Nova presidente do sindicato dos médicos defende que Hospital da Mulher vire geral


Nova presidente do sindicato dos médicos defende que Hospital da Mulher vire geral

Mayra Pinheiro, a primeira tucana após duas décadas de domínio petista no sindicato, diz que é necessário mudar o foco do hospital, símbolo da gestão de Luizianne Lins (PT)

Por Hayanne Narlla em Perfil

28 de abril de 2015 às 07:00

Há 4 anos
Mayra conversou com Tribuna do Ceará sobre temas polêmicos como aborto e o programa Mais Médicos (FOTO: Tribuna do Ceará)

Mayra conversou com Tribuna do Ceará sobre temas polêmicos como aborto e o programa Mais Médicos (FOTO: Tribuna do Ceará)

Hospital da Mulher transformado em um hospital de atendimento geral. Essa é a ideia da presidente do Sindicato dos Médicos (Simec), Mayra Pinheiro, defendida em entrevista ao Tribuna do Ceará. Para ela, é necessário que o equipamento dê suporte a todos os públicos da população. Além dessa proposta, a médica leva consigo uma série de discussões que repercutem na saúde pública.

Pediatra, ela atua de segunda a sexta-feira no Simec, mas a rotina estende-se para além do horário comercial. Ao descobrir a vocação com apenas 8 anos, Mayra não imaginava que sua área iria enfrentar tantos problemas. Ainda na infância, utilizou o sistema de saúde público, porém não havia o mesmo agravo que o atual.

Como representante de sua categoria, acredita na união dos profissionais para conseguir melhores condições nos locais de trabalho. Também na conscientização das pessoas para o voto, já que, segundo ela, a política pública é a única forma de transformação social.

Na entrevista, Mayra falou sobre a troca recente de presidência do Simec, programa Mais Médicos, aborto e os novos hospitais do estado. Confira:

Tribuna do Ceará: A senhora derrotou uma chapa que estava há 21 anos no poder. Qual será a diferença nesse sindicato que durante duas décadas foi comandado por dirigentes que apoiavam o atual governo federal?
Mayra Pinheiro: Já começa que a diferença não pode ser encarada que era uma chapa petista e agora é do PSDB. A gente tinha uma diretoria que tinha uma preferência pelos projetos políticos que hoje estão a cargo do Partido dos Trabalhadores (PT), e agora a gente tem uma diretoria completamente independente. Não é interesse da gente partidarizar a entidade médica, trazer para cá a discussão de opção de partido político, mas programas políticos de cunho social que sejam relevantes.

'A proporção de médicos no Brasil é maior que na França. O que a gente tem é uma péssima distribuição localizada nas capitais

Tribuna: A senhora teria dito, no discurso de posse, que iria “ensiná-los como votar e escolher melhor nossos governantes”, falando da população. O que isso quer dizer?
Mayra: Não vamos doutrinar ninguém. O contexto que a gente colocou foi que nós temos um projeto chamado de Simec Cidadão, que vai pactuar com as Secretarias Municipal e Estadual de Educação e Saúde, com visitas para prestar serviço social de médicos e estudantes de medicina nas escolas, levando noção de nutrição, de atividade física, de doenças. E alguns grupos vão fazer assistência, não de precarização de atendimento, numa mesa e numa cadeira medido pressão arterial. Nós queremos atendimento digno. Por exemplo, os oftalmologistas vão fazer triagem nas crianças, com avaliação visual e se tiver sido detectado algum problema elas vão ser encaminhadas para o centro de referência já nosso, sem precisar passar pelo poder estatal via SUS. Já a parte de orientação de ética e cidadania vai ficar a cargo da OAB, que vai dar noções de como se portar socialmente, sobre violência, lei, voto, sobre escolhas. Hoje, parte da situação social é decorrente de escolhas erradas, de pessoas que trocam voto por dentadura, por chinela…

'É preciso ter motivação para você fixar pessoas importantes, que é professor e médico, para o país se desenvolver no interior.

