Meio milhão de pessoas no Ceará não tem banheiro em casa, aponta Pnad


Meio milhão de pessoas no Ceará não tem banheiro em casa, aponta Pnad

90 processos do chamado ‘escândalo dos banheiros’ seguem em julgamento, no Tribunal de Contas do Estado

Por Pedro Alves em Política

2 de outubro de 2014 às 17:10

Há 5 anos

490 mil pessoas no Ceará vivem sem banheiro ou aparelho sanitário em casa, segundo apontou o último levantamento da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio (Pnad), divulgado este mês, com atualização até o ano passado. São pessoas que vivem em regiões onde não chegaram os R$ 857,7 milhões gastos pelo Governo do Estado com projetos de saneamento, direitos da cidadania, habitação e assistência social.

Moradores de 147 mil domicílios desprovidos de privada – segundo o Pnad – acostumaram-se a meios rudimentares de vida: defecam em sacos plásticos e depois se livram do pacote no primeiro amontoado de lixo que encontram; ou fazem necessidades fisiológicas no quintal, acostumados a enterrar aquilo que deveria ser eliminado através de um sistema de saneamento básico, além de outros que se viram de outras formas.

A 61 quilômetros de Fortaleza, no município de Cascavel, a maioria dos moradores do distrito de Cabaças estão entre aqueles que não tem acesso aos recursos destinados à melhoria de vida dos cidadãos.

490 mil pessoas no Ceará não tem banheiro em casa, diz Pnad

Francisco Gomes de Lima e Rosilene Lima de Nascimento com os três filhos, ao lado da lona improvisada como banheiro, no quintal de casa (foto: Pedro Alves/Tribuna do Ceará)

Francisco Gomes de Lima e Rosilene Lima de Nascimento não tem profissão e criam os três filhos em uma casa de taipa. Eles e as crianças não sabem o que é tomar um banho de chuveiro ou sentar em um sanitário com o mínimo de conforto e privacidade. O que se chama banheiro fica no quintal de casa, e se constitui de varas enterradas no solo, sustentando pedaços de lona, que formam um círculo.

Para tomar banho, precisam pegar água na cacimba e levar o balde até o local. Ali foi plantada uma bananeira, com objetivo de que, regada todos os dias, cresça a cada banho, e gere alimento para a família que sobrevive exclusivamente com cerca de 380 reais/mês oriundos de programas sociais federais. Quando a necessidade é fisiológica, a família recorre ao saco plástico. “Haja sacola”, diz a mulher, constrangida por falar sobre o assunto durante a reportagem.

“A gente só recebe promessa, que chega em época de campanha, ajuda mesmo, nunca tem. Eles (políticos) não adam aqui”, reclama o homem. Condições rudimentares de existência encontradas também na casa de Antônio Cassiano, aposentado de 67 anos, que mora sozinho após ser deixado pela esposa, na mesma comunidade. Para o banho de Cassiano, o sistema é o mesmo: ele pega água da cacimba para encher o balde. Na hora da “precisão”, a necessidade é resolvida no quintal. No fundo do terreno, um pequeno cercado feito de lona conta com uma pá, que está ali para remover a terra saturada de tanto material enterrado.

490 mil pessoas no Ceará não tem banheiro em casa, diz Pnad

Banheiro improvisado por Cassiano, no quintal de casa. À direita da imagem, a terra saturada de dejetos enterrados. (foto: Pedro Alves/Tribuna do Ceará)

“Sou aposentado e ainda ajudo minhas netas, apesar de não morar com elas, e é claro que não dá pra fazer tudo. Minhas esperança é um dia ter condições de terminar essa casinha, com banheiro e tudo”, afirma, apontando os dois compartimentos de tijolos, ainda não concluídos. Cassiano é mais um que nunca teve um banheiro.

Enquanto isso, desde 2011, segue sem julgamento no Tribunal de Contas do Estado (TCE) 90 processos relacionados ao desvio de recursos públicos que foram enviados pelo governo estadual, através da Secretaria das Cidades, para a construção de kits sanitários. O caso se tornou público em 2011 e ficou conhecido como “escândalo dos banheiros”.

