-fundador do Logovia – startup que propõe a criação de logomarcas por preços mais em conta.

“A gente tinha noção de startup e como era o cenário brasileiro. Estávamos aprendendo a questão de editais de aceleradora e investidor anjo. Em 2011, montamos o negócio com mais pouco investimento e alto poder de crescimento, baseado no modelo que já existe nos Estados Unidos. Fizemos um esforço de adaptar o modelo dos EUA à realidade brasileira”, enfatiza.

A ideia que teve início no Ceará, com o objetivo de conquistar principalmente os fortalezenses, foi se adaptando e mudando. Atualmente, 85% de seus clientes são do eixo Rio-São Paulo. “A empresa se mudou para lá. Não porque queríamos. Foi consequência do mercado”.

Os produtos de startup são mais voltados para tecnologia, já que há grande poder de escalada, além de um baixo custo de produção (FOTO: Flickr/ Creative Commons/ Heisenberg Media)

Os produtos de startup são mais voltados para tecnologia, já que há grande poder de escalada, além de um baixo custo de produção (FOTO: Flickr/ Creative Commons/ Heisenberg Media)

Mais uma vez, a questão cultural foi um contraponto para o desenvolvimento das startups em território cearense. “Em Fortaleza é um mercado pouco interessante. As pessoas não confiam na internet e no serviço impessoal. Elas não confiam na expectativa de obtenção de bons resultados, preferem estar do lado da pessoa nas gráficas rápidas. Não tem essa cultura. Lá em São Paulo ou no Rio, eles confiam muito mais”, confidencia.

Mas não foram apenas os clientes que desacreditavam no Logovia. Os empresários também não investiam, devido ao mesmo problema cultural. Na verdade, só haveria o financiamento se o negócio fosse de um filho ou de um parente. “O brasileiro é temeroso ao risco. É uma questão cultural. Isso prejudica muito os negócios de alto risco, mas a gente percebe que a coisa está mudando”, arrisca Davi.

Mas os empreendedores e criadores de hoje serão os investidores anjos de amanhã. E é nesse ciclo de mercado que a vida útil das startups irá se estendendo. “Devemos ser os primeiros a investir nesse sistema. Eu trabalhei como tutor. A gente sabe que por enquanto não temos grana para bancar o que está surgindo, mas a gente busca investir ao ecossistema”, revela.

Davi pontua o que seria necessário para iniciar uma startup. Para ele, é preciso, além de uma ideia inovadora, estudar muito. “Além de começar a estudar, buscar recurso que ajudem a montar o negócio. Tem que ter processo de validação, antes de entrar no meio empreendedor. Aquilo que você está fazendo precisa interessar o público-alvo”.

Um pouco da breve história

Um dos eventos organizados pela StartupCE (FOTO: StartupCE)

Um dos eventos organizados pela StartupCE (FOTO: StartupCE)

Renato Furtado é um dos responsáveis por encomendar o modelo de startup para o Ceará e lutar por ele. Sócio fundador da PolivalenTI – empresa que oferece apoio e consultoria para os idealizadores – investe em eventos e divulgação do “novo” modelo de empreender.

“Aqui no Ceará, ninguém sabia o que era [startup]. Em 2011, começou-se a falar, só que pouco divulgado. Até que uma aceleradora para cá e fez uma chamada para projetos, modelos de negócio para apresentar. Fomos uma das equipes a apresentar e ninguém sabia nem o que era modelo de negócio, mas fomos atrás. Ficamos empolgado”, relembra.

Foi a partir daí, que Renato resolveu “movimentar” a ideia por aqui. Canais na internet por meio das redes sociais e eventos para tratar do temos foram uma das atitudes realizadas por ele. “Hoje, percebo statups mais maduras do que quando começamos. Começamos a ver a mudança de cultura leve, mas vemos. Espero que [a ideia] comece desenvolver mais no cenário cearense”.

