Após 1 ano no programa Mais Médicos, casal de cubanos já se sente em casa no sertão do Ceará


Após 1 ano no programa Mais Médicos, casal de cubanos já se sente em casa no sertão do Ceará

Junto a outros cinco cubanos e dois brasileiros, o casal faz visitas domiciliares em Reriutaba, município que possui pouco mais de 19 mil habitantes

Por Roberta Tavares em Cotidiano

17 de setembro de 2014 às 12:00

Há 5 anos
Isidro Rosales tem ainda dois anos de trabalho em Reriutaba (FOTO: Arquivo pessoal/Isidro Rosales)

Isidro Rosales tem ainda dois anos de trabalho em Reriutaba (FOTO: Arquivo pessoal/Isidro Rosales)

Mesmo morando a 5.109 quilômetros de seu país, o médico cubano Isidro Rosales Castro, de 49 anos, já se sente em casa. Há um ano no Programa Mais Médicos, ao lado da esposa Esperanza Anabel, o médico atende moradores do município de Reriutaba, no interior do Ceará, a 309 quilômetros da capital Fortaleza.

O desembarque ocorreu em agosto de 2013. No mês seguinte, iniciaram os atendimentos. São 40 horas semanais de garantia de cobertura médica na atenção básica de um município que, até então, não contava com essa ajuda. Enquanto Isidro trabalha no posto de saúde na zona rural da cidade, Esperanza atende em unidade na área urbana, de segunda a sexta-feira, oito horas por dia. E o carinho pelos pacientes é visível.

“Passar esse primeiro ano no Ceará foi muito bom, pois tive a oportunidade de trabalhar com uma equipe competente e com uma população que merece as melhores atenções, por sua nobreza, pelas qualidades que tem como ser humano e por seu acolhimento comigo”, comemora o médico.

Junto a outros cinco cubanos e dois médicos brasileiros, o casal realiza visitas domiciliares a grupos prioritários, como idosos, acamados e incapacitados, no município que possui 19.455 habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Minha esposa e eu já estamos acostumados a viver entre pessoas humildes, embora com muitas bondades e calor humano”, reflete.

As maiores dificuldades foram a chegada ao município, a saudade da família e o aprendizado de um idioma diferente. Sem contar com a alimentação, que não tinha nenhuma semelhança com as refeições de Cuba. “Até agora, entendo bem as expressões cearenses, mas custou-me trabalho no início, foi uma das coisas mais difíceis pelas quais tive que passar. Quando não entendo uma coisa, me esforço e tento aprender rápido. A barreira da língua já não é um problema para mim, consigo me comunicar com a população”.

Esperanza tenta aprender a cozinhar comidas típicas do Ceará (FOTO: Arquivo pessoal/Isidro Rosales)

Esperanza tenta aprender a cozinhar comidas típicas do Ceará (FOTO: Arquivo pessoal/Isidro Rosales)

Nos momentos de descanso, o casal volta para a residência, que – segundo Isidro – tem todas as condições garantidas pela prefeitura e pela Secretaria de Saúde do Estado. O cubano gosta de passear e visitar outras cidades, como Fortaleza, Sobral, Camocim, Canindé e Pedra Branca. Faz ainda reuniões entre os colegas, toma banho de piscina e desfruta das paisagens e da natureza. “Visitamos os amigos para ocupar o tempo perdido, diminuir a saudade da família e manter nossos costumes, culinárias e identidade cultural”, explica.

Agora, não escapam de convites para compartilhar um churrasco, bife à parmegiana ou feijoada. Isidro adora. O carinho dos moradores parece ser um reflexo do atendimento e da humildade do casal, que ainda teve de se adaptar ao calor do interior do Ceará. O calor humano da terra ajudou, superando as temperaturas quentes do Sertão. “Já estou acostumado, e não é mais um problema para mim o calor de cá”, conta. Entretanto, ainda prevalece a saudade dos familiares, apesar de Isidro possuir mecanismos para manter a comunicação com os parentes.

