Repórter veste camisas de Bolsonaro e Lula e testa tolerância política em Fortaleza

POLARIZAÇÃO

Repórter veste camisas de Bolsonaro e Lula e testa tolerância política em Fortaleza

Repórter do Tribuna do Ceará se fez de militante de direita e de esquerda e foi a redutos opostos. Experiência tensa

Por Matheus Ribeiro em Política

12 de maio de 2016 às 12:30

Há 3 anos
Para testar a tolerância sobre política, repórter veste blusas de políticos e vai as ruas (FOTO: Tribuna do Ceará / Fernanda Moura)

Para testar a tolerância política, repórter veste blusas de Bolsonaro e Lula e vai às ruas (FOTO: Tribuna do Ceará/Fernanda Moura)

 

“Para tudo! Ele vai entrar com essa camisa?”. Se seu nível de intolerância política está alto, já é hora de rever suas emoções. Em tempos de incertezas sobre o Brasil, decidi testar a paciência e, principalmente, a tolerância dos fortalezenses na tarde desta quarta-feira (11). Foi uma experiência tensa, para nunca mais esquecer.

Poucos dias depois de um aluno da Universidade Federal do Ceará (UFC) ser hostilizado por vestir uma camisa em apoio ao deputado federal Jair Bolsonaro (PSC), e no mesmo dia da votação no Senado sobre o afastamento da presidente Dilma Rousseff (PT), eu fui às ruas de Fortaleza para saber como anda a intolerância política.

Para isso, usei uma camiseta em apoio a Bolsonaro para andar pelos corredores do Centro de Humanidades da UFC, onde a predominância é de apoio ao governo do PT. Em contrapartida, na Avenida Beira-Mar, zona nobre que recebeu protestos pró-impeachment, vesti uma camiseta que pedia a eleição do ex-presidente Lula em 2018.

O relato do que vi e vivi você confere abaixo.

Reduto de esquerda

Primeira visita foi na UFC (FOTO: Tribuna do Ceará / Fernanda Moura)

Primeira visita foi na UFC (FOTO: Tribuna do Ceará / Fernanda Moura)

Já devidamente “vestido de Bolsonaro”, saí da redação do Tribuna do Ceará às 15h da quarta-feira (11) com destino a UFC. Com um caderno em mãos, a intenção era andar pelo centro como qualquer outro aluno.

No local, ainda na calçada da universidade, já foi possível sentir o clima de tensão pela minha camisa. A cada passo, um olhar estranho, risos constrangidos, expressões de susto e até de nojo ao me ver.

Ao passar por um grupo que estava próximo à entrada da instituição, duas meninas, possivelmente alunas, ficaram boquiabertas: “Para tudo! Ele vai entrar com essa blusa?”, relatou uma a outra.

Ignorei e continuei caminhando. No bosque das Casas de Cultura, local onde estudantes se reúnem para conversar, muitos me olhavam com cara de desprezo. Quem andava em minha direção recuava e até dava as costas, ou simplesmente mudava sua rota para não chegar perto de um cara vestindo uma blusa #BolsonaroMito.

Logo depois, um barulho me surpreendeu. “Ei, psiu… vem cá!”, disse uma estudante. Ao me aproximar, a surpresa foi ainda maior. “Eu posso tirar uma foto com você? Somos amigas do estudante que foi hostilizado e queríamos mandar pra ele”, relatou, fazendo referência ao acontecido na semana.

Atendendo ao seu pedido e me identificando como aluno do curso de Letras, tirei a fotografia e logo começamos a conversar sobre política. Para ela, a atitude de tirar foto serviu para mostrar que nem todos que estão ali foram representados pela confusão. “Não somos todos truculentos. E ele não fez nada”, relatou.

Minutos depois, estava eu rodeado de estudantes falando sobre impeachment e do Brasil. Fato que, confesso eu, nunca imaginaria em anos anteriores. Após alguns minutos de conversa, uma menina me abordou e foi bem clara. “Eu estava aqui e fiquei na minha. Mas vou falar a verdade. Essa sua blusa fere a humanidade. Eu não sou católica, mas mesmo assim eu não entraria numa igreja de biquíni”, bradou.

Alunos pedem para tirar foto:

http://mais.uol.com.br/view/15859536

Aluna reclama do uso da camisa de Bolsonaro no campus:

http://mais.uol.com.br/view/15859535

Após a conversa, parei na cantina da universidade para comprar um bombom. Na fila, esperando para ser atendido, muitas pessoas ao meu redor falavam mal de mim. Xingando com voz baixa, um garoto disse: “O outro foi fazer a primeira vez, deu abertura para outros babacas fazerem“.

Devido ao acontecimento com o estudante, acredito que as atenções da universidade ficaram redobradas. Ao sair da cantina, pelo menos três seguranças não tiravam o olho de onde eu passava. Preconceito? Acho que não. Na verdade, o receio da cena se repetir era o principal fator das atitudes dos seguranças.