Mesmo com relações diferentes com o modelo proposto pelas startups, os três entrevistados pelo Tribuna do Ceará consideram a nova forma de empreender um grande benefício para a economia do Ceará. Geração de empregos, crescimento econômico e a mudança no mercado local são uma das apostas do trio.

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Startups: cearenses ainda têm medo de arriscar investimentos

Poucas são as pessoas que se arriscam em atividades em que se pode perder tudo e ganhar nada

Por Hayanne Narlla em Ceará

29 de dezembro de 2013 às 07:51

Há 6 anos

Alto risco. Em terra de gente que agrega valor ao camarote, poucas são as pessoas que se arriscam em atividades em que se pode perder tudo e ganhar nada. Isso acontece mesmo que os lucros possam ultrapassar o valor estimado ou desejado, indo ao infinito.

Uma ideia inovadora pode virar uma grande empresa lucrativa (FOTO: Flickr/ Creative Commons/ Heisenberg Media)

Uma ideia inovadora pode virar uma grande empresa lucrativa (FOTO: Flickr/ Creative Commons/ Heisenberg Media)

As startups são esse tipo de negócio, que encaixa uma boa ideia, poder de escala e custo zero para planejamento. Mas para o empreendimento dar certo, é necessário um valor considerável para validação da proposta. É nessa hora que os investidores entram na história, aplicando dinheiro com uma extrema incerteza. E com muita fé, acreditam no crescimento e descartam o fracasso. Por isso, eles são chamados de anjos.

Porém, se os brasileiros tem um pé atrás, os cearenses tem o corpo inteiro. Conhecidos por investir em setores com retorno garantido, há uma dificuldade em encontrar quem se arrisque por aqui. É o que palpita o representante do núcleo cearense da organização Anjos do Brasil, Milton Sousa.

O grupo começou a se articular recentemente, em janeiro de 2013. Desde então, se reúnem com empresários, apresentando o novo modelo de empreendedorismo. “Atuamos basicamente fomentando, multiplicando investidores. Contactamos muitos potenciais investidores, mas muitos não conheciam o modelo, nem a empresa, e não quiseram investir”, explica.

A falta de interesse acontece principalmente devido a cultura local. “Conversamos com vários potenciais investidores e o que eles falavam é não conheciam bem o investimento. O cearense está acostumado a investir no ramo imobiliário. Isso é comum em outros estados também. É um processo muito novo no Brasil”, considera.

É pensando numa forma de reverter o quadro, que o Anjos do Brasil no Ceará formulou novas estratégias para trazer esses empresários ao mundo as startups. Agora, os potenciais investidores serão convidados a se tornarem mentores de uma empresa, para melhor conhecê-la e, quem sabe, aplicar dinheiro no futuro. “Também vamos fazer as rodadas de negócio, que é uma pequena reunião com três startups altamente qualificadas, que vão se apresentar aos investidores, com objetivo de despertar interesse”.

>LEIA MAIS:

Investidores anjos

O Ceará é o segundo estado do Nordeste mais desenvolvido, quando se trata de startups. Ele fica atrás somente de Alagoas. Ao todo, são apenas dez investidores anjos no estado. Dinheiro investido mesmo há somente em três empresas. A expectativa é de que até o fim de 2014 existam 15 anjos que apliquem realmente boas quantias.

“O investidor anjo tem um perfil de risco, um conservador não se adéqua ao anjo. Geralmente, eles já trabalham em setores de tecnologia e já têm uma experiência e um conhecimento de mercado. Também têm alto recurso financeiro para realizar o investimento. Eles conseguem abrir o mercado para aquela startup”, enfatiza Sousa.

Idealizadores de inovações

Davi Rocha, 26 anos, ainda na universidade teve uma boa ideia. Dividiu a vontade de colocá-la em prática com mais dois amigos, em 2011. Hoje, é sócio-fundador do Logovia – startup que propõe a criação de logomarcas por preços mais em conta.

