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Blog Paulo Sertek

por Paulo Sertek

#Discurso

A LINGUAGEM DAS FORMAS E DAS CORES

Por paulosertek em Cultura, Discurso, Política, virtude

23 de Maio de 2019

JORGE LACERDA GOVERNADOR DE SANTA CATARINA 1958

Discurso proferido na inauguração da exposição de parte do acervo do Museu de Arte de São Paulo, em 29 de março de 1958.

Nota jornalística

Convidado especialmente pelo deputado Horácio Lafer, Diretor Presidente da Associação Museu de Arte de São Paulo, o Governador Jorge Lacerda pronunciou uma brilhante oração na abertura da grande exposição do acervo daquela entidade realizada quarta feira última na Escola Nacional de Belas Artes. Foi um discurso que teve a melhor repercussão. Foram oradores, na cerimônia, o Presidente Juscelino Kubitschek, o ex-ministro Alexandre Marcondes Filho, o Deputado Horácio Lafer, Embaixador Assis Chateaubriand, Dr. Armando Simone Pereira e Sr. Osvaldo Teixeira. O acervo do Museu reúne telas da mais alta importância dos pintores mais famosos
desde a Renascença aos dias de hoje.

Discurso

Esta exposição só poderia, sem dúvida, ter nascido de um ato de loucura — dessa benemérita desordem criadora que capitaneia o espírito e os gestos de Assis Chateaubriand.

Foi ele, por certo, o Quixote árdego desta empreitada heroica no território da cultura.

Mas não sonhou só, pois os Sanchos prudentes tocados pela sua flama converteram-se em novos e arrebatados Quixotes. E a vida que imitando, por vezes, imita a arte, fez renovar entre nós o processo de quixotização do Sancho.

Efetivamente, os acautelados que, tímidos e perplexos, acompanharam os atrevimentos do “engenhoso fidalgo”, desbordaram das lições do cavaleiro andante, recolhendo-lhe das mãos ousadas a lança audaz para jornadas ainda mais temerárias. E eis que, tangidos pela visão ardente do pioneiro, industriais, comerciantes, banqueiros, se transfiguraram para as sortidas intrépidas pelo mundo da arte.

Foram eles que nos convocaram para este desfile mágico de seis séculos de glórias da arte e em que resplandece uma visão instantânea de seus gênios criadores.

Os homens práticos do Brasil transmitem-nos, assim, a lição recolhida dos tempos, segundo a qual as nações estruturam a sua perpetuidade menos nos alicerces de seus empreendimentos materiais do que nessas luminosas e eternas criações do espírito.

A arte ocidental aqui está presente nesta síntese magnífica, através de suas mensagens imperecíveis, desde os primórdios da Renascença aos dias de hoje. É uma visão do nosso próprio mundo, da nossa cultura, desde que emergiu da Idade Média.

Essas telas são, pois, intérpretes do espírito do homem, a partir dos albores renascentistas, quando já se delineiam as tentativas de sua integração no mundo em trânsito, aos dias agônicos que estamos vivendo, quando ele tenta fugir da realidade dramática e cruel da época, nessa obstinação em não retratá-la em suas exterioridades, para antes exprimir, através da pura linguagem das formas e das cores, os seus sentimentos mais íntimos e as suas aspirações mais secretas!

Senhores:

Esta exposição que, com extraordinário êxito, já percorreu vários dos mais importantes centros de cultura da América e da Europa, constituiu uma demonstração da pujança do Brasil em criar um acervo dos mais ricos, justamente quando quase todas as obras-primas da pintura se converteram em patrimônio inalienável dos grandes museus do universo.

O Museu de Arte de São Paulo não é, entretanto, apenas um mero repositório de belas obras, uma entidade estática, mas, sobretudo um organismo dinâmico que procura a participação efetiva e constante das novas gerações brasileiras em todos os ramos do conhecimento estético.

O Brasil deve orgulhar-se deste empreendimento para cujo êxito concorreu decisivamente, além do seu fundador, o Prof. Pietro Maria Bardi, responsável pela seleção desta imponente galeria da pintura universal. Agora, porém, um novo e poderoso impulso estamos testemunhando com a presidência do eminente homem público, Ministro Horácio Lafer e dessa plêiade de preclaros compatriotas que compõem a sua atual diretoria.

