30% dos partos realizados no Ceará são de mães adolescentes


30% dos partos realizados no Ceará são de mães adolescentes

O Ceará tem enorme incidência de partos em jovens de até 18 anos. Entre as adolescentes mães, a média de idade é de 14 anos. Mas já houve na Maternidade Escola registro de parto em garota com 10

Por Rosana Romão em Saúde

17 de março de 2016 às 06:00

Há 3 anos
Apesar da falta de experiência, hospitais como a Maternidade Escola acolhem e orientam as jovens. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Hospitais como a Maternidade Escola acolhem e orientam as jovens. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

A descoberta da gravidez aos 15 anos. Um frio na barriga. O medo de contar para a mãe. É assim que Carol descreve sua reação ao engravidar. Apesar de assustada, se sentiu segura após conversar com a mãe. Após nove meses carregando o pequeno Miguel na barriga, ela afirma, decidida: “Não quero engravidar tão cedo”.

A experiência da maternidade trouxe à sua mente a importância de continuar os estudos e não pular as etapas da vida. Mas nem sempre é assim com as cearenses que engravidam na adolescência.

Gravidez indesejada

Cerca de 30% dos nascimentos registrados pela Secretaria de Saúde do estado do Ceará (Sesa) são de mães adolescentes. Para essas jovens, o pré-natal é feito na atenção primária (Programa Saúde da Família e postos de saúde), que é de responsabilidade das secretarias municipais de saúde.  Os hospitais da rede pública do Governo do Estado, que realizam assistência em alta complexidade,  atendem grávidas em casos graves e complexos, quando a gravidez é de risco. Por exemplo, no Hospital Geral de Fortaleza (HGF) e no César Cals há atendimento, com emergência obstétrica, para gravidez de risco.   

Um dos locais que recebe a maior quantidade de grávidas adolescentes é a Maternidade Escolas Assis Chateaubriand (Meac), vinculada à Universidade Federal do Ceará (UFC). A instituição conta com um programa de acolhimento à adolescentes tanto para a prevenção à gravidez indesejada quanto para o acompanhamento médico durante a gestação.

Michele, de 16 anos, tem uma história mais complicada. Ao descobrir que estava grávida, pensou em abortar. “Eu não aceitava, eu batia na minha barriga, já tomei remédio para tentar abortar”, confessa.

A família paterna da criança não aceitava a situação e, segundo Michele, já chegou a agredir a sua barriga. Depois de receber conselhos da mãe, decidiu continuar com a gestação e, aos oito meses de gravidez, espera ansiosa pela vinda do filho.

No quarto mês de gestação, Michele foi encaminhada de posto de saúde para a Maternidade Escola, onde é atendida regularmente. “Aqui tem palestras, eles ensinam sobre a amamentação, a se planejar. A gente também visita a maternidade, sabe onde é o banco de leite, a emergência, o cartório”, relata. 

Algo que a incomoda é o afastamento da escola durante esse período. “Meus professores me dão muito apoio e dizem que hoje não está fácil para cuidar de filho, porque você ensina uma coisa e o mundo outra. Mas se eu consegui aprender tudo e ser uma pessoa boa, vou passar isso para o meu filho, para que ele estude e também seja uma boa pessoa”, conclui.

Na Maternidade Escola, as adolescentes são orientadas sobre os benefícios do parto normal, e preferem esta opção. Há 29 anos a instituição desenvolve um trabalho voltado para as adolescentes. Com uma parcela de 20% dos partos entre esse público, o hospital montou uma equipe multiprofissional composta por quatro médicas, uma enfermeira, uma psicóloga e uma assistente social. São atendidas desde crianças de 11 anos até adolescentes de 18 anos.

Dados comparativos

De acordo com o relatório “Situação da População Mundial 2013”, do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), 26,8% da população sexualmente ativa (15 a 64 anos) iniciou sua vida sexual antes dos 15 anos no Brasil, e cerca de 19,3% das crianças nascidas vivas em 2010 no Brasil são filhos e filhas de mulheres de 19 anos ou menos.

O relatório foi divulgado em 2013 e tinha como título “Maternidade Precoce: enfrentando o desafio da gravidez na adolescência”. Segundo o estudo, todos os dias, nos países em desenvolvimento, 20 mil meninas com menos de 18 anos dão à luz e 200 morrem em decorrência de complicações da gravidez ou parto. Em todo o mundo, 7,3 milhões de adolescentes se tornam mães a cada ano, das quais 2 milhões são menores de 15 anos.

