Estudantes do Ceará inventam sistema de reuso de água e fazem sucesso em feiras internacionais


Adolescentes criam sistema de reuso de água e fazem sucesso em feiras internacionais

Como investimento de R$ 60, alunos desenvolvem um destilador que produz até 3 litros de água em um período de 3 dias

Por Rosana Romão em Educação

11 de julho de 2014 às 12:40

Há 5 anos
Brenda Larissa, Francisco Júnior e Adelaide Laleska estudaram no IFCE durante todo o Ensino Médio. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Brenda Larissa, Francisco Júnior e Adelaide Laleska estudaram no IFCE durante todo o Ensino Médio. (FOTO: Arquivo Pessoal)

O sertão do Ceará, assim como boa parte da região Nordeste do Brasil sofre com as consequências da seca. Pensando nisso, estudantes de Juazeiro do Norte, no Ceará desenvolveram um projeto de reuso de água para amenizar a seca. Os alunos do Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) Adelaide Laleska de Oliveira, Francisco Júnior e Larissa Brenda criaram o projeto Reciclagem de águas residuárias a partir de destilador fototermofuncional com auxílio do professor de química Ricardo Fonseca.

Inspirados pela necessidade, os alunos desenvolveram uma solução para amenizar a seca com custo de produção de apenas R$ 60. Pela sua eficácia, o projeto já possui uma proposta de industrialização de autoria do empresário Gilmar Bender, proprietário da Bendermix e Tecnolity, empresas de concreto e de calçados, respectivamente.

Projeto na prática

O trabalho propõe a construção de um sistema, de baixo custo, a partir de materiais acessíveis, onde a energia motriz é advinda da energia solar, que por destilação tende a melhorar as características das águas residuárias. A construção do sistema diminui o descarte inadequado e aumenta a oferta de água limpa.

[uol video=”http://mais.uol.com.br/view/15116197″]

O sistema foi construído no solo, em profundidade adequada ao uso de instrumentos de escavação manual, e para a água não infiltrar no solo, a estrutura é impermeabilizada, com sacolas de cor preta, para melhor absorver o calor e potencializar o processo de evaporação. A água resultante foi utilizada para irrigar, por gotejamento, uma horta de alface e coentro, desenvolvida em  um canteiro com solo salinizado, pouco fértil, afim de acompanhar o desenvolvimento das sementes e possíveis mudas.

Após a utilização da água resultante do sistema na horta, constatou-se que as mudas cresceram em média 10% a mais do que o tamanho informado na embalagem das sementes, superando todas as expectativas. Concluiu-se também que a água pode ser utilizada em diversas atividades, dentre elas as agrícolas e as domésticas. O trabalho produz de 2 a 3 litros de água em um período de 3 dias.

Prêmios

Além de participar de feiras nacionais e internacionais, os jovens inventores já conquistaram 8 prêmios com o projeto Água Renovada. (FOTO: Arquivo pessoal)

Além de participar de feiras nacionais e internacionais, os jovens inventores já conquistaram 8 prêmios com o projeto Água Renovada. (FOTO: Arquivo pessoal)

A partir de apresentação de seminários e trabalhos científicos em sala de aula, os alunos se sentiram motivados a investir nos experimentos, participando de maratonas e olimpíadas de química. Com o apoio do professor, eles acreditaram e não pararam mais. Participaram da I e II Expo-MILSET Brasil, em Fortaleza, onde ganharam o credenciamento para a AMLAT, que acontecerá em Mendellin (Colômbia); da Fecitec/MA onde alcançaram o 2º lugar nas engenharias, sendo credenciados para os Semlleros em Bogotá, mas não puderam comparecer.

Também estiveram presentes na FEBRACE/USP, onde foram conquistaram seis premiações, dentre elas o prêmio Unesco de inovação, segundo lugar geral nas engenharias agrárias e o prêmio Inovação ABRIC. Nesta ocasião, o grupo também alcançou o prêmio Professor Destaque FEBRACE/USP 2014. Além destes, participaram de um concurso cultural em um programa de TV onde conquistaram o primeiro lugar e um prêmio de R$ 30 mil. Todas as participações são registradas no blog do grupo.