Mesmo com a falta que a família faz, o médico não pensa em desistir do trabalho em Reriutaba. Nenhum dos colegas desistiu, e a ideia é seguir até o fim do contrato do Mais Médicos, daqui a dois anos. Segundo a Brigada Médica Cubana no Brasil, os estrangeiros que menos abandonaram a missão até o momento foram os cubanos, com 0,2% de desistências. “O povo brasileiro é muito acolhedor, embora possam existir exceções. Sempre há quem não gosta de nossa presença; mas, para mim, o mais importante é a compreensão daqueles que precisam da atenção médica e aqueles que, sem ter preconceito ou traumas políticos, reconhecem o que estamos fazendo neste país”, dá a dica.

Agressão na escola

Logo que chegaram à capital, os médicos fizeram parte do grupo agredido verbalmente e chamado de “escravo” por profissionais cearenses, na Escola de Saúde Pública de Fortaleza. “Fomos do grupo que, com muita dor, sofreu agressão na escola, mas com muito amor demonstrado pelo povo e autoridades de governo e de saúde, apagamos rapidamente esse impacto negativo”, relata Isidro.

O acolhimento dos que realmente precisavam da presença do casal foi tão grande que prevaleceu o amor, acima da segregação. “Fomos escravos sim, porém escravos da saúde. Por ela, faremos qualquer sacrifício, e aqui estamos, trabalhando para este povo que já é nosso também”.

Mais Médicos

Por meio do programa, foi ampliado em 1.088 o número de médicos atuando na atenção básica de 160 municípios do Ceará e um distrito de saúde indígena. Entre os profissionais em atividade, 697 são formados no exterior, a maioria vem de Cuba e é recrutada numa cooperação com a Organização PanNamericana (Opas). Eles representam 80% dos 14.400 médicos contratados para atuar no programa. “A implantação foi bastante rápida. Poucas experiências conseguiram o aporte de 12 mil médicos estrangeiros no período de um ano”, explica Felipe Proenço, coordenador nacional do Mais Médicos.

Um ano do programa Mais Médicos no Sertão
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Um ano do programa Mais Médicos no Sertão

O casal trabalha oito horas por dia, totalizando 40 horas semanais de atenção às comunidades da cidade (FOTO: Arquivo pessoal/Isidro Rosales)

Um ano do programa Mais Médicos no Sertão
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O casal trabalha oito horas por dia, totalizando 40 horas semanais de atenção às comunidades da cidade (FOTO: Arquivo pessoal/Isidro Rosales)

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O casal trabalha oito horas por dia, totalizando 40 horas semanais de atenção às comunidades da cidade (FOTO: Arquivo pessoal/Isidro Rosales)

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O casal trabalha oito horas por dia, totalizando 40 horas semanais de atenção às comunidades da cidade (FOTO: Arquivo pessoal/Isidro Rosales)

Um ano do programa Mais Médicos no Sertão
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Um ano do programa Mais Médicos no Sertão

O casal trabalha oito horas por dia, totalizando 40 horas semanais de atenção às comunidades da cidade (FOTO: Arquivo pessoal/Isidro Rosales)

Os profissionais recebem bolsa de formação e ajuda de custo pago pelo Ministério da Saúde. As cidades ficam responsáveis por garantir alimentação e moradia. Os médicos formados no exterior têm o registro profissional emitido pelo Ministério da Saúde, que lhes dará o direito de atuar exclusivamente na atenção básica. Cada estrangeiro ganha US$ 4.200 por um contrato de três anos, embora os cubanos não recebam seu salário diretamente, mas do governo de Havana, que lhes repassa apenas US$ 1.245, de acordo com o Ministério da Saúde do Brasil.

Segundo o coordenador, com a implantação do programa, o aumento do número de consultas nos municípios diminuiu os encaminhamentos aos hospitais, e o atendimento chegou a 100% em todo o país. “As pessoas estão satisfeitas com os profissionais do Mais Médicos, deram notas de 8 a 10 ao atendimento”, comemora.

Isidro ainda tem dois anos para tentar transformar a realidade do município através do amor pela medicina. O cubano planeja voltar definitivamente ao país de origem logo que o contrato chegar ao fim, para acalmar o coração e matar a saudade dos filhos, com a certeza de que todas as renúncias valeram a pena. “Os pacientes e moradores do município nos querem e nos respeitam pelo que fazemos para o bem-estar deles. São educados, acolhedores e têm qualidades humanas excepcionais. Mesmo assim, não esqueço o meu país, tão apreciado por mim. Minha pátria querida, em breve estarei de volta”, conclui.

