Crônica: pedalar pelas ruas de Fortaleza é uma grande aventura


Crônica: pedalar pelas ruas de Fortaleza é uma grande aventura

Acompanhe a repórter da Tribuna Band News FM, Laila Cavalcante, nos trajetos trabalho-casa-casa-trabalho de bicicleta pelas ruas da capital cearense

Por Tribuna do Ceará em Reza a Lenda

5 de março de 2014 às 10:49

Há 5 anos

Por Laila Cavalcante*

REZA A LENDA que andar de bicicleta em Fortaleza um dia já foi possível. Mas isso deve ter sido há muito tempo, na época em que o capitão Martim Soares Moreno pegava a magrela e ia dar uns rolés com a índia Iracema às margens do Rio Ceará (não sei, só sei que foi assim).

Do século XVII pra cá, pode até não parecer, mas muita coisa mudou por essas bandas. Carroças transformaram-se em possantes caminhonetes 4×4, pedestres aproveitaram o IPI reduzido para adquirir o tão sonhado primeiro carrinho, bondinhos deram vez aos ônibus, muitos deles capitaneados por motoristas que mais parecem estar sendo testados para algum papel na franquia Velozes e Furiosos do que, de fato, dirigindo pessoas reais a destinos reais. As ruas, entretanto, continuaram estreitas. O que acabou gerando um problema geoespacial e, desde então, não havia mais vez para as bicicletas.

Pude constatar essa trágica infelicidade histórica há cerca de um mês. Após mais de uma década desde a última vez em que pus as mãos em um guidom, eis que a discussão em torno da instalação-não-instalação das ciclofaixas na Capital despertaram em mim a vontade de sair do campo das ideias e partir para o vamos ver. Ainda não estava muito convicta se de fato teria coragem de me aventurar sob duas rodas quando a Jéssika Thaís, uma colega de trabalho, ofereceu a Muriel, sua bicicleta de estimação, para um teste: na segunda-feira, a Jéssika traria Muriel, a bicicleta, e eu faria o percurso trabalho-casa com ela. Num outro dia, faria o percurso inverso e a devolveria à dona.

 

Laila Cavalcante (FOTO Jessica Thaís)

Laila Cavalcante na Bike ‘Muriel’ (FOTO: Jessica Thaís)

 

Aqui é preciso dizer que não sou, nem um pouco, dada a aventuras. Mas decidi que era agora ou nunca. Antes de ser dada a largada, fizemos um breve teste para atestar que eu ainda sabia, ao menos, andar de bicicleta. Como não cai, acreditamos que, de fato, isso não se desaprende e que eu estava apta a seguir meu destino. Fui embora.

Foi aí que descobri que saber andar de bicicleta não bastava. Assim que me deparei com o trânsito, fui tomada por um medo que não me lembro de ter sentido ao dirigir um carro, nem mesmo durante as aulas práticas da autoescola. De repente, tudo parecia uma grande ameaça: dos automóveis acelerando aos carros estacionados. Sim, os estacionados também eram grandes empecilhos, porque como em vez de ciclofaixas há carros e mais carros estacionados – e recorrentemente dos dois lados da via, o ciclista precisa pedalar na faixa de rolamento da via.

Com medo de ser atropelada por um pseudo-ator de Velozes e Furiosos, eu tentava ficar o mais próximo possível dos automóveis parados, mas, uma vez que não tinha segurança no guidom, por uma ou duas vezes cheguei a quase colidir com esses veículos – socorro! Vou confessar a você, caro leitor: a vontade era de voltar e dizer que temi pela minha vida – e de Muriel. Mas continuei.

Costumo ir andando do trabalho para casa. Distraída, nunca tinha reparado em como nossas ruas estão saturadas de carros. Para tentar encontrar uma via onde não houvesse tanto fluxo de automóveis, meu trajeto com a bicicleta acabou sendo um grande ziguezague. Mesmo assim, só encontrei mais tranquilidade já nas proximidades da minha casa.

