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MAR Jangadeiro

por Orlando Nunes

Março 2012

A/ À distância

Por Orlando Nunes em Crase

28 de Março de 2012

Você sabe quando usar o acento grave?

Por Orlando Nunes

– Assistiu ao jogo à distância de dois metros do campo de futebol.

– Assistiu ao jogo a distância.

Na primeira frase, como a expressão à distância vem especificada (dois metros), ocorre sempre a sinalização da crase. No segundo exemplo, sem a determinação da distância, o uso do acento grave (`) é facultativo, mas aconselhável quando desfizer ambiguidade.

A GRANDE DISTÂNCIA

– Assistiu ao jogo a grande distância, ou seja, Assistiu ao jogo a (uma) grande distância.

Neste caso, sem crase. Há subentendido o artigo indefinido “uma”.

MARCAR A/À DISTÂNCIA

Frase ambígua – Volante marcou a distância (a distância foi marcada, determinada pelo volante, ou ele marcou (o atacante adversário, por exemplo) de uma certa distância?).

Frase não ambígua – Volante marcou à distância (a marcação foi realizada mantendo-se certa distância entre marcador e marcado).

ENSINO A/À DISTÂNCIA

Ensino a distância (frase corretíssima). Agora, se quem escreve teme, digamos, que o leitor vá compreender no enunciado algo como “alguém ensina uma determinada distância a alguém”, vai optar pelo uso do acento grave, desfazendo a possibilidade de dupla interpretação: Ensino à distância. Aqui a regra tem a ver com a clareza, e o contexto em que a frase se insere, naturalmente, é decisivo na escolha do redator.

P.S. Neste dia 28 de março, saudações aos colegas revisores de texto do Brasil.

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Curso de futebol a distância

Por Orlando Nunes em Crônica

21 de Março de 2012

Vou criar um curso de futebol a distância, para alunos de todas as idades, abaixo ou acima do peso, míopes ou de larga visão empreendedora. Gol de placa, sou experiente.

Era repórter esportivo, mas vi que o bom negócio é ser professor. Professor de futebol, que tem sempre uma resposta na ponta da língua. Professor de português é uma piada.

Gravei na memória a última entrevista jogada debaixo do tapete verde. Depois dela resolvi abandonar os gramados. Solta VT:

No vestiário:

– E aí, professor, o que houve com o time?
– Um clássico se decide nos detalhes.
(Sério?)

Tomamos um gol bobo, de bola parada.
(Isso me faz nostálgico. O melhor marcador de gols bobos que eu vi jogar se chamava Zico, ele jogava num time de camisas rubro-negras. Eu ficava bobo também vendo o cara fazendo tantos gols bobos. E agora o que eu faço nas tardes de domingo?)

– Como recuperar a equipe?
– Não tem nada perdido ainda, vamos levantar a cabeça.
(Aí dentro)

– O senhor estava bem nervoso, não?
– A gente trabalha a semana inteira, e vem um árbitro desses estragar tudo!?
(Por que marcam jogos para o domingo, dia do descanso, meu Deus?)

– O professor foi expulso por reclamação?
– Eu não falei nada, pô, e ele me deu um cartão vermelho? Palhaçada.
(A injustiça é muda)

– Foi um jogo com muitas faltas.
– O adversário cansou de bater, mas o cidadão de preto só marca contra a gente.
(A justiça é cega)

E se eu falar alguma coisa do juiz ainda vão querer me processar.
(Fala da mãe dele…)

– Por que o professor invadiu o campo?
– Eu fui cumprimentar o árbitro, que atuação!.
(…)

Mas esse senhor era pra ser preso.
(…)

– O senhor continua no comando da equipe?
– É claro que sim, o senhor tem algo contra?.
(Me inclua fora)

– O grupo não está rendendo…
– Criamos várias oportunidades de gol, mas a bola não quis entrar.
(Alguém está trocando as bolas)

– E quem não faz…
– O adversário fez o gol e se retrancou, abdicou do jogo.
(Também vou abdicar)

– O professor vai pedir reforço?
– É preciso qualificar o plantel, não creio em milagre.
(Homem de pôr café. Tomei um expresso e não voltei mais)

Os professores de futebol têm um discurso padrão para tudo, meu curso a distância será diferente. Na primeira aula, por exemplo, já alerto os goleiros:

As piores bolas são as que não querem entrar.

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Burrice ou parricídio

Por Orlando Nunes em Literatura

14 de Março de 2012

Os dicionários apenas registram palavras, não julgam o emprego dado a elas

“O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos.”
Cem Anos de Solidão – Gabriel García Márquez

Desde a aldeia ficcional de Macondo à aldeia global de nossos dias, as coisas carecem de nome, e cada nome formado pode adquirir novos sentidos no decorrer do tempo.

Mas sempre vamos apontar com o dedo, mesmo quando desnecessário.

O patriarca José Arcadio Buendía não confiava na singularidade da palavra dos ciganos, muito embora o cigano Melquíades fosse um homem sábio e de palavra.

O procurador Cléber Eustáquio desconfia da pluralidade de sentidos das palavras de um lexicógrafo, muito embora o lexicógrafo Houaiss fosse um homem de muitas palavras.

Melquíades disse que a formidável lupa vendida ao patriarca dos Buendías não seria eficaz se usada como arma de guerra.