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Após 1 ano no programa Mais Médicos, casal de cubanos já se sente em casa no sertão do Ceará

Junto a outros cinco cubanos e dois brasileiros, o casal faz visitas domiciliares em Reriutaba, município que possui pouco mais de 19 mil habitantes

Por Roberta Tavares em Cotidiano

17 de setembro de 2014 às 12:00

Há 5 anos
Isidro Rosales tem ainda dois anos de trabalho em Reriutaba (FOTO: Arquivo pessoal/Isidro Rosales)

Isidro Rosales tem ainda dois anos de trabalho em Reriutaba (FOTO: Arquivo pessoal/Isidro Rosales)

Mesmo morando a 5.109 quilômetros de seu país, o médico cubano Isidro Rosales Castro, de 49 anos, já se sente em casa. Há um ano no Programa Mais Médicos, ao lado da esposa Esperanza Anabel, o médico atende moradores do município de Reriutaba, no interior do Ceará, a 309 quilômetros da capital Fortaleza.

O desembarque ocorreu em agosto de 2013. No mês seguinte, iniciaram os atendimentos. São 40 horas semanais de garantia de cobertura médica na atenção básica de um município que, até então, não contava com essa ajuda. Enquanto Isidro trabalha no posto de saúde na zona rural da cidade, Esperanza atende em unidade na área urbana, de segunda a sexta-feira, oito horas por dia. E o carinho pelos pacientes é visível.

“Passar esse primeiro ano no Ceará foi muito bom, pois tive a oportunidade de trabalhar com uma equipe competente e com uma população que merece as melhores atenções, por sua nobreza, pelas qualidades que tem como ser humano e por seu acolhimento comigo”, comemora o médico.

Junto a outros cinco cubanos e dois médicos brasileiros, o casal realiza visitas domiciliares a grupos prioritários, como idosos, acamados e incapacitados, no município que possui 19.455 habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Minha esposa e eu já estamos acostumados a viver entre pessoas humildes, embora com muitas bondades e calor humano”, reflete.

As maiores dificuldades foram a chegada ao município, a saudade da família e o aprendizado de um idioma diferente. Sem contar com a alimentação, que não tinha nenhuma semelhança com as refeições de Cuba. “Até agora, entendo bem as expressões cearenses, mas custou-me trabalho no início, foi uma das coisas mais difíceis pelas quais tive que passar. Quando não entendo uma coisa, me esforço e tento aprender rápido. A barreira da língua já não é um problema para mim, consigo me comunicar com a população”.

Esperanza tenta aprender a cozinhar comidas típicas do Ceará (FOTO: Arquivo pessoal/Isidro Rosales)

Esperanza tenta aprender a cozinhar comidas típicas do Ceará (FOTO: Arquivo pessoal/Isidro Rosales)

Nos momentos de descanso, o casal volta para a residência, que – segundo Isidro – tem todas as condições garantidas pela prefeitura e pela Secretaria de Saúde do Estado. O cubano gosta de passear e visitar outras cidades, como Fortaleza, Sobral, Camocim, Canindé e Pedra Branca. Faz ainda reuniões entre os colegas, toma banho de piscina e desfruta das paisagens e da natureza. “Visitamos os amigos para ocupar o tempo perdido, diminuir a saudade da família e manter nossos costumes, culinárias e identidade cultural”, explica.

Agora, não escapam de convites para compartilhar um churrasco, bife à parmegiana ou feijoada. Isidro adora. O carinho dos moradores parece ser um reflexo do atendimento e da humildade do casal, que ainda teve de se adaptar ao calor do interior do Ceará. O calor humano da terra ajudou, superando as temperaturas quentes do Sertão. “Já estou acostumado, e não é mais um problema para mim o calor de cá”, conta. Entretanto, ainda prevalece a saudade dos familiares, apesar de Isidro possuir mecanismos para manter a comunicação com os parentes.

