Com 80 anos de idade e 40 de trabalho na Unifor, livreiro já ajudou gerações de universitários


Com 80 anos de idade e 40 de trabalho na Unifor, livreiro já ajudou gerações de universitários

Gabriel José da Costa começou vendendo livros na calçada da universidade, em 1975. Agora, já é amigo dos alunos e recebe até agradecimentos por ajudá-los a se formar

Por Roberta Tavares em Educação

10 de dezembro de 2014 às 10:00

Há 5 anos
Seu Gabriel constantemente recebe elogios e retribuições de carinho dos alunos (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

Seu Gabriel constantemente recebe elogios e retribuições de carinho dos alunos (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

Ele está longe de ser bem de vida, em sentidos materiais. Mas não duvide ser, talvez, o senhor mais generoso entre todos que você possa conhecer. Não ganha o mais alto dos salários. Garante, porém, ter a melhor recompensa que alguém possa dar. “Um dia um rapaz voltou me pedindo um abraço, dizendo que só tinha se formado porque eu emprestava os livros”, conta.

Quis o destino – e seus pais – que ele se chamasse Gabriel, como o anjo. Gabriel José da Costa, pernambucano, ostenta aos 80 anos a alcunha de Livreiro Gabriel. Como veio parar no Ceará? Mais uma obra do destino. “Eu tinha uma biblioteca gigantesca, com 32 mil livros. Fui preso, e o Exército levou toda a minha biblioteca. Era para eu ir ao Maranhão, mas perdi o voo e acabei chegando ao Ceará”.

A fuga da repressão política à época levou Gabriel ao centro da cidade de Fortaleza. A única forma de se manter na Terra do Sol seria vendendo livros. E foi o que fez. As vendas iniciaram numa pequena livraria que, em pouco tempo, chegou a se transformar em um ponto de encontro dos intelectuais cearenses. Em 1975, expandiu a comercialização para a calçada da Universidade de Fortaleza (Unifor), cuja construção se mistura à história do personagem. “Todos os dias eu vinha de manhã, de ônibus, ver as obras da Unifor, porque fiquei impressionado em saber que um industrial estava construindo uma universidade”, lembra. “Logo que começaram as primeiras aulas, montei uma mesinha em frente à Reitoria, do lado de fora, e comecei a vender meus livros”, completa.

Foram quatro anos de vendas, embaixo de sol e de chuva. O esforço era apenas pelo simples prazer de estar em um ambiente repleto de jovens e de conhecimento. Até que um dia foi convidado pelo próprio fundador da universidade, Edson Queiroz, a entrar e escolher uma sala para comercializar seus livros. E já se foram 40 anos dentro do ambiente estudantil. Vende não apenas à vista ou financiado, como também empresta livros aos alunos. “Muitos pagam a mensalidade da faculdade com sacrifício e não têm dinheiro para comprar os exemplares. Eu empresto sem nenhum problema, estou aqui para ajudar”.

Começou se dedicando à área de Direito, agora sua livraria já contém livros de Administração, Contabilidade e Enfermagem. A primeira pergunta feita a um estudante que não conhece é o semestre que cursa, para ser justo e auxiliar somente com livros úteis. “Aqui são 15 estantes, com uns 30 livros em cada uma das sete prateleiras. Conhecendo o curso e a disciplina do aluno, não vendo nada a mais do que ele vai precisar”. O vínculo com os estudantes é tão grande, que o pernambucano sai da livraria, deixa aberta e ninguém mexe em nada, ele assegura. “Saio para lanchar e deixo a porta encostada. Nunca sumiu nenhum livro nestes anos todos. Alguns deixam bilhetes: ‘Seu Gabriel, levei livro tal, aqui está meu nome e telefone’. Nunca ninguém me enganou”, comemora.