Tribuna: O que a senhora acha do programa Mais Médicos?
Mayra: A ideia seria boa se fosse Mais Saúde. O programa está errado. Além de financiar uma ditadura, nós não precisamos de mais médicos, nós precisamos distribuir melhor os médicos. Nós temos mais médicos no Brasil que a França tem proporcionalmente por habitante. O que a gente tem é uma péssima distribuição de médicos localizados na capital, poucos médicos no interior e nas periferias da capital. Esse problema é por conta da situação da precarização do trabalho médico no interior e na periferia. Hoje, eu trabalho num hospital de periferia e pouca gente quer trabalhar lá. Só quem é concursado vai. Quem não é vai duas ou três vezes por lá. E o hospital é invadido por gangue, a gente se esconde porque vem com tiroteio, gente com faca…

Tribuna: Então os médicos não tem desejo de trabalhar em cidades menores?
Mayra: Por causa da precarização do trabalho. Nós visitamos 40 unidades do interior para ver condições de saúde. 60% delas não tinha nem aparelho de Aerosol, que é o tratamento básico para tirar a criança ou adulto de uma crise asmática. 80% delas não tinha nem anti-hipertensivo, e o que você faz? Você senta numa cadeira, em uma mesa e fica olhando para as pessoas e consultando, dizendo: “Não temos remédio, não temos raio X”. Para querer morar no interior, precisa ter o que fazer pelas pessoas, porque você se desestimula. Além do que a cidade não oferece uma boa qualidade de vida para quem tem filho. Não há perspectiva de que vai sair de lá um dia, como no judiciário. O médico que vai pro interior ele praticamente para de ter contato com o mundo científico. Ninguém faz congresso médico em Santana do Acaraú. Você também não tem vida social plena. Defendo carreira de estado para professor e para médico. Quantas pessoas fazem doutorado na USP e vai ser médico em Crateús? É preciso ter motivação para você fixar pessoas importantes, que é professor e médico, para o país se desenvolver no interior.

Representantes do Simec estiveram presentes no dia da chegada de cubanos do Programa Mais Médicos (FOTO:  Reprodução)

Representantes do Simec estiveram presentes no dia da chegada de cubanos do Programa Mais Médicos (FOTO: Reprodução)

Tribuna: A senhora foi uma das médicas que esteva presente no episódio das vaias aos médicos cubanos ao Ceará. Inclusive, foi extremamente criticada por uma dita falta de educação e até de amor ao próximo. A senhora se arrepende de ter feito esse protesto?
Mayra: Isso aconteceu na porta da Escola de Saúde Pública e não no aeroporto. Nesse dia, se deu a cerimônia de convocação dos preceptores brasileiros que iriam cuidar das preceptorias do programa Mais Médicos. E nós queríamos participar da cerimônia para saber quem eram os médicos brasileiros que compactuavam com esse programa que nos julgamos, até hoje, não atender a necessidade da população brasileira. Quando nós chegamos lá, não nos deixaram entrar. E a Escola de Saúde Pública, o nome já diz, é pública. É um lugar aberto para frequência de qualquer brasileiro. Quando chegamos lá, nos disseram que não poderíamos entrar porque não fomos convidados. Aí nós explicamos que eramos médicos e que a gente queria participar da cerimônia pacificamente. Ficamos até o final da cerimônia protestando. Nós gravamos todas essas falas do protesto, repudiando a atitude da presidente da Escola de Saúde Pública, doutora Ivana Barreto, em não nos deixar entrar. Eles utilizaram um artifício. Na saída da escola, nós combinamos que vaiaríamos todos os preceptores e gestores da escola que não nos deixaram entrar. Aí o que foi feito? Lá dentro combinaram que, em vez de saírem primeiros preceptores, sairiam os cubanos. Ficaram todos trancados e saíram pelos fundos da escola, submetendo os colegas médicos cubanos ao constrangimento, porque eles foram usados para se criar uma cena social que foi deprimente para o país inteiro. A vaia não foi para os cubanos. A gente chamava trabalha escravo e não cubano escravo. Foi uma distorção completa. Inclusive eu fui no dia vestida com a camisa de cuba, exatamente para mostrar que não tinha absolutamente nada com os cubanos.

