Estudantes divergem quanto à acessibilidade de universidade


Estudantes divergem quanto à acessibilidade de universidade

Lorena Melo e Márcio Vaz opinam sobre a questão da acessibilidade em sua universidade

Por Tribuna do Ceará em Fortaleza

13 de agosto de 2013 às 17:11

Há 6 anos
"Já me humilhei, chorei e perturbei pessoas aqui por uma coisa que é minha de direito", conta a estudante

“Já me humilhei, chorei e perturbei pessoas aqui por uma coisa que é minha de direito”, conta a estudante

*Hayanne Narlla e Roberta Tavares

Acessibilidade arquitetônica e atendimento prioritário às pessoas com algum tipo de deficiência e/ou mobilidade reduzida devem ser garantidos nos espaços urbanos e edificações de uso público ou coletivo. No entanto, segundo a estudante Lorena Melo Martins, isso não é o que acontece na prática na Universidade de Fortaleza (Unifor).

A aluna de Arquitetura e Urbanismo passa diariamente pelo problema de falta de acessibilidade na instituição. De acordo com ela, rampas inacessíveis, calçadas esburacadas e elevador estreito (que dá acesso à Reitoria) são características da universidade.

“Tive de operar meu joelho e estou de cadeira de rodas por um tempo. Não posso estudar porque não consigo chegar à sala de aula devido à péssima acessibilidade. Já me humilhei, chorei e perturbei pessoas aqui por uma coisa que é minha de direito. Não só minha, mas de todos”, conta.

Autonomia

A Lei nº 5.296, sancionada em 2004, exige que toda pessoa tenha garantia à autonomia para realizar as atividades. De acordo com Lorena, como as rampas são íngremes e a sala de aula fica no segundo andar, é preciso contar com a ajuda de outros para poder ter acesso ao local.

“A universidade deu uma solução: todas as vezes que eu tiver aula, uma pessoa vai me esperar perto da rampa para me levar até a sala”, explica. Na primeira vez deu certo. Dias depois, não havia mais ninguém na rampa esperando pela estudante.

“Liguei para a coordenadora. Ela disse que ia mandar uma pessoa imediatamente, mas o segurança demorou 20 minutos para chegar. Mesmo assim, não conseguiu me levar, pois tenho 1,80 metros e sou gorda. Enfim, perdi a aula”, desabafa.

Solução

A solução sugerida por Lorena foi transferir as aulas para o térreo. Recebeu como resposta do Apoio Pedagógico da universidade que cerca de 60 alunos tinham necessidades especiais, e todas as salas de aula do térreo estavam lotadas.

“A Unifor tem mais de 20 blocos, com três andares cada. Pelo menos 20% das salas da universidade são no térreo. Não entendi como é que todas estão ocupadas por deficientes”, reclama.

“Resolvido”

Após publicar o relato na rede social Facebook, Lorena informou ao Tribuna do Ceará que a sua sala de aula já foi transferida para o térreo, mas que a preocupação continua. “A foto que postei foi muito compartilhada. Todo mundo me apoiando. O problema é que não é só a sala. Não existe acessibilidade na Unifor em nada. Imagina as pessoas que são cadeirantes mesmo… Quem tem que passar por isso durante anos?”, indaga.

A estudante reivindica que obras e reformas sejam feitas com o objetivo de tornar a instituição um local acessível a todos. “Reformaram estacionamento, colocaram estátuas, e não priorizam a acessibilidade. Eles não pensam: ‘vamos colocar um elevador acessível’, ‘vamos ajeitar as calçadas’. Isso é um absurdo”, finaliza.

Análise de outro estudante

O estudante de Psicologia e membro do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS) Márcio Vaz é tetraplégico e discorda de Lorena. “Os blocos antigos da Unifor ainda são assim, mas no geral não”.

Segundo ele, que faz uso da cadeira de rodas, os blocos são acessíveis, com rampas, estacionamentos e banheiros. Além disso, ele ressaltou que, quando solicita mudança de sala, a alteração é realizada de forma imediata. “Tudo que necessito, eles [Unifor] dão um jeito de preparar. A pessoa com deficiência já é cadastrada e já pede com antecipação a mudança de sala, quando necessário”, explica.

Além disso, ele afirma que sua cadeira de rodas cabe de forma confortável no elevador que dá acesso à Reitoria. “Em relação a outras faculdades, a Unifor está anos-luz a frente. Se você for na UFC ou na UECE, você nem anda”, comenta.

