Para entender as urnas: as vantagens e dificuldades de Camilo e Eunício nas eleições 2014


Para entender as urnas: as vantagens e dificuldades de Camilo e Eunício nas eleições 2014

A pedido do Tribuna do Ceará, cientistas políticos analisaram o desempenho de Camilo Santana e Eunício Oliveira no jogo eleitoral

Por Pedro Alves em Política

29 de outubro de 2014 às 16:11

Há 5 anos

Camilo Santana (PT) demonstrou ter o melhor desempenho ao término de um processo eleitoral que durou quatro meses, repleto de vantagens e dificuldades de ambos os lados da disputa. O resultado das urnas demonstrou ser produto final de uma equação que envolve discursos, estratégias, alianças e construção de bases eleitorais. Embora eleito ao término no jogo, Camilo enfrentou dificuldades no início da campanha. Com Eunício, as dificuldades também existiram.

“Era um candidato que parecia não decolar”, resume Carla Michele Quaresma, socióloga, cientista política e professora universitária. Segundo ela, na fase inicial, Camilo dependia absolutamente da imagem do atual governador, Cid Gomes (Pros) – fato que atrapalhava a construção da imagem de candidato emancipado para governar.

Camilo e Eunício

Construção de bases eleitorais, estratégias de campanha e alianças foram fundamentais para desempenho de Camilo (à direita) e Eunício (à esqueda) nas urnas (fotos: Divulgação)

Imediatamente após eleito, Camilo tratou de demarcar minimamente alguma autonomia, de forma mais clara: “Eu sou muito grato e tenho um carinho muito grande pelo governador Cid. Para mim, foi o maior governador desse estado, mas eu e a Izolda (vice) faremos um governo novo nos próximos quatro anos”, afirmou à imprensa, logo após o resultado das urnas.

O uso da imagem de Cid nas inserções e no programa eleitoral era constante na primeira fase da campanha. Em vídeo, o governador pediu aos cearenses confiança em Camilo. Gravações de Ciro Gomes (Pros) manifestando voto em Camilo também foram usadas para alavancar o candidato até então desconhecido.

Outro fator complicador foi a ocasião que levou Camilo a ser candidato. “Ele foi lançado muito tarde, o que deu margem para crescimento do adversário”, avalia o sociólogo Francisco Moreira Ribeiro, coordenador do curso de Ciências Políticas da Universidade de Fortaleza (Unifor). O nome do candidato que seria apoiado por Cid só foi conhecido na véspera do prazo limite para o lançamento de candidaturas. Camilo ficou conhecido como candidato instantâneo.

Embora tenha iniciado articulações a favor de sua candidatura muitos meses antes da campanha, Eunício Oliveira (PMDB) também enfrentou dificuldades. Para Moreira Ribeiro, ele fracassou na construção de um discurso de oposição, por ter saído da base de apoio do Governo do Estado pouco tempo antes do lançamento de sua candidatura.

O cientista político Clésio Arruda, professor da Unifor, pontua que Eunício sequer chegou a ser considerado opositor. “Em um olhar mais minucioso, vemos que ele era oposição somente na segurança pública. Em políticas econômicas, agrícolas, na atração de indústrias, não vimos um discurso de oposição do Eunício”, afirmou. “Ele não fazia críticas, ele dizia que iria fazer melhor”, completou. Exatamente por isso, Clésio discorda que o paradoxo ao se apresentar contrário a um governo do qual fez parte tenha sido desvantagem para Eunício.

Eunício também enfrentou dificuldade em se mostrar alinhado ao Governo Federal, segundo Clésio Arruda. Esse elemento seria vantajoso, segundo o professor, devido ao nível de aprovação dos governos Lula e Dilma, nos últimos 12 anos. Embora tenha exibido gravações de Lula em sua propaganda, Eunício tinha aliança com o PSDB, ícone da oposição ao PT. Para Clésio, esse elemento dificultou que Eunício “colasse” sua imagem ao Governo Federal. Paras Camilo, o alinhamento com o Governo Federal foi automático, já que o candidato pertence ao partido de Lula e Dilma.

Para Michele Quaresma, o candidato do PMDB teve ainda pouco desempenho na apresentação de propostas. “Por vezes, Eunício apresentou ideias vagas, nos debates e na propaganda. Embora seja um político experiente, com larga experiência no Congresso, ele fez uma campanha frágil do ponto de vista propositivo”, pontuou.

Segundo ela, foi exatamente nesse ponto que Camilo conseguiu ter vantagem sobre Eunício – e em um momento estratégico: a reta final da disputa. No segundo turno, segundo ela, Camilo conseguiu apresentar propostas de forma sistematizada em seu programa eleitoral. Duas vezes por dia, o programa de Camilo iniciava com a frase “Começa agora o programa com propostas para o Ceará seguir avançando”.

Eunício também teve momentos fortes na campanha, segundo Clésio. O professor avalia que, mesmo sem comandar a máquina pública estadual, o senador do PMDB conseguiu construir uma forte rede de apoios, incluindo prefeitos. “Chegou a ponto de dividir o Ceará, geograficamente”, pontua. Mas, para Carla Michele, Camilo levou vantagem nesse aspecto devido ao apoio do governador Cid Gomes. “Ele (Cid) conseguiu arregimentar uma rede mais forte de apoios de prefeitos, o que se tornou fundamental para o Camilo”, completa.

