Cantores de forró relatam bastidores do sucesso e mudança de vida após se converterem


Cantores de forró relatam bastidores do sucesso e mudança de vida após se “entregarem a Jesus”

No auge dos sucesso, os cantores Carlos Rilmar, Marília Magalhães e Felipão largaram a carreira para buscar a Deus

Por Rosana Romão em Perfil

30 de maio de 2014 às 16:45

Há 5 anos

Os anos 90 foram marcantes para o conhecido “forró de raiz”. As músicas com letras românticas embalaram os corações dos frequentadores de casas de shows que bailavam a noite toda e ficaram na memória. Alguns cantores de bandas como Mastruz com Leite, Forró Saborear e Forró Moral largaram a carreira para ter uma vida diferente. Hoje frequentam igrejas, cantam músicas que exaltam o nome de Deus e evangelizam outras pessoas com mensagens bíblicas.

Na esquerda, o cantor no auge da carreira secular e na direita, após a sua conversão. (FOTO: Divulgação)

Na esquerda, o cantor no auge da carreira secular e na direita, após a sua conversão. (FOTO: Divulgação)

Carlos Rilmar, o cantor de cabelos compridos, roupas coladas e danças sensuais, conhecido como o “príncipe do forró”, hoje frequenta uma igreja evangélica, aconselha os membros e canta forró para Deus, além de viajar com seu ministério itinerante para levar o seu testemunho de vida e suas canções para todo o Brasil. Filho de músicos, influenciado pela cultura rock e inspirado na Black Banda, Carlos montou, juntamente com seus colegas de escola, a banda Sentimento Selvagem. Apresentou-se diversas vezes em bailes e, devido  sua desenvoltura e presença de palco, foi convidado para ser vocalista da Black Banda, onde ficou cerca de três anos. Tempos depois foi visto pelo empresário Emanuel Gurgel, que ficou impressionado com sua performance e o convidou para cantar na Banda Aquarius chegando logo depois à banda Mastruz com Leite, onde chegou ao auge do sucesso.

Em uma de suas turnês pelo Ceará, o cantor ficou hospedado em um hotel vizinho a uma igreja. Sentiu vontade de entrar, então se disfarçou e pediu que os seguranças não o acompanhassem. No fim do culto, uma moça pediu para orar pela sua vida. Naquele momento Carlos se sentiu tocado por Deus e chorou. “Meu coração ficou pequeno, foi algo sobrenatural.” No dia seguinte, foi novamente a uma igreja evangélica e se converteu.

Carlos teve que cumprir a agenda da banda, mas em cada show anunciava ao público que aquela era a sua despedida, explicando o motivo da sua saída. “Encontrei Jesus”. Depois de sair da banda perdeu toda a comodidade que tinha como artista e voltou a morar com a mãe. Desde que se converteu, há 17 anos, sua rotina mudou completamente. Além de congregar em uma igreja, ele é líder de célula (reunião nos lares) e viaja o Brasil inteiro anunciando o evangelho por meio do forró, do seu testemunho e da mensagem de Jesus.

O cantor, que, no início, tirava a roupa  no palco e brigava com empresário e músicos antes dos shows, hoje canta de paletó, sente alívio e paz pela mensagem que é levada por meio de suas canções.

A melhor coisa que eu fiz na minha vida não foi ter mudado de religião, não foi ter mudado de ritmo, até porque eu não mudei de ritmo, nem tampouco ter mudado de visual, a melhor coisa que eu fiz foi ter mudado de vida

Saboreando o amor de Deus

Na esquerda, Marília no ápice da fama e na direita, após sua transformação de vida. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Na esquerda, Marília no ápice da fama e na direita, após sua transformação de vida. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Marília Magalhães, ex-vocalista da banda Forró Saborear, também teve mudança na vida após conhecer o evangelho de Jesus Cristo. Ao 11 anos, já cantava em bandas de forró e, aos 13, foi morar em São Paulo com o tecladista Evaldo Magalhães (seu atual marido). Juntos montaram uma banda de seresta. Em 2000, a dupla gravou um CD autoral e ficou conhecida na cidade. Interessado pela repercussão, um empresário paulista os convidou para gravar um CD profissional. Apenas em São Paulo, o disco vendeu mais de 100 mil cópias em apenas um mês.

Devido ao sucesso e à fama, realizou todos os sonhos que tinha desde a infância. A agenda de shows era bem movimentada, sempre em cidades diferentes. As roupas sensuais chamavam a atenção do público, que vibravam com as danças e os sorrisos da cantora. Quando era filmada por fãs, ela sorria e dizia “eu sou simpática”.