Como começou

“Todos os sábados o professor Ricardo realizava aulas específicas preparatórias para Olimpíadas. Em uma das aulas ele pediu pra que a gente se dividisse em grupos de três, então foi aí que começou a nossa amizade”, relembra Laleska. Foram vários trabalhos desenvolvidos, alguns não deram certo e outros adaptados. Até que Larissa Brenda assistiu um documentário na TV que abordava a sobrevivência no deserto. Em consequência disso, a estudante viu que poderia aplicar a técnica ou adaptá-la e começou a testar no quintal de casa. Depois, convidou os amigos Francisco Júnior e Adelaide Laleska de Oliveira para ajudarem. Finalmente, com a orientação do professor Ricardo Fonseca puderam elaborar o projeto e executá-lo.

No início foi difícil conciliar o tempo, pois os três alunos só tinham horário disponível no domingo à tarde. Até que devido às frequentes reuniões que o projeto exigia, eles conseguiram se organizar. Adelaide Laleska, que trabalhava e estudava teve que abandonar o emprego para se dedicar totalmente aos experimentos. “Depois dos prêmios e das participações nas feiras científicas fomos convidados a dar palestras, programas de TV e de rádio. Também precisamos aprender a escrever melhor porque para apresentar o trabalho temos que escrever relatórios com uma linguagem científica”, explica Laleska de Oliveira.

Os estudantes passaram por dificuldades pois precisam de dinheiro para  criar banner e folders que seriam utilizados na apresentação. Juntos, iam ao mercado da cidade vender salgados, pastéis e até uma almofada. A renda auxiliou com os gastos durante as viagens. Em uma das viagens, o grupo teve de dormir no aeroporto porque não tinham dinheiro para pagar mais uma diária no hotel.

Falta apoio financeiro

O biólogo e químico Ricardo Fonseca atua como professor há 34 anos e ama a carreira docente. (FOTO: Arquivo Pessoal)

O biólogo e químico Ricardo Fonseca atua como professor há 34 anos e ama a carreira docente. (FOTO: Arquivo Pessoal)

A grande dificuldade é que o trabalho dos alunos e do professor é voluntário. Os editais que surgem só beneficiam doutores, com titulação mínima. Como o professor Ricardo Fonseca está terminando o mestrado ainda não pode ser beneficiado com os editais. Dessa forma, alimentação, transporte e hospedagem ficam por conta do grupo.

Esses gastos são necessários porque para a implantação do projeto é necessário coletar dados e amostras do local, ou seja, o deslocamento até o lugar onde o experimento será implantado é imprescindível. “O IFCE ajuda com os materiais, que são de baixo custo, mas gasolina, comida  e todo o resto é por nossa conta”, declara Ricardo Fonseca.

Além do Água Renovada, o professor orienta 11 trabalhos científicos que estão em andamento, dois projetos que seguem mesmo após os alunos concluírem os estudos no IFCE e outros que não podem ser citados. “Em virtude da grande concorrência no campo das ideias, pode atrapalhar a pesquisa e temos que levar em consideração o plágio e os direitos autorais”, justifica o docente que está há 34 anos na profissão. Fonseca é biólogo e químico, mas considera a carreira de professor como paixão. “Ser professor, é tudo, poder fazer a diferença na vida dos outros influencia diretamente na minha, amo esta profissão”, revela.

Felizes com os resultados, os alunos destacam a importância em ter um professor para orientá-los. “Todo ano ele faz uma festinha e entrega os certificados nos parabenizando. Então vimos que era vez de homenageá-lo, então preparamos uma festinha e entregamos a ele o certificado de ‘Professor Exemplar’. Ele ficou muito feliz e nós mais ainda em tê-lo como nosso amigo”, relembra Laleska.

Preparação internacional

O IFCE dá um auxílio e os jovens buscam patrocínio para os gastos da viagem. Para a apresentação do Água Renovada em Medellín (Colômbia) eles conseguiram o apoio do empresário Gilmar Bender, que pagou as passagens aéreas. Além disso, Júnior, Laleska e Larissa consultaram uma professora do IFCE para traduzir o trabalho para o espanhol. A apresentação oral também foi traduzida e os alunos, que não são fluentes da língua, estão treinando as orientações dadas pela professora. “Estamos muito empenhados e nos preparando para fazer uma boa apresentação. Queremos mostrar às pessoas que nos ajudaram que vale a pena investir em ciência”, conta Adelaide Laleska.