'Mas o interesse é participar na Câmara (Federal) das discussões que envolvem os programas de saúde do país

Tribuna: No mesmo programa há o serviço obrigatório dos estudantes residentes na saúde pública. Você é a favor?
Mayra: Por que serviço civil obrigatório num país livre? O governo está implantando com intercambista o programa mais especialização, porque está faltando especialista no Brasil. Dentro desses dois anos de serviço obrigatório, os médicos recém-formados são obrigados a passar dois anos prestando serviço na atenção básica e você não vai formar especialista. Como você cria um programa de especialista se você obriga a pessoa a passar mais dois anos sem se especializar? No mínimo é irônico.

Tribuna: Uma das prioridades do Simec é a saúde pública. Como vocês avaliam novos hospitais lançados na gestão passada, os Hospitais Regionais do Cariri e de Sobral?
Mayra: Esses hospitais foram construídos e são geridos pelo ISGH [Instituto de Saúde e Gestão Hospitalar], que hoje é outra coisa que está sendo questionada no Ministério Público e não pelo sindicato. Dentro desse grupo do ISGH, o grupo gestor é o grupo político que hoje dirige o estado. É um conflito de interesses enorme. Então, a compra deles não passa por licitação pública. Isso é questionável e o funcionamento deles é insatisfatório. O do Cariri, por exemplo, a ortopedia não funciona. A rigor, você abriu grandes estruturas, muito boas, mas que não estão funcionando. E hoje nós temos uma alta demanda com o HGF superlotado, recebendo pacientes do interior, sendo que foram criados dois hospitais e vão continuar drenando paciente para Fortaleza. E não existe concurso público para esses hospitais do ISGH. Em Sobral muitos médicos são contratados com RPA, pagando R$ 5 mil por um plantão de 24 horas, enquanto o mesmo médico contratado no estado ganha o mesmo valor para dar oito plantões de 12 horas. E aí os médicos de lá se revoltaram e queriam concurso público. O governador pagava avião e dizia que os médicos só iam se fosse de avião para dar o plantão. Os médicos só iam de avião porque era a única forma de ir nessa loucura de você não ser contratado, não ter estabilidade, nem nada.

Tribuna: E o Hospital da Mulher?
Mayra: Também sem funcionar efetivamente. Inclusive, a nossa sugestão ao Ministério Público, com a doutora Isabel Porto, é que o Hospital da Mulher possa abrir mudando o foco dele. Foi um hospital criado com viés político também de atender basicamente a mulher na gestão da prefeita Luizianne Lins. Nem funcionou para atender a mulher, nem está funcionando para atender outros públicos da população. Temos cerca de 38 pacientes por dia nos corredores do HGF. É mudar o perfil do Hospital da Mulher e transformá-lo num hospital geral para que ele possa atender esses pacientes que estão sem leitos. Fazer lá uma enfermaria clínica, fazer uma enfermaria cirúrgica, fazer uma unidade de pediatria lá dentro, pelo menos de neonatologia. É uma estrutura imensa, muito bem planejada, mas que não está funcionando enquanto pessoas morrem porque não podem ser internadas nos hospitais que estão abertos.

Mayra enfatiza que vaias não foram para médicos cubano no episódio marcado nacionalmente (FOTO: Tribuna do Ceará)

Mayra enfatiza que vaias não foram para médicos cubanos no episódio marcado nacionalmente (FOTO: Tribuna do Ceará)

Tribuna: A senhora tem uma via política ativa, chegando a se candidatar como deputada federal. Por que entrou numa disputa político-partidária?
Mayra: Porque meu orientador espiritual, o papa Francisco, disse que através das políticas públicas é que há transformação social. E acho que, hoje, as conquistas da saúde passam pelo Congresso Nacional. Se tivesse unicamente o interesse de ser política, teria me candidato a deputada estadual, que pela quantidade de votos que tive, daria para ter entrado. Um representante do meu partido entrou com 24 mil votos e eu tive 26 mil. Mas o interesse é participar na Câmara [Federal] das discussões que envolvem os programas de saúde do país, como Mais Médicos, Provab, Fies.