A preocupação em enfatizar sua simpatia tinha um motivo: Marília não era feliz. “Eu odiava quando aqueles fãs vinham pra perto de mim”, confessa. A cantora também se queixa de ser obrigada a expor o corpo.

Às vezes meu marido reclamava que o show não tinha sido bom porque eu não tinha sido sensual e nenhum homem tinha me chamado de gostosa

A vocalista não gostava da fama porque sua vida de artista não permitia que convivesse com sua filha Lisandra, que foi criada pela avó, e nem ter uma “vida normal”, pois trocava a noite pelo dia. Apesar de sorrir nos palcos, dançar e demonstrar que estava feliz, quando o show terminava Marília tinha desejo de cometer suicídio. Ninguém da banda e da família imaginava, mas ela passava dias planejando a sua morte. Os colegas a detestavam devido a sua arrogância. “Ninguém da banda gostava de mim. Eu estava sempre só”.

No dia em que Marília escolheu para morrer, fez uma ligação para a sua mãe e contou tudo o que estava sentindo. Após ouvir todo o desabafo e choro, a mãe pediu que não praticasse o ato, e avisou que lhe enviaria um presente. Em poucos dias, o presente chegou, era uma Bíblia. A partir daí a cantora passou a meditar nas mensagens bíblicas e também repassava aos seus colegas de banda, que ficavam irritados com a atitude, pensavam que era fingimento e falsidade.

Uma das propostas para voltar a cantar oferecia até uma caminhoneta de luxo e R$ 100 mil só na assinatura do contrato. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Uma das propostas para voltar a cantar oferecia até uma caminhoneta de luxo e R$ 100 mil só na assinatura do contrato. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Certa época, a cantora passou a sofrer fortes náuseas, foi ao médico fazer um check-up e dentre os exames solicitados, um deles detectou HPV (papilomavírus humano). Ela estava com câncer no colo do útero. Em decorrência da doença, não poderia mais engravidar. Insatisfeita com a “injustiça” que estava sofrendo – já que a sua rotina contava com leituras bíblicas e orações – a cantora ficou com raiva de Deus. A notícia a abalou tanto que ela clamava: “Deus, me dá minha vida de volta. Eu quero viver”.

Enquanto ouvia um programa de rádio, uma amiga de Marília pediu oração e o locutor revelou que havia uma pessoa com uma doença no colo do útero mas, naquele momento, Deus estava transformando aquele útero como o de uma criança. Entusiasmada, a amiga contou o fato para Marília, que acreditou na cura de imediato. Dias depois, ao assistir a um programa de televisão evangélico, a cantora finalmente aceitou que Jesus Cristo era o dono de sua vida e, dali por diante, ela só abriria a boca para entoar louvores a Deus.

Ainda com o sonho de ser mãe, Marília passou a fazer tratamento mesmo com a chance de não mais poder engravidar. E tudo mudou. “Não sei o que aconteceu, mas você está curada”, disse o médico que seguia a cantora.

Mudança de hábito

Uma das consequências mais dolorosas que a fama trouxe foi a distância da família. Apesar de sempre estar ao lado do marido, tanto na banda quanto em turnês, Marília e o esposo, Evaldo Magalhães, se tratavam como dois estranhos. A filha deles, Lisandra, só pôde conviver com os pais a aos 8 anos de idade. A mãe tentava compensar sua ausência com presentes, mas não era o suficiente para a criança. Ao lembrar da fase, Marília se emociona. “Às vezes eu digo pra minha filha que ela nasceu em berço de ouro e ela responde: “é, mas o que era mais importante eu não tinha, a sua presença e a do meu pai’. E isso dói, porque é um tempo que não volta. Eu perdi a infância da minha filha”.

Ao anunciar que decidiu sair da banda, todos os músicos também decidiram sair. O empresário ainda tentou fazer com que Marília mudasse de ideia, mas não teve sucesso. Após sua saída, Marília recebeu várias propostas para voltar a cantar, uma delas oferecia uma caminhoneta de luxo e R$ 100 mil só na assinatura do contrato, mas foi rejeitada. “Quando você passa a servir ao dinheiro, ele se torna um inimigo”, alerta.