Para angariar fundos, os estudantes pediram patrocínio ao empresário Gilmar Bender, que os apadrinhou com as passagens aéreas para Colômbia. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Para angariar fundos, os estudantes pediram patrocínio ao empresário Gilmar Bender, que os apadrinhou com as passagens aéreas para Colômbia. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Publicidade

Dê sua opinião

Adolescentes criam sistema de reuso de água e fazem sucesso em feiras internacionais

Como investimento de R$ 60, alunos desenvolvem um destilador que produz até 3 litros de água em um período de 3 dias

Por Rosana Romão em Educação

11 de julho de 2014 às 12:40

Há 5 anos
Brenda Larissa, Francisco Júnior e Adelaide Laleska estudaram no IFCE durante todo o Ensino Médio. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Brenda Larissa, Francisco Júnior e Adelaide Laleska estudaram no IFCE durante todo o Ensino Médio. (FOTO: Arquivo Pessoal)

O sertão do Ceará, assim como boa parte da região Nordeste do Brasil sofre com as consequências da seca. Pensando nisso, estudantes de Juazeiro do Norte, no Ceará desenvolveram um projeto de reuso de água para amenizar a seca. Os alunos do Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) Adelaide Laleska de Oliveira, Francisco Júnior e Larissa Brenda criaram o projeto Reciclagem de águas residuárias a partir de destilador fototermofuncional com auxílio do professor de química Ricardo Fonseca.

Inspirados pela necessidade, os alunos desenvolveram uma solução para amenizar a seca com custo de produção de apenas R$ 60. Pela sua eficácia, o projeto já possui uma proposta de industrialização de autoria do empresário Gilmar Bender, proprietário da Bendermix e Tecnolity, empresas de concreto e de calçados, respectivamente.

Projeto na prática

O trabalho propõe a construção de um sistema, de baixo custo, a partir de materiais acessíveis, onde a energia motriz é advinda da energia solar, que por destilação tende a melhorar as características das águas residuárias. A construção do sistema diminui o descarte inadequado e aumenta a oferta de água limpa.

[uol video=”http://mais.uol.com.br/view/15116197″]

O sistema foi construído no solo, em profundidade adequada ao uso de instrumentos de escavação manual, e para a água não infiltrar no solo, a estrutura é impermeabilizada, com sacolas de cor preta, para melhor absorver o calor e potencializar o processo de evaporação. A água resultante foi utilizada para irrigar, por gotejamento, uma horta de alface e coentro, desenvolvida em  um canteiro com solo salinizado, pouco fértil, afim de acompanhar o desenvolvimento das sementes e possíveis mudas.

Após a utilização da água resultante do sistema na horta, constatou-se que as mudas cresceram em média 10% a mais do que o tamanho informado na embalagem das sementes, superando todas as expectativas. Concluiu-se também que a água pode ser utilizada em diversas atividades, dentre elas as agrícolas e as domésticas. O trabalho produz de 2 a 3 litros de água em um período de 3 dias.

Prêmios

Além de participar de feiras nacionais e internacionais, os jovens inventores já conquistaram 8 prêmios com o projeto Água Renovada. (FOTO: Arquivo pessoal)

Além de participar de feiras nacionais e internacionais, os jovens inventores já conquistaram 8 prêmios com o projeto Água Renovada. (FOTO: Arquivo pessoal)

A partir de apresentação de seminários e trabalhos científicos em sala de aula, os alunos se sentiram motivados a investir nos experimentos, participando de maratonas e olimpíadas de química. Com o apoio do professor, eles acreditaram e não pararam mais. Participaram da I e II Expo-MILSET Brasil, em Fortaleza, onde ganharam o credenciamento para a AMLAT, que acontecerá em Mendellin (Colômbia); da Fecitec/MA onde alcançaram o 2º lugar nas engenharias, sendo credenciados para os Semlleros em Bogotá, mas não puderam comparecer.

Também estiveram presentes na FEBRACE/USP, onde foram conquistaram seis premiações, dentre elas o prêmio Unesco de inovação, segundo lugar geral nas engenharias agrárias e o prêmio Inovação ABRIC. Nesta ocasião, o grupo também alcançou o prêmio Professor Destaque FEBRACE/USP 2014. Além destes, participaram de um concurso cultural em um programa de TV onde conquistaram o primeiro lugar e um prêmio de R$ 30 mil. Todas as participações são registradas no blog do grupo.

