Policial civil e melhor amiga de Dandara escreve livro sobre a história da travesti

RELATO PESSOAL

Policial civil e melhor amiga de Dandara escreve livro sobre a história da travesti

A inspetora e amiga Vitória Holanda conta a trajetória de Dandara dos Santos desde a infância em livro que deve ser lançado em agosto

Por Jéssica Welma em Cotidiano

20 de fevereiro de 2019 às 07:00

Há 4 meses
Foto de Dandara dos Santos tirada por Vitória Holanda durante comemoração. (Foto: Arquivo pessoal)

Foto de Dandara dos Santos tirada por Vitória Holanda durante comemoração. (Foto: Arquivo pessoal)

A história de vida da travesti Dandara dos Santos, morta de forma brutal em 15 de fevereiro de 2017, vai ganhar as páginas de um livro, intitulado “Casulo Dandara”. A autora é a policial civil e amiga de Dandara Vitória Holanda, inspetora que atuou na investigação do crime de ódio. E que, principalmente, compartilhou a vida de Dandara desde os seis anos de idade.

“Quando aconteceu o homicídio, passou todo um filme na minha cabeça do que a gente viveu. Para quem eu contava a vida dela, as pessoas diziam que dava um filme. Ela já foi para São Paulo, foi aliciada para a prostituição, pegou aids, foi estuprada, mas era alegre, feliz, gostava de brincar, não tinha tristeza alguma apesar de tanto problema”, lembra Vitória.

Os comentários falsos e maldosos na internet que diziam que Dandara tinha envolvimento com facções criminosas ou que vendia drogas foram o estopim para a policial decidir que precisava contar quem era Dandara.

O livro foi escrito entre outubro de 2018 e janeiro deste ano. Atualmente, está em processo de revisão e correção e deve ser lançado em agosto, durante a Bienal do Livro do Ceará.

O crime

Dandara dos Santos foi espancada, torturada, apedrejada e baleada em um crime brutal que foi filmado e compartilhado nas redes sociais. O suplício escancarado na internet gerou comoção e repercussão internacional e tornou explícita a violência contra travestis e homossexuais.

No livro, Vitória fala dos detalhes da investigação do homicídio, da qual participou desde o primeiro momento. “O homicídio foi dia 15 de fevereiro, o vídeo me foi enviado no dia 17 de fevereiro. Para pessoa que me enviou, eu disse: ‘não mande para ninguém, porque agora eu vou começar a investigar'”, relembra Vitória.

Foram identificados 10 dos 11 acusados. No dia 23 de fevereiro foi protocolado o pedido de prisão. Só no dia 4 de março o vídeo viralizou nas redes e o caso tornou-se público. “As pessoas pensam que (os criminosos) só foram presos porque viralizou, mas nós já sabíamos, já investigávamos”, relembra Vitória. A repercussão, ao mesmo tempo que foi importante para expor o crime de ódio, foi negativa para a investigação.

“Até então ela não era a Dandara dos Santos, esse nome nunca existiu. Ela era Dandara Kettley. Foi um nome, de tudo que vi, criado para respeitar o gênero ou coisa assim. O nome dela era Antônio Cleilson Ferreira Vasconcelos, não tinha esse sobrenome”, conta a amiga.

A inspetora ressalta que, na escrita do livro, há uma mistura entre a profissional e a amiga de infância. “O mais difícil foi segurar minha emoção. Fui revivendo minha infância, fui colocando as músicas para organizar as ideias… Era muita coisa, muita informação. Foi um trabalho pessoal de transformação minha também. Não foi difícil, foi surpreendente”, afirma.

No livro, há relatos de outras pessoas que conviveram com Dandara ao longo da vida. “Dandara era uma cigana, ela morou até os 20 anos praticamente em casa. Depois ela foi para São Paulo, foi para o Rio de Janeiro… Todas essas pessoas envolvidas eu conhecia, algumas são minhas amigas até hoje. Outras ficaram sabendo da história e entraram em contato comigo para participar, pessoas que moram fora do Brasil”, destaca Vitória.

Vitória foi chefe de investigação na região do Bom Jardim durante seis anos e conhecer a região e vítima foram fundamentais na prisão dos criminosos. “Era uma pessoa minha que eu amava que tinha sido assassinada e eu queria investigar como vários outros casos que eu investiguei no Bom Jardim. O Bom Jardim já fazia parte da minha vida, a comunidade me conhecia, me ajudou, me ligou, vigiou os infratores…”, pontua a policial.

O livro narra a trajetória de Dandara desde a infância até sua morte e a repercussão internacional do crime. A emoção pela perda de uma amiga e o compromisso com a profissão colocaram a inspetora e autora da obra e uma posição singular e desafiadora. Parte dessa experiência se imortaliza e repercute neste livro.

LGBTfobia

A Assembleia Legislativa do Ceará instituiu o dia 15 de fevereiro, data da morte de Dandara, como o Dia Estadual do Combate a Transfobia, constando no calendário oficial do estado. Em 2018, foram julgados cinco dos assassinos de Dandara. Pela primeira vez na Justiça brasileira, um juiz menciona, na sentença, motivo torpe, nominalmente citado como transfobia, como qualificante do homicídio.

Em 2019, o Supremo Tribunal Federal discute a criminalização da homofobia e da transfobia. O julgamento começou na quarta-feira (13), mas foi suspenso e será retomado na quarta-feira (20).