"Só agora sei que o Teu verdadeiro amor mudou minha historia", diz uma das novas canções de Marília. (FOTO: Arquivo Pessoal)

“Só agora sei que o Teu verdadeiro amor mudou minha historia”, diz uma das novas canções de Marília. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Devido à saída da banda, o padrão de vida da cantora mudou bastante. “Imagina uma pessoa que ganhava R$ 20 mil por mês ficar desempregada!”. A família ficou inconformada com a decisão, o marido de Marília a abandonou quando estava grávida de três meses de sua segunda filha. Naquele momento, Marília foi amparada pelos membros da igreja e pelos direitos autorais. Apesar das críticas, a cantora não se arrepende da decisão. “Só me arrependo de não ter conhecido Jesus antes”.

Atualmente, está gravando o seu segundo CD, canta no ministério de louvor da Igreja da Paz, em Fortaleza, trabalha no instituto Melvin e ministra em outras igrejas pelas quais é convidada. A rotina antiga – todo dia em um lugar diferente – já não existe. Marília dá aula de canto para o ministério infantil de sua igreja (instituto Melvin), pelo qual é remunerada, voltou a morar com a filha mais velha (antes criada pela avó) e boa parte de seus fãs também se converteram ao cristianismo. “Hoje todas as patricinhas são cristãs”, brinca.

Após a decisão, o caráter de Marília foi tratado: a arrogância que tinha no auge da carreira hoje foi transformada em amor pelas pessoas. O casamento foi restabelecido, com perdão e união, e as filhas podem ter a presença dos pais em todos os momentos. “Hoje a minha vida é ser mãe e esposa, antes eu não conseguia fazer nada disso. Todo dia acordo às 6h da manhã, vou trabalhar e fico maravilhada pensando: eu sou normal!”, comemora.

Novo Felipão

Felipe Aragão Gurgel, ou Felipão, como é mais conhecido, descobriu a paixão pela música aos 16 anos e tem no currículo o vocal das bandas Sonhadores do Forró, Nação Forrozeira, Retorno do Forró, Aviões do Forró e Zabumbada. Após sentir-se humilhado por empresários e ter enfrentado problemas nas bandas pelas quais cantou, decidiu, junto com dois irmãos e seu pai, montar a sua própria banda. Então surgia o Forró Moral. O carro do cantor foi refinanciado e seu valor, avaliado em torno de R$ 20 mil, investido na banda. “Era um risco, porque se desse certo, toda a família sairia ganhando, mas se não desse, pelo menos eu tinha o apoio da família e não passaria pelos problemas antigos”, relembra.

Na esquerda Felipão com sua tradicional dança e chapéu característico do Forró Moral. Na direita, o “Novo Felipão”. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Na esquerda Felipão com sua tradicional dança e chapéu característico do Forró Moral. Na direita, o “Novo Felipão”. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Com um ano, a banda já realizava 35 shows por mês e tinha o faturamento de R$ 1 milhão e meio. O sucesso trouxe a necessidade de montar um escritório e contratar 70 funcionários. O Forró Moral ficou conhecido pelo Norte e Nordeste do Brasil e sempre recebia convites para tocar em diversas cidades. Contagiada pelo sucesso, a família decidiu investir no negócio com a expectativa de mudar de vida.

Porém, com alguns desentendimentos o dinheiro gerado deixou de ser a fonte de renda da família e passou a ser fonte de  problemas. “Ganhávamos muito dinheiro, uns queriam ganhar mais que os outros, isso gerava discussões, e a família ficou dividida”.

Em razão da estrutura montada e das responsabilidades assumidas, a banda não poderia parar, pois precisava dar manutenção aos salários dos funcionários. Felipão se casou, mas a rotina da banda não o permitia ficar com a esposa. Passava entre 15 a 20 dias viajando. A distância de casa e os shows em excesso o deixavam muito cansado. Quanto mais sucesso a banda fazia, menos ele ficava em casa e mais discussões a família tinha por causa do dinheiro. “A única coisa positiva que o sucesso traz é o dinheiro. Mas se você não souber administrá-lo, passa a ser um problema”, alerta.

Estando alegre ou triste, sentindo solidão ou não, Felipão tinha que subir ao palco todos os dias e fingir que tudo estava bem. Todo o esforço que o cantor fazia para continuar no meio artístico era para realizar o sonho de mudar a vida da família, alcançar o sucesso e a felicidade. “O cantor, na verdade, é um grande palhaço. Eu tinha a obrigação de entrar no palco daquele jeito”, lamenta.

A aflição pela qual passava era justificada. Apesar do trabalho e do retorno financeiro, ele não tinha tempo para usufruir dos seus bens.

