Comissão Estadual dos Quilombolas diz que vitória de Bolsonaro representa "desmonte de conquistas"

DESCENDENTES DE ESCRAVOS

Quilombolas do Ceará já mostram preocupação com chance de vitória de Bolsonaro

Jair Bolsonaro (PSL) já afirmou, em evento em 2017 no Rio de Janeiro, que os descendentes de escravos que conheceu em quilombo “não servem nem para procriar”

Por Tribuna do Ceará em Eleições 2018

26 de outubro de 2018 às 07:15

Há 10 meses
quilombo-de-nazare

A presidente da associação que representa 88 comunidades de descendentes de escravos no Ceará acredita que Bolsonaro não é o melhor para quilombolas. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Líder nas pesquisas na campanha eleitoral para a Presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL) coleciona declarações contra negros e índios, por exemplo. No Ceará, existem 88 comunidades afrodescendentes reconhecidas, espalhadas por 34 cidades, de acordo com a Comissão Estadual dos Quilombolas Rurais do Ceará (Cerquirce). Cerca de 18 mil pessoas fazem parte desses grupos.

Moradora do quilombo de Nazaré, em Itapipoca, cidade a 130 km de Fortaleza, a professora Aurila Maria, de 47 anos, preside a Cerquirce. Ela fala de sua preocupação quanto a uma possível vitória do candidato do PSL, que já declarou que quilombolas não servem para nada.

“Para nós, seria um desmonte das nossas conquistas. Há muitos anos lutamos por políticas públicas, e foi no Governo Lula que a gente conseguiu o Brasil Quilombola. Através dele, a gente foi conseguindo acertar algumas políticas no estado e até em alguns municípios. Para nós, se acontecer isso, vai ser um retrocesso. Nós estamos unidos, organizados, mas o governo tem uma força maior. O movimento está sensibilizado. Sabemos o que poderão fazer: acabar com ativismos, com os quilombolas… A gente não sonha com isso”, analisou a coordenadora.

Em matéria do UOL, quando ainda pré-candidato, Bolsonaro se mostrou, por exemplo, contra a reserva de cotas para negros nas universidades públicas como resposta à dívida que o Brasil tem com os descendentes de escravos.

“Que dívida? Eu nunca escravizei ninguém na minha vida. É justo a minha filha ser cotista? O negro não é melhor do que eu, e nem eu sou melhor do que o negro. Na Academia Militar das Agulhas Negras, vários negros se formaram comigo. Alguns abaixo de mim, alguns acima de mim, sem problema nenhuma. Por que cotas?”, defendeu ao UOL.

Jair Bolsonaro tem 60% dos votos válidos na reta final da campanha. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Jair Bolsonaro tem 60% dos votos válidos na reta final da campanha. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Uma das declarações mais conhecidas é de abril de 2017 quando, durante evento de um clube no Rio de Janeiro, ainda pré-candidato, Bolsonaro comentou diante de uma plateia de 300 pessoas que teria visitado um quilombo e ficou com uma má impressão: “O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais”, relatou também à reportagem.

No Ceará, são 88 comunidades do movimento quilombola, distribuídas em 34 municípios, que já foram visitadas pela associação. No entanto, o Governo do Estado reconhece 152, segundo a coordenadora. A Cerquirce visita a região a convite de cada povoado para realizar um trabalho com a população. Cerca de 18 mil pessoas formam esses quilombos.

“Fazemos um trabalho de fortalecimento de identidade, mapeamento… E nele, a gente vai conseguir fechar esses diagnósticos, divididas em seis regiões. São negros resistindo a especulação imobiliária. Nós falamos o que é ser quilombola, sobre identidade, e deixa um tempo para os moradores pesquisarem sobre sua história, descendência… Se acharem positivo, voltamos para fazer oficinas e montar uma associação”, explicou Aurila Maria, que também faz parte da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas.

Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) disputam o segundo turno da eleição presidencial, que será realizado no próximo domingo (28), em todo o Brasil.

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Quilombolas do Ceará já mostram preocupação com chance de vitória de Bolsonaro

Jair Bolsonaro (PSL) já afirmou, em evento em 2017 no Rio de Janeiro, que os descendentes de escravos que conheceu em quilombo “não servem nem para procriar”

Por Tribuna do Ceará em Eleições 2018

26 de outubro de 2018 às 07:15

Há 10 meses
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A presidente da associação que representa 88 comunidades de descendentes de escravos no Ceará acredita que Bolsonaro não é o melhor para quilombolas. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Líder nas pesquisas na campanha eleitoral para a Presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL) coleciona declarações contra negros e índios, por exemplo. No Ceará, existem 88 comunidades afrodescendentes reconhecidas, espalhadas por 34 cidades, de acordo com a Comissão Estadual dos Quilombolas Rurais do Ceará (Cerquirce). Cerca de 18 mil pessoas fazem parte desses grupos.

Moradora do quilombo de Nazaré, em Itapipoca, cidade a 130 km de Fortaleza, a professora Aurila Maria, de 47 anos, preside a Cerquirce. Ela fala de sua preocupação quanto a uma possível vitória do candidato do PSL, que já declarou que quilombolas não servem para nada.

“Para nós, seria um desmonte das nossas conquistas. Há muitos anos lutamos por políticas públicas, e foi no Governo Lula que a gente conseguiu o Brasil Quilombola. Através dele, a gente foi conseguindo acertar algumas políticas no estado e até em alguns municípios. Para nós, se acontecer isso, vai ser um retrocesso. Nós estamos unidos, organizados, mas o governo tem uma força maior. O movimento está sensibilizado. Sabemos o que poderão fazer: acabar com ativismos, com os quilombolas… A gente não sonha com isso”, analisou a coordenadora.

Em matéria do UOL, quando ainda pré-candidato, Bolsonaro se mostrou, por exemplo, contra a reserva de cotas para negros nas universidades públicas como resposta à dívida que o Brasil tem com os descendentes de escravos.

“Que dívida? Eu nunca escravizei ninguém na minha vida. É justo a minha filha ser cotista? O negro não é melhor do que eu, e nem eu sou melhor do que o negro. Na Academia Militar das Agulhas Negras, vários negros se formaram comigo. Alguns abaixo de mim, alguns acima de mim, sem problema nenhuma. Por que cotas?”, defendeu ao UOL.

Jair Bolsonaro tem 60% dos votos válidos na reta final da campanha. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Jair Bolsonaro tem 60% dos votos válidos na reta final da campanha. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Uma das declarações mais conhecidas é de abril de 2017 quando, durante evento de um clube no Rio de Janeiro, ainda pré-candidato, Bolsonaro comentou diante de uma plateia de 300 pessoas que teria visitado um quilombo e ficou com uma má impressão: “O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais”, relatou também à reportagem.

No Ceará, são 88 comunidades do movimento quilombola, distribuídas em 34 municípios, que já foram visitadas pela associação. No entanto, o Governo do Estado reconhece 152, segundo a coordenadora. A Cerquirce visita a região a convite de cada povoado para realizar um trabalho com a população. Cerca de 18 mil pessoas formam esses quilombos.

“Fazemos um trabalho de fortalecimento de identidade, mapeamento… E nele, a gente vai conseguir fechar esses diagnósticos, divididas em seis regiões. São negros resistindo a especulação imobiliária. Nós falamos o que é ser quilombola, sobre identidade, e deixa um tempo para os moradores pesquisarem sobre sua história, descendência… Se acharem positivo, voltamos para fazer oficinas e montar uma associação”, explicou Aurila Maria, que também faz parte da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas.

Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) disputam o segundo turno da eleição presidencial, que será realizado no próximo domingo (28), em todo o Brasil.