Mesmo com a falta que a família faz, o médico não pensa em desistir do trabalho em Reriutaba. Nenhum dos colegas desistiu, e a ideia é seguir até o fim do contrato do Mais Médicos, daqui a dois anos. Segundo a Brigada Médica Cubana no Brasil, os estrangeiros que menos abandonaram a missão até o momento foram os cubanos, com 0,2% de desistências. “O povo brasileiro é muito acolhedor, embora possam existir exceções. Sempre há quem não gosta de nossa presença; mas, para mim, o mais importante é a compreensão daqueles que precisam da atenção médica e aqueles que, sem ter preconceito ou traumas políticos, reconhecem o que estamos fazendo neste país”, dá a dica.

Agressão na escola

Logo que chegaram à capital, os médicos fizeram parte do grupo agredido verbalmente e chamado de “escravo” por profissionais cearenses, na Escola de Saúde Pública de Fortaleza. “Fomos do grupo que, com muita dor, sofreu agressão na escola, mas com muito amor demonstrado pelo povo e autoridades de governo e de saúde, apagamos rapidamente esse impacto negativo”, relata Isidro.

O acolhimento dos que realmente precisavam da presença do casal foi tão grande que prevaleceu o amor, acima da segregação. “Fomos escravos sim, porém escravos da saúde. Por ela, faremos qualquer sacrifício, e aqui estamos, trabalhando para este povo que já é nosso também”.

Mais Médicos

Por meio do programa, foi ampliado em 1.088 o número de médicos atuando na atenção básica de 160 municípios do Ceará e um distrito de saúde indígena. Entre os profissionais em atividade, 697 são formados no exterior, a maioria vem de Cuba e é recrutada numa cooperação com a Organização PanNamericana (Opas). Eles representam 80% dos 14.400 médicos contratados para atuar no programa. “A implantação foi bastante rápida. Poucas experiências conseguiram o aporte de 12 mil médicos estrangeiros no período de um ano”, explica Felipe Proenço, coordenador nacional do Mais Médicos.

Um ano do programa Mais Médicos no Sertão
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O casal trabalha oito horas por dia, totalizando 40 horas semanais de atenção às comunidades da cidade (FOTO: Arquivo pessoal/Isidro Rosales)

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O casal trabalha oito horas por dia, totalizando 40 horas semanais de atenção às comunidades da cidade (FOTO: Arquivo pessoal/Isidro Rosales)

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O casal trabalha oito horas por dia, totalizando 40 horas semanais de atenção às comunidades da cidade (FOTO: Arquivo pessoal/Isidro Rosales)

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O casal trabalha oito horas por dia, totalizando 40 horas semanais de atenção às comunidades da cidade (FOTO: Arquivo pessoal/Isidro Rosales)

Um ano do programa Mais Médicos no Sertão
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Um ano do programa Mais Médicos no Sertão

O casal trabalha oito horas por dia, totalizando 40 horas semanais de atenção às comunidades da cidade (FOTO: Arquivo pessoal/Isidro Rosales)

Os profissionais recebem bolsa de formação e ajuda de custo pago pelo Ministério da Saúde. As cidades ficam responsáveis por garantir alimentação e moradia. Os médicos formados no exterior têm o registro profissional emitido pelo Ministério da Saúde, que lhes dará o direito de atuar exclusivamente na atenção básica. Cada estrangeiro ganha US$ 4.200 por um contrato de três anos, embora os cubanos não recebam seu salário diretamente, mas do governo de Havana, que lhes repassa apenas US$ 1.245, de acordo com o Ministério da Saúde do Brasil.

Segundo o coordenador, com a implantação do programa, o aumento do número de consultas nos municípios diminuiu os encaminhamentos aos hospitais, e o atendimento chegou a 100% em todo o país. “As pessoas estão satisfeitas com os profissionais do Mais Médicos, deram notas de 8 a 10 ao atendimento”, comemora.

Isidro ainda tem dois anos para tentar transformar a realidade do município através do amor pela medicina. O cubano planeja voltar definitivamente ao país de origem logo que o contrato chegar ao fim, para acalmar o coração e matar a saudade dos filhos, com a certeza de que todas as renúncias valeram a pena. “Os pacientes e moradores do município nos querem e nos respeitam pelo que fazemos para o bem-estar deles. São educados, acolhedores e têm qualidades humanas excepcionais. Mesmo assim, não esqueço o meu país, tão apreciado por mim. Minha pátria querida, em breve estarei de volta”, conclui.