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Marketing Pro

por Agência Delantero

xampu

Publicitários, bora voltar a vender xampu?

Por Delantero em Publicidade

29 de novembro de 2018

Séan Garnier é um dos maiores jogadores de futebol freestyle do mundo. É um daqueles malucos descolados que fazem coisas absurdas com uma bola de futebol. Sobe em postes equilibrando a bola, dança com a pelota no pescoço, faz embaixadinhas com limão, pitomba, cajarana, essas coisas. Assistindo a um de seus mirabolantes vídeos, comecei a pensar na nossa atividade. É que quanto mais vejo o que os festivais de criatividade têm apresentado, mais penso que estamos diante de uma geração de Séans Ganiers.  

Nada contra o que ele faz, mas precisamos estar atentos. O ganha-pão do Séan é encantar. Ou seja, ele não tem obrigação com o gol, de fazer lançamentos precisos, de voltar pra marcar. A glória vem das manobras em si e da capacidade de surpreender. Já os jogadores de futebol convencionais têm que jogar bonito, mas também têm que ganhar. A criatividade do Messi, por exemplo, é um recurso para transformar uma jogada em gol. Para mostrar apenas pirueta, ele tem as propagandas da Adidas. Por falar em propaganda, chegamos ao ponto crucial da conversa.

Estivemos nos dois últimos festivais de Cannes que, diga-se de passagem, é uma experiência excepcional. Porém reflete um pouco esse momento. Vimos uma série de campanhas impressionantes como manobras a la Séan, mas que sempre parecem terminar pela linha de fundo, à margem de problemas reais, como aumento de vendas, de participação de mercado e de outras coisas chatas de adultos que só servem para estragar a minha obra de arte. Aí fica na cara que se está tentando fazer caber uma calça 42 no Jô Soares em troca de um troféu. E o pior é que, no festival, a calça entra.

Uma das formas mais comuns de esses lampejos se manifestarem é através de causas sociais. Tem para todos os gostos. Inclusive gerando resultados impossíveis de serem comprovados. Que jurado de Cannes vai atrás de saber, por exemplo, se 138 milhões de pessoas foram mesmo impactadas em uma ação para uma tribo com 12 mil habitantes no sul da ilha de Tonga? De repente, não mais que de repente, descobriu-se que salvar o mundo é um caminho (mais) fácil para o reconhecimento. Mais uma vez, isso é igual ao Séan no campo: impressiona, mas não resolve.

A vida real é diferente. Voltando aos gramados, os jogadores são cobrados por um futebol bonito, desde que façam gols. Nós também. A criatividade deve ser acionada para, antes de tudo, resolver problemas apontados em um briefing passado pelo cliente. Em tempos de vacas magras, gastando o mínimo possível. Sem essa de “job dia a dia”, jogo oficial e “job pra prêmio”, freestyle. Essa hora me vem à cabeça o comercial “Brigas de Condomínio”, da Talent, para vender (ora vejam só) caixa d’água. Ou pra ficar em Cannes mesmo, o Ma’am da Issue, Tide ad e um baratíssimo “pre-approved loans”, do Banco Santa Fé. Todos premiados. Tá vendo como é possível?

Absolutamente nada contra campanhas sociais (absolutamente nada contra você também, Séan). O problema é quando a causa não é a causa, mas um atalho para rechear um portfólio. Quando se reúnem todos esses trabalhos, fica chato. Tem uma hora que você não sabe mais se está em um festival de criatividade ou no Criança Esperança.

Nós, que cruzamos o oceano e ainda damos o azar de cair em uma poltrona do meio – depois de passar 8, 9h tentando achar um lugar para os cotovelos – queremos ver como as agências mais criativas do mundo venderiam produtos que todo mundo consome. Pneu, frango congelado, água sanitária, frigideira, fralda descartável, rolamento de caminhão, xampu e por aí vai. É a capacidade de resolver problemas reais de forma diferente, inovadora e econômica que vai gerar mais ou menos valor para o nosso negócio. Isso sim é futebol-arte, Séan.

Quanto a continuar usando a propaganda para salvar o planeta, pode colocar a cabeça no travesseiro tranquilo. Toda campanha criativa que tem êxito, que traz retorno para o cliente, faz o motor da economia girar. Ajuda a aumentar a demanda, a criar ou mesmo manter milhares de postos de trabalho. A melhor notícia de todas: um desses empregos pode ser o nosso, e a gente nem percebe.

 

Pádua Sampaio, sócio e diretor de criação da agência Delantero.