Dificuldades para quem tem deficiência

De forma geral, Márcio Vaz avalia de forma negativa a acessibilidade na cidade de Fortaleza. “As ruas são impossíveis de transitar. Não existe calçada acessível. A Avenida Beira-Mar tem a intenção de ser acessível, mas as calçadas são deterioradas, faltam rampas, faltam pisos. Se você for anda no Centro, por exemplo, é impossível andar sozinho, precisa de ajuda de alguém ou anda no asfalto”, conta.

Para ele, é necessário muito mais investimento nesta questão. “Houve um resgate de tirar o deficiente de casa para colocar na rua, mas a arquitetura tem que se modificar. O direito de mobilidade não é só do deficiente, mas do idoso, da gestante, de quem quebrou a perna…”.

Ainda de acordo com o estudante, o acesso universal é uma questão mais atual, em debate hoje em dia. “Existe ainda o faz de contas: diz que tem acessibilidade para dizer que é politicamente correto, mas não é funcional”.

Clique aqui e veja o Câmera 12 Especial sobre a cidade de Fortaleza: Cidade Deficiente 

Resposta da Unifor

Segundo o arquiteto da Unifor, Artur Fortaleza, o bloco em questão é antigo, criado em 1971. “Não temos históricos do porquê das rampas serem tão inclinadas. Realmente, elas não correspondem com a inclinação devida e não atendem a norma”, concorda.

O arquiteto ainda diz que há um tempo vem discutindo possíveis soluções para o problema nos blocos antigos. “Os blocos recentes têm rampas com inclinação adequadas e outras construções. Este ano, discutimos planos de acessibilidade incluindo os blocos mais antigos e situações que a gente pontuou que não atendem a norma. Ainda não finalizamos porque existe a discussão sobre equipamentos, sobre valor da obra”.

Com relação a prazos para entrega da obra ou previsão para o início, Artur Fortaleza diz que não há nada determinado. Ele explica que o plano de acessibilidade ainda está em processo de elaboração e que ainda precisa de aprovação. “Provavelmente, ainda este ano será aprovado”, aponta.

Questionado sobre uma possível celeridade, após a repercussão do caso nas redes sociais, o arquiteto afirma que ajuda no tempo de resposta. “Temos que saber conviver com as redes sociais. Acredito que elas ajudam no tempo de resposta”.

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Estudantes divergem quanto à acessibilidade de universidade

Lorena Melo e Márcio Vaz opinam sobre a questão da acessibilidade em sua universidade

Por Tribuna do Ceará em Fortaleza

13 de agosto de 2013 às 17:11

Há 6 anos
"Já me humilhei, chorei e perturbei pessoas aqui por uma coisa que é minha de direito", conta a estudante

“Já me humilhei, chorei e perturbei pessoas aqui por uma coisa que é minha de direito”, conta a estudante

*Hayanne Narlla e Roberta Tavares

Acessibilidade arquitetônica e atendimento prioritário às pessoas com algum tipo de deficiência e/ou mobilidade reduzida devem ser garantidos nos espaços urbanos e edificações de uso público ou coletivo. No entanto, segundo a estudante Lorena Melo Martins, isso não é o que acontece na prática na Universidade de Fortaleza (Unifor).

A aluna de Arquitetura e Urbanismo passa diariamente pelo problema de falta de acessibilidade na instituição. De acordo com ela, rampas inacessíveis, calçadas esburacadas e elevador estreito (que dá acesso à Reitoria) são características da universidade.

“Tive de operar meu joelho e estou de cadeira de rodas por um tempo. Não posso estudar porque não consigo chegar à sala de aula devido à péssima acessibilidade. Já me humilhei, chorei e perturbei pessoas aqui por uma coisa que é minha de direito. Não só minha, mas de todos”, conta.

Autonomia

A Lei nº 5.296, sancionada em 2004, exige que toda pessoa tenha garantia à autonomia para realizar as atividades. De acordo com Lorena, como as rampas são íngremes e a sala de aula fica no segundo andar, é preciso contar com a ajuda de outros para poder ter acesso ao local.

“A universidade deu uma solução: todas as vezes que eu tiver aula, uma pessoa vai me esperar perto da rampa para me levar até a sala”, explica. Na primeira vez deu certo. Dias depois, não havia mais ninguém na rampa esperando pela estudante.

“Liguei para a coordenadora. Ela disse que ia mandar uma pessoa imediatamente, mas o segurança demorou 20 minutos para chegar. Mesmo assim, não conseguiu me levar, pois tenho 1,80 metros e sou gorda. Enfim, perdi a aula”, desabafa.