Tribuna: A senhora acha que o PSDB vai se tornar um partido de médicos, assim como o PDT atrai os advogados?
Mayra: Os médicos só procuraram o PSDB porque ele não iria coligar ao PT, nem a nível local, nem a nível nacional, e que fez oposição às políticas públicas do PT. Os médicos não são do PSDB, eles estão no PSDB. Se o PT sair e entrar o PSDB, ou quem quer seja, fizer programa político de péssima qualidade para a saúde brasileira, nós vamos fazer oposição.

Tribuna: A senhora pretende se candidatar novamente?
Mayra: Se os meus colegas quiserem, sim. Foi deliberada na assembleia dos médicos que nos teríamos um representante. Esse representante seria até o doutor George Magalhães, maior clínico do Ceará. Ele não pode e fui eu. Se chegar o momento de novo em que a gente diga que precisamos ter um representante, e for algum médico que não seja eu, nós vamos apoiá-lo. Nós precisamos ter representação política da saúde. Mas vou responder uma coisa que é fato: não serei candidata a vereadora em 2016. Não tenho interesse. Não que ser vereador não seja importante para minha cidade. É que nossos interesses hoje precisam de representação a nível federal para participar com discussão técnica dos programas médicos.

Tribuna: A senhora é pediatra e pró-vida. Inclusive já participou da Marcha pela Vida. Como médica, deixando as crenças de lado, a senhora considera que o aborto necessita ser discutido na esfera de saúde pública?
Mayra: Eu acho que deve ser discutido. A sociedade precisa ser esclarecida. A discussão é muito importante para a formação do país. O mais importante é levar o aborto para as escolas, mas cientificamente. É o que faço no movimento Movida. Mostramos em termos bioquímicos, genéticos na embriologia quando começa a vida. A vida começa 12 horas depois da concepção. A única coisa que diferencia o ser humano e que faz a gente ter certeza que vida começou ali é que somos um ser em evolução, que vai desde a concepção até a morte. Você evolui. Qualquer que seja o estágio que você interrompa, você interrompeu a vida do mesmo jeito. Quando se tem um embriãozinho, o material genético é todo de ser humano. E existe vida do ponto de vista bioquímico. A sociedade tem que ter acesso à educação e cultura. Pautar assunto com conhecimento, não com paixão.

Tribuna: O que seria a saída para as muitas mulheres que morrem por causa de aborto clandestinos?
Mayra: Que não é verdade. Disseram que temos 100 mil mulheres mortas nos últimos 40 anos no Brasil. Que estatística é essa? A gente tem muitas mulheres que morrem porque não têm assistência à saúde de qualidade. O aborto não pode ser viés para isso. Eu tenho péssima assistência pré-natal. Eu tenho ausência de distribuição de métodos contraceptivos. Essas mulheres não têm acesso ao básico, que deve ser rotina no país. Antes de você sustentar um direito a morte, você tinha que garantir o direito a vida. Você chegar e ter um bom pré-natal. Chegar em meninas de 13 e 14 anos, em período fértil, e dar orientação, consulta com ginecologista preventiva, método anticoncepcional. Isso é saúde preventiva. Agora resolver problema do país com aborto, com assassinato. Eu me formei para defender a vida. Morte não é solução nem pra crime hediondo.

