Namorado de universitária encontrada morta em porta-malas é denunciado por homicídio doloso

APÓS 1 ANO

Namorado de universitária encontrada morta em porta-malas é denunciado por homicídio doloso

Gregório Donizete Freire Neto assumiu o risco de matar Yrna de Sousa, em maio de 2016, durante uso de drogas. Defesa afirma que a universitária consumiu a morfina por conta própria

Por Lucas Barbosa em Segurança Pública

5 de julho de 2017 às 17:56

Há 2 anos

Yrna morreu por overdose, conforme laudo pericial. Seu corpo foi encontrado apenas 12 horas após a morte (FOTO: Acervo Pessoal)

Um ano após o corpo da universitária Yrna de Sousa Castro, de 27 anos, ter sido encontrado no porta-mala de um carro no bairro Dionísio Torres, em Fortaleza, o suspeito de cometer o homicídio foi denunciado, nesta quarta-feira (5), pelo Ministério Público Estadual (MP-CE).

Gregório Donizete Freire Neto, então namorado de Yrna e dono do carro em que ela foi encontrada, terá a acusação de homicídio doloso apreciada pela Justiça.

A expectativa dos advogados da família de Yrna é de que já na próxima semana o acusado seja citado para audiência na 1ª Vara do Júri da Comarca de Fortaleza.

“Era o mínimo”, comenta o advogado Cândido Albuquerque sobre a denúncia. Ele sustenta que os indícios de homicídio doloso eram “evidentes”. Gregório já havia sido indiciado pela Polícia Civil, mas por ocultação de cadáver, acusação que o MP-CE não endossou. A denúncia ainda pede autos sejam remetidos a uma das varas de tóxicos da capital para que sejam apurados indício de tráfico de drogas por parte de duas pessoas que teriam fornecido drogas ao casal.

Segundo o inquérito, Yrna morreu por overdose no apartamento do namorado, na madrugada de 1º de maio de 2016. Ambos injetaram na veia uma mistura de morfina com um comprimido, preparada por Gregório conforme a denúncia do MP-CE. Ainda de acordo com a peça, ao perceber que Yrna estava desacordada, Gregório conduziu-a a um hospital. Ele chegou a estacionar o carro a cerca de 100 metros do hospital, mas, segundo conta, acabou “apagando”, no que seria efeito das substâncias por ele usadas.

Ao acordar, ele passou, então, a dirigir sem rumo. Nas proximidades do Parque do Cocó, segue a denúncia, Gregório tirou o corpo do banco de passageiros e transferiu para o porta-malas. Segundo a defesa de Gregório, ele não sabia o que fazer e pensava em se matar.

Desistiu, porém, e se dirigiu, em um táxi, a uma pousada da Praia de Iracema, depois de ter passado em casa para trocar de roupa e deixar o carro. Foi na pousada que ele comunicou a um amigo o ocorrido. Este comunicou a familiares que, acompanhados de um advogado, conduziram, Gregório à Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). O corpo só seria encontrado quase 12 horas após a morte.

“O homicídio na forma do dolo eventual fica caracterizado em decorrência da previsibilidade da ocorrência do fato delituoso, pela previsão auferida pelo réu, e, aplicando-se a teoria do consentimento ou assentimento, pela continuação na prática delituosa, assumindo o risco de produzir o resultado”, afirma, na denúncia, a promotora Joseana França Pinto.

A promotora cita como exemplo disso depoimento de Gregório à Polícia Civil, em que chega a dizer que “estava achando dois filtros fracos”. Apesar de ter afirmado que Yrna injetou tal quantidade, “existem indícios” de que, no fim, a dose tenha sido maior, consta na denúncia, que o Tribuna do Ceará teve acesso. “Importando salientar que, embora o acusado em seu interrogatório afirme não ter consciência de quem tenha aplicado a morfina, este tem uma memória seletiva quando lhe convém, como por exemplo, ao afirmar a quantidade que foi aplicado nele e na vítima”.

Defesa discorda

O advogado Leandro Vásques, que representa Gregório, discorda “integralmente” da conclusão do MP-CE. Segundo ele, Yrna era usuária de morfina antes mesmo de conhecer Gregório, versão contestada por amigos da jovem. “O dolo eventual se dá quando o agente assume o risco de produzir resultado. No caso concreto, a vítima estava a consumir morfina com o então namorado. Então, ela própria, conscientemente, fez uso da morfina, segundo aponta o laudo pericial. Não foi ele que injetou a droga na namorada que não desejava consumir”, afirma Leandro Vásques. “Se muito, houve homicídio culposo”.

Segundo a família, Gregório tinha histórico de luta contra a dependência química. “Ao que aparentava, para nós familiares e amigos, [Gregório] estava sóbrio há alguns anos, razão pela qual o ocorrido do último final de semana nos tomou de grande surpresa e tristeza”, disse o pai dele, em nota divulgada em maio de 2016.