“Uma criança não tem culpa de vir ao mundo. Se veio assim, temos que oferecer o melhor para ela”. (Michelle, mãe aos 16 anos)

De acordo com o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará (Sesa), a taxa de gravidez na adolescência (10 a 19 anos) em 2015 foi de 29,5%, similar aos anos anteriores; em 2014 foi de 21,2% e em 2013 foi 30,5%. Bem acima da média nacional. O número de nascidos de mães de 10 a 19 anos em 2015 foi de 25.154. Em 2014 foi de 26.616 e 2013 de 26.010.

Na maternidade há atendimento a adolescentes de segunda à sexta-feira. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Na Maternidade Escola há atendimento a adolescentes de segunda a sexta. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

“Vimos a necessidade de preparar essas meninas paro o parto, porque elas chegavam muito desesperadas. Era primeiro filho e não sabiam o que iria acontecer”, justifica a ginecologista Zenilda Vieira Bruno. Além das consultas de rotina, as grávidas atendidas na Maternidade Escola participam de um curso onde aprendem sobre o pré-natal, parto, a amamentação e planejamento familiar.

De acordo com a gestão do hospital, 67% das adolescentes relatam que a gravidez não foi planejada. “Até parece pouco, porque a minha imagem era de 100%”, compara.

O curso oferecido às jovens é dividido em quatro etapas e deve ser frequentado uma vez por mês até o oitavo mês de gestação, e depois uma vez por semana, até o bebê nascer. Depois do parto são convidadas para à revisão, onde irá receber aconselhamento para o planejamento familiar, informações sobre a amamentação e a escolha, junto com a ginecologista, de um método de prevenção para evitar uma nova gravidez.

Já tivemos adolescentes de 10 anos grávidas, mas a média é 14 anos. Geralmente é o primeiro filho, mas já tivemos mães de 18 anos com o terceiro filho”, detalha Zenilda. Há cuidados que devem ser tomados em razão da saúde dessas mães, pois pacientes menores de 15 anos são consideradas de maior risco para parto pré-maturo e pré-eclâmpsia.

Na Maternidade Escola, a incidência de adolescentes grávidas é de 20%. Em 2015, o hospital recebeu o total de 410 meninas. Em 2015 foram 1046 partos de adolescentes entre 11 e 18 anos, do total de 5.564 realizados. Já em 2014, foram 715 do total de 3.904 e em 2013, 770 de 4.001 realizados.

Como é a prevenção

O trabalho voltado para as grávidas adolescentes acontece nas terças e quintas, onde inicialmente elas participam do curso de preparação para a gravidez e, em seguida, vão para a consulta do pré-natal. A média do público nesses dias é de 8 meninas. Já durante as segundas, terças e quartas, o atendimento é voltado para meninas não grávidas.

Na Maternidade Escola, assistentes sociais orientam mães adolescentes. (FOTO: Sarah Serafim)

Na Maternidade Escola, assistentes sociais orientam mães adolescentes. (FOTO: Sarah Serafim)

O público que procura ajuda médica para consultas de rotina é direcionado ao grupo de prevenção, onde recebem orientações sobre doenças sexualmente transmissíveis, prevenção de câncer e planejamento familiar. “Se ela tiver atividade sexual, vai ser orientada sobre os métodos de prevenção. Se não tiver, não tem problema. É importante que ela saiba que aquilo existe e saiba onde procurar, caso necessite”, exemplifica Zenilda.

Apesar da gravidez atingir principalmente a mulher, devido as alterações no corpo, a responsabilidade de prevenção é do homem e da mulher. Os métodos contraceptivos são escolhidos pela mulher durante consultas de rotina com ginecologista, mas o homem deve estar ciente e colaborar para evitar uma gravidez indesejada. Para atingir os dois sexos, a Secretaria de Educação do estado do Ceará desenvolve programas de educação sexual dentro do currículo escolar.

O Projeto Diretor de Turma busca promover um diálogo constante do aluno, com seus familiares, com a direção da escola e seu corpo docente. Um dos assuntos abordados é a gravidez na adolescência, previsto no tema transversal saúde e sexualidade. Há também o  Programa de Saúde e Prevenção nas Escolas, promovido pelo Governo Federal em parceria com os governos estaduais e municipais. É trabalhado por meio de oficinas ao longo do ano letivo. E como ressalta a ginecologista Zenilda Vieira Bruno, “informação é necessária, responsabilidade também”.

