Organização criminosa de empresário português desvia milhões de obras em Caucaia

ERA QUASE UM PREFEITO

Organização criminosa de empresário português desvia milhões de obras em Caucaia

Segundo apuração da Polícia Federal, funcionários da prefeitura na gestão de Washington Gois fizeram parte dos desvios e fraudes

Por Tribuna do Ceará em Segurança Pública

18 de abril de 2019 às 14:55

Há 3 meses

Marcos Alexandre Veiga Correia, de 44 anos, montou um esquema que movimentou milhões de reais. (FOTO: Divulgação)

Por Márcia Feitosa

Circulando nas altas rodas como empresário bem-sucedido nos ramos da construção civil, hotelaria e postos de gasolina; influente politicamente; alternando temporadas entre Brasil e Portugal, Marcos Alexandre Veiga Correia, de 44 anos, montou um esquema que envolvia dezenas de pessoas e empresas, e passou a exercer um poder quase equivalente ao do prefeito de Caucaia.

O consórcio criado pelo português, vindo de Vila Real, saqueou a Prefeitura de Caucaia – 3ª cidade com maior PIB do Estado – durante as duas gestões do prefeito Washington Gois. Em cinco anos, apenas uma empresa faturou cerca de R$ 80 milhões, enquanto a principal firma investigada no processo movimentou R$ 338 milhões de recursos de prefeituras, por obras ainda sob investigação.

O dinheiro destinado pelos Governos Federal, Estadual e Municipal, principalmente para obras de pavimentação, desviado pela suposta organização criminosa, não será fácil de rastrear: pode estar em Portugal, onde a Polícia Federal já encontrou indícios de investimento das verbas desviadas; ou mesmo em Londres, na Inglaterra, onde o português tinha a empresa Walkert Alliance Londe.

Os recursos que foram parar nas mãos do grupo vieram de, pelo menos, dois programas federais, o Programa de Infraestrutura de Transporte e Mobilidade Urbana (Pró-Transporte) e o Fundo de Garantia de Tempo de Serviço (FGTS).

Em contato com uma fonte de Portugal, da região de Vila Rica, de onde veio Correia, o Sistema Jangadeiro descobriu que ele faz parte de uma família influente. “Aqui eles são muito ricos. Todo mundo conhece a família e sabe que eles têm poder, por conta da política”.

No Ceará, a influência de Marcos Correia era ainda maior que além-mar. Um investigador que participou da ‘Operação Afiuzas’, deflagrada pela PF, no último dia 5 de abril, disse que Correia vivia legalmente aqui. “Ao alternar as temporadas que passava aqui e em Portugal nunca chegou a ficar ilegal. Depois que as investigações começaram, monitorávamos as idas e vindas dele”.

Certames

Marcos não agia sozinho. Outros três compatriotas eram seus sócios e supostos operadores das fraudes: Antônio Fernando Couto de Sousa, Jorge Manuel Ferraz Festas e Januário Alves Moreira utilizaram as empresas Mixserv Locação de Mão de Obra e Construções LTDA, Placitude, Berma, Socorpena para forjar processos licitatórios fingindo ser concorrentes.

De acordo com informações do Portal do Tribunal de Contas do Estado (TCE), uma das empresas comandadas pelo português Marcos Correia participou de 33 procedimentos licitatórios na Prefeitura de Caucaia e venceu 72 certames. Todos estes certames coincidem com as gestões consecutivas do ex-prefeito Washington Gois.

Conforme dados do extinto TCM, nos anos de 2010 e 2011 a empresa Mixserv faturou R$ 1,2 milhão, em Caucaia. Já a Socoperna recebeu R$ 47 milhões de 2010 a 2013; de 2014 a 2015, foram pagos pelas prefeituras de Caucaia e de Fortaleza outros R$ 33 milhões, totalizando mais de R$ 80 milhões de faturamento, em cinco anos. A atuação do grupo, conforme a PF, configurariam fraudes em licitações, desvios de recursos públicos e lavagem de dinheiro. Marcos Correia também é suspeito de manter um esquema ilegal de troca de moeda (câmbio).

Vínculos públicos e privados

Os funcionários da prefeitura entendiam como equivalentes o poder do português e de Washington Gois, segundo uma fonte que conversou com a reportagem. “O vínculo do prefeito com o ‘Português’ era muito claro. Não só para quem trabalhava na prefeitura. Na rua todo mundo sabia. Era como se fossem dois prefeitos”, afirmou. A fonte revelou que o estrangeiro tinha livre acesso ao prédio da Prefeitura, e se mostrava irritado, se fosse contrariado em assuntos da administração.

Porém, não tinha tempo para ir sempre ao Paço, já que tinha diversas outras empresas na cidade e viajava com frequência. Os negócios do ‘Português’ iam desde hotelaria, até postos de gasolina. Estão registradas em seu nome na Junta Comercial as firmas Cubuinvest Compra e Venda de Imoveis LTD, Cumbuco Locação de Automóveis LTDA, Auto Posto Portugal LTDA, Kite Shop Comércio de Artigos Esportivos LTD, Darfoassets Investimentos Imobiliários LTDA, Sofisa Empreendimentos Imobiliários LTDA, Captus – S G DE PART LTDA.

