Não satisfeitos somente com "amor", professores da rede pública cobram dinheiro no bolso


Não satisfeitos somente com “amor”, professores da rede pública cobram dinheiro no bolso

“Quem entra em atividade pública deve entrar por amor, não por dinheiro”. A frase do governador Cid Gomes, dita em 2011, até hoje ecoa negativamente entre professores

Por Tribuna do Ceará em Educação

12 de setembro de 2014 às 10:00

Há 5 anos

Selo-Educasao-no-Çeara“Quem entra em atividade pública deve entrar por amor, não por dinheiro. Quem está atrás de riqueza, de dinheiro, deve procurar outro setor e não a vida pública”. A frase do governador do Ceará, Cid Gomes, em agosto de 2011, referia-se aos professores, categoria que se encontrava em greve. Até hoje a declaração ecoa negativamente. É o que mostra a 3ª reportagem da série “Educasão no Çeará: Problema além de uma cedilha”, que o Tribuna do Ceará publica desde quarta-feira (10) até o próximo domingo (14).

Diego Bezerra Souza, 29 anos, é professor de geografia há seis anos. Não participou da greve há três anos, pois abraçou o emprego público apenas no ano passado. Mesmo assim, sabe muito bem sobre o que o governador quis dizer. “É clássica essa entrevista. Amor pela minha profissão, eu tenho. Mas não acho justo o salário. Está muito longe disso”, considera.

Para ele, sair do ensino particular para o público foi um choque. Do lado positivo, ele considera que tem mais liberdade em criar projetos e não seguir uma linha pedagógica engessada. Já do negativo, são vários fatores: falta de infraestrutura, segurança e uma política de carreira para os profissionais.

“A estrutura das salas é ruim. Faltam ventiladores, recursos multimídia, auditório. Trabalho à noite no Conjunto Esperança e não há segurança. Roubaram as armas da vigilância, já teve assalto e tiros. Estou pensando em parar de trabalhar nesse turno. Acho que 99% dos professores vão concordar que o que ganhamos não condiz com a nossa função. Não há plano de carreira, baseado no desempenho dos professores. O Estado não cuida da educação com carinho”.

Cid Gomes posta foto com Com professores da Escola de Educação Profissional de Santa Quitéria (FOTO: Reprodução Facebook)

Cid Gomes posta foto com com professores da Escola de Educação Profissional de Santa Quitéria (FOTO: Reprodução Facebook)

Segundo a professora Penha, diretora da Associação dos Professores de Estabelecimentos Oficiais Ceará (Apeoc), ainda há uma carência de profissionais na rede estadual. Por isso, a categoria luta pela realização de um concurso público em 2015. Neste mês, representantes da Apeoc negociaram junto à Secretaria Estadual de Educação (Seduc) a convocação de 512 professores.

“Estávamos com uma carência de professores concursados, porque muitos do último concurso tinham desistido por arranjar outro emprego. E ainda não havia sido convocado ninguém. Mas conseguimos que 512 fossem chamados agora. Mesmo assim, ainda é necessário mais. Hoje, contamos com cerca de 25 mil professores estaduais”, ressalta Penha.

Amor substitui salários

Imagem fez sucesso nas redes sociais

Desvalorização

O historiador Airton de Farias é professor da rede estadual há três anos. “A educação pública sofreu um grande golpe em 2011, quando teve aquela conhecida greve. O governo federal tinha criado uma lei de piso salarial, com bons aumentos, mas o governo estadual fez uma coisa absurda. Ele dividiu uma categoria em duas partes: mais antigos e graduados. O aumento só foi dado para quem não era graduado”, enfatiza.

Airton ainda critica o sistema implantado na atual gestão: as escolas profissionalizantes. Para ele, há uma espécie de maquiagem do sistema devido às grandes obras. “Isso é coisa antiga, do passado, já é ultrapassado. Mas o governo insiste. A maioria dos professores é temporária e há inúmeras denúncias de assédio moral, porque o professor faz outra função sem ser a sua. Tem professor que vai vigiar aluno em hora de almoço”, reclama.

A desvalorização do professor é notada quando se percebe, além da falta de infraestrutura e segurança, o desrespeito gerado na sociedade. “É uma decepção se deparar com um salário pequeno, tendo que ter outra ocupação. Tem professor que é taxista ou tem outra atividade para se manter. Qualquer profissional faz seu trabalho por amor. Mas amor com manteiga é melhor, né?”.

ACOMPANHE A SÉRIE:

QUAEnsino Médio apresenta larga taxa de evasão do período escolar.
QUI – Escola estadual em frente ao Castelão não tem “padrão Fifa”.
SEX – Trabalho por amor? Professores criticam condições oferecidas pelo Estado.
SAB – Evasão escolar é um dos motivos da alta delinquência juvenil.
DOM – A educação pública cearense tem futuro. Confira soluções.