Na época eu dizia: eu tenho um carro e não ando nele, eu tenho uma casa e não moro nela, eu tenho uma mulher e não vivo com ela, eu tenho uma filha e não sou pai dela

Em 2008 Felipão largou o mundo secular para viver com Deus. (FOTO: Divulgação)

Em 2008 Felipão largou o mundo secular para viver com Deus. (FOTO: Divulgação)

Ao se sentir infeliz, Felipe começou a negociar com a família para cantar menos e ficar mais tempo em casa. Em uma das reuniões pediu para ter dois dias de folga por semana. Os familiares fizeram cálculos, montaram uma família e mostraram ao cantor que se ele parasse de cantar duas vezes por semana, a banda iria perder o faturamento de R$ 400 mil por mês. “Eles me mostraram essa planilha e disseram que não aceitavam perder esse dinheiro só pra eu ficar em casa descansando”, conta.

Tudo mudou

A partir daí, Felipe não queria mais ensaiar, nem gravar, apenas trabalhava por obrigação. Devido a sua infelicidade, decidiu romper com a banda. Após a decisão, a família ficou sem falar com Felipe por 6 meses e seguiu com a banda. Mas ainda restavam dois anos de contrato, que foram negociados com o empresário para atender às necessidades do cantor: fazer apenas oito shows por mês e ter mais tempo para ficar com a família, viajar e praticar atividades físicas. Mas, mesmo com essa flexibilidade, Felipão ainda se sentia vazio e angustiado. No auge da depressão, eu não aguentava mais ser o Felipão. Depois que eu cheguei lá [sucesso] e vi que não era nada do que eu pensava, eu disse: pra mim, acabou”.

Ida à igreja

Um dia, um amigo de Felipe o chamou para visitar uma igreja. Cansado da vida que levava e no anseio de uma mudança, aceitou o convite. Ao chegar no local, sentiu que estava em um ambiente completamente diferente de todos que já havia frequentado. “As músicas eram diferentes, elas entravam dentro de mim. Me senti emocionado, me dava vontade de chorar, elas me transpassavam. Tudo o que eu sonhei em nível de felicidade eu encontrei ali. E decidi: é aqui que eu vou ficar”, lembra.

Mesmo encontrando o que tanto buscava, Felipe ainda tinha 1 ano e 9 meses de contrato com o empresário, o cantor deu prosseguimento à carreira e continuou frequentando a igreja. Passou a comparecer a cultos, reuniões e acampamentos, o que fortaleceu o seu casamento. Mas, ao mesmo tempo, precisava cumprir a agenda de shows, o que gerou uma guerra na cabeça do vocalista: “Eu ía pra igreja segunda, terça, se tivesse na quarta eu ía quarta, quinta, quando era na sexta eu estava em cima do palco gritando: vagabundo”.

“Quando o contrato acabou, eu estava na fase que eu mais ganhei dinheiro na mida vida. Mas foi o momento que eu disse: acabou, eu tô livre.” (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

“Quando o contrato acabou, eu estava na fase que eu mais ganhei dinheiro na mida vida. Mas foi o momento que eu disse: acabou, eu tô livre.” (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Ao término do contrato, abriu duas empresas, mas não obteve retorno financeiro. Passou a receber convites para dar o seu testemunho (contar o motivo da mudança de sua vida) em igrejas. Apesar de não estar acostumado com os termos e a rotina do meio evangélico, aceitou os pedidos, pois sabia que muitas pessoas estavam passando por momentos de solidão, alcoolismo e depressão assim como ele, e sua história poderia inspirar essas pessoas a acreditarem que é possível ser feliz.

A cada visita, Felipe era chamado para cantar, mas como não tinha um repertório cristão, daí sentiu a necessidade de gravar um CD com musicalidade gospel. As empresas não geravam lucro, e o cantor entendeu que havia um propósito por trás disso. “Deus propositalmente segurou todo o meu dinheiro pra eu entender que não era do meu jeito, não ía ser com as minhas forças. E Deus começou na minha vida um ministério sem recurso nenhum, e esse ministério começou a me sustentar”.

Hoje, com 3 anos de ministério, a carreira do “Novo Felipão” já conta com dois CDs, um DVD, um livro publicado e dois em fase de produção. “Hoje eu não tenho mais aquela alegria passageira, ilusória e superficial, mas uma alegria que tem deixado frutos permanentes na minha vida”. A rotina mudou totalmente: tanto nas letras das músicas, quanto no prazer que sente em subir aos palcos. “Eu nasci pra isso, pra levar às pessoas o conhecimento de Jesus Cristo”. Em suas músicas atuais, ao invés de gritar “vagabundo”, hoje ele diz “abençoado”.