A esse valioso contingente de energias esclarecidas, postas a serviço da expansão de obra de tal magnitude, veio juntar-se há pouco a Fundação Armando Alvares Penteado, que terminou assegurando ao Museu de Arte aquelas condições imprescindíveis para a sua sobrevivência.

A obra sonhada pelo idealismo do inolvidável paulista aqui revive na grandeza deste acontecimento. Revive, sobretudo na figura sob todos os títulos venerável da Sra. Annie Alvares Penteado, fiel executora da generosa mensagem de benemerência que Armando Alvares Penteado legou à inteligência artística do país.

Meus senhores:

Em face de tão renomeadas personalidades, de tantas presenças ilustres, não se explicaria a palavra de orador, não fora talvez o reconhecimento da obscura contribuição por ele oferecida a empreendimentos culturais do país, em decorrência de sua atividade na imprensa literária e de seu labor na vida parlamentar.

Diante desta mensagem de sua capacidade criadora, que o Ocidente oferece ao Brasil, através do Museu de Arte de São Paulo, renova-se em todos nós a confiança no poder de sobrevivência de nossa Cultura. Ortega y Gasset, falando à consciência do mundo do alto das ruínas fumegantes de Berlim, proclamava, numa réplica aos profetas da decadência de nossa civilização, que o crepúsculo que se estava prenunciando não era vespertino, mas sim matutino.

Com efeito, meus senhores, os artistas dos nossos tempos, confirmando o pensador, parecem oferecer, nas cores vibrantes de suas telas, a sugestão magnífica dessa madrugada, que se vai rasgando diante de nós como ardente e luminosa esperança.

Fonte Democracia e Nação

Livro: Democracia e Nação contem os discursos de Jorge Lacerda. Prefácio de Adonias Filho e organizado por Nereu Corrêa

Paulo Sertek é doutor em educação e autor do livro

Jorge Lacerda: uma luminosa mensagem de cultura,

disponível para download:  https://goo.gl/DpKN4b

Jorge Lacerda: uma luminosa mensagem de cultura
Autor: Paulo Sertek
Ed.: Cultor de Livros
São Paulo, 2015

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A LINGUAGEM DAS FORMAS E DAS CORES

Por paulosertek em Cultura, Discurso, Política, virtude

23 de Maio de 2019

JORGE LACERDA GOVERNADOR DE SANTA CATARINA 1958

Discurso proferido na inauguração da exposição de parte do acervo do Museu de Arte de São Paulo, em 29 de março de 1958.

Nota jornalística

Convidado especialmente pelo deputado Horácio Lafer, Diretor Presidente da Associação Museu de Arte de São Paulo, o Governador Jorge Lacerda pronunciou uma brilhante oração na abertura da grande exposição do acervo daquela entidade realizada quarta feira última na Escola Nacional de Belas Artes. Foi um discurso que teve a melhor repercussão. Foram oradores, na cerimônia, o Presidente Juscelino Kubitschek, o ex-ministro Alexandre Marcondes Filho, o Deputado Horácio Lafer, Embaixador Assis Chateaubriand, Dr. Armando Simone Pereira e Sr. Osvaldo Teixeira. O acervo do Museu reúne telas da mais alta importância dos pintores mais famosos
desde a Renascença aos dias de hoje.

Discurso

Esta exposição só poderia, sem dúvida, ter nascido de um ato de loucura — dessa benemérita desordem criadora que capitaneia o espírito e os gestos de Assis Chateaubriand.

Foi ele, por certo, o Quixote árdego desta empreitada heroica no território da cultura.

Mas não sonhou só, pois os Sanchos prudentes tocados pela sua flama converteram-se em novos e arrebatados Quixotes. E a vida que imitando, por vezes, imita a arte, fez renovar entre nós o processo de quixotização do Sancho.

Efetivamente, os acautelados que, tímidos e perplexos, acompanharam os atrevimentos do “engenhoso fidalgo”, desbordaram das lições do cavaleiro andante, recolhendo-lhe das mãos ousadas a lança audaz para jornadas ainda mais temerárias. E eis que, tangidos pela visão ardente do pioneiro, industriais, comerciantes, banqueiros, se transfiguraram para as sortidas intrépidas pelo mundo da arte.