Dois dias depois, o trajeto da volta foi consideravelmente mais fácil. Escolhi previamente as ruas que usaria e tentei não me deixar intimidar por quem vinha sobre quatro rodas. De fato, com o medo e a insegurança mais ou menos domados, o trânsito pareceu um pouco mais amigável. Um pouco, é bom frisar.

> VEJA MAIS:

Demorei cerca de 20 minutos para fazer um trajeto que, à pé, faço em meia hora. E constatei alguns fatos.

Primeiro: pedalar parece ser um exercício físico mais completo do que a caminhada (meus braços passaram algum tempo doloridos como quem acaba de tomar uma vacina antitetânica e eu quase pude constatar pernas mais grossas, quase!).

Segundo: é de uma grande insensibilidade, diria até egoísmo, reclamar das ciclofaixas quando a maioria das ruas estava repleta de carros estacionados dos dois lados. Ruas não foram feitas para serem grandes estacionamentos, e sim para garantirem a segurança: a sua, a minha e a do ciclista também.

Terceiro: Fortaleza é, sim, uma cidade quente, mas a quentura é desculpa para quem quer postergar uma mudança de mentalidade. Tomei um banho ao chegar a minha casa e outro no vestiário do trabalho. Tcharam! Problema resolvido.

Quarto: a cidade, de fato, é bastante plana. A natureza se mostrou favorável aos ciclistas. E, mesmo assim, estes foram marginalizados, enxotados para o lado, para a “beiradinha” entre a calçada e o asfalto, para dar espaço a outros veículos.

REZA A LENDA que bicicleta é um meio simpático, alternativo e sustentável de locomoção, cada vez mais utilizado por sociedades de países desenvolvidos, conscientes da importância em propagar um convívio respeitoso entre todos os meios de transporte. Aqui em Fortaleza, tal premissa continua lenda.

 

Bike Muriel

Muriel sã e salva em casa (FOTO: Jéssica Thaís)

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Crônica: pedalar pelas ruas de Fortaleza é uma grande aventura

Acompanhe a repórter da Tribuna Band News FM, Laila Cavalcante, nos trajetos trabalho-casa-casa-trabalho de bicicleta pelas ruas da capital cearense

Por Tribuna do Ceará em Reza a Lenda

5 de março de 2014 às 10:49

Há 5 anos

Por Laila Cavalcante*

REZA A LENDA que andar de bicicleta em Fortaleza um dia já foi possível. Mas isso deve ter sido há muito tempo, na época em que o capitão Martim Soares Moreno pegava a magrela e ia dar uns rolés com a índia Iracema às margens do Rio Ceará (não sei, só sei que foi assim).

Do século XVII pra cá, pode até não parecer, mas muita coisa mudou por essas bandas. Carroças transformaram-se em possantes caminhonetes 4×4, pedestres aproveitaram o IPI reduzido para adquirir o tão sonhado primeiro carrinho, bondinhos deram vez aos ônibus, muitos deles capitaneados por motoristas que mais parecem estar sendo testados para algum papel na franquia Velozes e Furiosos do que, de fato, dirigindo pessoas reais a destinos reais. As ruas, entretanto, continuaram estreitas. O que acabou gerando um problema geoespacial e, desde então, não havia mais vez para as bicicletas.

Pude constatar essa trágica infelicidade histórica há cerca de um mês. Após mais de uma década desde a última vez em que pus as mãos em um guidom, eis que a discussão em torno da instalação-não-instalação das ciclofaixas na Capital despertaram em mim a vontade de sair do campo das ideias e partir para o vamos ver. Ainda não estava muito convicta se de fato teria coragem de me aventurar sob duas rodas quando a Jéssika Thaís, uma colega de trabalho, ofereceu a Muriel, sua bicicleta de estimação, para um teste: na segunda-feira, a Jéssika traria Muriel, a bicicleta, e eu faria o percurso trabalho-casa com ela. Num outro dia, faria o percurso inverso e a devolveria à dona.