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30% dos partos realizados no Ceará são de mães adolescentes

O Ceará tem enorme incidência de partos em jovens de até 18 anos. Entre as adolescentes mães, a média de idade é de 14 anos. Mas já houve na Maternidade Escola registro de parto em garota com 10

Por Rosana Romão em Saúde

17 de março de 2016 às 06:00

Há 3 anos
Apesar da falta de experiência, hospitais como a Maternidade Escola acolhem e orientam as jovens. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Hospitais como a Maternidade Escola acolhem e orientam as jovens. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

A descoberta da gravidez aos 15 anos. Um frio na barriga. O medo de contar para a mãe. É assim que Carol descreve sua reação ao engravidar. Apesar de assustada, se sentiu segura após conversar com a mãe. Após nove meses carregando o pequeno Miguel na barriga, ela afirma, decidida: “Não quero engravidar tão cedo”.

A experiência da maternidade trouxe à sua mente a importância de continuar os estudos e não pular as etapas da vida. Mas nem sempre é assim com as cearenses que engravidam na adolescência.

Gravidez indesejada

Cerca de 30% dos nascimentos registrados pela Secretaria de Saúde do estado do Ceará (Sesa) são de mães adolescentes. Para essas jovens, o pré-natal é feito na atenção primária (Programa Saúde da Família e postos de saúde), que é de responsabilidade das secretarias municipais de saúde.  Os hospitais da rede pública do Governo do Estado, que realizam assistência em alta complexidade,  atendem grávidas em casos graves e complexos, quando a gravidez é de risco. Por exemplo, no Hospital Geral de Fortaleza (HGF) e no César Cals há atendimento, com emergência obstétrica, para gravidez de risco.   

Um dos locais que recebe a maior quantidade de grávidas adolescentes é a Maternidade Escolas Assis Chateaubriand (Meac), vinculada à Universidade Federal do Ceará (UFC). A instituição conta com um programa de acolhimento à adolescentes tanto para a prevenção à gravidez indesejada quanto para o acompanhamento médico durante a gestação.

Michele, de 16 anos, tem uma história mais complicada. Ao descobrir que estava grávida, pensou em abortar. “Eu não aceitava, eu batia na minha barriga, já tomei remédio para tentar abortar”, confessa.

A família paterna da criança não aceitava a situação e, segundo Michele, já chegou a agredir a sua barriga. Depois de receber conselhos da mãe, decidiu continuar com a gestação e, aos oito meses de gravidez, espera ansiosa pela vinda do filho.

No quarto mês de gestação, Michele foi encaminhada de posto de saúde para a Maternidade Escola, onde é atendida regularmente. “Aqui tem palestras, eles ensinam sobre a amamentação, a se planejar. A gente também visita a maternidade, sabe onde é o banco de leite, a emergência, o cartório”, relata. 

Algo que a incomoda é o afastamento da escola durante esse período. “Meus professores me dão muito apoio e dizem que hoje não está fácil para cuidar de filho, porque você ensina uma coisa e o mundo outra. Mas se eu consegui aprender tudo e ser uma pessoa boa, vou passar isso para o meu filho, para que ele estude e também seja uma boa pessoa”, conclui.

Na Maternidade Escola, as adolescentes são orientadas sobre os benefícios do parto normal, e preferem esta opção. Há 29 anos a instituição desenvolve um trabalho voltado para as adolescentes. Com uma parcela de 20% dos partos entre esse público, o hospital montou uma equipe multiprofissional composta por quatro médicas, uma enfermeira, uma psicóloga e uma assistente social. São atendidas desde crianças de 11 anos até adolescentes de 18 anos.

Dados comparativos

De acordo com o relatório “Situação da População Mundial 2013”, do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), 26,8% da população sexualmente ativa (15 a 64 anos) iniciou sua vida sexual antes dos 15 anos no Brasil, e cerca de 19,3% das crianças nascidas vivas em 2010 no Brasil são filhos e filhas de mulheres de 19 anos ou menos.

O relatório foi divulgado em 2013 e tinha como título “Maternidade Precoce: enfrentando o desafio da gravidez na adolescência”. Segundo o estudo, todos os dias, nos países em desenvolvimento, 20 mil meninas com menos de 18 anos dão à luz e 200 morrem em decorrência de complicações da gravidez ou parto. Em todo o mundo, 7,3 milhões de adolescentes se tornam mães a cada ano, das quais 2 milhões são menores de 15 anos.