Foram eles que nos convocaram para este desfile mágico de seis séculos de glórias da arte e em que resplandece uma visão instantânea de seus gênios criadores.

Os homens práticos do Brasil transmitem-nos, assim, a lição recolhida dos tempos, segundo a qual as nações estruturam a sua perpetuidade menos nos alicerces de seus empreendimentos materiais do que nessas luminosas e eternas criações do espírito.

A arte ocidental aqui está presente nesta síntese magnífica, através de suas mensagens imperecíveis, desde os primórdios da Renascença aos dias de hoje. É uma visão do nosso próprio mundo, da nossa cultura, desde que emergiu da Idade Média.

Essas telas são, pois, intérpretes do espírito do homem, a partir dos albores renascentistas, quando já se delineiam as tentativas de sua integração no mundo em trânsito, aos dias agônicos que estamos vivendo, quando ele tenta fugir da realidade dramática e cruel da época, nessa obstinação em não retratá-la em suas exterioridades, para antes exprimir, através da pura linguagem das formas e das cores, os seus sentimentos mais íntimos e as suas aspirações mais secretas!

Senhores:

Esta exposição que, com extraordinário êxito, já percorreu vários dos mais importantes centros de cultura da América e da Europa, constituiu uma demonstração da pujança do Brasil em criar um acervo dos mais ricos, justamente quando quase todas as obras-primas da pintura se converteram em patrimônio inalienável dos grandes museus do universo.

O Museu de Arte de São Paulo não é, entretanto, apenas um mero repositório de belas obras, uma entidade estática, mas, sobretudo um organismo dinâmico que procura a participação efetiva e constante das novas gerações brasileiras em todos os ramos do conhecimento estético.

O Brasil deve orgulhar-se deste empreendimento para cujo êxito concorreu decisivamente, além do seu fundador, o Prof. Pietro Maria Bardi, responsável pela seleção desta imponente galeria da pintura universal. Agora, porém, um novo e poderoso impulso estamos testemunhando com a presidência do eminente homem público, Ministro Horácio Lafer e dessa plêiade de preclaros compatriotas que compõem a sua atual diretoria.

A esse valioso contingente de energias esclarecidas, postas a serviço da expansão de obra de tal magnitude, veio juntar-se há pouco a Fundação Armando Alvares Penteado, que terminou assegurando ao Museu de Arte aquelas condições imprescindíveis para a sua sobrevivência.

A obra sonhada pelo idealismo do inolvidável paulista aqui revive na grandeza deste acontecimento. Revive, sobretudo na figura sob todos os títulos venerável da Sra. Annie Alvares Penteado, fiel executora da generosa mensagem de benemerência que Armando Alvares Penteado legou à inteligência artística do país.

Meus senhores:

Em face de tão renomeadas personalidades, de tantas presenças ilustres, não se explicaria a palavra de orador, não fora talvez o reconhecimento da obscura contribuição por ele oferecida a empreendimentos culturais do país, em decorrência de sua atividade na imprensa literária e de seu labor na vida parlamentar.

Diante desta mensagem de sua capacidade criadora, que o Ocidente oferece ao Brasil, através do Museu de Arte de São Paulo, renova-se em todos nós a confiança no poder de sobrevivência de nossa Cultura. Ortega y Gasset, falando à consciência do mundo do alto das ruínas fumegantes de Berlim, proclamava, numa réplica aos profetas da decadência de nossa civilização, que o crepúsculo que se estava prenunciando não era vespertino, mas sim matutino.

Com efeito, meus senhores, os artistas dos nossos tempos, confirmando o pensador, parecem oferecer, nas cores vibrantes de suas telas, a sugestão magnífica dessa madrugada, que se vai rasgando diante de nós como ardente e luminosa esperança.

Fonte Democracia e Nação

Livro: Democracia e Nação contem os discursos de Jorge Lacerda. Prefácio de Adonias Filho e organizado por Nereu Corrêa

Paulo Sertek é doutor em educação e autor do livro

Jorge Lacerda: uma luminosa mensagem de cultura,

disponível para download:  https://goo.gl/DpKN4b

Jorge Lacerda: uma luminosa mensagem de cultura
Autor: Paulo Sertek
Ed.: Cultor de Livros
São Paulo, 2015