Mas José Arcadio desconfia de suas palavras

Houaiss disse que a formidável lupa de um lexicógrafo não seria eficaz, se ignorada fosse a diversidade de acepções de uma palavra.

E a limpeza de dicionários põe certas acepções sob o tapete.

Cem anos de solidão

O Ministério Público, em pleno século 21, não deveria se indispor contra o registro das diversas acepções de certos vocábulos presentes nos dicionários.

Dicionários não inventam nada, refletem apenas.

O que se pensa e se diz sobre ciganos (e sobre mais de duzentas mil palavras) não está no gibi. Que o diga o Houaiss, nosso maior e melhor dicionário, que não inventou nada.

E olhe que o maior de todos os dicionários não registra mais que um terço das palavras existentes, fabricadas pelo engenho contínuo dos falantes da língua portuguesa.

O polimento politicamente correto contra a “sujeira” dos dicionários é um lixo.

Um dicionário existe para registrar palavras e suas diversas acepções, colhidas não do gênio mais ou menos preconceituoso do dicionarista, mas de sua observação apurada dos variados empregos atribuídos pelos usuários do idioma ao longo do tempo.

Não se trata, portanto, da defesa deste ou daquele emprego, desta ou daquela acepção, mas apenas de seu registro, do registro do emprego observado em cem anos de solidão.

Censurar o dicionário Houaiss pelo registro de acepções politicamente incorretas

1 – é como censurar um compêndio da Medicina que registra a existência (apocalíptica?) de mil e uma bactérias imbatíveis (supervilões da espécie);

2 – é como censurar livros de História por registrar atrocidades praticadas pelos seres humanos (?) desde que o mundo é mundo;

3 – é como tapar o sol com uma peneira;

4 – é como proteger o leitor do conteúdo cortante dos livros, porque eles guardam os segredos e os pecados da terra (obscurantismo).

É pra ficar de quatro

Se um dicionário traz dez acepções de uma palavra, são dez usos observados, e não a defesa ou a prescrição de nenhum deles. Gritai isso, ó pai dos burros.

Cortar o Houaiss da prateleira: burrice ou parricídio?

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Burrice ou parricídio

Por Orlando Nunes em Literatura

14 de Março de 2012

Os dicionários apenas registram palavras, não julgam o emprego dado a elas

“O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos.”
Cem Anos de Solidão – Gabriel García Márquez

Desde a aldeia ficcional de Macondo à aldeia global de nossos dias, as coisas carecem de nome, e cada nome formado pode adquirir novos sentidos no decorrer do tempo.

Mas sempre vamos apontar com o dedo, mesmo quando desnecessário.

O patriarca José Arcadio Buendía não confiava na singularidade da palavra dos ciganos, muito embora o cigano Melquíades fosse um homem sábio e de palavra.

O procurador Cléber Eustáquio desconfia da pluralidade de sentidos das palavras de um lexicógrafo, muito embora o lexicógrafo Houaiss fosse um homem de muitas palavras.

Melquíades disse que a formidável lupa vendida ao patriarca dos Buendías não seria eficaz se usada como arma de guerra.

Mas José Arcadio desconfia de suas palavras

Houaiss disse que a formidável lupa de um lexicógrafo não seria eficaz, se ignorada fosse a diversidade de acepções de uma palavra.

E a limpeza de dicionários põe certas acepções sob o tapete.

Cem anos de solidão

O Ministério Público, em pleno século 21, não deveria se indispor contra o registro das diversas acepções de certos vocábulos presentes nos dicionários.

Dicionários não inventam nada, refletem apenas.

O que se pensa e se diz sobre ciganos (e sobre mais de duzentas mil palavras) não está no gibi. Que o diga o Houaiss, nosso maior e melhor dicionário, que não inventou nada.

E olhe que o maior de todos os dicionários não registra mais que um terço das palavras existentes, fabricadas pelo engenho contínuo dos falantes da língua portuguesa.

O polimento politicamente correto contra a “sujeira” dos dicionários é um lixo.

Um dicionário existe para registrar palavras e suas diversas acepções, colhidas não do gênio mais ou menos preconceituoso do dicionarista, mas de sua observação apurada dos variados empregos atribuídos pelos usuários do idioma ao longo do tempo.

Não se trata, portanto, da defesa deste ou daquele emprego, desta ou daquela acepção, mas apenas de seu registro, do registro do emprego observado em cem anos de solidão.

Censurar o dicionário Houaiss pelo registro de acepções politicamente incorretas

1 – é como censurar um compêndio da Medicina que registra a existência (apocalíptica?) de mil e uma bactérias imbatíveis (supervilões da espécie);

2 – é como censurar livros de História por registrar atrocidades praticadas pelos seres humanos (?) desde que o mundo é mundo;

3 – é como tapar o sol com uma peneira;

4 – é como proteger o leitor do conteúdo cortante dos livros, porque eles guardam os segredos e os pecados da terra (obscurantismo).

É pra ficar de quatro

Se um dicionário traz dez acepções de uma palavra, são dez usos observados, e não a defesa ou a prescrição de nenhum deles. Gritai isso, ó pai dos burros.

Cortar o Houaiss da prateleira: burrice ou parricídio?