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Cantores de forró relatam bastidores do sucesso e mudança de vida após se “entregarem a Jesus”

No auge dos sucesso, os cantores Carlos Rilmar, Marília Magalhães e Felipão largaram a carreira para buscar a Deus

Por Rosana Romão em Perfil

30 de maio de 2014 às 16:45

Há 5 anos

Os anos 90 foram marcantes para o conhecido “forró de raiz”. As músicas com letras românticas embalaram os corações dos frequentadores de casas de shows que bailavam a noite toda e ficaram na memória. Alguns cantores de bandas como Mastruz com Leite, Forró Saborear e Forró Moral largaram a carreira para ter uma vida diferente. Hoje frequentam igrejas, cantam músicas que exaltam o nome de Deus e evangelizam outras pessoas com mensagens bíblicas.

Na esquerda, o cantor no auge da carreira secular e na direita, após a sua conversão. (FOTO: Divulgação)

Na esquerda, o cantor no auge da carreira secular e na direita, após a sua conversão. (FOTO: Divulgação)

Carlos Rilmar, o cantor de cabelos compridos, roupas coladas e danças sensuais, conhecido como o “príncipe do forró”, hoje frequenta uma igreja evangélica, aconselha os membros e canta forró para Deus, além de viajar com seu ministério itinerante para levar o seu testemunho de vida e suas canções para todo o Brasil. Filho de músicos, influenciado pela cultura rock e inspirado na Black Banda, Carlos montou, juntamente com seus colegas de escola, a banda Sentimento Selvagem. Apresentou-se diversas vezes em bailes e, devido  sua desenvoltura e presença de palco, foi convidado para ser vocalista da Black Banda, onde ficou cerca de três anos. Tempos depois foi visto pelo empresário Emanuel Gurgel, que ficou impressionado com sua performance e o convidou para cantar na Banda Aquarius chegando logo depois à banda Mastruz com Leite, onde chegou ao auge do sucesso.

Em uma de suas turnês pelo Ceará, o cantor ficou hospedado em um hotel vizinho a uma igreja. Sentiu vontade de entrar, então se disfarçou e pediu que os seguranças não o acompanhassem. No fim do culto, uma moça pediu para orar pela sua vida. Naquele momento Carlos se sentiu tocado por Deus e chorou. “Meu coração ficou pequeno, foi algo sobrenatural.” No dia seguinte, foi novamente a uma igreja evangélica e se converteu.

Carlos teve que cumprir a agenda da banda, mas em cada show anunciava ao público que aquela era a sua despedida, explicando o motivo da sua saída. “Encontrei Jesus”. Depois de sair da banda perdeu toda a comodidade que tinha como artista e voltou a morar com a mãe. Desde que se converteu, há 17 anos, sua rotina mudou completamente. Além de congregar em uma igreja, ele é líder de célula (reunião nos lares) e viaja o Brasil inteiro anunciando o evangelho por meio do forró, do seu testemunho e da mensagem de Jesus.

O cantor, que, no início, tirava a roupa  no palco e brigava com empresário e músicos antes dos shows, hoje canta de paletó, sente alívio e paz pela mensagem que é levada por meio de suas canções.

A melhor coisa que eu fiz na minha vida não foi ter mudado de religião, não foi ter mudado de ritmo, até porque eu não mudei de ritmo, nem tampouco ter mudado de visual, a melhor coisa que eu fiz foi ter mudado de vida

Saboreando o amor de Deus

Na esquerda, Marília no ápice da fama e na direita, após sua transformação de vida. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Na esquerda, Marília no ápice da fama e na direita, após sua transformação de vida. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Marília Magalhães, ex-vocalista da banda Forró Saborear, também teve mudança na vida após conhecer o evangelho de Jesus Cristo. Ao 11 anos, já cantava em bandas de forró e, aos 13, foi morar em São Paulo com o tecladista Evaldo Magalhães (seu atual marido). Juntos montaram uma banda de seresta. Em 2000, a dupla gravou um CD autoral e ficou conhecida na cidade. Interessado pela repercussão, um empresário paulista os convidou para gravar um CD profissional. Apenas em São Paulo, o disco vendeu mais de 100 mil cópias em apenas um mês.

Devido ao sucesso e à fama, realizou todos os sonhos que tinha desde a infância. A agenda de shows era bem movimentada, sempre em cidades diferentes. As roupas sensuais chamavam a atenção do público, que vibravam com as danças e os sorrisos da cantora. Quando era filmada por fãs, ela sorria e dizia “eu sou simpática”.