Por alguns minutos sentei no bosque e reparei nos olhares das pessoas. Já devidamente tranquilizado, caminhei para a saída e parti para a outra rota.

Segunda visita foi na Avenida Beira-mar, em Fortaleza. (FOTO: Tribuna do Ceará / Fernanda Moura)

Segunda visita foi na Avenida Beira-mar, em Fortaleza. (FOTO: Tribuna do Ceará / Fernanda Moura)

Reduto de direita

Na Avenida Beira-Mar, com a camisa de #LulaForever, a situação não foi diferente. Passando em frente ao Jardim Japonês, pessoas olhavam para minha blusa e balançavam a cabeça com sinal de negativo. Ao chegar próximo ao aterro da Praia de Iracema, onde acontecia uma manifestação de direita, o clima ficou mais tenso.

Um grupo formado por homens repudiaram a atitude de estar ali vestindo aquela camisas. “Rapaz, estar aqui com uma blusa na hora da manifestação é uma afronta muito grande. Depois acontece alguma coisa e vem colocar culpa nos manifestantes”, comentavam.

Conversando com um vendedor ambulante, fiz uma brincadeira para tentar abrir a conversa. “E aí? Essa blusa é bonita?”, falei, rindo. Em resposta, recebi a frase mais singela que poderia escutar. “Bonita é sua atitude, vivemos em um país livre e qualquer um pode apoiar quem quiser. Na minha opinião, os dois estão errados, mas… Quem sou eu, né?”, finalizou o vendedor de pipocas que se identificou apenas como Antônio.

Passei alguns minutos parado no local e dois policiais ficaram atentos a minha presença. Andando por parte do espigão, muitas pessoas olhavam com cara de reprovação, mas em nenhum momento fui hostilizado.

Ao me dirigir ao táxi para retornar, o momento foi um mais complicado. O táxi que solicitei parou em local errado e, ao iniciar uma breve discussão entre o motorista e o dono de um estabelecimento, pessoas que estavam ali presente vaiaram e falaram: “Tá explicado… Tchau, querida“.

Conclusão

No fim das contas, apesar da tensão da experiência, a impressão que passa é que o debate e as opiniões nas redes sociais são muito mais acalorados do que é possível enxergar no dia a dia das ruas. Não houve nenhuma hostilidade maior por usar essa ou aquela camiseta em reduto político contrário, e muito menos qualquer risco de agressão física. Na verdade, deu para perceber manifestações de um sentimento político mais à flor da pele presente no dia a dia. Essa politização da população quem ganha é o Brasil.

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POLARIZAÇÃO

Repórter veste camisas de Bolsonaro e Lula e testa tolerância política em Fortaleza

Repórter do Tribuna do Ceará se fez de militante de direita e de esquerda e foi a redutos opostos. Experiência tensa

Por Matheus Ribeiro em Política

12 de maio de 2016 às 12:30

Há 3 anos
Para testar a tolerância sobre política, repórter veste blusas de políticos e vai as ruas (FOTO: Tribuna do Ceará / Fernanda Moura)

Para testar a tolerância política, repórter veste blusas de Bolsonaro e Lula e vai às ruas (FOTO: Tribuna do Ceará/Fernanda Moura)

 

“Para tudo! Ele vai entrar com essa camisa?”. Se seu nível de intolerância política está alto, já é hora de rever suas emoções. Em tempos de incertezas sobre o Brasil, decidi testar a paciência e, principalmente, a tolerância dos fortalezenses na tarde desta quarta-feira (11). Foi uma experiência tensa, para nunca mais esquecer.

Poucos dias depois de um aluno da Universidade Federal do Ceará (UFC) ser hostilizado por vestir uma camisa em apoio ao deputado federal Jair Bolsonaro (PSC), e no mesmo dia da votação no Senado sobre o afastamento da presidente Dilma Rousseff (PT), eu fui às ruas de Fortaleza para saber como anda a intolerância política.

Para isso, usei uma camiseta em apoio a Bolsonaro para andar pelos corredores do Centro de Humanidades da UFC, onde a predominância é de apoio ao governo do PT. Em contrapartida, na Avenida Beira-Mar, zona nobre que recebeu protestos pró-impeachment, vesti uma camiseta que pedia a eleição do ex-presidente Lula em 2018.

O relato do que vi e vivi você confere abaixo.

Reduto de esquerda

Primeira visita foi na UFC (FOTO: Tribuna do Ceará / Fernanda Moura)

Primeira visita foi na UFC (FOTO: Tribuna do Ceará / Fernanda Moura)

Já devidamente “vestido de Bolsonaro”, saí da redação do Tribuna do Ceará às 15h da quarta-feira (11) com destino a UFC. Com um caderno em mãos, a intenção era andar pelo centro como qualquer outro aluno.

No local, ainda na calçada da universidade, já foi possível sentir o clima de tensão pela minha camisa. A cada passo, um olhar estranho, risos constrangidos, expressões de susto e até de nojo ao me ver.

