Portugueses ou holandeses: Fortaleza ainda tem polêmica sobre quem formou a cidade

DIVERGÊNCIA

Portugueses ou holandeses: Fortaleza ainda tem polêmica sobre quem formou a cidade

No dia 13 de abril, comemora-se o aniversário de Fortaleza. Mas não da fundação ou criação, e sim da elevação à condição de vila

Por Hayanne Narlla em Fortaleza

12 de abril de 2014 às 13:00

Há 5 anos
Imagem do mapa de Fortaleza na época em que foi elevada à vila (FOTO: Arquivo Nirez)

Imagem do mapa de Fortaleza na época em que foi elevada à vila (FOTO: Arquivo Nirez)

Neste dia 13 de abril, comemora-se o aniversário de Fortaleza. Mas não da fundação ou criação. A idade, na verdade, celebra a elevação de um mero povoado à condição de vila, o que ocorreu em 1726. Sobre o surgimento da cidade, há duas teorias que brigam para mostrar quem veio primeiro: portugueses ou holandeses.

O professor de História Airton de Farias explica um pouco as duas teorias. A primeira, mais antiga, conta que Fortaleza surgiu a partir da história do português Martins Soares Moreno, em 1611. Na verdade, os portugueses queriam estabelecer um ponto médio do litoral, mas não tiveram um bom resultado. Porém, Moreno e Pero Coelho teriam atracado na praia, onde atualmente é a Barra do Ceará, chegando a erguer  em 1612 os fortes de São Sebastião e de São Tiago, respectivamente.

(ARTE: Tiago Leite)

(ARTE: Tiago Leite)

Já a outra teoria, lançada pelo historiador Raimundo Girão, é que os holandeses vieram a Fortaleza, que era esquecida por Portugal, e fundaram a cidade. Em 1637, os holandeses conquistaram o forte de São Sebastião, ficando até 1644, quando ocorreu uma revolta indígena. Nessa “guerra”, os batavos foram todos assassinados.

Em 1649, os holandeses teriam voltado ao Ceará, com a liderança de Matias Beck. Então ergueram o Forte Schoonenborch, perto do riacho Pajeú. A partir daí, o povoado surgiu em torno do forte. Insatisfeitos, os portugueses retomaram a colonização do local, chegando a alterar o nome do forte para Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção.

“A polêmica é grande. Discutem se foi Martim Soares Moreno ou Matias Beck que fundou a cidade. A questão de admitir que foi fundado por um holandês é assumir que um protestante fundou. Há uma confusão de datas, mas a discussão é no fundo sobre religiosidade. Se foi um português católico ou um holandês protestante. Como não tem consenso, a gente celebra a elevação à condição de vila, que é um episódio português”, comentou.

Para os historiadores atuais, há uma discussão sobre a ideia de fundação. Na verdade, não há uma preocupação em definir quem seria o fundador de Fortaleza, pois significa apenas um mito de origem. Além disso, os pesquisadores entendem que há uma criação histórica de longa  duração, descartando a construção propriamente dita a partir de um ato fundados, mas levando em conta a sucessão do tempo e do esforço de gerações.

Além dessa polêmica, há outra: Fortaleza teria sido a primeira capital? Antes, como o Ceará não tinha representatividade e se tratava de um território pernambucano, não havia capital. Quando houve a separação, Fortaleza era a capital do Ceará.

Pobreza x modernidade

Embora tenha surgido em torno do forte de forma espontânea, a cidade só tem expressão a partir do século 19. “Eu costumo dizer nas aulas que Fortaleza é um milagre, porque não tinha base econômica. Não tinha rio. Tinha um péssimo litoral. O solo era ruim. Era ruim para o comércio. Com a política do Império beneficiando as capitais e questão do comércio de algodão é que houve um crescimento, mesmo que desordenado”.

Antiga Praça do Ferreira (FOTO: Arquivo Nirez)

Antiga Praça do Ferreira (FOTO: Arquivo Nirez)

Com o crescimento da cidade, a elite se inspirou nos valores da Europa, usando vestimentas do novo mundo, mesmo com clima quente. Essa época é chamada de Belle Epoque. Prédios foram construídos, ruas alinhadas. Fortaleza mudava e atraía interioranos.

“Teve crescimento desordenado, por causa da busca por modernidade e ostentação. A sociedade queria se mostrar progressista e acabou tendo um enorme desprezo pelo passado”.

E o desprezo pelo passado se reflete ainda nos tempos atuais. Edificações antigas e patrimônios históricos deram espaço a obras arquitetônicas atuais. A sociedade se desapegou do passado e não tem vontade de preservá-lo.

“Dos anos 1930 em diante, começou as barbáries. O Palacete do Castelo, que foi demolido para construir um supermercado, era um prédio belíssimo. Fortaleza tem muitos complexos. E esse momento é importante para discutir isso. E a culpa não é só do governo, é nossa também”, apontou.

A preservação do patrimônio histórico é importante para a educação, para a memória de uma sociedade e para a valorização da cultura local. No aniversário de Fortaleza, todo o seu passado deveria ser celebrado e não só as obras e graças do presente.