Solução

A solução sugerida por Lorena foi transferir as aulas para o térreo. Recebeu como resposta do Apoio Pedagógico da universidade que cerca de 60 alunos tinham necessidades especiais, e todas as salas de aula do térreo estavam lotadas.

“A Unifor tem mais de 20 blocos, com três andares cada. Pelo menos 20% das salas da universidade são no térreo. Não entendi como é que todas estão ocupadas por deficientes”, reclama.

“Resolvido”

Após publicar o relato na rede social Facebook, Lorena informou ao Tribuna do Ceará que a sua sala de aula já foi transferida para o térreo, mas que a preocupação continua. “A foto que postei foi muito compartilhada. Todo mundo me apoiando. O problema é que não é só a sala. Não existe acessibilidade na Unifor em nada. Imagina as pessoas que são cadeirantes mesmo… Quem tem que passar por isso durante anos?”, indaga.

A estudante reivindica que obras e reformas sejam feitas com o objetivo de tornar a instituição um local acessível a todos. “Reformaram estacionamento, colocaram estátuas, e não priorizam a acessibilidade. Eles não pensam: ‘vamos colocar um elevador acessível’, ‘vamos ajeitar as calçadas’. Isso é um absurdo”, finaliza.

Análise de outro estudante

O estudante de Psicologia e membro do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS) Márcio Vaz é tetraplégico e discorda de Lorena. “Os blocos antigos da Unifor ainda são assim, mas no geral não”.

Segundo ele, que faz uso da cadeira de rodas, os blocos são acessíveis, com rampas, estacionamentos e banheiros. Além disso, ele ressaltou que, quando solicita mudança de sala, a alteração é realizada de forma imediata. “Tudo que necessito, eles [Unifor] dão um jeito de preparar. A pessoa com deficiência já é cadastrada e já pede com antecipação a mudança de sala, quando necessário”, explica.

Além disso, ele afirma que sua cadeira de rodas cabe de forma confortável no elevador que dá acesso à Reitoria. “Em relação a outras faculdades, a Unifor está anos-luz a frente. Se você for na UFC ou na UECE, você nem anda”, comenta.

Dificuldades para quem tem deficiência

De forma geral, Márcio Vaz avalia de forma negativa a acessibilidade na cidade de Fortaleza. “As ruas são impossíveis de transitar. Não existe calçada acessível. A Avenida Beira-Mar tem a intenção de ser acessível, mas as calçadas são deterioradas, faltam rampas, faltam pisos. Se você for anda no Centro, por exemplo, é impossível andar sozinho, precisa de ajuda de alguém ou anda no asfalto”, conta.

Para ele, é necessário muito mais investimento nesta questão. “Houve um resgate de tirar o deficiente de casa para colocar na rua, mas a arquitetura tem que se modificar. O direito de mobilidade não é só do deficiente, mas do idoso, da gestante, de quem quebrou a perna…”.

Ainda de acordo com o estudante, o acesso universal é uma questão mais atual, em debate hoje em dia. “Existe ainda o faz de contas: diz que tem acessibilidade para dizer que é politicamente correto, mas não é funcional”.

Clique aqui e veja o Câmera 12 Especial sobre a cidade de Fortaleza: Cidade Deficiente 

Resposta da Unifor

Segundo o arquiteto da Unifor, Artur Fortaleza, o bloco em questão é antigo, criado em 1971. “Não temos históricos do porquê das rampas serem tão inclinadas. Realmente, elas não correspondem com a inclinação devida e não atendem a norma”, concorda.

O arquiteto ainda diz que há um tempo vem discutindo possíveis soluções para o problema nos blocos antigos. “Os blocos recentes têm rampas com inclinação adequadas e outras construções. Este ano, discutimos planos de acessibilidade incluindo os blocos mais antigos e situações que a gente pontuou que não atendem a norma. Ainda não finalizamos porque existe a discussão sobre equipamentos, sobre valor da obra”.

Com relação a prazos para entrega da obra ou previsão para o início, Artur Fortaleza diz que não há nada determinado. Ele explica que o plano de acessibilidade ainda está em processo de elaboração e que ainda precisa de aprovação. “Provavelmente, ainda este ano será aprovado”, aponta.

Questionado sobre uma possível celeridade, após a repercussão do caso nas redes sociais, o arquiteto afirma que ajuda no tempo de resposta. “Temos que saber conviver com as redes sociais. Acredito que elas ajudam no tempo de resposta”.