Ailton Lopes: "Discurso eleitoral de Dilma e Camilo não durou dois meses de governo"


Ailton Lopes: “Discurso eleitoral de Dilma e Camilo não durou dois meses de governo”

Em entrevista ao Tribuna do Ceará, o candidato a governador na eleição de 2014 avalia a gestão dos governos federal e estadual e fala sobre sua rotina de bancário

Por Hayanne Narlla em Cotidiano

20 de março de 2015 às 07:00

Há 4 anos
Ailton Lopes falou sobre rotina pós-eleição e criticou atuais gestões (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Ailton Lopes falou sobre rotina pós-eleição e criticou atuais gestões (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Candidato a governador do Ceará pelo Psol em 2014, Ailton Lopes tem a vida pautada pela luta social. Mesmo exercendo a função de bancário durante 8h por dia no Banco do Brasil, ele separa tempo para se mobilizar e pensar coletivamente. O que “sobrar é utilizado para namorar, ir ao teatro, assistir filmes ou ler, como toda “pessoa normal” faria.

Apesar de ter perdido a eleição, não desistiu de buscar seus objetivos: o de transformar o Ceará, quiçá o mundo. Com humor sutil, não poupa críticas à atual gestão e aos ex-concorrentes. Nem a gestão federal escapa. E é com descontração que reflete nas melhorias que poderia oferecer ao estado.

Tribuna do Ceará: Tendo passado a correira da campanha eleitoral, como está a sua vida agora?
Ailton Lopes: A vida está mais corrida do que na época da eleição. Além da rotina diária, em que eu trabalho oito horas por dia no Banco do Brasil, eu estudo e sobra pouco tempo, mas estou na militância sindical bancária e ainda tem as tarefas do partido. São núcleos, reuniões, aqui em Fortaleza e em outros municípios que demandam muito da nossa energia e do tempo. Então se tornou uma rotina mais puxada do que a própria campanha eleitoral.

Tribuna: O senhor está com o nome mais conhecido. Isso fez com que estivesse inserido em mais compromissos?
Ailton: Eu sempre tive engajamento muito forte. Tenho demanda maior nesse momento em virtude de ter tido um pouco mais de publicidade. As pessoas realmente me reconhecem mais, no shopping, na rua, e é muito gratificante receber o carinho. É legal as pessoas reconhecendo que a gente fez uma campanha diferente, diferente do que tem sido a política.

O problema não é pessoal! Não é a pessoa do Cid, mas o projeto que ele defende.

Tribuna: O senhor teve alguma decepção durante a campanha?
Ailton: Decepção eu não tive. Foi uma coisa tão bonita. O que eu mais recebi foi carinho. E em relação ao jogo político, não me surpreendeu. O que eu tive de decepção, não decepção, mas um sentimento difícil de administrar é quando você faz a política de um jeito diferente e algumas pessoas realmente não entendem, porque a política em geral é esse engodo que existe aí. Essa história de festa da democracia… Eu visitei vários colégios eleitorais no dia da eleição e eu via a cara das pessoas com tristeza indo votar. Não vi festa, não vi pessoas felizes. A maioria das pessoas estava por obrigação forçosa a cumprir e muito vezes sem saber em quem votar. Decidiam na hora.

Ailton trabalha oito horas por dia como bancário (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Ailton trabalha oito horas por dia como bancário (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Tribuna: Qual seria o motivo dessa tristeza?
Ailton: A política não é algo que atrai as pessoas. Elas veem aqueles políticos que prometem e não fazem nada do que prometeram. Não foi só a Dilma que cometeu estelionato eleitoral. Ela disse: “Nossa diferença pro PSDB é que, no momento de crise, nós não aumentaremos as tarifas públicas, não aumentaremos as taxas de juros e não cortaremos direitos”. Ela fez todas as coisas que ela disse que não ia fazer. Na época da campanha, o Camilo [Governador petista eleito] prometeu: “Vai vir Refinaria, vai vir isso e aquilo”. Agora é corte. Veio a crise econômica, eles disseram que iam agir de modo distinto e não agiram, estão agindo como qualquer governo. Eu não me decepcionei, porque essa foi a nossa crítica. Esse discurso deles é o mesmo há mais de quatro anos. É o mesmo marketing eleitoral. Se você fizesse uma pergunta ao Eunício [Oliveira, PMDB] ou Camilo, para qualquer um, eles repetiam os scripts do programa eleitoral, eles não aprofundavam.