Um entrevistado da PF disse que a gestão misturou o público e o privado, de forma a favorecer o enriquecimento do grupo liderado pelos estrangeiros, que se instalou na cidade. “Rifa-se a coisa pública logo na campanha eleitoral. Depois que o gestor é eleito já tem uma série de compromissos financeiros, que acabam fazendo com que as obras da prefeitura sejam fruto de processos licitatórios irregulares, viciados”, explicou.

Dinheiro desviado da Prefeitura de Caucaia não será fácil de rastrear. (FOTO: Divulgação)

Agentes

Não apenas funcionários da Prefeitura de Washington Gois fizeram parte da suposta organização. A advogada e tabeliã Fábia Soares Gondim, responsável pelo Cartório da Taíba e tabeliã substituta do Cartório de Pentecoste, é apontada como parceira de Marcos Correia em diversos negócios.

As investigações não esclareceram, porém, se os serviços do cartório estão comprometidos, ou, se ela só agiu no esquema de Correia. Conforme os autos, outro agente público que agia de forma ilícita era o então secretário de Finanças e Planejamento das gestões do ex-prefeito Washington Gois, Ramiro César de Paula Barroso. Conforme os autos, quando desempenhava a função de secretário, realizou várias viagens aos Estados Unidos da América (EUA) e Portugal, para fazer investimentos em nome de Marcos Correia e do ex-prefeito.

A PF informou que “ressonam ainda a possível prática dos crimes de corrupção ativa e passiva envolvendo funcionário da Prefeitura de Caucaia na gestão Naumi Amorim”, no entanto não há informações sobre o conhecimento do gestor atual sobre os fatos criminosos. O delegado Carlos Joécio, da Delegacia de Combate à Corrupção (Delecor), disse que o momento é de análise do material apreendido durante a deflagração da primeira parte da operação.

“O inquérito teve início em 2016, mas as duas gestões do prefeito anterior estão sendo investigadas. Estamos em processo de ver a intensidade dessa possível parceria público/privada. Queremos saber qual a intensidade desse consórcio ilegal que fraudou licitações, realizou contratos e desviou recursos públicos”, disse o delegado.

Segundo Carlos Joécio a quantidade de municípios em que as empresas ligadas a suposta organização criminosa atuou ainda está sob análise. “Caucaia é o município onde as contratações aconteceram em maior volume, mas há outros municípios como Fortaleza, Maracanaú e alguns outros que ainda estamos investigando”, afirmou.

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ERA QUASE UM PREFEITO

Organização criminosa de empresário português desvia milhões de obras em Caucaia

Segundo apuração da Polícia Federal, funcionários da prefeitura na gestão de Washington Gois fizeram parte dos desvios e fraudes

Por Tribuna do Ceará em Segurança Pública

18 de abril de 2019 às 14:55

Há 3 meses

Marcos Alexandre Veiga Correia, de 44 anos, montou um esquema que movimentou milhões de reais. (FOTO: Divulgação)

Por Márcia Feitosa

Circulando nas altas rodas como empresário bem-sucedido nos ramos da construção civil, hotelaria e postos de gasolina; influente politicamente; alternando temporadas entre Brasil e Portugal, Marcos Alexandre Veiga Correia, de 44 anos, montou um esquema que envolvia dezenas de pessoas e empresas, e passou a exercer um poder quase equivalente ao do prefeito de Caucaia.

O consórcio criado pelo português, vindo de Vila Real, saqueou a Prefeitura de Caucaia – 3ª cidade com maior PIB do Estado – durante as duas gestões do prefeito Washington Gois. Em cinco anos, apenas uma empresa faturou cerca de R$ 80 milhões, enquanto a principal firma investigada no processo movimentou R$ 338 milhões de recursos de prefeituras, por obras ainda sob investigação.

O dinheiro destinado pelos Governos Federal, Estadual e Municipal, principalmente para obras de pavimentação, desviado pela suposta organização criminosa, não será fácil de rastrear: pode estar em Portugal, onde a Polícia Federal já encontrou indícios de investimento das verbas desviadas; ou mesmo em Londres, na Inglaterra, onde o português tinha a empresa Walkert Alliance Londe.

Os recursos que foram parar nas mãos do grupo vieram de, pelo menos, dois programas federais, o Programa de Infraestrutura de Transporte e Mobilidade Urbana (Pró-Transporte) e o Fundo de Garantia de Tempo de Serviço (FGTS).

Em contato com uma fonte de Portugal, da região de Vila Rica, de onde veio Correia, o Sistema Jangadeiro descobriu que ele faz parte de uma família influente. “Aqui eles são muito ricos. Todo mundo conhece a família e sabe que eles têm poder, por conta da política”.

No Ceará, a influência de Marcos Correia era ainda maior que além-mar. Um investigador que participou da ‘Operação Afiuzas’, deflagrada pela PF, no último dia 5 de abril, disse que Correia vivia legalmente aqui. “Ao alternar as temporadas que passava aqui e em Portugal nunca chegou a ficar ilegal. Depois que as investigações começaram, monitorávamos as idas e vindas dele”.