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Policial civil e melhor amiga de Dandara escreve livro sobre a história da travesti

A inspetora e amiga Vitória Holanda conta a trajetória de Dandara dos Santos desde a infância em livro que deve ser lançado em agosto

Por Jéssica Welma em Cotidiano

20 de fevereiro de 2019 às 07:00

Há 4 meses
Foto de Dandara dos Santos tirada por Vitória Holanda durante comemoração. (Foto: Arquivo pessoal)

Foto de Dandara dos Santos tirada por Vitória Holanda durante comemoração. (Foto: Arquivo pessoal)

A história de vida da travesti Dandara dos Santos, morta de forma brutal em 15 de fevereiro de 2017, vai ganhar as páginas de um livro, intitulado “Casulo Dandara”. A autora é a policial civil e amiga de Dandara Vitória Holanda, inspetora que atuou na investigação do crime de ódio. E que, principalmente, compartilhou a vida de Dandara desde os seis anos de idade.

“Quando aconteceu o homicídio, passou todo um filme na minha cabeça do que a gente viveu. Para quem eu contava a vida dela, as pessoas diziam que dava um filme. Ela já foi para São Paulo, foi aliciada para a prostituição, pegou aids, foi estuprada, mas era alegre, feliz, gostava de brincar, não tinha tristeza alguma apesar de tanto problema”, lembra Vitória.

Os comentários falsos e maldosos na internet que diziam que Dandara tinha envolvimento com facções criminosas ou que vendia drogas foram o estopim para a policial decidir que precisava contar quem era Dandara.

O livro foi escrito entre outubro de 2018 e janeiro deste ano. Atualmente, está em processo de revisão e correção e deve ser lançado em agosto, durante a Bienal do Livro do Ceará.

O crime

Dandara dos Santos foi espancada, torturada, apedrejada e baleada em um crime brutal que foi filmado e compartilhado nas redes sociais. O suplício escancarado na internet gerou comoção e repercussão internacional e tornou explícita a violência contra travestis e homossexuais.

No livro, Vitória fala dos detalhes da investigação do homicídio, da qual participou desde o primeiro momento. “O homicídio foi dia 15 de fevereiro, o vídeo me foi enviado no dia 17 de fevereiro. Para pessoa que me enviou, eu disse: ‘não mande para ninguém, porque agora eu vou começar a investigar'”, relembra Vitória.

Foram identificados 10 dos 11 acusados. No dia 23 de fevereiro foi protocolado o pedido de prisão. Só no dia 4 de março o vídeo viralizou nas redes e o caso tornou-se público. “As pessoas pensam que (os criminosos) só foram presos porque viralizou, mas nós já sabíamos, já investigávamos”, relembra Vitória. A repercussão, ao mesmo tempo que foi importante para expor o crime de ódio, foi negativa para a investigação.

“Até então ela não era a Dandara dos Santos, esse nome nunca existiu. Ela era Dandara Kettley. Foi um nome, de tudo que vi, criado para respeitar o gênero ou coisa assim. O nome dela era Antônio Cleilson Ferreira Vasconcelos, não tinha esse sobrenome”, conta a amiga.

A inspetora ressalta que, na escrita do livro, há uma mistura entre a profissional e a amiga de infância. “O mais difícil foi segurar minha emoção. Fui revivendo minha infância, fui colocando as músicas para organizar as ideias… Era muita coisa, muita informação. Foi um trabalho pessoal de transformação minha também. Não foi difícil, foi surpreendente”, afirma.

No livro, há relatos de outras pessoas que conviveram com Dandara ao longo da vida. “Dandara era uma cigana, ela morou até os 20 anos praticamente em casa. Depois ela foi para São Paulo, foi para o Rio de Janeiro… Todas essas pessoas envolvidas eu conhecia, algumas são minhas amigas até hoje. Outras ficaram sabendo da história e entraram em contato comigo para participar, pessoas que moram fora do Brasil”, destaca Vitória.

Vitória foi chefe de investigação na região do Bom Jardim durante seis anos e conhecer a região e vítima foram fundamentais na prisão dos criminosos. “Era uma pessoa minha que eu amava que tinha sido assassinada e eu queria investigar como vários outros casos que eu investiguei no Bom Jardim. O Bom Jardim já fazia parte da minha vida, a comunidade me conhecia, me ajudou, me ligou, vigiou os infratores…”, pontua a policial.

O livro narra a trajetória de Dandara desde a infância até sua morte e a repercussão internacional do crime. A emoção pela perda de uma amiga e o compromisso com a profissão colocaram a inspetora e autora da obra e uma posição singular e desafiadora. Parte dessa experiência se imortaliza e repercute neste livro.

LGBTfobia

A Assembleia Legislativa do Ceará instituiu o dia 15 de fevereiro, data da morte de Dandara, como o Dia Estadual do Combate a Transfobia, constando no calendário oficial do estado. Em 2018, foram julgados cinco dos assassinos de Dandara. Pela primeira vez na Justiça brasileira, um juiz menciona, na sentença, motivo torpe, nominalmente citado como transfobia, como qualificante do homicídio.

Em 2019, o Supremo Tribunal Federal discute a criminalização da homofobia e da transfobia. O julgamento começou na quarta-feira (13), mas foi suspenso e será retomado na quarta-feira (20).