Tribuna: Mas o senhor acha que se saiu bem em meio a tudo isso?
Ailton: Eu acho que a gente saiu exitoso, embora o Psol tenha uma caminhada. Tínhamos uma campanha polarizada, em termos de disputa do poder, propostas do programa. Eunício e Camilo tomavam muito espaço de tempo em TV, tinham condição de viajar de helicóptero e visitaram muito mais municípios do que a gente. Não é todo mundo que assiste debate de TV, mas como o debate tem muito mais repercussão do que eu sair conversando na calçada, as pessoas conseguiram ver a diferença de qualidade da nossa candidatura. Não é uma diferença da qualidade individual do Aílton, mas porque eu estava representando propostas construídas coletivamente.

Na época da campanha eu já dizia que o segundo governo Dilma ia ser pior que o primeiro. Achei péssimo e o segundo ainda pior.

Tribuna: Então, do que o senhor gostou mais na campanha?
Ailton: Da possibilidade de poder resgatar o sentido da política. Façam da sua vida uma causa. A nossa vida não pode ser só ir por trabalho, isso tudo tem valor enorme e fundamental, e também ajuda a mudar as coisas agindo com ética. Mas a gente precisa se organizar coletivamente. É uma angústia que eu percebo que a gente não tem essa capacidade de organização coletiva forte no nosso país, no nosso estado.

Tribuna: E essa política afeta também a gestão federal? Como o senhor avalia a atual gestão?
Ailton: Na época da campanha eu já dizia que o segundo governo Dilma ia ser pior que o primeiro. Achei péssimo e o segundo ainda pior. O pior é que eu não imaginava que ia ser ainda pior. Ela conseguiu superar, porque ela começou a fazer tudo que ela disse que não ia fazer muito rapidamente, antes mesmo da posse do segundo mandato. O mais absurdo ainda é ela fazer um discurso na posse dela de “Pátria Educadora” e, em seguida, ter um corte de mais de 20% na educação. O setor que mais corte teve foi justamente o de educação. O que o PSDB faria seria exatamente as mesmas medidas. A diferença é que o Aécio [Neves] disse que faria isso na campanha e a Dilma disse que não faria. Então, a Dilma mentiu em relação a isso e o Aécio foi um pouco menos desonesto.

Ailton está envolvido nas eleições do Sindicato do Bancário com chapa de oposição (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Ailton está envolvido nas eleições do Sindicato do Bancário com chapa de oposição (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Tribuna: Dilma vem sofrendo com a impopularidade. Qual foi o erro?
Ailton: O maior erro da Dilma, que não seria um erro, para eles seria um acerto, é que eles [PT] fizeram aliança com o grande capital. O partido a qual ela pertence, que eu militei antes, era pra ser um serviço da classe trabalhadora e na verdade virou um partido do grande empresariado. Se a essência é o caráter de classe que esse partido deveria ter, perdeu.

Tribuna: Com o corte federal no setor de educação, o senhor considera Cid Gomes preparado para o cargo de ministro da Educação?
Ailton: O problema não é pessoal! Não é a pessoa do Cid, mas o projeto que ele defende. Quando ele era governador, ele decidia. Ao ser escalado pra o Ministério de Educação, como ele disse corretamente, ele agora estava para atender as demandas do governo. E a Dilma direcionou. Não dá pra desvincular o Cid do projeto do PT. Mas o Cid continua no estilo dele, ele esqueceu que o Planalto, embora tenhamos um Congresso muito ruim, não está a serviço dele, como a Assembleia Legislativa estava.

O parlamento cearense vivia a serviço do Cid, tudo que o Cid queria era aprovado majoritariamente sem nenhuma crítica. Agora, o governo Dilma pega um parlamento muito ruim, mas que não é um parlamento que está ligado a ela. Já Cid deveria estar preocupado em como dirigir o Ministério da Educação com esse corte orçamentário.

Infelizmente não é isso que a gente tem visto, tem afetado as universidades públicas. Mas o que esperar de alguém que nunca se importou com as universidades públicas? A nossa Constituição Estadual prevê que 5% da receita pública arrecadada pelo Estado seja para educação. Nunca nenhum governo estadual cumpriu isso. O Cid o máximo que conseguiu foi a metade disso.