A preocupação em enfatizar sua simpatia tinha um motivo: Marília não era feliz. “Eu odiava quando aqueles fãs vinham pra perto de mim”, confessa. A cantora também se queixa de ser obrigada a expor o corpo.

Às vezes meu marido reclamava que o show não tinha sido bom porque eu não tinha sido sensual e nenhum homem tinha me chamado de gostosa

A vocalista não gostava da fama porque sua vida de artista não permitia que convivesse com sua filha Lisandra, que foi criada pela avó, e nem ter uma “vida normal”, pois trocava a noite pelo dia. Apesar de sorrir nos palcos, dançar e demonstrar que estava feliz, quando o show terminava Marília tinha desejo de cometer suicídio. Ninguém da banda e da família imaginava, mas ela passava dias planejando a sua morte. Os colegas a detestavam devido a sua arrogância. “Ninguém da banda gostava de mim. Eu estava sempre só”.

No dia em que Marília escolheu para morrer, fez uma ligação para a sua mãe e contou tudo o que estava sentindo. Após ouvir todo o desabafo e choro, a mãe pediu que não praticasse o ato, e avisou que lhe enviaria um presente. Em poucos dias, o presente chegou, era uma Bíblia. A partir daí a cantora passou a meditar nas mensagens bíblicas e também repassava aos seus colegas de banda, que ficavam irritados com a atitude, pensavam que era fingimento e falsidade.

Uma das propostas para voltar a cantar oferecia até uma caminhoneta de luxo e R$ 100 mil só na assinatura do contrato. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Uma das propostas para voltar a cantar oferecia até uma caminhoneta de luxo e R$ 100 mil só na assinatura do contrato. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Certa época, a cantora passou a sofrer fortes náuseas, foi ao médico fazer um check-up e dentre os exames solicitados, um deles detectou HPV (papilomavírus humano). Ela estava com câncer no colo do útero. Em decorrência da doença, não poderia mais engravidar. Insatisfeita com a “injustiça” que estava sofrendo – já que a sua rotina contava com leituras bíblicas e orações – a cantora ficou com raiva de Deus. A notícia a abalou tanto que ela clamava: “Deus, me dá minha vida de volta. Eu quero viver”.

Enquanto ouvia um programa de rádio, uma amiga de Marília pediu oração e o locutor revelou que havia uma pessoa com uma doença no colo do útero mas, naquele momento, Deus estava transformando aquele útero como o de uma criança. Entusiasmada, a amiga contou o fato para Marília, que acreditou na cura de imediato. Dias depois, ao assistir a um programa de televisão evangélico, a cantora finalmente aceitou que Jesus Cristo era o dono de sua vida e, dali por diante, ela só abriria a boca para entoar louvores a Deus.

Ainda com o sonho de ser mãe, Marília passou a fazer tratamento mesmo com a chance de não mais poder engravidar. E tudo mudou. “Não sei o que aconteceu, mas você está curada”, disse o médico que seguia a cantora.

Mudança de hábito

Uma das consequências mais dolorosas que a fama trouxe foi a distância da família. Apesar de sempre estar ao lado do marido, tanto na banda quanto em turnês, Marília e o esposo, Evaldo Magalhães, se tratavam como dois estranhos. A filha deles, Lisandra, só pôde conviver com os pais a aos 8 anos de idade. A mãe tentava compensar sua ausência com presentes, mas não era o suficiente para a criança. Ao lembrar da fase, Marília se emociona. “Às vezes eu digo pra minha filha que ela nasceu em berço de ouro e ela responde: “é, mas o que era mais importante eu não tinha, a sua presença e a do meu pai’. E isso dói, porque é um tempo que não volta. Eu perdi a infância da minha filha”.

Ao anunciar que decidiu sair da banda, todos os músicos também decidiram sair. O empresário ainda tentou fazer com que Marília mudasse de ideia, mas não teve sucesso. Após sua saída, Marília recebeu várias propostas para voltar a cantar, uma delas oferecia uma caminhoneta de luxo e R$ 100 mil só na assinatura do contrato, mas foi rejeitada. “Quando você passa a servir ao dinheiro, ele se torna um inimigo”, alerta.