 

Laila Cavalcante (FOTO Jessica Thaís)

Laila Cavalcante na Bike ‘Muriel’ (FOTO: Jessica Thaís)

 

Aqui é preciso dizer que não sou, nem um pouco, dada a aventuras. Mas decidi que era agora ou nunca. Antes de ser dada a largada, fizemos um breve teste para atestar que eu ainda sabia, ao menos, andar de bicicleta. Como não cai, acreditamos que, de fato, isso não se desaprende e que eu estava apta a seguir meu destino. Fui embora.

Foi aí que descobri que saber andar de bicicleta não bastava. Assim que me deparei com o trânsito, fui tomada por um medo que não me lembro de ter sentido ao dirigir um carro, nem mesmo durante as aulas práticas da autoescola. De repente, tudo parecia uma grande ameaça: dos automóveis acelerando aos carros estacionados. Sim, os estacionados também eram grandes empecilhos, porque como em vez de ciclofaixas há carros e mais carros estacionados – e recorrentemente dos dois lados da via, o ciclista precisa pedalar na faixa de rolamento da via.

Com medo de ser atropelada por um pseudo-ator de Velozes e Furiosos, eu tentava ficar o mais próximo possível dos automóveis parados, mas, uma vez que não tinha segurança no guidom, por uma ou duas vezes cheguei a quase colidir com esses veículos – socorro! Vou confessar a você, caro leitor: a vontade era de voltar e dizer que temi pela minha vida – e de Muriel. Mas continuei.

Costumo ir andando do trabalho para casa. Distraída, nunca tinha reparado em como nossas ruas estão saturadas de carros. Para tentar encontrar uma via onde não houvesse tanto fluxo de automóveis, meu trajeto com a bicicleta acabou sendo um grande ziguezague. Mesmo assim, só encontrei mais tranquilidade já nas proximidades da minha casa.

Dois dias depois, o trajeto da volta foi consideravelmente mais fácil. Escolhi previamente as ruas que usaria e tentei não me deixar intimidar por quem vinha sobre quatro rodas. De fato, com o medo e a insegurança mais ou menos domados, o trânsito pareceu um pouco mais amigável. Um pouco, é bom frisar.

> VEJA MAIS:

Demorei cerca de 20 minutos para fazer um trajeto que, à pé, faço em meia hora. E constatei alguns fatos.

Primeiro: pedalar parece ser um exercício físico mais completo do que a caminhada (meus braços passaram algum tempo doloridos como quem acaba de tomar uma vacina antitetânica e eu quase pude constatar pernas mais grossas, quase!).

Segundo: é de uma grande insensibilidade, diria até egoísmo, reclamar das ciclofaixas quando a maioria das ruas estava repleta de carros estacionados dos dois lados. Ruas não foram feitas para serem grandes estacionamentos, e sim para garantirem a segurança: a sua, a minha e a do ciclista também.

Terceiro: Fortaleza é, sim, uma cidade quente, mas a quentura é desculpa para quem quer postergar uma mudança de mentalidade. Tomei um banho ao chegar a minha casa e outro no vestiário do trabalho. Tcharam! Problema resolvido.

Quarto: a cidade, de fato, é bastante plana. A natureza se mostrou favorável aos ciclistas. E, mesmo assim, estes foram marginalizados, enxotados para o lado, para a “beiradinha” entre a calçada e o asfalto, para dar espaço a outros veículos.

REZA A LENDA que bicicleta é um meio simpático, alternativo e sustentável de locomoção, cada vez mais utilizado por sociedades de países desenvolvidos, conscientes da importância em propagar um convívio respeitoso entre todos os meios de transporte. Aqui em Fortaleza, tal premissa continua lenda.

 

Bike Muriel

Muriel sã e salva em casa (FOTO: Jéssica Thaís)