O pernambucano, que cursou faculdade de História e Geografia (mas não se formou), trabalha sozinho, das 8h à meia-noite na livraria, diariamente, garantindo que só vai embora quando o último aluno sai da universidade. Quando tem oportunidade, vai à livraria até aos sábados e domingos. “Sempre aparece um problema. Algum aluno que perdeu o livro e vai fazer prova no dia seguinte, e eu preciso auxiliar”. Gabriel trabalha para que nenhum estudante fique desamparado, tratando cada um como membro da família, mesmo tendo esposa, sete filhos, 17 netos e dois bisnetos.

Aos 80 anos, livreiro comemora receptividade da 'alunada'
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Aos 80 anos, livreiro comemora receptividade da ‘alunada’

“Homem feliz não é o que tem dinheiro, é o que tem amigos”, conta (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

Seu Gabriel troca confidências e experiências com estudantes
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Seu Gabriel troca confidências e experiências com estudantes

Ruan Soares, de 20 anos, é estudante de Direito. “Esse é meu amigão”, diz o livreiro sobre o aluno do 6º semestre do curso (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

Em novembro, o livreiro comemorou 80 anos
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Em novembro, o livreiro comemorou 80 anos

“A alunada disse que estou ameaçando chegar aos 100 anos” (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

A livraria está localizada ao próximo ao bloco de Direito
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A livraria está localizada ao próximo ao bloco de Direito

Além de livros de Direito, livraria já disponibiliza exemplares para os cursos de Administração, Contabilidade e Enfermagem (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

Gabriel está há 40 anos no campus da Unifor
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Gabriel está há 40 anos no campus da Unifor

Ele vende livros, mas empresta aos estudantes que não têm condições de comprar (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

Seu Gabriel recebe elogios do professor Luciano Prado
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Seu Gabriel recebe elogios do professor Luciano Prado

“Eu era estudante e agora sou professor da Unifor graças aos livros que ele me emprestava. Antes, eu tinha muita dificuldade financeira, e sou grato por tudo o que ele fez por mim”, revelou Luciano (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

Conselhos

A experiência acumulada ao longo dos 80 anos dá ao livreiro créditos para distribuir conselhos a quem procura. Não há desespero de aluno que supere a dose de calmaria oferecida por Gabriel. “A minha livraria se tornou um ponto de encontro da alunada e de troca de confidências. Esses jovens transformam tudo num bicho de sete cabeças. Um dia, um estudante chegou dizendo: ‘Seu Gabriel, eu estou perdido, como vou ler isso tudo durante o curso?’; eu digo: ‘calma, você vai ler um em cada ano, dá tempo”.

Se todos os conselhos fossem vendidos e os fiados que ainda lhe devem, pagos, Gabriel talvez nem precisasse mais trabalhar. Acontece que ele já está rico do que sempre sonhou ter: a amizade, o reconhecimento e o sucesso dos alunos que o procuram e depois retornam para lhe agradecer das conquistas. Já teve até encontros de pais e filhos que se formaram com a ajuda de Gabriel. É o combustível do pernambucano que alcançou os 80 anos em novembro, com muita vontade de viver. “A alunada disse que estou ameaçando chegar aos 100 anos”.

Tanta riqueza e aprendizado serviram de inspiração para Gabriel. O convívio com as obras acabou levando o livreiro a escrever as suas, como o “30 cantos – de amor e morte para a bem-amada”, no qual narra, em forma de poesia, sua primeira história de amor, com Margarida, a quem chama carinhosamente de Dida, ainda nos anos 1950. E ele promete escrever uma biografia. Talvez esse seja o exemplar que falte na sua tão querida livraria.

“Eu sempre digo que o homem feliz não é aquele que tem dinheiro, o homem feliz é aquele que tem amigos. Nesses 40 anos na universidade, devo ter feito mais de 40 mil amigos”. O destino antes cruel, que o tirou 32 mil livros, finalmente traz a recompensa. Aquele voo perdido para o Maranhão não seria obra do acaso. Seria mais uma obra marcante na vida de Seu Gabriel.