Perfil

Médica formada pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Mayra Pinheiro fez residência em pediatria pela Universidade de São Paulo (USP). É especialista em Medicina do Trabalho; Professora e coordenadora do internato em Pediatria da UniChristus e médica perita da Defensoria Pública da União no Ceará. Foi candidata a deputada federal nas eleições de 2014, mas não conseguiu a vaga. Atualmente, é presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará (Simec)

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Mayra Pinheiro, a primeira tucana após duas décadas de domínio petista no sindicato, diz que é necessário mudar o foco do hospital, símbolo da gestão de Luizianne Lins (PT)

Por Hayanne Narlla em Perfil

28 de abril de 2015 às 07:00

Há 4 anos
Mayra conversou com Tribuna do Ceará sobre temas polêmicos como aborto e o programa Mais Médicos (FOTO: Tribuna do Ceará)

Mayra conversou com Tribuna do Ceará sobre temas polêmicos como aborto e o programa Mais Médicos (FOTO: Tribuna do Ceará)

Hospital da Mulher transformado em um hospital de atendimento geral. Essa é a ideia da presidente do Sindicato dos Médicos (Simec), Mayra Pinheiro, defendida em entrevista ao Tribuna do Ceará. Para ela, é necessário que o equipamento dê suporte a todos os públicos da população. Além dessa proposta, a médica leva consigo uma série de discussões que repercutem na saúde pública.

Pediatra, ela atua de segunda a sexta-feira no Simec, mas a rotina estende-se para além do horário comercial. Ao descobrir a vocação com apenas 8 anos, Mayra não imaginava que sua área iria enfrentar tantos problemas. Ainda na infância, utilizou o sistema de saúde público, porém não havia o mesmo agravo que o atual.

Como representante de sua categoria, acredita na união dos profissionais para conseguir melhores condições nos locais de trabalho. Também na conscientização das pessoas para o voto, já que, segundo ela, a política pública é a única forma de transformação social.

Na entrevista, Mayra falou sobre a troca recente de presidência do Simec, programa Mais Médicos, aborto e os novos hospitais do estado. Confira:

Tribuna do Ceará: A senhora derrotou uma chapa que estava há 21 anos no poder. Qual será a diferença nesse sindicato que durante duas décadas foi comandado por dirigentes que apoiavam o atual governo federal?
Mayra Pinheiro: Já começa que a diferença não pode ser encarada que era uma chapa petista e agora é do PSDB. A gente tinha uma diretoria que tinha uma preferência pelos projetos políticos que hoje estão a cargo do Partido dos Trabalhadores (PT), e agora a gente tem uma diretoria completamente independente. Não é interesse da gente partidarizar a entidade médica, trazer para cá a discussão de opção de partido político, mas programas políticos de cunho social que sejam relevantes.

'A proporção de médicos no Brasil é maior que na França. O que a gente tem é uma péssima distribuição localizada nas capitais

Tribuna: A senhora teria dito, no discurso de posse, que iria “ensiná-los como votar e escolher melhor nossos governantes”, falando da população. O que isso quer dizer?
Mayra: Não vamos doutrinar ninguém. O contexto que a gente colocou foi que nós temos um projeto chamado de Simec Cidadão, que vai pactuar com as Secretarias Municipal e Estadual de Educação e Saúde, com visitas para prestar serviço social de médicos e estudantes de medicina nas escolas, levando noção de nutrição, de atividade física, de doenças. E alguns grupos vão fazer assistência, não de precarização de atendimento, numa mesa e numa cadeira medido pressão arterial. Nós queremos atendimento digno. Por exemplo, os oftalmologistas vão fazer triagem nas crianças, com avaliação visual e se tiver sido detectado algum problema elas vão ser encaminhadas para o centro de referência já nosso, sem precisar passar pelo poder estatal via SUS. Já a parte de orientação de ética e cidadania vai ficar a cargo da OAB, que vai dar noções de como se portar socialmente, sobre violência, lei, voto, sobre escolhas. Hoje, parte da situação social é decorrente de escolhas erradas, de pessoas que trocam voto por dentadura, por chinela…

'É preciso ter motivação para você fixar pessoas importantes, que é professor e médico, para o país se desenvolver no interior.