“Uma criança não tem culpa de vir ao mundo. Se veio assim, temos que oferecer o melhor para ela”. (Michelle, mãe aos 16 anos)

De acordo com o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará (Sesa), a taxa de gravidez na adolescência (10 a 19 anos) em 2015 foi de 29,5%, similar aos anos anteriores; em 2014 foi de 21,2% e em 2013 foi 30,5%. Bem acima da média nacional. O número de nascidos de mães de 10 a 19 anos em 2015 foi de 25.154. Em 2014 foi de 26.616 e 2013 de 26.010.

Na maternidade há atendimento a adolescentes de segunda à sexta-feira. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Na Maternidade Escola há atendimento a adolescentes de segunda a sexta. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

“Vimos a necessidade de preparar essas meninas paro o parto, porque elas chegavam muito desesperadas. Era primeiro filho e não sabiam o que iria acontecer”, justifica a ginecologista Zenilda Vieira Bruno. Além das consultas de rotina, as grávidas atendidas na Maternidade Escola participam de um curso onde aprendem sobre o pré-natal, parto, a amamentação e planejamento familiar.

De acordo com a gestão do hospital, 67% das adolescentes relatam que a gravidez não foi planejada. “Até parece pouco, porque a minha imagem era de 100%”, compara.

O curso oferecido às jovens é dividido em quatro etapas e deve ser frequentado uma vez por mês até o oitavo mês de gestação, e depois uma vez por semana, até o bebê nascer. Depois do parto são convidadas para à revisão, onde irá receber aconselhamento para o planejamento familiar, informações sobre a amamentação e a escolha, junto com a ginecologista, de um método de prevenção para evitar uma nova gravidez.

Já tivemos adolescentes de 10 anos grávidas, mas a média é 14 anos. Geralmente é o primeiro filho, mas já tivemos mães de 18 anos com o terceiro filho”, detalha Zenilda. Há cuidados que devem ser tomados em razão da saúde dessas mães, pois pacientes menores de 15 anos são consideradas de maior risco para parto pré-maturo e pré-eclâmpsia.

Na Maternidade Escola, a incidência de adolescentes grávidas é de 20%. Em 2015, o hospital recebeu o total de 410 meninas. Em 2015 foram 1046 partos de adolescentes entre 11 e 18 anos, do total de 5.564 realizados. Já em 2014, foram 715 do total de 3.904 e em 2013, 770 de 4.001 realizados.

Como é a prevenção

O trabalho voltado para as grávidas adolescentes acontece nas terças e quintas, onde inicialmente elas participam do curso de preparação para a gravidez e, em seguida, vão para a consulta do pré-natal. A média do público nesses dias é de 8 meninas. Já durante as segundas, terças e quartas, o atendimento é voltado para meninas não grávidas.

Na Maternidade Escola, assistentes sociais orientam mães adolescentes. (FOTO: Sarah Serafim)

Na Maternidade Escola, assistentes sociais orientam mães adolescentes. (FOTO: Sarah Serafim)

O público que procura ajuda médica para consultas de rotina é direcionado ao grupo de prevenção, onde recebem orientações sobre doenças sexualmente transmissíveis, prevenção de câncer e planejamento familiar. “Se ela tiver atividade sexual, vai ser orientada sobre os métodos de prevenção. Se não tiver, não tem problema. É importante que ela saiba que aquilo existe e saiba onde procurar, caso necessite”, exemplifica Zenilda.

Apesar da gravidez atingir principalmente a mulher, devido as alterações no corpo, a responsabilidade de prevenção é do homem e da mulher. Os métodos contraceptivos são escolhidos pela mulher durante consultas de rotina com ginecologista, mas o homem deve estar ciente e colaborar para evitar uma gravidez indesejada. Para atingir os dois sexos, a Secretaria de Educação do estado do Ceará desenvolve programas de educação sexual dentro do currículo escolar.

O Projeto Diretor de Turma busca promover um diálogo constante do aluno, com seus familiares, com a direção da escola e seu corpo docente. Um dos assuntos abordados é a gravidez na adolescência, previsto no tema transversal saúde e sexualidade. Há também o  Programa de Saúde e Prevenção nas Escolas, promovido pelo Governo Federal em parceria com os governos estaduais e municipais. É trabalhado por meio de oficinas ao longo do ano letivo. E como ressalta a ginecologista Zenilda Vieira Bruno, “informação é necessária, responsabilidade também”.