“A gente tinha noção de startup e como era o cenário brasileiro. Estávamos aprendendo a questão de editais de aceleradora e investidor anjo. Em 2011, montamos o negócio com mais pouco investimento e alto poder de crescimento, baseado no modelo que já existe nos Estados Unidos. Fizemos um esforço de adaptar o modelo dos EUA à realidade brasileira”, enfatiza.

A ideia que teve início no Ceará, com o objetivo de conquistar principalmente os fortalezenses, foi se adaptando e mudando. Atualmente, 85% de seus clientes são do eixo Rio-São Paulo. “A empresa se mudou para lá. Não porque queríamos. Foi consequência do mercado”.

Os produtos de startup são mais voltados para tecnologia, já que há grande poder de escalada, além de um baixo custo de produção (FOTO: Flickr/ Creative Commons/ Heisenberg Media)

Os produtos de startup são mais voltados para tecnologia, já que há grande poder de escalada, além de um baixo custo de produção (FOTO: Flickr/ Creative Commons/ Heisenberg Media)

Mais uma vez, a questão cultural foi um contraponto para o desenvolvimento das startups em território cearense. “Em Fortaleza é um mercado pouco interessante. As pessoas não confiam na internet e no serviço impessoal. Elas não confiam na expectativa de obtenção de bons resultados, preferem estar do lado da pessoa nas gráficas rápidas. Não tem essa cultura. Lá em São Paulo ou no Rio, eles confiam muito mais”, confidencia.

Mas não foram apenas os clientes que desacreditavam no Logovia. Os empresários também não investiam, devido ao mesmo problema cultural. Na verdade, só haveria o financiamento se o negócio fosse de um filho ou de um parente. “O brasileiro é temeroso ao risco. É uma questão cultural. Isso prejudica muito os negócios de alto risco, mas a gente percebe que a coisa está mudando”, arrisca Davi.

Mas os empreendedores e criadores de hoje serão os investidores anjos de amanhã. E é nesse ciclo de mercado que a vida útil das startups irá se estendendo. “Devemos ser os primeiros a investir nesse sistema. Eu trabalhei como tutor. A gente sabe que por enquanto não temos grana para bancar o que está surgindo, mas a gente busca investir ao ecossistema”, revela.

Davi pontua o que seria necessário para iniciar uma startup. Para ele, é preciso, além de uma ideia inovadora, estudar muito. “Além de começar a estudar, buscar recurso que ajudem a montar o negócio. Tem que ter processo de validação, antes de entrar no meio empreendedor. Aquilo que você está fazendo precisa interessar o público-alvo”.

Um pouco da breve história

Um dos eventos organizados pela StartupCE (FOTO: StartupCE)

Um dos eventos organizados pela StartupCE (FOTO: StartupCE)

Renato Furtado é um dos responsáveis por encomendar o modelo de startup para o Ceará e lutar por ele. Sócio fundador da PolivalenTI – empresa que oferece apoio e consultoria para os idealizadores – investe em eventos e divulgação do “novo” modelo de empreender.

“Aqui no Ceará, ninguém sabia o que era [startup]. Em 2011, começou-se a falar, só que pouco divulgado. Até que uma aceleradora para cá e fez uma chamada para projetos, modelos de negócio para apresentar. Fomos uma das equipes a apresentar e ninguém sabia nem o que era modelo de negócio, mas fomos atrás. Ficamos empolgado”, relembra.

Foi a partir daí, que Renato resolveu “movimentar” a ideia por aqui. Canais na internet por meio das redes sociais e eventos para tratar do temos foram uma das atitudes realizadas por ele. “Hoje, percebo statups mais maduras do que quando começamos. Começamos a ver a mudança de cultura leve, mas vemos. Espero que [a ideia] comece desenvolver mais no cenário cearense”.

Mesmo com relações diferentes com o modelo proposto pelas startups, os três entrevistados pelo Tribuna do Ceará consideram a nova forma de empreender um grande benefício para a economia do Ceará. Geração de empregos, crescimento econômico e a mudança no mercado local são uma das apostas do trio.