Tribuna: O que a senhora acha do programa Mais Médicos?
Mayra: A ideia seria boa se fosse Mais Saúde. O programa está errado. Além de financiar uma ditadura, nós não precisamos de mais médicos, nós precisamos distribuir melhor os médicos. Nós temos mais médicos no Brasil que a França tem proporcionalmente por habitante. O que a gente tem é uma péssima distribuição de médicos localizados na capital, poucos médicos no interior e nas periferias da capital. Esse problema é por conta da situação da precarização do trabalho médico no interior e na periferia. Hoje, eu trabalho num hospital de periferia e pouca gente quer trabalhar lá. Só quem é concursado vai. Quem não é vai duas ou três vezes por lá. E o hospital é invadido por gangue, a gente se esconde porque vem com tiroteio, gente com faca…

Tribuna: Então os médicos não tem desejo de trabalhar em cidades menores?
Mayra: Por causa da precarização do trabalho. Nós visitamos 40 unidades do interior para ver condições de saúde. 60% delas não tinha nem aparelho de Aerosol, que é o tratamento básico para tirar a criança ou adulto de uma crise asmática. 80% delas não tinha nem anti-hipertensivo, e o que você faz? Você senta numa cadeira, em uma mesa e fica olhando para as pessoas e consultando, dizendo: “Não temos remédio, não temos raio X”. Para querer morar no interior, precisa ter o que fazer pelas pessoas, porque você se desestimula. Além do que a cidade não oferece uma boa qualidade de vida para quem tem filho. Não há perspectiva de que vai sair de lá um dia, como no judiciário. O médico que vai pro interior ele praticamente para de ter contato com o mundo científico. Ninguém faz congresso médico em Santana do Acaraú. Você também não tem vida social plena. Defendo carreira de estado para professor e para médico. Quantas pessoas fazem doutorado na USP e vai ser médico em Crateús? É preciso ter motivação para você fixar pessoas importantes, que é professor e médico, para o país se desenvolver no interior.

Representantes do Simec estiveram presentes no dia da chegada de cubanos do Programa Mais Médicos (FOTO:  Reprodução)

Representantes do Simec estiveram presentes no dia da chegada de cubanos do Programa Mais Médicos (FOTO: Reprodução)

Tribuna: A senhora foi uma das médicas que esteva presente no episódio das vaias aos médicos cubanos ao Ceará. Inclusive, foi extremamente criticada por uma dita falta de educação e até de amor ao próximo. A senhora se arrepende de ter feito esse protesto?
Mayra: Isso aconteceu na porta da Escola de Saúde Pública e não no aeroporto. Nesse dia, se deu a cerimônia de convocação dos preceptores brasileiros que iriam cuidar das preceptorias do programa Mais Médicos. E nós queríamos participar da cerimônia para saber quem eram os médicos brasileiros que compactuavam com esse programa que nos julgamos, até hoje, não atender a necessidade da população brasileira. Quando nós chegamos lá, não nos deixaram entrar. E a Escola de Saúde Pública, o nome já diz, é pública. É um lugar aberto para frequência de qualquer brasileiro. Quando chegamos lá, nos disseram que não poderíamos entrar porque não fomos convidados. Aí nós explicamos que eramos médicos e que a gente queria participar da cerimônia pacificamente. Ficamos até o final da cerimônia protestando. Nós gravamos todas essas falas do protesto, repudiando a atitude da presidente da Escola de Saúde Pública, doutora Ivana Barreto, em não nos deixar entrar. Eles utilizaram um artifício. Na saída da escola, nós combinamos que vaiaríamos todos os preceptores e gestores da escola que não nos deixaram entrar. Aí o que foi feito? Lá dentro combinaram que, em vez de saírem primeiros preceptores, sairiam os cubanos. Ficaram todos trancados e saíram pelos fundos da escola, submetendo os colegas médicos cubanos ao constrangimento, porque eles foram usados para se criar uma cena social que foi deprimente para o país inteiro. A vaia não foi para os cubanos. A gente chamava trabalha escravo e não cubano escravo. Foi uma distorção completa. Inclusive eu fui no dia vestida com a camisa de cuba, exatamente para mostrar que não tinha absolutamente nada com os cubanos.