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Publicitários, bora voltar a vender xampu?

Por Delantero em Publicidade

29 de novembro de 2018

Séan Garnier é um dos maiores jogadores de futebol freestyle do mundo. É um daqueles malucos descolados que fazem coisas absurdas com uma bola de futebol. Sobe em postes equilibrando a bola, dança com a pelota no pescoço, faz embaixadinhas com limão, pitomba, cajarana, essas coisas. Assistindo a um de seus mirabolantes vídeos, comecei a pensar na nossa atividade. É que quanto mais vejo o que os festivais de criatividade têm apresentado, mais penso que estamos diante de uma geração de Séans Ganiers.  

Nada contra o que ele faz, mas precisamos estar atentos. O ganha-pão do Séan é encantar. Ou seja, ele não tem obrigação com o gol, de fazer lançamentos precisos, de voltar pra marcar. A glória vem das manobras em si e da capacidade de surpreender. Já os jogadores de futebol convencionais têm que jogar bonito, mas também têm que ganhar. A criatividade do Messi, por exemplo, é um recurso para transformar uma jogada em gol. Para mostrar apenas pirueta, ele tem as propagandas da Adidas. Por falar em propaganda, chegamos ao ponto crucial da conversa.

Estivemos nos dois últimos festivais de Cannes que, diga-se de passagem, é uma experiência excepcional. Porém reflete um pouco esse momento. Vimos uma série de campanhas impressionantes como manobras a la Séan, mas que sempre parecem terminar pela linha de fundo, à margem de problemas reais, como aumento de vendas, de participação de mercado e de outras coisas chatas de adultos que só servem para estragar a minha obra de arte. Aí fica na cara que se está tentando fazer caber uma calça 42 no Jô Soares em troca de um troféu. E o pior é que, no festival, a calça entra.

Uma das formas mais comuns de esses lampejos se manifestarem é através de causas sociais. Tem para todos os gostos. Inclusive gerando resultados impossíveis de serem comprovados. Que jurado de Cannes vai atrás de saber, por exemplo, se 138 milhões de pessoas foram mesmo impactadas em uma ação para uma tribo com 12 mil habitantes no sul da ilha de Tonga? De repente, não mais que de repente, descobriu-se que salvar o mundo é um caminho (mais) fácil para o reconhecimento. Mais uma vez, isso é igual ao Séan no campo: impressiona, mas não resolve.

A vida real é diferente. Voltando aos gramados, os jogadores são cobrados por um futebol bonito, desde que façam gols. Nós também. A criatividade deve ser acionada para, antes de tudo, resolver problemas apontados em um briefing passado pelo cliente. Em tempos de vacas magras, gastando o mínimo possível. Sem essa de “job dia a dia”, jogo oficial e “job pra prêmio”, freestyle. Essa hora me vem à cabeça o comercial “Brigas de Condomínio”, da Talent, para vender (ora vejam só) caixa d’água. Ou pra ficar em Cannes mesmo, o Ma’am da Issue, Tide ad e um baratíssimo “pre-approved loans”, do Banco Santa Fé. Todos premiados. Tá vendo como é possível?

Absolutamente nada contra campanhas sociais (absolutamente nada contra você também, Séan). O problema é quando a causa não é a causa, mas um atalho para rechear um portfólio. Quando se reúnem todos esses trabalhos, fica chato. Tem uma hora que você não sabe mais se está em um festival de criatividade ou no Criança Esperança.

Nós, que cruzamos o oceano e ainda damos o azar de cair em uma poltrona do meio – depois de passar 8, 9h tentando achar um lugar para os cotovelos – queremos ver como as agências mais criativas do mundo venderiam produtos que todo mundo consome. Pneu, frango congelado, água sanitária, frigideira, fralda descartável, rolamento de caminhão, xampu e por aí vai. É a capacidade de resolver problemas reais de forma diferente, inovadora e econômica que vai gerar mais ou menos valor para o nosso negócio. Isso sim é futebol-arte, Séan.

Quanto a continuar usando a propaganda para salvar o planeta, pode colocar a cabeça no travesseiro tranquilo. Toda campanha criativa que tem êxito, que traz retorno para o cliente, faz o motor da economia girar. Ajuda a aumentar a demanda, a criar ou mesmo manter milhares de postos de trabalho. A melhor notícia de todas: um desses empregos pode ser o nosso, e a gente nem percebe.

 

Pádua Sampaio, sócio e diretor de criação da agência Delantero.