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Com 80 anos de idade e 40 de trabalho na Unifor, livreiro já ajudou gerações de universitários

Gabriel José da Costa começou vendendo livros na calçada da universidade, em 1975. Agora, já é amigo dos alunos e recebe até agradecimentos por ajudá-los a se formar

Por Roberta Tavares em Educação

10 de dezembro de 2014 às 10:00

Há 5 anos
Seu Gabriel constantemente recebe elogios e retribuições de carinho dos alunos (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

Seu Gabriel constantemente recebe elogios e retribuições de carinho dos alunos (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

Ele está longe de ser bem de vida, em sentidos materiais. Mas não duvide ser, talvez, o senhor mais generoso entre todos que você possa conhecer. Não ganha o mais alto dos salários. Garante, porém, ter a melhor recompensa que alguém possa dar. “Um dia um rapaz voltou me pedindo um abraço, dizendo que só tinha se formado porque eu emprestava os livros”, conta.

Quis o destino – e seus pais – que ele se chamasse Gabriel, como o anjo. Gabriel José da Costa, pernambucano, ostenta aos 80 anos a alcunha de Livreiro Gabriel. Como veio parar no Ceará? Mais uma obra do destino. “Eu tinha uma biblioteca gigantesca, com 32 mil livros. Fui preso, e o Exército levou toda a minha biblioteca. Era para eu ir ao Maranhão, mas perdi o voo e acabei chegando ao Ceará”.

A fuga da repressão política à época levou Gabriel ao centro da cidade de Fortaleza. A única forma de se manter na Terra do Sol seria vendendo livros. E foi o que fez. As vendas iniciaram numa pequena livraria que, em pouco tempo, chegou a se transformar em um ponto de encontro dos intelectuais cearenses. Em 1975, expandiu a comercialização para a calçada da Universidade de Fortaleza (Unifor), cuja construção se mistura à história do personagem. “Todos os dias eu vinha de manhã, de ônibus, ver as obras da Unifor, porque fiquei impressionado em saber que um industrial estava construindo uma universidade”, lembra. “Logo que começaram as primeiras aulas, montei uma mesinha em frente à Reitoria, do lado de fora, e comecei a vender meus livros”, completa.

Foram quatro anos de vendas, embaixo de sol e de chuva. O esforço era apenas pelo simples prazer de estar em um ambiente repleto de jovens e de conhecimento. Até que um dia foi convidado pelo próprio fundador da universidade, Edson Queiroz, a entrar e escolher uma sala para comercializar seus livros. E já se foram 40 anos dentro do ambiente estudantil. Vende não apenas à vista ou financiado, como também empresta livros aos alunos. “Muitos pagam a mensalidade da faculdade com sacrifício e não têm dinheiro para comprar os exemplares. Eu empresto sem nenhum problema, estou aqui para ajudar”.

Começou se dedicando à área de Direito, agora sua livraria já contém livros de Administração, Contabilidade e Enfermagem. A primeira pergunta feita a um estudante que não conhece é o semestre que cursa, para ser justo e auxiliar somente com livros úteis. “Aqui são 15 estantes, com uns 30 livros em cada uma das sete prateleiras. Conhecendo o curso e a disciplina do aluno, não vendo nada a mais do que ele vai precisar”. O vínculo com os estudantes é tão grande, que o pernambucano sai da livraria, deixa aberta e ninguém mexe em nada, ele assegura. “Saio para lanchar e deixo a porta encostada. Nunca sumiu nenhum livro nestes anos todos. Alguns deixam bilhetes: ‘Seu Gabriel, levei livro tal, aqui está meu nome e telefone’. Nunca ninguém me enganou”, comemora.