Tribuna: Desde a eleição, há um movimento que quer o impeachment de Dilma. O senhor é a favor?
Ailton: Não sou a favor do impeachment. Embora haja uma crise política, embora ela tenha cometido estelionato eleitoral, que ela prometeu uma coisa e fez outra, isso por si não seria motivo suficiente. Mas o mais grave de eu não ser a favor é pelo fato de que não é mudando o gerente da crise que você vai solucionar o problema. Se eu mudar a Dilma e colocar o Aécio, o modelo político permanece inalterado. O que me interessa é solucionar a crise. Para solucionar a crise não adianta só mudar o gestor. Tem que afastar todos os envolvidos em corrupção e promover um amplo processo de reforma política pela esquerda.

Tribuna: E sobre o governo estadual. O que o senhor acha que mudou, após a eleição?
Ailton: Nada! É uma repetição, porque existem estilos às vezes distintos, mas o governo do Pros continua, né? Tanto que eles têm o Arialdo Pinho [secretário de Turismo] e outros para postos chaves. Vários membros do antigo governo do Cid estão lá no governo do Camilo, com bastante influência, como a vice governadora e o presidente da Assembleia Legislativa que são do Pros”.

Tribuna: O que o senhor considera que o governo de Cid tenha deixado de bom?
Ailton: O legado positivo é de que nós precisamos nos livrar de qualquer tipo de oligarquia. Tanto que muita gente votou no Eunício porque queria derrubar a oligarquia Ferreira Gomes. E eu disse: ‘Olha, não adianta, porque você vai tirar uma oligarquia e colocar outra no poder’. Eu acho que a grande contribuição [de Cid] é a gente conseguir manter a rejeição a qualquer tipo de oligarquia.

Tribuna: Caso tivesse sido eleito, quais as primeiras medidas que o senhor tomaria?
Ailton: Algumas questões simbólicas: Regulamentação do Parque do Cocó, acho que seria medida urgente; Fim da isenção de impostos para agrotóxico, que são verdadeiros venenos e hoje tem isenção; Compromisso com os 5% para a educação pública superior, eu sei o quanto as universidades são fundamentais para gerar desenvolvimento no Ceará; Forte investimento em educação e saúde, como fazer com que o orçamento apertado priorizasse essas áreas. Essas são as prioridades.

Tribuna: O senhor vai se candidatar para prefeito de Fortaleza em 2016?
Ailton: A gente vai discutir isso próximo ano. Olha, temos no Brasil eleição ano sim, ano não. Você passa um ano sem eleição, no outro já tem. Então, a gente tem que aproveitar muito bem o ano que não tem eleição para fazer luta social. Isso a gente vai fazer sempre. Mas esse ano que não tem eleição, onde a atenção das pessoas não necessariamente tem que estar voltada para quem elas tem que escolher, temos que aproveitar bastante especialmente nesse momento de crise que a gente vive. A eleição que eu estou envolvido é a do Sindicato dos Bancários. A gente está tentado organizar uma chapa para agora, a eleição deve ser no começo de julho. Não dá para pensar agora em ser candidato a prefeito ou vereador.

Tribuna: Há probabilidade do candidato ser o deputado Renato Roseno?
Ailton: O Renato tem feito o mandato dele. O João [Alfredo] e o Renato têm constituído vários espaços de discussão do partido no interior, na capital de forma muito conjunta, muito combinada, junto aos movimentos sociais. Então, assim o nosso foco é na luta social. E no caso do Renato e João é de cumprir excelentes mandatos.

Tribuna: Mas o senhor sente vontade de disputar?
Ailton: A gente se coloca à disposição de uma tarefa coletiva. Eu acho que não deve ser um desejo pessoal. Mas não condeno quem tem vontade de ser. Às vezes, a pessoa quer ser vereador porque sente vontade de fazer algo que seja útil para o município, tem excelentes projetos e ideias. Mas acho que tudo passa pelo coletivo. Quando fazemos as coisas juntos, sai melhor. Quando a gente faz sozinho, cai tanto para o personalismo, que é grave na política, como também não são iniciativas que representam um conjunto maior de pessoas. Mas é claro que o pessoal quer muito que Psol tenha candidato. E o Psol vai ter candidato ou candidata!

Tribuna do Ceará entrou em contato com a assessoria de imprensa do governo estadual e federal. A gestão de Camilo Santana (PT) ressaltou que não iria se pronunciar a respeito das críticas.