Certames

Marcos não agia sozinho. Outros três compatriotas eram seus sócios e supostos operadores das fraudes: Antônio Fernando Couto de Sousa, Jorge Manuel Ferraz Festas e Januário Alves Moreira utilizaram as empresas Mixserv Locação de Mão de Obra e Construções LTDA, Placitude, Berma, Socorpena para forjar processos licitatórios fingindo ser concorrentes.

De acordo com informações do Portal do Tribunal de Contas do Estado (TCE), uma das empresas comandadas pelo português Marcos Correia participou de 33 procedimentos licitatórios na Prefeitura de Caucaia e venceu 72 certames. Todos estes certames coincidem com as gestões consecutivas do ex-prefeito Washington Gois.

Conforme dados do extinto TCM, nos anos de 2010 e 2011 a empresa Mixserv faturou R$ 1,2 milhão, em Caucaia. Já a Socoperna recebeu R$ 47 milhões de 2010 a 2013; de 2014 a 2015, foram pagos pelas prefeituras de Caucaia e de Fortaleza outros R$ 33 milhões, totalizando mais de R$ 80 milhões de faturamento, em cinco anos. A atuação do grupo, conforme a PF, configurariam fraudes em licitações, desvios de recursos públicos e lavagem de dinheiro. Marcos Correia também é suspeito de manter um esquema ilegal de troca de moeda (câmbio).

Vínculos públicos e privados

Os funcionários da prefeitura entendiam como equivalentes o poder do português e de Washington Gois, segundo uma fonte que conversou com a reportagem. “O vínculo do prefeito com o ‘Português’ era muito claro. Não só para quem trabalhava na prefeitura. Na rua todo mundo sabia. Era como se fossem dois prefeitos”, afirmou. A fonte revelou que o estrangeiro tinha livre acesso ao prédio da Prefeitura, e se mostrava irritado, se fosse contrariado em assuntos da administração.

Porém, não tinha tempo para ir sempre ao Paço, já que tinha diversas outras empresas na cidade e viajava com frequência. Os negócios do ‘Português’ iam desde hotelaria, até postos de gasolina. Estão registradas em seu nome na Junta Comercial as firmas Cubuinvest Compra e Venda de Imoveis LTD, Cumbuco Locação de Automóveis LTDA, Auto Posto Portugal LTDA, Kite Shop Comércio de Artigos Esportivos LTD, Darfoassets Investimentos Imobiliários LTDA, Sofisa Empreendimentos Imobiliários LTDA, Captus – S G DE PART LTDA.

Um entrevistado da PF disse que a gestão misturou o público e o privado, de forma a favorecer o enriquecimento do grupo liderado pelos estrangeiros, que se instalou na cidade. “Rifa-se a coisa pública logo na campanha eleitoral. Depois que o gestor é eleito já tem uma série de compromissos financeiros, que acabam fazendo com que as obras da prefeitura sejam fruto de processos licitatórios irregulares, viciados”, explicou.

Dinheiro desviado da Prefeitura de Caucaia não será fácil de rastrear. (FOTO: Divulgação)

Agentes

Não apenas funcionários da Prefeitura de Washington Gois fizeram parte da suposta organização. A advogada e tabeliã Fábia Soares Gondim, responsável pelo Cartório da Taíba e tabeliã substituta do Cartório de Pentecoste, é apontada como parceira de Marcos Correia em diversos negócios.

As investigações não esclareceram, porém, se os serviços do cartório estão comprometidos, ou, se ela só agiu no esquema de Correia. Conforme os autos, outro agente público que agia de forma ilícita era o então secretário de Finanças e Planejamento das gestões do ex-prefeito Washington Gois, Ramiro César de Paula Barroso. Conforme os autos, quando desempenhava a função de secretário, realizou várias viagens aos Estados Unidos da América (EUA) e Portugal, para fazer investimentos em nome de Marcos Correia e do ex-prefeito.

A PF informou que “ressonam ainda a possível prática dos crimes de corrupção ativa e passiva envolvendo funcionário da Prefeitura de Caucaia na gestão Naumi Amorim”, no entanto não há informações sobre o conhecimento do gestor atual sobre os fatos criminosos. O delegado Carlos Joécio, da Delegacia de Combate à Corrupção (Delecor), disse que o momento é de análise do material apreendido durante a deflagração da primeira parte da operação.

“O inquérito teve início em 2016, mas as duas gestões do prefeito anterior estão sendo investigadas. Estamos em processo de ver a intensidade dessa possível parceria público/privada. Queremos saber qual a intensidade desse consórcio ilegal que fraudou licitações, realizou contratos e desviou recursos públicos”, disse o delegado.

Segundo Carlos Joécio a quantidade de municípios em que as empresas ligadas a suposta organização criminosa atuou ainda está sob análise. “Caucaia é o município onde as contratações aconteceram em maior volume, mas há outros municípios como Fortaleza, Maracanaú e alguns outros que ainda estamos investigando”, afirmou.