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Não satisfeitos somente com “amor”, professores da rede pública cobram dinheiro no bolso

“Quem entra em atividade pública deve entrar por amor, não por dinheiro”. A frase do governador Cid Gomes, dita em 2011, até hoje ecoa negativamente entre professores

Por Tribuna do Ceará em Educação

12 de setembro de 2014 às 10:00

Há 5 anos

Selo-Educasao-no-Çeara“Quem entra em atividade pública deve entrar por amor, não por dinheiro. Quem está atrás de riqueza, de dinheiro, deve procurar outro setor e não a vida pública”. A frase do governador do Ceará, Cid Gomes, em agosto de 2011, referia-se aos professores, categoria que se encontrava em greve. Até hoje a declaração ecoa negativamente. É o que mostra a 3ª reportagem da série “Educasão no Çeará: Problema além de uma cedilha”, que o Tribuna do Ceará publica desde quarta-feira (10) até o próximo domingo (14).

Diego Bezerra Souza, 29 anos, é professor de geografia há seis anos. Não participou da greve há três anos, pois abraçou o emprego público apenas no ano passado. Mesmo assim, sabe muito bem sobre o que o governador quis dizer. “É clássica essa entrevista. Amor pela minha profissão, eu tenho. Mas não acho justo o salário. Está muito longe disso”, considera.

Para ele, sair do ensino particular para o público foi um choque. Do lado positivo, ele considera que tem mais liberdade em criar projetos e não seguir uma linha pedagógica engessada. Já do negativo, são vários fatores: falta de infraestrutura, segurança e uma política de carreira para os profissionais.

“A estrutura das salas é ruim. Faltam ventiladores, recursos multimídia, auditório. Trabalho à noite no Conjunto Esperança e não há segurança. Roubaram as armas da vigilância, já teve assalto e tiros. Estou pensando em parar de trabalhar nesse turno. Acho que 99% dos professores vão concordar que o que ganhamos não condiz com a nossa função. Não há plano de carreira, baseado no desempenho dos professores. O Estado não cuida da educação com carinho”.

Cid Gomes posta foto com Com professores da Escola de Educação Profissional de Santa Quitéria (FOTO: Reprodução Facebook)

Cid Gomes posta foto com com professores da Escola de Educação Profissional de Santa Quitéria (FOTO: Reprodução Facebook)

Segundo a professora Penha, diretora da Associação dos Professores de Estabelecimentos Oficiais Ceará (Apeoc), ainda há uma carência de profissionais na rede estadual. Por isso, a categoria luta pela realização de um concurso público em 2015. Neste mês, representantes da Apeoc negociaram junto à Secretaria Estadual de Educação (Seduc) a convocação de 512 professores.

“Estávamos com uma carência de professores concursados, porque muitos do último concurso tinham desistido por arranjar outro emprego. E ainda não havia sido convocado ninguém. Mas conseguimos que 512 fossem chamados agora. Mesmo assim, ainda é necessário mais. Hoje, contamos com cerca de 25 mil professores estaduais”, ressalta Penha.

Amor substitui salários

Imagem fez sucesso nas redes sociais

Desvalorização

O historiador Airton de Farias é professor da rede estadual há três anos. “A educação pública sofreu um grande golpe em 2011, quando teve aquela conhecida greve. O governo federal tinha criado uma lei de piso salarial, com bons aumentos, mas o governo estadual fez uma coisa absurda. Ele dividiu uma categoria em duas partes: mais antigos e graduados. O aumento só foi dado para quem não era graduado”, enfatiza.

Airton ainda critica o sistema implantado na atual gestão: as escolas profissionalizantes. Para ele, há uma espécie de maquiagem do sistema devido às grandes obras. “Isso é coisa antiga, do passado, já é ultrapassado. Mas o governo insiste. A maioria dos professores é temporária e há inúmeras denúncias de assédio moral, porque o professor faz outra função sem ser a sua. Tem professor que vai vigiar aluno em hora de almoço”, reclama.

A desvalorização do professor é notada quando se percebe, além da falta de infraestrutura e segurança, o desrespeito gerado na sociedade. “É uma decepção se deparar com um salário pequeno, tendo que ter outra ocupação. Tem professor que é taxista ou tem outra atividade para se manter. Qualquer profissional faz seu trabalho por amor. Mas amor com manteiga é melhor, né?”.

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QUAEnsino Médio apresenta larga taxa de evasão do período escolar.
QUI – Escola estadual em frente ao Castelão não tem “padrão Fifa”.
SEX – Trabalho por amor? Professores criticam condições oferecidas pelo Estado.
SAB – Evasão escolar é um dos motivos da alta delinquência juvenil.
DOM – A educação pública cearense tem futuro. Confira soluções.