Ao passar por um grupo que estava próximo à entrada da instituição, duas meninas, possivelmente alunas, ficaram boquiabertas: “Para tudo! Ele vai entrar com essa blusa?”, relatou uma a outra.

Ignorei e continuei caminhando. No bosque das Casas de Cultura, local onde estudantes se reúnem para conversar, muitos me olhavam com cara de desprezo. Quem andava em minha direção recuava e até dava as costas, ou simplesmente mudava sua rota para não chegar perto de um cara vestindo uma blusa #BolsonaroMito.

Logo depois, um barulho me surpreendeu. “Ei, psiu… vem cá!”, disse uma estudante. Ao me aproximar, a surpresa foi ainda maior. “Eu posso tirar uma foto com você? Somos amigas do estudante que foi hostilizado e queríamos mandar pra ele”, relatou, fazendo referência ao acontecido na semana.

Atendendo ao seu pedido e me identificando como aluno do curso de Letras, tirei a fotografia e logo começamos a conversar sobre política. Para ela, a atitude de tirar foto serviu para mostrar que nem todos que estão ali foram representados pela confusão. “Não somos todos truculentos. E ele não fez nada”, relatou.

Minutos depois, estava eu rodeado de estudantes falando sobre impeachment e do Brasil. Fato que, confesso eu, nunca imaginaria em anos anteriores. Após alguns minutos de conversa, uma menina me abordou e foi bem clara. “Eu estava aqui e fiquei na minha. Mas vou falar a verdade. Essa sua blusa fere a humanidade. Eu não sou católica, mas mesmo assim eu não entraria numa igreja de biquíni”, bradou.

Alunos pedem para tirar foto:

http://mais.uol.com.br/view/15859536

Aluna reclama do uso da camisa de Bolsonaro no campus:

http://mais.uol.com.br/view/15859535

Após a conversa, parei na cantina da universidade para comprar um bombom. Na fila, esperando para ser atendido, muitas pessoas ao meu redor falavam mal de mim. Xingando com voz baixa, um garoto disse: “O outro foi fazer a primeira vez, deu abertura para outros babacas fazerem“.

Devido ao acontecimento com o estudante, acredito que as atenções da universidade ficaram redobradas. Ao sair da cantina, pelo menos três seguranças não tiravam o olho de onde eu passava. Preconceito? Acho que não. Na verdade, o receio da cena se repetir era o principal fator das atitudes dos seguranças.

Por alguns minutos sentei no bosque e reparei nos olhares das pessoas. Já devidamente tranquilizado, caminhei para a saída e parti para a outra rota.

Segunda visita foi na Avenida Beira-mar, em Fortaleza. (FOTO: Tribuna do Ceará / Fernanda Moura)

Segunda visita foi na Avenida Beira-mar, em Fortaleza. (FOTO: Tribuna do Ceará / Fernanda Moura)

Reduto de direita

Na Avenida Beira-Mar, com a camisa de #LulaForever, a situação não foi diferente. Passando em frente ao Jardim Japonês, pessoas olhavam para minha blusa e balançavam a cabeça com sinal de negativo. Ao chegar próximo ao aterro da Praia de Iracema, onde acontecia uma manifestação de direita, o clima ficou mais tenso.

Um grupo formado por homens repudiaram a atitude de estar ali vestindo aquela camisas. “Rapaz, estar aqui com uma blusa na hora da manifestação é uma afronta muito grande. Depois acontece alguma coisa e vem colocar culpa nos manifestantes”, comentavam.

Conversando com um vendedor ambulante, fiz uma brincadeira para tentar abrir a conversa. “E aí? Essa blusa é bonita?”, falei, rindo. Em resposta, recebi a frase mais singela que poderia escutar. “Bonita é sua atitude, vivemos em um país livre e qualquer um pode apoiar quem quiser. Na minha opinião, os dois estão errados, mas… Quem sou eu, né?”, finalizou o vendedor de pipocas que se identificou apenas como Antônio.

Passei alguns minutos parado no local e dois policiais ficaram atentos a minha presença. Andando por parte do espigão, muitas pessoas olhavam com cara de reprovação, mas em nenhum momento fui hostilizado.

Ao me dirigir ao táxi para retornar, o momento foi um mais complicado. O táxi que solicitei parou em local errado e, ao iniciar uma breve discussão entre o motorista e o dono de um estabelecimento, pessoas que estavam ali presente vaiaram e falaram: “Tá explicado… Tchau, querida“.

Conclusão

No fim das contas, apesar da tensão da experiência, a impressão que passa é que o debate e as opiniões nas redes sociais são muito mais acalorados do que é possível enxergar no dia a dia das ruas. Não houve nenhuma hostilidade maior por usar essa ou aquela camiseta em reduto político contrário, e muito menos qualquer risco de agressão física. Na verdade, deu para perceber manifestações de um sentimento político mais à flor da pele presente no dia a dia. Essa politização da população quem ganha é o Brasil.