Três secretários das Cidades, que passaram pela pasta em momentos diferentes, tiveram seus nomes citados no caso. Jurandir Santiago e Joaquim Cartaxo foram secretários no momento em que os contratos foram assinados, autorizando repasse de recursos a associações comunitárias. Seis meses depois, Camilo Santana (PT), atual candidato a governador, assumiu a Secretaria, e foi citado por causa da suspeita de demora na tomada de providencias e por ter assinado aditivos aos contratos.

Cascavel, a cidade de Cassiano, Rosirene e Francisco, é um dos municípios que deveria ter sido beneficiado, e que ainda hoje – três anos após o escândalo – ainda possui casas sem banheiro. No município de Pindoretama, a 40 quilômetros da capital, o Tribuna do Ceará encontrou a dona-de-casa Iracema Nogueira da Silva, de 38 anos, que mora sozinha em uma casa de taipa, feita com as próprias mãos.

490 mil pessoas no Ceará não tem banheiro em casa, diz Pnad

Na falta de banheiro, Cassiano pega água na cacimba para tomar banho (foto: Pedro Alves/Tribuna do Ceará)

Após muitos anos sem banheiro, em 2011, ela foi contemplada com um kit sanitário. Junto com o banheiro de tijolo, construído no quintal, com direito a porta, pia e sanitário, Iracema ganhou a caixa d’água e a fossa, que não existiam. Mas em pouco tempos, tudo apresentou defeito. “A descarga não presta, a pia também não. A caixa d’água não é boa, porque pega pouca água. Banheiro serviu para algumas coisas e outras não. Dou descarga com água do balde. Fossa muito pequena, todo mês tem que esvaziar”, conta ela.

Escândalo dos banheiros

Apenas 1 processo do chamado escândalo dos banheiros foi julgado pelo TCE até o momento. No total, a denúncia recai sobre 110 convênios assinados pela Secretaria das Cidades com associações comunitárias em 54 municípios. Veja abaixo o mapa do escândalo dos banheiros, que mostra quais cidades seriam beneficiadas com a construção de kits sanitários. O Tribuna do Ceará entrou em contato nesta quarta-feira com a Secretaria das Cidades, para falar sobre o assunto, mas até a tarde desta quinta-feira, o órgão não enviou resposta.

Mapa-Ceará-Banheiros

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Meio milhão de pessoas no Ceará não tem banheiro em casa, aponta Pnad

90 processos do chamado ‘escândalo dos banheiros’ seguem em julgamento, no Tribunal de Contas do Estado

Por Pedro Alves em Política

2 de outubro de 2014 às 17:10

Há 5 anos

490 mil pessoas no Ceará vivem sem banheiro ou aparelho sanitário em casa, segundo apontou o último levantamento da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio (Pnad), divulgado este mês, com atualização até o ano passado. São pessoas que vivem em regiões onde não chegaram os R$ 857,7 milhões gastos pelo Governo do Estado com projetos de saneamento, direitos da cidadania, habitação e assistência social.

Moradores de 147 mil domicílios desprovidos de privada – segundo o Pnad – acostumaram-se a meios rudimentares de vida: defecam em sacos plásticos e depois se livram do pacote no primeiro amontoado de lixo que encontram; ou fazem necessidades fisiológicas no quintal, acostumados a enterrar aquilo que deveria ser eliminado através de um sistema de saneamento básico, além de outros que se viram de outras formas.

A 61 quilômetros de Fortaleza, no município de Cascavel, a maioria dos moradores do distrito de Cabaças estão entre aqueles que não tem acesso aos recursos destinados à melhoria de vida dos cidadãos.

490 mil pessoas no Ceará não tem banheiro em casa, diz Pnad

Francisco Gomes de Lima e Rosilene Lima de Nascimento com os três filhos, ao lado da lona improvisada como banheiro, no quintal de casa (foto: Pedro Alves/Tribuna do Ceará)

Francisco Gomes de Lima e Rosilene Lima de Nascimento não tem profissão e criam os três filhos em uma casa de taipa. Eles e as crianças não sabem o que é tomar um banho de chuveiro ou sentar em um sanitário com o mínimo de conforto e privacidade. O que se chama banheiro fica no quintal de casa, e se constitui de varas enterradas no solo, sustentando pedaços de lona, que formam um círculo.