"Só agora sei que o Teu verdadeiro amor mudou minha historia", diz uma das novas canções de Marília. (FOTO: Arquivo Pessoal)

“Só agora sei que o Teu verdadeiro amor mudou minha historia”, diz uma das novas canções de Marília. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Devido à saída da banda, o padrão de vida da cantora mudou bastante. “Imagina uma pessoa que ganhava R$ 20 mil por mês ficar desempregada!”. A família ficou inconformada com a decisão, o marido de Marília a abandonou quando estava grávida de três meses de sua segunda filha. Naquele momento, Marília foi amparada pelos membros da igreja e pelos direitos autorais. Apesar das críticas, a cantora não se arrepende da decisão. “Só me arrependo de não ter conhecido Jesus antes”.

Atualmente, está gravando o seu segundo CD, canta no ministério de louvor da Igreja da Paz, em Fortaleza, trabalha no instituto Melvin e ministra em outras igrejas pelas quais é convidada. A rotina antiga – todo dia em um lugar diferente – já não existe. Marília dá aula de canto para o ministério infantil de sua igreja (instituto Melvin), pelo qual é remunerada, voltou a morar com a filha mais velha (antes criada pela avó) e boa parte de seus fãs também se converteram ao cristianismo. “Hoje todas as patricinhas são cristãs”, brinca.

Após a decisão, o caráter de Marília foi tratado: a arrogância que tinha no auge da carreira hoje foi transformada em amor pelas pessoas. O casamento foi restabelecido, com perdão e união, e as filhas podem ter a presença dos pais em todos os momentos. “Hoje a minha vida é ser mãe e esposa, antes eu não conseguia fazer nada disso. Todo dia acordo às 6h da manhã, vou trabalhar e fico maravilhada pensando: eu sou normal!”, comemora.

Novo Felipão

Felipe Aragão Gurgel, ou Felipão, como é mais conhecido, descobriu a paixão pela música aos 16 anos e tem no currículo o vocal das bandas Sonhadores do Forró, Nação Forrozeira, Retorno do Forró, Aviões do Forró e Zabumbada. Após sentir-se humilhado por empresários e ter enfrentado problemas nas bandas pelas quais cantou, decidiu, junto com dois irmãos e seu pai, montar a sua própria banda. Então surgia o Forró Moral. O carro do cantor foi refinanciado e seu valor, avaliado em torno de R$ 20 mil, investido na banda. “Era um risco, porque se desse certo, toda a família sairia ganhando, mas se não desse, pelo menos eu tinha o apoio da família e não passaria pelos problemas antigos”, relembra.

Na esquerda Felipão com sua tradicional dança e chapéu característico do Forró Moral. Na direita, o “Novo Felipão”. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Na esquerda Felipão com sua tradicional dança e chapéu característico do Forró Moral. Na direita, o “Novo Felipão”. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Com um ano, a banda já realizava 35 shows por mês e tinha o faturamento de R$ 1 milhão e meio. O sucesso trouxe a necessidade de montar um escritório e contratar 70 funcionários. O Forró Moral ficou conhecido pelo Norte e Nordeste do Brasil e sempre recebia convites para tocar em diversas cidades. Contagiada pelo sucesso, a família decidiu investir no negócio com a expectativa de mudar de vida.

Porém, com alguns desentendimentos o dinheiro gerado deixou de ser a fonte de renda da família e passou a ser fonte de  problemas. “Ganhávamos muito dinheiro, uns queriam ganhar mais que os outros, isso gerava discussões, e a família ficou dividida”.

Em razão da estrutura montada e das responsabilidades assumidas, a banda não poderia parar, pois precisava dar manutenção aos salários dos funcionários. Felipão se casou, mas a rotina da banda não o permitia ficar com a esposa. Passava entre 15 a 20 dias viajando. A distância de casa e os shows em excesso o deixavam muito cansado. Quanto mais sucesso a banda fazia, menos ele ficava em casa e mais discussões a família tinha por causa do dinheiro. “A única coisa positiva que o sucesso traz é o dinheiro. Mas se você não souber administrá-lo, passa a ser um problema”, alerta.

Estando alegre ou triste, sentindo solidão ou não, Felipão tinha que subir ao palco todos os dias e fingir que tudo estava bem. Todo o esforço que o cantor fazia para continuar no meio artístico era para realizar o sonho de mudar a vida da família, alcançar o sucesso e a felicidade. “O cantor, na verdade, é um grande palhaço. Eu tinha a obrigação de entrar no palco daquele jeito”, lamenta.

A aflição pela qual passava era justificada. Apesar do trabalho e do retorno financeiro, ele não tinha tempo para usufruir dos seus bens.