Como começou

“Todos os sábados o professor Ricardo realizava aulas específicas preparatórias para Olimpíadas. Em uma das aulas ele pediu pra que a gente se dividisse em grupos de três, então foi aí que começou a nossa amizade”, relembra Laleska. Foram vários trabalhos desenvolvidos, alguns não deram certo e outros adaptados. Até que Larissa Brenda assistiu um documentário na TV que abordava a sobrevivência no deserto. Em consequência disso, a estudante viu que poderia aplicar a técnica ou adaptá-la e começou a testar no quintal de casa. Depois, convidou os amigos Francisco Júnior e Adelaide Laleska de Oliveira para ajudarem. Finalmente, com a orientação do professor Ricardo Fonseca puderam elaborar o projeto e executá-lo.

No início foi difícil conciliar o tempo, pois os três alunos só tinham horário disponível no domingo à tarde. Até que devido às frequentes reuniões que o projeto exigia, eles conseguiram se organizar. Adelaide Laleska, que trabalhava e estudava teve que abandonar o emprego para se dedicar totalmente aos experimentos. “Depois dos prêmios e das participações nas feiras científicas fomos convidados a dar palestras, programas de TV e de rádio. Também precisamos aprender a escrever melhor porque para apresentar o trabalho temos que escrever relatórios com uma linguagem científica”, explica Laleska de Oliveira.

Os estudantes passaram por dificuldades pois precisam de dinheiro para  criar banner e folders que seriam utilizados na apresentação. Juntos, iam ao mercado da cidade vender salgados, pastéis e até uma almofada. A renda auxiliou com os gastos durante as viagens. Em uma das viagens, o grupo teve de dormir no aeroporto porque não tinham dinheiro para pagar mais uma diária no hotel.

Falta apoio financeiro

O biólogo e químico Ricardo Fonseca atua como professor há 34 anos e ama a carreira docente. (FOTO: Arquivo Pessoal)

O biólogo e químico Ricardo Fonseca atua como professor há 34 anos e ama a carreira docente. (FOTO: Arquivo Pessoal)

A grande dificuldade é que o trabalho dos alunos e do professor é voluntário. Os editais que surgem só beneficiam doutores, com titulação mínima. Como o professor Ricardo Fonseca está terminando o mestrado ainda não pode ser beneficiado com os editais. Dessa forma, alimentação, transporte e hospedagem ficam por conta do grupo.

Esses gastos são necessários porque para a implantação do projeto é necessário coletar dados e amostras do local, ou seja, o deslocamento até o lugar onde o experimento será implantado é imprescindível. “O IFCE ajuda com os materiais, que são de baixo custo, mas gasolina, comida  e todo o resto é por nossa conta”, declara Ricardo Fonseca.

Além do Água Renovada, o professor orienta 11 trabalhos científicos que estão em andamento, dois projetos que seguem mesmo após os alunos concluírem os estudos no IFCE e outros que não podem ser citados. “Em virtude da grande concorrência no campo das ideias, pode atrapalhar a pesquisa e temos que levar em consideração o plágio e os direitos autorais”, justifica o docente que está há 34 anos na profissão. Fonseca é biólogo e químico, mas considera a carreira de professor como paixão. “Ser professor, é tudo, poder fazer a diferença na vida dos outros influencia diretamente na minha, amo esta profissão”, revela.

Felizes com os resultados, os alunos destacam a importância em ter um professor para orientá-los. “Todo ano ele faz uma festinha e entrega os certificados nos parabenizando. Então vimos que era vez de homenageá-lo, então preparamos uma festinha e entregamos a ele o certificado de ‘Professor Exemplar’. Ele ficou muito feliz e nós mais ainda em tê-lo como nosso amigo”, relembra Laleska.

Preparação internacional

O IFCE dá um auxílio e os jovens buscam patrocínio para os gastos da viagem. Para a apresentação do Água Renovada em Medellín (Colômbia) eles conseguiram o apoio do empresário Gilmar Bender, que pagou as passagens aéreas. Além disso, Júnior, Laleska e Larissa consultaram uma professora do IFCE para traduzir o trabalho para o espanhol. A apresentação oral também foi traduzida e os alunos, que não são fluentes da língua, estão treinando as orientações dadas pela professora. “Estamos muito empenhados e nos preparando para fazer uma boa apresentação. Queremos mostrar às pessoas que nos ajudaram que vale a pena investir em ciência”, conta Adelaide Laleska.

Para angariar fundos, os estudantes pediram patrocínio ao empresário Gilmar Bender, que os apadrinhou com as passagens aéreas para Colômbia. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Para angariar fundos, os estudantes pediram patrocínio ao empresário Gilmar Bender, que os apadrinhou com as passagens aéreas para Colômbia. (FOTO: Arquivo Pessoal)