Radialista que atua como setorista do IJF há 22 anos relata rotina de tragédias


Radialista que atua como setorista do IJF há 22 anos relata rotina de tragédias

Quando o relógio aponta 5h, Vicente Lima já está batendo o ponto no local que mais parece sua segunda casa: o Instituto Doutor José Frota (IJF), maior hospital de Fortaleza

Por Hayanne Narlla em Perfil

25 de abril de 2014 às 08:00

Há 5 anos
Vicente Lima em trabalho no IJF. Ele pediu para não ser fotografado de frente (FOTO: Thamiris Treigher/ Tribuna do Ceará)

Vicente Lima em trabalho no IJF. Ele pediu para não ser fotografado de frente (FOTO: Thamiris Treigher/ Tribuna do Ceará)

Todos os dias ele está acordado antes que o galo cante. O compromisso com o trabalho é cedo, e para cumpri-lo é necessário madrugar. Quando o ponteiro do relógio aponta 5h, já está batendo o ponto no local que mais parece sua segunda casa: o Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza. Nem médico, nem enfermeiro: Vicente Lima é radialista da Rádio Assunção, e trabalha todos os dias no hospital para levar a informação aos ouvintes. Há 22 anos.

Apaixonado pelo radialismo desde criança, Vicente até hoje passa o dia agarrado ao objeto. “Levo para o banheiro, tomo banho com rádio, durmo com rádio. Passo o dia com ele”, confidencia. Aos 17 anos, ingressou na área, assistindo a gravação de um programa na Rádio Iracema. Um dia, foi chamado para fazer uma matéria no interior do Ceará. O sonho, então, era realizado.

Hoje, aos 55 anos, Vicente coleciona na vivência de sua rotina diária muitas histórias. “Se eu contar tudo, você vai pensar que sou mentiroso ou maluco”. E é no meio de todas essas lembranças que o radialista resgata sua caminhada e as dificuldades que nortearam sua vida.

Profissão

Na Rádio Iracema, conheceu Queiroz Martins, que comparecia todos os dias ao antigo IJF, conhecido como Assistência Municipal. Com ele, aprendeu a como ser repórter, além de como viver os fatos. Vicente acabou se mudando para a Rádio Dragão do Mar, já que não recebia pagamento. Na nova rádio, ele agora era o setorista do hospital.

Após o fechamento da Dragão do Mar, foi contratado pela Cidade. Logo após, foi para a Rádio Assunção. Sempre desempenhando a mesma função. Com linguagem bem popular, Vicente garantiu a audiência e a informação direta da fonte. “A fonte da notícia policial é o IJF. Lá entra marginal, vítima e bandido que se passa por vítima”.

>LEIA MAIS:

Gestão e contexto

Vicente Lima, há 22 anos, escuta histórias e presencia fatos no IJF (Thamiris Treigher/ Tribuna do Ceará)

Vicente Lima, há 22 anos, escuta histórias e presencia fatos no IJF (Thamiris Treigher/ Tribuna do Ceará)

Ao todo, foram oito mandatos de cinco prefeitos. Apesar do crescimento de Fortaleza, economicamente e em quantidade de habitantes, Vicente acredita que um prefeito do século passado foi o que melhor controlou a situação do hospital. “O (Antônio) Cambraia investiu. Na gestão dele, melhorou muito”.

Os números da violência nem se comparam com os de 22 anos atrás. Um fim de semana em que se registravam três mortes, passou a ter 60 casos. Antes, as lesões corporais eram predominantemente feitas por armas brancas, como a faca. Agora, a quantidade de baleados é sempre maioria. “Bandido tem facilidade para comprar arma”.

Dados

Vivendo a rotina do IJF, Vicente tem acesso a dados precisos e atualizados. Fez amizade com vários funcionários, como médicos, enfermeiros e atendentes. Também se aproximou de fontes, que relatam todos os fatos, mesmo ele não estando presente.

“O plantão do fim de semana que eu pego na segunda-feira é na faixa de 500 atendimentos. Só de acidente de moto é cerca de 150. Isso é o que mais acontece. Plantão violento é na Semana Santa, e não no Carnaval. Eu queria saber que mistério é esse”.

O número de acusados de crimes no hospital é expressivo. Eles ficam internados com escolta policial de no mínimo dois policiais por pessoa. “Antes, tinha uma enfermaria xadrez, com grade e tudo. Eles ficavam lá. Mas há dois ou três anos desativaram. Eu não sei o porquê”.

Vocação

O radialista já viveu de tudo um pouco. Já foi ameaçado de morte, entrevistou criminoso minutos antes da morte, presenciou cenas impróprias dentro do hospital, viu gente de sobrenome importante se metendo em polêmica, montou um mini-estúdio dentro do hospital e o desmontou também. Fez muitos amigos, desfez mal-entendidos e refez várias vezes a promessa de que exerceria essa função para sempre.

Vicente poderia ter escolhido outro rumo para a vida. Um que lidasse menos com a morte e tragédias. Porém, se questionado sobre o assunto, ele revela um sentimento de realização própria: “Se eu pudesse, estaria todo dia lá [no IJF]. Sábado e domingo eu estaria lá. É a minha vida”.