'Mas o interesse é participar na Câmara (Federal) das discussões que envolvem os programas de saúde do país

Tribuna: No mesmo programa há o serviço obrigatório dos estudantes residentes na saúde pública. Você é a favor?
Mayra: Por que serviço civil obrigatório num país livre? O governo está implantando com intercambista o programa mais especialização, porque está faltando especialista no Brasil. Dentro desses dois anos de serviço obrigatório, os médicos recém-formados são obrigados a passar dois anos prestando serviço na atenção básica e você não vai formar especialista. Como você cria um programa de especialista se você obriga a pessoa a passar mais dois anos sem se especializar? No mínimo é irônico.

Tribuna: Uma das prioridades do Simec é a saúde pública. Como vocês avaliam novos hospitais lançados na gestão passada, os Hospitais Regionais do Cariri e de Sobral?
Mayra: Esses hospitais foram construídos e são geridos pelo ISGH [Instituto de Saúde e Gestão Hospitalar], que hoje é outra coisa que está sendo questionada no Ministério Público e não pelo sindicato. Dentro desse grupo do ISGH, o grupo gestor é o grupo político que hoje dirige o estado. É um conflito de interesses enorme. Então, a compra deles não passa por licitação pública. Isso é questionável e o funcionamento deles é insatisfatório. O do Cariri, por exemplo, a ortopedia não funciona. A rigor, você abriu grandes estruturas, muito boas, mas que não estão funcionando. E hoje nós temos uma alta demanda com o HGF superlotado, recebendo pacientes do interior, sendo que foram criados dois hospitais e vão continuar drenando paciente para Fortaleza. E não existe concurso público para esses hospitais do ISGH. Em Sobral muitos médicos são contratados com RPA, pagando R$ 5 mil por um plantão de 24 horas, enquanto o mesmo médico contratado no estado ganha o mesmo valor para dar oito plantões de 12 horas. E aí os médicos de lá se revoltaram e queriam concurso público. O governador pagava avião e dizia que os médicos só iam se fosse de avião para dar o plantão. Os médicos só iam de avião porque era a única forma de ir nessa loucura de você não ser contratado, não ter estabilidade, nem nada.

Tribuna: E o Hospital da Mulher?
Mayra: Também sem funcionar efetivamente. Inclusive, a nossa sugestão ao Ministério Público, com a doutora Isabel Porto, é que o Hospital da Mulher possa abrir mudando o foco dele. Foi um hospital criado com viés político também de atender basicamente a mulher na gestão da prefeita Luizianne Lins. Nem funcionou para atender a mulher, nem está funcionando para atender outros públicos da população. Temos cerca de 38 pacientes por dia nos corredores do HGF. É mudar o perfil do Hospital da Mulher e transformá-lo num hospital geral para que ele possa atender esses pacientes que estão sem leitos. Fazer lá uma enfermaria clínica, fazer uma enfermaria cirúrgica, fazer uma unidade de pediatria lá dentro, pelo menos de neonatologia. É uma estrutura imensa, muito bem planejada, mas que não está funcionando enquanto pessoas morrem porque não podem ser internadas nos hospitais que estão abertos.

Mayra enfatiza que vaias não foram para médicos cubano no episódio marcado nacionalmente (FOTO: Tribuna do Ceará)

Mayra enfatiza que vaias não foram para médicos cubanos no episódio marcado nacionalmente (FOTO: Tribuna do Ceará)

Tribuna: A senhora tem uma via política ativa, chegando a se candidatar como deputada federal. Por que entrou numa disputa político-partidária?
Mayra: Porque meu orientador espiritual, o papa Francisco, disse que através das políticas públicas é que há transformação social. E acho que, hoje, as conquistas da saúde passam pelo Congresso Nacional. Se tivesse unicamente o interesse de ser política, teria me candidato a deputada estadual, que pela quantidade de votos que tive, daria para ter entrado. Um representante do meu partido entrou com 24 mil votos e eu tive 26 mil. Mas o interesse é participar na Câmara [Federal] das discussões que envolvem os programas de saúde do país, como Mais Médicos, Provab, Fies.