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Ailton Lopes: “Discurso eleitoral de Dilma e Camilo não durou dois meses de governo”

Em entrevista ao Tribuna do Ceará, o candidato a governador na eleição de 2014 avalia a gestão dos governos federal e estadual e fala sobre sua rotina de bancário

Por Hayanne Narlla em Cotidiano

20 de março de 2015 às 07:00

Há 4 anos
Ailton Lopes falou sobre rotina pós-eleição e criticou atuais gestões (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Ailton Lopes falou sobre rotina pós-eleição e criticou atuais gestões (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Candidato a governador do Ceará pelo Psol em 2014, Ailton Lopes tem a vida pautada pela luta social. Mesmo exercendo a função de bancário durante 8h por dia no Banco do Brasil, ele separa tempo para se mobilizar e pensar coletivamente. O que “sobrar é utilizado para namorar, ir ao teatro, assistir filmes ou ler, como toda “pessoa normal” faria.

Apesar de ter perdido a eleição, não desistiu de buscar seus objetivos: o de transformar o Ceará, quiçá o mundo. Com humor sutil, não poupa críticas à atual gestão e aos ex-concorrentes. Nem a gestão federal escapa. E é com descontração que reflete nas melhorias que poderia oferecer ao estado.

Tribuna do Ceará: Tendo passado a correira da campanha eleitoral, como está a sua vida agora?
Ailton Lopes: A vida está mais corrida do que na época da eleição. Além da rotina diária, em que eu trabalho oito horas por dia no Banco do Brasil, eu estudo e sobra pouco tempo, mas estou na militância sindical bancária e ainda tem as tarefas do partido. São núcleos, reuniões, aqui em Fortaleza e em outros municípios que demandam muito da nossa energia e do tempo. Então se tornou uma rotina mais puxada do que a própria campanha eleitoral.

Tribuna: O senhor está com o nome mais conhecido. Isso fez com que estivesse inserido em mais compromissos?
Ailton: Eu sempre tive engajamento muito forte. Tenho demanda maior nesse momento em virtude de ter tido um pouco mais de publicidade. As pessoas realmente me reconhecem mais, no shopping, na rua, e é muito gratificante receber o carinho. É legal as pessoas reconhecendo que a gente fez uma campanha diferente, diferente do que tem sido a política.

O problema não é pessoal! Não é a pessoa do Cid, mas o projeto que ele defende.

Tribuna: O senhor teve alguma decepção durante a campanha?
Ailton: Decepção eu não tive. Foi uma coisa tão bonita. O que eu mais recebi foi carinho. E em relação ao jogo político, não me surpreendeu. O que eu tive de decepção, não decepção, mas um sentimento difícil de administrar é quando você faz a política de um jeito diferente e algumas pessoas realmente não entendem, porque a política em geral é esse engodo que existe aí. Essa história de festa da democracia… Eu visitei vários colégios eleitorais no dia da eleição e eu via a cara das pessoas com tristeza indo votar. Não vi festa, não vi pessoas felizes. A maioria das pessoas estava por obrigação forçosa a cumprir e muito vezes sem saber em quem votar. Decidiam na hora.

Ailton trabalha oito horas por dia como bancário (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Ailton trabalha oito horas por dia como bancário (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Tribuna: Qual seria o motivo dessa tristeza?
Ailton: A política não é algo que atrai as pessoas. Elas veem aqueles políticos que prometem e não fazem nada do que prometeram. Não foi só a Dilma que cometeu estelionato eleitoral. Ela disse: “Nossa diferença pro PSDB é que, no momento de crise, nós não aumentaremos as tarifas públicas, não aumentaremos as taxas de juros e não cortaremos direitos”. Ela fez todas as coisas que ela disse que não ia fazer. Na época da campanha, o Camilo [Governador petista eleito] prometeu: “Vai vir Refinaria, vai vir isso e aquilo”. Agora é corte. Veio a crise econômica, eles disseram que iam agir de modo distinto e não agiram, estão agindo como qualquer governo. Eu não me decepcionei, porque essa foi a nossa crítica. Esse discurso deles é o mesmo há mais de quatro anos. É o mesmo marketing eleitoral. Se você fizesse uma pergunta ao Eunício [Oliveira, PMDB] ou Camilo, para qualquer um, eles repetiam os scripts do programa eleitoral, eles não aprofundavam.