O pernambucano, que cursou faculdade de História e Geografia (mas não se formou), trabalha sozinho, das 8h à meia-noite na livraria, diariamente, garantindo que só vai embora quando o último aluno sai da universidade. Quando tem oportunidade, vai à livraria até aos sábados e domingos. “Sempre aparece um problema. Algum aluno que perdeu o livro e vai fazer prova no dia seguinte, e eu preciso auxiliar”. Gabriel trabalha para que nenhum estudante fique desamparado, tratando cada um como membro da família, mesmo tendo esposa, sete filhos, 17 netos e dois bisnetos.

Aos 80 anos, livreiro comemora receptividade da 'alunada'
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Aos 80 anos, livreiro comemora receptividade da ‘alunada’

“Homem feliz não é o que tem dinheiro, é o que tem amigos”, conta (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

Seu Gabriel troca confidências e experiências com estudantes
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Seu Gabriel troca confidências e experiências com estudantes

Ruan Soares, de 20 anos, é estudante de Direito. “Esse é meu amigão”, diz o livreiro sobre o aluno do 6º semestre do curso (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

Em novembro, o livreiro comemorou 80 anos
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“A alunada disse que estou ameaçando chegar aos 100 anos” (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

A livraria está localizada ao próximo ao bloco de Direito
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A livraria está localizada ao próximo ao bloco de Direito

Além de livros de Direito, livraria já disponibiliza exemplares para os cursos de Administração, Contabilidade e Enfermagem (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

Gabriel está há 40 anos no campus da Unifor
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Gabriel está há 40 anos no campus da Unifor

Ele vende livros, mas empresta aos estudantes que não têm condições de comprar (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

Seu Gabriel recebe elogios do professor Luciano Prado
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Seu Gabriel recebe elogios do professor Luciano Prado

“Eu era estudante e agora sou professor da Unifor graças aos livros que ele me emprestava. Antes, eu tinha muita dificuldade financeira, e sou grato por tudo o que ele fez por mim”, revelou Luciano (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

Conselhos

A experiência acumulada ao longo dos 80 anos dá ao livreiro créditos para distribuir conselhos a quem procura. Não há desespero de aluno que supere a dose de calmaria oferecida por Gabriel. “A minha livraria se tornou um ponto de encontro da alunada e de troca de confidências. Esses jovens transformam tudo num bicho de sete cabeças. Um dia, um estudante chegou dizendo: ‘Seu Gabriel, eu estou perdido, como vou ler isso tudo durante o curso?’; eu digo: ‘calma, você vai ler um em cada ano, dá tempo”.

Se todos os conselhos fossem vendidos e os fiados que ainda lhe devem, pagos, Gabriel talvez nem precisasse mais trabalhar. Acontece que ele já está rico do que sempre sonhou ter: a amizade, o reconhecimento e o sucesso dos alunos que o procuram e depois retornam para lhe agradecer das conquistas. Já teve até encontros de pais e filhos que se formaram com a ajuda de Gabriel. É o combustível do pernambucano que alcançou os 80 anos em novembro, com muita vontade de viver. “A alunada disse que estou ameaçando chegar aos 100 anos”.

Tanta riqueza e aprendizado serviram de inspiração para Gabriel. O convívio com as obras acabou levando o livreiro a escrever as suas, como o “30 cantos – de amor e morte para a bem-amada”, no qual narra, em forma de poesia, sua primeira história de amor, com Margarida, a quem chama carinhosamente de Dida, ainda nos anos 1950. E ele promete escrever uma biografia. Talvez esse seja o exemplar que falte na sua tão querida livraria.

“Eu sempre digo que o homem feliz não é aquele que tem dinheiro, o homem feliz é aquele que tem amigos. Nesses 40 anos na universidade, devo ter feito mais de 40 mil amigos”. O destino antes cruel, que o tirou 32 mil livros, finalmente traz a recompensa. Aquele voo perdido para o Maranhão não seria obra do acaso. Seria mais uma obra marcante na vida de Seu Gabriel.