Tribuna: A senhora acha que o PSDB vai se tornar um partido de médicos, assim como o PDT atrai os advogados?
Mayra: Os médicos só procuraram o PSDB porque ele não iria coligar ao PT, nem a nível local, nem a nível nacional, e que fez oposição às políticas públicas do PT. Os médicos não são do PSDB, eles estão no PSDB. Se o PT sair e entrar o PSDB, ou quem quer seja, fizer programa político de péssima qualidade para a saúde brasileira, nós vamos fazer oposição.

Tribuna: A senhora pretende se candidatar novamente?
Mayra: Se os meus colegas quiserem, sim. Foi deliberada na assembleia dos médicos que nos teríamos um representante. Esse representante seria até o doutor George Magalhães, maior clínico do Ceará. Ele não pode e fui eu. Se chegar o momento de novo em que a gente diga que precisamos ter um representante, e for algum médico que não seja eu, nós vamos apoiá-lo. Nós precisamos ter representação política da saúde. Mas vou responder uma coisa que é fato: não serei candidata a vereadora em 2016. Não tenho interesse. Não que ser vereador não seja importante para minha cidade. É que nossos interesses hoje precisam de representação a nível federal para participar com discussão técnica dos programas médicos.

Tribuna: A senhora é pediatra e pró-vida. Inclusive já participou da Marcha pela Vida. Como médica, deixando as crenças de lado, a senhora considera que o aborto necessita ser discutido na esfera de saúde pública?
Mayra: Eu acho que deve ser discutido. A sociedade precisa ser esclarecida. A discussão é muito importante para a formação do país. O mais importante é levar o aborto para as escolas, mas cientificamente. É o que faço no movimento Movida. Mostramos em termos bioquímicos, genéticos na embriologia quando começa a vida. A vida começa 12 horas depois da concepção. A única coisa que diferencia o ser humano e que faz a gente ter certeza que vida começou ali é que somos um ser em evolução, que vai desde a concepção até a morte. Você evolui. Qualquer que seja o estágio que você interrompa, você interrompeu a vida do mesmo jeito. Quando se tem um embriãozinho, o material genético é todo de ser humano. E existe vida do ponto de vista bioquímico. A sociedade tem que ter acesso à educação e cultura. Pautar assunto com conhecimento, não com paixão.

Tribuna: O que seria a saída para as muitas mulheres que morrem por causa de aborto clandestinos?
Mayra: Que não é verdade. Disseram que temos 100 mil mulheres mortas nos últimos 40 anos no Brasil. Que estatística é essa? A gente tem muitas mulheres que morrem porque não têm assistência à saúde de qualidade. O aborto não pode ser viés para isso. Eu tenho péssima assistência pré-natal. Eu tenho ausência de distribuição de métodos contraceptivos. Essas mulheres não têm acesso ao básico, que deve ser rotina no país. Antes de você sustentar um direito a morte, você tinha que garantir o direito a vida. Você chegar e ter um bom pré-natal. Chegar em meninas de 13 e 14 anos, em período fértil, e dar orientação, consulta com ginecologista preventiva, método anticoncepcional. Isso é saúde preventiva. Agora resolver problema do país com aborto, com assassinato. Eu me formei para defender a vida. Morte não é solução nem pra crime hediondo.

Perfil

Médica formada pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Mayra Pinheiro fez residência em pediatria pela Universidade de São Paulo (USP). É especialista em Medicina do Trabalho; Professora e coordenadora do internato em Pediatria da UniChristus e médica perita da Defensoria Pública da União no Ceará. Foi candidata a deputada federal nas eleições de 2014, mas não conseguiu a vaga. Atualmente, é presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará (Simec)

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