Tribuna: Mas o senhor acha que se saiu bem em meio a tudo isso?
Ailton: Eu acho que a gente saiu exitoso, embora o Psol tenha uma caminhada. Tínhamos uma campanha polarizada, em termos de disputa do poder, propostas do programa. Eunício e Camilo tomavam muito espaço de tempo em TV, tinham condição de viajar de helicóptero e visitaram muito mais municípios do que a gente. Não é todo mundo que assiste debate de TV, mas como o debate tem muito mais repercussão do que eu sair conversando na calçada, as pessoas conseguiram ver a diferença de qualidade da nossa candidatura. Não é uma diferença da qualidade individual do Aílton, mas porque eu estava representando propostas construídas coletivamente.

Na época da campanha eu já dizia que o segundo governo Dilma ia ser pior que o primeiro. Achei péssimo e o segundo ainda pior.

Tribuna: Então, do que o senhor gostou mais na campanha?
Ailton: Da possibilidade de poder resgatar o sentido da política. Façam da sua vida uma causa. A nossa vida não pode ser só ir por trabalho, isso tudo tem valor enorme e fundamental, e também ajuda a mudar as coisas agindo com ética. Mas a gente precisa se organizar coletivamente. É uma angústia que eu percebo que a gente não tem essa capacidade de organização coletiva forte no nosso país, no nosso estado.

Tribuna: E essa política afeta também a gestão federal? Como o senhor avalia a atual gestão?
Ailton: Na época da campanha eu já dizia que o segundo governo Dilma ia ser pior que o primeiro. Achei péssimo e o segundo ainda pior. O pior é que eu não imaginava que ia ser ainda pior. Ela conseguiu superar, porque ela começou a fazer tudo que ela disse que não ia fazer muito rapidamente, antes mesmo da posse do segundo mandato. O mais absurdo ainda é ela fazer um discurso na posse dela de “Pátria Educadora” e, em seguida, ter um corte de mais de 20% na educação. O setor que mais corte teve foi justamente o de educação. O que o PSDB faria seria exatamente as mesmas medidas. A diferença é que o Aécio [Neves] disse que faria isso na campanha e a Dilma disse que não faria. Então, a Dilma mentiu em relação a isso e o Aécio foi um pouco menos desonesto.

Ailton está envolvido nas eleições do Sindicato do Bancário com chapa de oposição (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Ailton está envolvido nas eleições do Sindicato do Bancário com chapa de oposição (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Tribuna: Dilma vem sofrendo com a impopularidade. Qual foi o erro?
Ailton: O maior erro da Dilma, que não seria um erro, para eles seria um acerto, é que eles [PT] fizeram aliança com o grande capital. O partido a qual ela pertence, que eu militei antes, era pra ser um serviço da classe trabalhadora e na verdade virou um partido do grande empresariado. Se a essência é o caráter de classe que esse partido deveria ter, perdeu.

Tribuna: Com o corte federal no setor de educação, o senhor considera Cid Gomes preparado para o cargo de ministro da Educação?
Ailton: O problema não é pessoal! Não é a pessoa do Cid, mas o projeto que ele defende. Quando ele era governador, ele decidia. Ao ser escalado pra o Ministério de Educação, como ele disse corretamente, ele agora estava para atender as demandas do governo. E a Dilma direcionou. Não dá pra desvincular o Cid do projeto do PT. Mas o Cid continua no estilo dele, ele esqueceu que o Planalto, embora tenhamos um Congresso muito ruim, não está a serviço dele, como a Assembleia Legislativa estava.

O parlamento cearense vivia a serviço do Cid, tudo que o Cid queria era aprovado majoritariamente sem nenhuma crítica. Agora, o governo Dilma pega um parlamento muito ruim, mas que não é um parlamento que está ligado a ela. Já Cid deveria estar preocupado em como dirigir o Ministério da Educação com esse corte orçamentário.

Infelizmente não é isso que a gente tem visto, tem afetado as universidades públicas. Mas o que esperar de alguém que nunca se importou com as universidades públicas? A nossa Constituição Estadual prevê que 5% da receita pública arrecadada pelo Estado seja para educação. Nunca nenhum governo estadual cumpriu isso. O Cid o máximo que conseguiu foi a metade disso.