Para tomar banho, precisam pegar água na cacimba e levar o balde até o local. Ali foi plantada uma bananeira, com objetivo de que, regada todos os dias, cresça a cada banho, e gere alimento para a família que sobrevive exclusivamente com cerca de 380 reais/mês oriundos de programas sociais federais. Quando a necessidade é fisiológica, a família recorre ao saco plástico. “Haja sacola”, diz a mulher, constrangida por falar sobre o assunto durante a reportagem.

“A gente só recebe promessa, que chega em época de campanha, ajuda mesmo, nunca tem. Eles (políticos) não adam aqui”, reclama o homem. Condições rudimentares de existência encontradas também na casa de Antônio Cassiano, aposentado de 67 anos, que mora sozinho após ser deixado pela esposa, na mesma comunidade. Para o banho de Cassiano, o sistema é o mesmo: ele pega água da cacimba para encher o balde. Na hora da “precisão”, a necessidade é resolvida no quintal. No fundo do terreno, um pequeno cercado feito de lona conta com uma pá, que está ali para remover a terra saturada de tanto material enterrado.

490 mil pessoas no Ceará não tem banheiro em casa, diz Pnad

Banheiro improvisado por Cassiano, no quintal de casa. À direita da imagem, a terra saturada de dejetos enterrados. (foto: Pedro Alves/Tribuna do Ceará)

“Sou aposentado e ainda ajudo minhas netas, apesar de não morar com elas, e é claro que não dá pra fazer tudo. Minhas esperança é um dia ter condições de terminar essa casinha, com banheiro e tudo”, afirma, apontando os dois compartimentos de tijolos, ainda não concluídos. Cassiano é mais um que nunca teve um banheiro.

Enquanto isso, desde 2011, segue sem julgamento no Tribunal de Contas do Estado (TCE) 90 processos relacionados ao desvio de recursos públicos que foram enviados pelo governo estadual, através da Secretaria das Cidades, para a construção de kits sanitários. O caso se tornou público em 2011 e ficou conhecido como “escândalo dos banheiros”.

Três secretários das Cidades, que passaram pela pasta em momentos diferentes, tiveram seus nomes citados no caso. Jurandir Santiago e Joaquim Cartaxo foram secretários no momento em que os contratos foram assinados, autorizando repasse de recursos a associações comunitárias. Seis meses depois, Camilo Santana (PT), atual candidato a governador, assumiu a Secretaria, e foi citado por causa da suspeita de demora na tomada de providencias e por ter assinado aditivos aos contratos.

Cascavel, a cidade de Cassiano, Rosirene e Francisco, é um dos municípios que deveria ter sido beneficiado, e que ainda hoje – três anos após o escândalo – ainda possui casas sem banheiro. No município de Pindoretama, a 40 quilômetros da capital, o Tribuna do Ceará encontrou a dona-de-casa Iracema Nogueira da Silva, de 38 anos, que mora sozinha em uma casa de taipa, feita com as próprias mãos.

490 mil pessoas no Ceará não tem banheiro em casa, diz Pnad

Na falta de banheiro, Cassiano pega água na cacimba para tomar banho (foto: Pedro Alves/Tribuna do Ceará)

Após muitos anos sem banheiro, em 2011, ela foi contemplada com um kit sanitário. Junto com o banheiro de tijolo, construído no quintal, com direito a porta, pia e sanitário, Iracema ganhou a caixa d’água e a fossa, que não existiam. Mas em pouco tempos, tudo apresentou defeito. “A descarga não presta, a pia também não. A caixa d’água não é boa, porque pega pouca água. Banheiro serviu para algumas coisas e outras não. Dou descarga com água do balde. Fossa muito pequena, todo mês tem que esvaziar”, conta ela.

Escândalo dos banheiros

Apenas 1 processo do chamado escândalo dos banheiros foi julgado pelo TCE até o momento. No total, a denúncia recai sobre 110 convênios assinados pela Secretaria das Cidades com associações comunitárias em 54 municípios. Veja abaixo o mapa do escândalo dos banheiros, que mostra quais cidades seriam beneficiadas com a construção de kits sanitários. O Tribuna do Ceará entrou em contato nesta quarta-feira com a Secretaria das Cidades, para falar sobre o assunto, mas até a tarde desta quinta-feira, o órgão não enviou resposta.

Mapa-Ceará-Banheiros