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Radialista que atua como setorista do IJF há 22 anos relata rotina de tragédias

Quando o relógio aponta 5h, Vicente Lima já está batendo o ponto no local que mais parece sua segunda casa: o Instituto Doutor José Frota (IJF), maior hospital de Fortaleza

Por Hayanne Narlla em Perfil

25 de abril de 2014 às 08:00

Há 5 anos
Vicente Lima em trabalho no IJF. Ele pediu para não ser fotografado de frente (FOTO: Thamiris Treigher/ Tribuna do Ceará)

Vicente Lima em trabalho no IJF. Ele pediu para não ser fotografado de frente (FOTO: Thamiris Treigher/ Tribuna do Ceará)

Todos os dias ele está acordado antes que o galo cante. O compromisso com o trabalho é cedo, e para cumpri-lo é necessário madrugar. Quando o ponteiro do relógio aponta 5h, já está batendo o ponto no local que mais parece sua segunda casa: o Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza. Nem médico, nem enfermeiro: Vicente Lima é radialista da Rádio Assunção, e trabalha todos os dias no hospital para levar a informação aos ouvintes. Há 22 anos.

Apaixonado pelo radialismo desde criança, Vicente até hoje passa o dia agarrado ao objeto. “Levo para o banheiro, tomo banho com rádio, durmo com rádio. Passo o dia com ele”, confidencia. Aos 17 anos, ingressou na área, assistindo a gravação de um programa na Rádio Iracema. Um dia, foi chamado para fazer uma matéria no interior do Ceará. O sonho, então, era realizado.

Hoje, aos 55 anos, Vicente coleciona na vivência de sua rotina diária muitas histórias. “Se eu contar tudo, você vai pensar que sou mentiroso ou maluco”. E é no meio de todas essas lembranças que o radialista resgata sua caminhada e as dificuldades que nortearam sua vida.

Profissão

Na Rádio Iracema, conheceu Queiroz Martins, que comparecia todos os dias ao antigo IJF, conhecido como Assistência Municipal. Com ele, aprendeu a como ser repórter, além de como viver os fatos. Vicente acabou se mudando para a Rádio Dragão do Mar, já que não recebia pagamento. Na nova rádio, ele agora era o setorista do hospital.

Após o fechamento da Dragão do Mar, foi contratado pela Cidade. Logo após, foi para a Rádio Assunção. Sempre desempenhando a mesma função. Com linguagem bem popular, Vicente garantiu a audiência e a informação direta da fonte. “A fonte da notícia policial é o IJF. Lá entra marginal, vítima e bandido que se passa por vítima”.

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Vicente Lima, há 22 anos, escuta histórias e presencia fatos no IJF (Thamiris Treigher/ Tribuna do Ceará)

Vicente Lima, há 22 anos, escuta histórias e presencia fatos no IJF (Thamiris Treigher/ Tribuna do Ceará)

Ao todo, foram oito mandatos de cinco prefeitos. Apesar do crescimento de Fortaleza, economicamente e em quantidade de habitantes, Vicente acredita que um prefeito do século passado foi o que melhor controlou a situação do hospital. “O (Antônio) Cambraia investiu. Na gestão dele, melhorou muito”.

Os números da violência nem se comparam com os de 22 anos atrás. Um fim de semana em que se registravam três mortes, passou a ter 60 casos. Antes, as lesões corporais eram predominantemente feitas por armas brancas, como a faca. Agora, a quantidade de baleados é sempre maioria. “Bandido tem facilidade para comprar arma”.

Dados

Vivendo a rotina do IJF, Vicente tem acesso a dados precisos e atualizados. Fez amizade com vários funcionários, como médicos, enfermeiros e atendentes. Também se aproximou de fontes, que relatam todos os fatos, mesmo ele não estando presente.

“O plantão do fim de semana que eu pego na segunda-feira é na faixa de 500 atendimentos. Só de acidente de moto é cerca de 150. Isso é o que mais acontece. Plantão violento é na Semana Santa, e não no Carnaval. Eu queria saber que mistério é esse”.

O número de acusados de crimes no hospital é expressivo. Eles ficam internados com escolta policial de no mínimo dois policiais por pessoa. “Antes, tinha uma enfermaria xadrez, com grade e tudo. Eles ficavam lá. Mas há dois ou três anos desativaram. Eu não sei o porquê”.

Vocação

O radialista já viveu de tudo um pouco. Já foi ameaçado de morte, entrevistou criminoso minutos antes da morte, presenciou cenas impróprias dentro do hospital, viu gente de sobrenome importante se metendo em polêmica, montou um mini-estúdio dentro do hospital e o desmontou também. Fez muitos amigos, desfez mal-entendidos e refez várias vezes a promessa de que exerceria essa função para sempre.

Vicente poderia ter escolhido outro rumo para a vida. Um que lidasse menos com a morte e tragédias. Porém, se questionado sobre o assunto, ele revela um sentimento de realização própria: “Se eu pudesse, estaria todo dia lá [no IJF]. Sábado e domingo eu estaria lá. É a minha vida”.