Na época eu dizia: eu tenho um carro e não ando nele, eu tenho uma casa e não moro nela, eu tenho uma mulher e não vivo com ela, eu tenho uma filha e não sou pai dela

Em 2008 Felipão largou o mundo secular para viver com Deus. (FOTO: Divulgação)

Em 2008 Felipão largou o mundo secular para viver com Deus. (FOTO: Divulgação)

Ao se sentir infeliz, Felipe começou a negociar com a família para cantar menos e ficar mais tempo em casa. Em uma das reuniões pediu para ter dois dias de folga por semana. Os familiares fizeram cálculos, montaram uma família e mostraram ao cantor que se ele parasse de cantar duas vezes por semana, a banda iria perder o faturamento de R$ 400 mil por mês. “Eles me mostraram essa planilha e disseram que não aceitavam perder esse dinheiro só pra eu ficar em casa descansando”, conta.

Tudo mudou

A partir daí, Felipe não queria mais ensaiar, nem gravar, apenas trabalhava por obrigação. Devido a sua infelicidade, decidiu romper com a banda. Após a decisão, a família ficou sem falar com Felipe por 6 meses e seguiu com a banda. Mas ainda restavam dois anos de contrato, que foram negociados com o empresário para atender às necessidades do cantor: fazer apenas oito shows por mês e ter mais tempo para ficar com a família, viajar e praticar atividades físicas. Mas, mesmo com essa flexibilidade, Felipão ainda se sentia vazio e angustiado. No auge da depressão, eu não aguentava mais ser o Felipão. Depois que eu cheguei lá [sucesso] e vi que não era nada do que eu pensava, eu disse: pra mim, acabou”.

Ida à igreja

Um dia, um amigo de Felipe o chamou para visitar uma igreja. Cansado da vida que levava e no anseio de uma mudança, aceitou o convite. Ao chegar no local, sentiu que estava em um ambiente completamente diferente de todos que já havia frequentado. “As músicas eram diferentes, elas entravam dentro de mim. Me senti emocionado, me dava vontade de chorar, elas me transpassavam. Tudo o que eu sonhei em nível de felicidade eu encontrei ali. E decidi: é aqui que eu vou ficar”, lembra.

Mesmo encontrando o que tanto buscava, Felipe ainda tinha 1 ano e 9 meses de contrato com o empresário, o cantor deu prosseguimento à carreira e continuou frequentando a igreja. Passou a comparecer a cultos, reuniões e acampamentos, o que fortaleceu o seu casamento. Mas, ao mesmo tempo, precisava cumprir a agenda de shows, o que gerou uma guerra na cabeça do vocalista: “Eu ía pra igreja segunda, terça, se tivesse na quarta eu ía quarta, quinta, quando era na sexta eu estava em cima do palco gritando: vagabundo”.

“Quando o contrato acabou, eu estava na fase que eu mais ganhei dinheiro na mida vida. Mas foi o momento que eu disse: acabou, eu tô livre.” (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

“Quando o contrato acabou, eu estava na fase que eu mais ganhei dinheiro na mida vida. Mas foi o momento que eu disse: acabou, eu tô livre.” (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Ao término do contrato, abriu duas empresas, mas não obteve retorno financeiro. Passou a receber convites para dar o seu testemunho (contar o motivo da mudança de sua vida) em igrejas. Apesar de não estar acostumado com os termos e a rotina do meio evangélico, aceitou os pedidos, pois sabia que muitas pessoas estavam passando por momentos de solidão, alcoolismo e depressão assim como ele, e sua história poderia inspirar essas pessoas a acreditarem que é possível ser feliz.

A cada visita, Felipe era chamado para cantar, mas como não tinha um repertório cristão, daí sentiu a necessidade de gravar um CD com musicalidade gospel. As empresas não geravam lucro, e o cantor entendeu que havia um propósito por trás disso. “Deus propositalmente segurou todo o meu dinheiro pra eu entender que não era do meu jeito, não ía ser com as minhas forças. E Deus começou na minha vida um ministério sem recurso nenhum, e esse ministério começou a me sustentar”.

Hoje, com 3 anos de ministério, a carreira do “Novo Felipão” já conta com dois CDs, um DVD, um livro publicado e dois em fase de produção. “Hoje eu não tenho mais aquela alegria passageira, ilusória e superficial, mas uma alegria que tem deixado frutos permanentes na minha vida”. A rotina mudou totalmente: tanto nas letras das músicas, quanto no prazer que sente em subir aos palcos. “Eu nasci pra isso, pra levar às pessoas o conhecimento de Jesus Cristo”. Em suas músicas atuais, ao invés de gritar “vagabundo”, hoje ele diz “abençoado”.