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Para entender as urnas: as vantagens e dificuldades de Camilo e Eunício nas eleições 2014

A pedido do Tribuna do Ceará, cientistas políticos analisaram o desempenho de Camilo Santana e Eunício Oliveira no jogo eleitoral

Por Pedro Alves em Política

29 de outubro de 2014 às 16:11

Há 5 anos

Camilo Santana (PT) demonstrou ter o melhor desempenho ao término de um processo eleitoral que durou quatro meses, repleto de vantagens e dificuldades de ambos os lados da disputa. O resultado das urnas demonstrou ser produto final de uma equação que envolve discursos, estratégias, alianças e construção de bases eleitorais. Embora eleito ao término no jogo, Camilo enfrentou dificuldades no início da campanha. Com Eunício, as dificuldades também existiram.

“Era um candidato que parecia não decolar”, resume Carla Michele Quaresma, socióloga, cientista política e professora universitária. Segundo ela, na fase inicial, Camilo dependia absolutamente da imagem do atual governador, Cid Gomes (Pros) – fato que atrapalhava a construção da imagem de candidato emancipado para governar.

Camilo e Eunício

Construção de bases eleitorais, estratégias de campanha e alianças foram fundamentais para desempenho de Camilo (à direita) e Eunício (à esqueda) nas urnas (fotos: Divulgação)

Imediatamente após eleito, Camilo tratou de demarcar minimamente alguma autonomia, de forma mais clara: “Eu sou muito grato e tenho um carinho muito grande pelo governador Cid. Para mim, foi o maior governador desse estado, mas eu e a Izolda (vice) faremos um governo novo nos próximos quatro anos”, afirmou à imprensa, logo após o resultado das urnas.

O uso da imagem de Cid nas inserções e no programa eleitoral era constante na primeira fase da campanha. Em vídeo, o governador pediu aos cearenses confiança em Camilo. Gravações de Ciro Gomes (Pros) manifestando voto em Camilo também foram usadas para alavancar o candidato até então desconhecido.

Outro fator complicador foi a ocasião que levou Camilo a ser candidato. “Ele foi lançado muito tarde, o que deu margem para crescimento do adversário”, avalia o sociólogo Francisco Moreira Ribeiro, coordenador do curso de Ciências Políticas da Universidade de Fortaleza (Unifor). O nome do candidato que seria apoiado por Cid só foi conhecido na véspera do prazo limite para o lançamento de candidaturas. Camilo ficou conhecido como candidato instantâneo.

Embora tenha iniciado articulações a favor de sua candidatura muitos meses antes da campanha, Eunício Oliveira (PMDB) também enfrentou dificuldades. Para Moreira Ribeiro, ele fracassou na construção de um discurso de oposição, por ter saído da base de apoio do Governo do Estado pouco tempo antes do lançamento de sua candidatura.

O cientista político Clésio Arruda, professor da Unifor, pontua que Eunício sequer chegou a ser considerado opositor. “Em um olhar mais minucioso, vemos que ele era oposição somente na segurança pública. Em políticas econômicas, agrícolas, na atração de indústrias, não vimos um discurso de oposição do Eunício”, afirmou. “Ele não fazia críticas, ele dizia que iria fazer melhor”, completou. Exatamente por isso, Clésio discorda que o paradoxo ao se apresentar contrário a um governo do qual fez parte tenha sido desvantagem para Eunício.

Eunício também enfrentou dificuldade em se mostrar alinhado ao Governo Federal, segundo Clésio Arruda. Esse elemento seria vantajoso, segundo o professor, devido ao nível de aprovação dos governos Lula e Dilma, nos últimos 12 anos. Embora tenha exibido gravações de Lula em sua propaganda, Eunício tinha aliança com o PSDB, ícone da oposição ao PT. Para Clésio, esse elemento dificultou que Eunício “colasse” sua imagem ao Governo Federal. Paras Camilo, o alinhamento com o Governo Federal foi automático, já que o candidato pertence ao partido de Lula e Dilma.

Para Michele Quaresma, o candidato do PMDB teve ainda pouco desempenho na apresentação de propostas. “Por vezes, Eunício apresentou ideias vagas, nos debates e na propaganda. Embora seja um político experiente, com larga experiência no Congresso, ele fez uma campanha frágil do ponto de vista propositivo”, pontuou.

Segundo ela, foi exatamente nesse ponto que Camilo conseguiu ter vantagem sobre Eunício – e em um momento estratégico: a reta final da disputa. No segundo turno, segundo ela, Camilo conseguiu apresentar propostas de forma sistematizada em seu programa eleitoral. Duas vezes por dia, o programa de Camilo iniciava com a frase “Começa agora o programa com propostas para o Ceará seguir avançando”.

Eunício também teve momentos fortes na campanha, segundo Clésio. O professor avalia que, mesmo sem comandar a máquina pública estadual, o senador do PMDB conseguiu construir uma forte rede de apoios, incluindo prefeitos. “Chegou a ponto de dividir o Ceará, geograficamente”, pontua. Mas, para Carla Michele, Camilo levou vantagem nesse aspecto devido ao apoio do governador Cid Gomes. “Ele (Cid) conseguiu arregimentar uma rede mais forte de apoios de prefeitos, o que se tornou fundamental para o Camilo”, completa.