Gregório chegou a ser internado em uma clínica para reabilitação de usuários de drogas. Segundo Vásques, ele ainda se encontra em reabilitação, em regime de semi-internamento, na qualidade de monitor da clínica.

“Erros da Polícia”

O advogado da família de Yrna, Cândido Albuquerque, credita a demora da denúncia a falhas na condução da investigação. Segundo ele, a Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) tomou rumos “injustificáveis”. Cândido Albuquerque cita, como prova disso, os pedidos de exumação e reconstituição do crime mesmo sem a presença de Gregório.

Em janeiro último, o Ministério Público determinou a conclusão do inquérito em até 45 dias, após três adiamentos. À época, um dos advogados que representa a família de Yrna chegou a comentar ao Tribuna do Ceará que o caso não tinha andamento desde outubro de 2016.

Acompanhe a cobertura do caso feita por Tribuna do Ceará:

20 de janeiro de 2017 — MP cobra que Polícia conclua investigação de jovem encontrada morta no porta-malas do namorado

13 de setembro de 2016 – Polícia cogita realizar reconstituição do crime de universitária encontrada morta no porta-malas

14 de maio de 2016– Marcas de seringa no braço direito contradizem versão do namorado de jovem achada morta

13 de maio de 2016– Polícia pede exumação do corpo de universitária achada morta no carro de namorado

11 de maio de 2016– Advogado quer o indiciamento do namorado de jovem encontrada morta no carro dele

10 de maio de 2016 – Polícia pede novo exame para detectar uso de morfina em universitária

7 de maio de 2016 – Moradores do entorno da Praça da Gentilândia denunciam livre comércio de drogas na região

6 de maio de 2016 – Pai de empresário atribui às drogas a culpa da morte da namorada do filho

6 de maio de 2016 – Desviada de hospitais, morfina é negociada de forma escancarada na internet

6 de maio de 2016 – Pai de empresário já havia pedido à Justiça a interdição do filho, devido ao vício em drogas

5 de maio de 2016 – Para advogado, internação de namorado de universitária morta é para atrapalhar a polícia

5 de maio de 2016 – Campanha no Facebook questiona hematomas no corpo de jovem achada morta em porta-malas

4 de maio de 2016 – Perito e delegada afirmam que não viram hematomas no corpo de universitária

4 de maio de 2016 – Amigas de universitária achada morta em porta-malas cobram maior investigação

4 de maio de 2016 – “Ela nunca falou sobre drogas”, diz amiga íntima de universitária achada morta em porta-malas

3 de maio de 2016 – Namorado diz à Polícia que tentou se matar após ver universitária morta no carro

3 de maio de 2016 – Familiares apontam hematomas no corpo de universitária encontrada morta em porta-malas

3 de maio de 2016 – Universitária encontrada em porta-malas do carro do namorado teria injetado morfina

2 de maio de 2016 – Universitária é encontrada morta no porta-malas do carro do namorado

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APÓS 1 ANO

Namorado de universitária encontrada morta em porta-malas é denunciado por homicídio doloso

Gregório Donizete Freire Neto assumiu o risco de matar Yrna de Sousa, em maio de 2016, durante uso de drogas. Defesa afirma que a universitária consumiu a morfina por conta própria

Por Lucas Barbosa em Segurança Pública

5 de julho de 2017 às 17:56

Há 2 anos

Yrna morreu por overdose, conforme laudo pericial. Seu corpo foi encontrado apenas 12 horas após a morte (FOTO: Acervo Pessoal)

Um ano após o corpo da universitária Yrna de Sousa Castro, de 27 anos, ter sido encontrado no porta-mala de um carro no bairro Dionísio Torres, em Fortaleza, o suspeito de cometer o homicídio foi denunciado, nesta quarta-feira (5), pelo Ministério Público Estadual (MP-CE).

Gregório Donizete Freire Neto, então namorado de Yrna e dono do carro em que ela foi encontrada, terá a acusação de homicídio doloso apreciada pela Justiça.

A expectativa dos advogados da família de Yrna é de que já na próxima semana o acusado seja citado para audiência na 1ª Vara do Júri da Comarca de Fortaleza.

“Era o mínimo”, comenta o advogado Cândido Albuquerque sobre a denúncia. Ele sustenta que os indícios de homicídio doloso eram “evidentes”. Gregório já havia sido indiciado pela Polícia Civil, mas por ocultação de cadáver, acusação que o MP-CE não endossou. A denúncia ainda pede autos sejam remetidos a uma das varas de tóxicos da capital para que sejam apurados indício de tráfico de drogas por parte de duas pessoas que teriam fornecido drogas ao casal.

Segundo o inquérito, Yrna morreu por overdose no apartamento do namorado, na madrugada de 1º de maio de 2016. Ambos injetaram na veia uma mistura de morfina com um comprimido, preparada por Gregório conforme a denúncia do MP-CE. Ainda de acordo com a peça, ao perceber que Yrna estava desacordada, Gregório conduziu-a a um hospital. Ele chegou a estacionar o carro a cerca de 100 metros do hospital, mas, segundo conta, acabou “apagando”, no que seria efeito das substâncias por ele usadas.