Tribuna: Desde a eleição, há um movimento que quer o impeachment de Dilma. O senhor é a favor?
Ailton: Não sou a favor do impeachment. Embora haja uma crise política, embora ela tenha cometido estelionato eleitoral, que ela prometeu uma coisa e fez outra, isso por si não seria motivo suficiente. Mas o mais grave de eu não ser a favor é pelo fato de que não é mudando o gerente da crise que você vai solucionar o problema. Se eu mudar a Dilma e colocar o Aécio, o modelo político permanece inalterado. O que me interessa é solucionar a crise. Para solucionar a crise não adianta só mudar o gestor. Tem que afastar todos os envolvidos em corrupção e promover um amplo processo de reforma política pela esquerda.

Tribuna: E sobre o governo estadual. O que o senhor acha que mudou, após a eleição?
Ailton: Nada! É uma repetição, porque existem estilos às vezes distintos, mas o governo do Pros continua, né? Tanto que eles têm o Arialdo Pinho [secretário de Turismo] e outros para postos chaves. Vários membros do antigo governo do Cid estão lá no governo do Camilo, com bastante influência, como a vice governadora e o presidente da Assembleia Legislativa que são do Pros”.

Tribuna: O que o senhor considera que o governo de Cid tenha deixado de bom?
Ailton: O legado positivo é de que nós precisamos nos livrar de qualquer tipo de oligarquia. Tanto que muita gente votou no Eunício porque queria derrubar a oligarquia Ferreira Gomes. E eu disse: ‘Olha, não adianta, porque você vai tirar uma oligarquia e colocar outra no poder’. Eu acho que a grande contribuição [de Cid] é a gente conseguir manter a rejeição a qualquer tipo de oligarquia.

Tribuna: Caso tivesse sido eleito, quais as primeiras medidas que o senhor tomaria?
Ailton: Algumas questões simbólicas: Regulamentação do Parque do Cocó, acho que seria medida urgente; Fim da isenção de impostos para agrotóxico, que são verdadeiros venenos e hoje tem isenção; Compromisso com os 5% para a educação pública superior, eu sei o quanto as universidades são fundamentais para gerar desenvolvimento no Ceará; Forte investimento em educação e saúde, como fazer com que o orçamento apertado priorizasse essas áreas. Essas são as prioridades.

Tribuna: O senhor vai se candidatar para prefeito de Fortaleza em 2016?
Ailton: A gente vai discutir isso próximo ano. Olha, temos no Brasil eleição ano sim, ano não. Você passa um ano sem eleição, no outro já tem. Então, a gente tem que aproveitar muito bem o ano que não tem eleição para fazer luta social. Isso a gente vai fazer sempre. Mas esse ano que não tem eleição, onde a atenção das pessoas não necessariamente tem que estar voltada para quem elas tem que escolher, temos que aproveitar bastante especialmente nesse momento de crise que a gente vive. A eleição que eu estou envolvido é a do Sindicato dos Bancários. A gente está tentado organizar uma chapa para agora, a eleição deve ser no começo de julho. Não dá para pensar agora em ser candidato a prefeito ou vereador.

Tribuna: Há probabilidade do candidato ser o deputado Renato Roseno?
Ailton: O Renato tem feito o mandato dele. O João [Alfredo] e o Renato têm constituído vários espaços de discussão do partido no interior, na capital de forma muito conjunta, muito combinada, junto aos movimentos sociais. Então, assim o nosso foco é na luta social. E no caso do Renato e João é de cumprir excelentes mandatos.

Tribuna: Mas o senhor sente vontade de disputar?
Ailton: A gente se coloca à disposição de uma tarefa coletiva. Eu acho que não deve ser um desejo pessoal. Mas não condeno quem tem vontade de ser. Às vezes, a pessoa quer ser vereador porque sente vontade de fazer algo que seja útil para o município, tem excelentes projetos e ideias. Mas acho que tudo passa pelo coletivo. Quando fazemos as coisas juntos, sai melhor. Quando a gente faz sozinho, cai tanto para o personalismo, que é grave na política, como também não são iniciativas que representam um conjunto maior de pessoas. Mas é claro que o pessoal quer muito que Psol tenha candidato. E o Psol vai ter candidato ou candidata!

Tribuna do Ceará entrou em contato com a assessoria de imprensa do governo estadual e federal. A gestão de Camilo Santana (PT) ressaltou que não iria se pronunciar a respeito das críticas.