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Portugueses ou holandeses: Fortaleza ainda tem polêmica sobre quem formou a cidade

No dia 13 de abril, comemora-se o aniversário de Fortaleza. Mas não da fundação ou criação, e sim da elevação à condição de vila

Por Hayanne Narlla em Fortaleza

12 de abril de 2014 às 13:00

Há 5 anos
Imagem do mapa de Fortaleza na época em que foi elevada à vila (FOTO: Arquivo Nirez)

Imagem do mapa de Fortaleza na época em que foi elevada à vila (FOTO: Arquivo Nirez)

Neste dia 13 de abril, comemora-se o aniversário de Fortaleza. Mas não da fundação ou criação. A idade, na verdade, celebra a elevação de um mero povoado à condição de vila, o que ocorreu em 1726. Sobre o surgimento da cidade, há duas teorias que brigam para mostrar quem veio primeiro: portugueses ou holandeses.

O professor de História Airton de Farias explica um pouco as duas teorias. A primeira, mais antiga, conta que Fortaleza surgiu a partir da história do português Martins Soares Moreno, em 1611. Na verdade, os portugueses queriam estabelecer um ponto médio do litoral, mas não tiveram um bom resultado. Porém, Moreno e Pero Coelho teriam atracado na praia, onde atualmente é a Barra do Ceará, chegando a erguer  em 1612 os fortes de São Sebastião e de São Tiago, respectivamente.

(ARTE: Tiago Leite)

(ARTE: Tiago Leite)

Já a outra teoria, lançada pelo historiador Raimundo Girão, é que os holandeses vieram a Fortaleza, que era esquecida por Portugal, e fundaram a cidade. Em 1637, os holandeses conquistaram o forte de São Sebastião, ficando até 1644, quando ocorreu uma revolta indígena. Nessa “guerra”, os batavos foram todos assassinados.

Em 1649, os holandeses teriam voltado ao Ceará, com a liderança de Matias Beck. Então ergueram o Forte Schoonenborch, perto do riacho Pajeú. A partir daí, o povoado surgiu em torno do forte. Insatisfeitos, os portugueses retomaram a colonização do local, chegando a alterar o nome do forte para Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção.

“A polêmica é grande. Discutem se foi Martim Soares Moreno ou Matias Beck que fundou a cidade. A questão de admitir que foi fundado por um holandês é assumir que um protestante fundou. Há uma confusão de datas, mas a discussão é no fundo sobre religiosidade. Se foi um português católico ou um holandês protestante. Como não tem consenso, a gente celebra a elevação à condição de vila, que é um episódio português”, comentou.

Para os historiadores atuais, há uma discussão sobre a ideia de fundação. Na verdade, não há uma preocupação em definir quem seria o fundador de Fortaleza, pois significa apenas um mito de origem. Além disso, os pesquisadores entendem que há uma criação histórica de longa  duração, descartando a construção propriamente dita a partir de um ato fundados, mas levando em conta a sucessão do tempo e do esforço de gerações.

Além dessa polêmica, há outra: Fortaleza teria sido a primeira capital? Antes, como o Ceará não tinha representatividade e se tratava de um território pernambucano, não havia capital. Quando houve a separação, Fortaleza era a capital do Ceará.

Pobreza x modernidade

Embora tenha surgido em torno do forte de forma espontânea, a cidade só tem expressão a partir do século 19. “Eu costumo dizer nas aulas que Fortaleza é um milagre, porque não tinha base econômica. Não tinha rio. Tinha um péssimo litoral. O solo era ruim. Era ruim para o comércio. Com a política do Império beneficiando as capitais e questão do comércio de algodão é que houve um crescimento, mesmo que desordenado”.

Antiga Praça do Ferreira (FOTO: Arquivo Nirez)

Antiga Praça do Ferreira (FOTO: Arquivo Nirez)

Com o crescimento da cidade, a elite se inspirou nos valores da Europa, usando vestimentas do novo mundo, mesmo com clima quente. Essa época é chamada de Belle Epoque. Prédios foram construídos, ruas alinhadas. Fortaleza mudava e atraía interioranos.

“Teve crescimento desordenado, por causa da busca por modernidade e ostentação. A sociedade queria se mostrar progressista e acabou tendo um enorme desprezo pelo passado”.

E o desprezo pelo passado se reflete ainda nos tempos atuais. Edificações antigas e patrimônios históricos deram espaço a obras arquitetônicas atuais. A sociedade se desapegou do passado e não tem vontade de preservá-lo.

“Dos anos 1930 em diante, começou as barbáries. O Palacete do Castelo, que foi demolido para construir um supermercado, era um prédio belíssimo. Fortaleza tem muitos complexos. E esse momento é importante para discutir isso. E a culpa não é só do governo, é nossa também”, apontou.

A preservação do patrimônio histórico é importante para a educação, para a memória de uma sociedade e para a valorização da cultura local. No aniversário de Fortaleza, todo o seu passado deveria ser celebrado e não só as obras e graças do presente.