Ao acordar, ele passou, então, a dirigir sem rumo. Nas proximidades do Parque do Cocó, segue a denúncia, Gregório tirou o corpo do banco de passageiros e transferiu para o porta-malas. Segundo a defesa de Gregório, ele não sabia o que fazer e pensava em se matar.

Desistiu, porém, e se dirigiu, em um táxi, a uma pousada da Praia de Iracema, depois de ter passado em casa para trocar de roupa e deixar o carro. Foi na pousada que ele comunicou a um amigo o ocorrido. Este comunicou a familiares que, acompanhados de um advogado, conduziram, Gregório à Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). O corpo só seria encontrado quase 12 horas após a morte.

“O homicídio na forma do dolo eventual fica caracterizado em decorrência da previsibilidade da ocorrência do fato delituoso, pela previsão auferida pelo réu, e, aplicando-se a teoria do consentimento ou assentimento, pela continuação na prática delituosa, assumindo o risco de produzir o resultado”, afirma, na denúncia, a promotora Joseana França Pinto.

A promotora cita como exemplo disso depoimento de Gregório à Polícia Civil, em que chega a dizer que “estava achando dois filtros fracos”. Apesar de ter afirmado que Yrna injetou tal quantidade, “existem indícios” de que, no fim, a dose tenha sido maior, consta na denúncia, que o Tribuna do Ceará teve acesso. “Importando salientar que, embora o acusado em seu interrogatório afirme não ter consciência de quem tenha aplicado a morfina, este tem uma memória seletiva quando lhe convém, como por exemplo, ao afirmar a quantidade que foi aplicado nele e na vítima”.

Defesa discorda

O advogado Leandro Vásques, que representa Gregório, discorda “integralmente” da conclusão do MP-CE. Segundo ele, Yrna era usuária de morfina antes mesmo de conhecer Gregório, versão contestada por amigos da jovem. “O dolo eventual se dá quando o agente assume o risco de produzir resultado. No caso concreto, a vítima estava a consumir morfina com o então namorado. Então, ela própria, conscientemente, fez uso da morfina, segundo aponta o laudo pericial. Não foi ele que injetou a droga na namorada que não desejava consumir”, afirma Leandro Vásques. “Se muito, houve homicídio culposo”.

Segundo a família, Gregório tinha histórico de luta contra a dependência química. “Ao que aparentava, para nós familiares e amigos, [Gregório] estava sóbrio há alguns anos, razão pela qual o ocorrido do último final de semana nos tomou de grande surpresa e tristeza”, disse o pai dele, em nota divulgada em maio de 2016.

Gregório chegou a ser internado em uma clínica para reabilitação de usuários de drogas. Segundo Vásques, ele ainda se encontra em reabilitação, em regime de semi-internamento, na qualidade de monitor da clínica.

“Erros da Polícia”

O advogado da família de Yrna, Cândido Albuquerque, credita a demora da denúncia a falhas na condução da investigação. Segundo ele, a Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) tomou rumos “injustificáveis”. Cândido Albuquerque cita, como prova disso, os pedidos de exumação e reconstituição do crime mesmo sem a presença de Gregório.

Em janeiro último, o Ministério Público determinou a conclusão do inquérito em até 45 dias, após três adiamentos. À época, um dos advogados que representa a família de Yrna chegou a comentar ao Tribuna do Ceará que o caso não tinha andamento desde outubro de 2016.

Acompanhe a cobertura do caso feita por Tribuna do Ceará:

20 de janeiro de 2017 — MP cobra que Polícia conclua investigação de jovem encontrada morta no porta-malas do namorado

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13 de maio de 2016– Polícia pede exumação do corpo de universitária achada morta no carro de namorado

11 de maio de 2016– Advogado quer o indiciamento do namorado de jovem encontrada morta no carro dele

10 de maio de 2016 – Polícia pede novo exame para detectar uso de morfina em universitária

7 de maio de 2016 – Moradores do entorno da Praça da Gentilândia denunciam livre comércio de drogas na região

6 de maio de 2016 – Pai de empresário atribui às drogas a culpa da morte da namorada do filho

6 de maio de 2016 – Desviada de hospitais, morfina é negociada de forma escancarada na internet

6 de maio de 2016 – Pai de empresário já havia pedido à Justiça a interdição do filho, devido ao vício em drogas

5 de maio de 2016 – Para advogado, internação de namorado de universitária morta é para atrapalhar a polícia

5 de maio de 2016 – Campanha no Facebook questiona hematomas no corpo de jovem achada morta em porta-malas

4 de maio de 2016 – Perito e delegada afirmam que não viram hematomas no corpo de universitária

4 de maio de 2016 – Amigas de universitária achada morta em porta-malas cobram maior investigação

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2 de maio de 2016 – Universitária é encontrada morta no porta-malas do carro do namorado